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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Laurindo Rabelo: As lágrimas

 
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Lágrimas, lágrimas tristes,
Não deixeis os olhos meus,
Que por vós eternamente,
Aos prazeres disse adeus.

       Para ter indisputáveis
       Direitos ao nosso amor,
       Arranquei-vos da minh’alma,
       Sois filhos, de minha dor.

Minha vida, agreste planta
De desertos areais,
Ao sol das paixões vivendo,
Expira se a não regais.

       Para ter indisputáveis
       Direitos ao nosso amor,
       Arranquei-vos da minh’alma,
       Sois filhos, de minha dor.

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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Laurindo Rabelo: Ciúme e Razão

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I

E perdi-a! e nem mais uma esperança,
Sequer, me alenta nesta dor terrível,
Que hei de, não mudo só, porém me rindo
Devorar em segredo até a morte!

          Suportar um tormento
          Que ao menos em gemidos

Vai-se em parte exalando; a febre, a sede
Do amor e da saudade mitigar-se
Com lágrimas, é bem que só conhece,
Quando o céu lhe recusa, o desgraçado!

E não hei de chorar, chorar não quero,
Não quero, porque as bagas do meu pranto
          Enfeitam a coroa
          Que ele cinge, feliz, nos braços dela!

II

Excede à força humana este martírio;
Mas, louvores ao céu, minha alma sinto
          Resignada e pronta.
Benéfica razão serve de alâmpada*
Das minhas ilusões à sepultura!
Amarga como o fel sempre a verdade
Quando do amor é o erro, mas não cospem-na
Lábios que a ingratidão beijar rejeitam.

III

Sim, hei de consumar o sacrifício;
Nem súplicas, nem queixas há de ouvir-me;
Do Coração no fundo hei de trancá-las
Ao vê-la, ao vê-los, e saudar contente
Do amor de ambas a ventura e os gozos!

Daquele olhar d’arcanjo cujos raios,
          Como punhais de fogo,
Do coração as fibras me laceram,
Hei de fitar a luz sem perturbar-me;
          E morrer impassível,
Quando nos olhos dele minha vida
Em delíquio amoroso depuserem!

IV

Nobre altivez as preces me proíbe,
Assim como a razão proíbe as queixas
Que lhe posso pedir que dar-me possa?
Desejava um amor puro, espontâneo,
Desses que nascem nos segredos d’alma
Que ao simples choque de um olhar acordam
Para não mais dormir. Queria os vôos
Desse amor desvelado, procurando
Dentro em** meu coração fazer um ninho;
Observar em êxtase os milagres
Do proteísmo ser; colhê-lo em rosas
Nas chamas do rubor que acende um beijo
Senti-lo gelo após alguma ausência
          Num susto de saudades,
          E no doce apertar de um longo abraço
No seio me cair, tépida lágrima.
Não me pode dar tanto. Da vontade
Os domínios amor nas asas prende;
Se quando se quisesse amor nascesse,

Quando se não quisesse amor findara!
Inda que a minhas preces comovida,
Dissesse-me tudo que desejo agora,
Faltava em tudo o mel que amor distila
E unicamente amor!...
          Anjo inocente,
Não queixo-me de ti, regem os fados
Das sensações o mundo; aos afetos
O céu a cada um deu seu destino;
O tesouro que guardas no teu seio

          Foi destinado a outrem;
Os desígnios do céu foram cumpridos
E assim tu, sem querer, me deste a morte!...
Grosseiros corações, almas estreitas
Mancham o querubim que os encantara,
Porque as asas lhe nega; generoso,
Inimitável, crescente o meu afeto
Das ânsias no martírio se acrisola;

Por cada golpe que me dás no peito,
Nova chama de amor me acendes n’alma,
Extinta a minha última esperança
No árido deserto em que me arrojas.
Inda busco uma flor para enfeitar-te!
Não, não hei de acusar-te, mesmo quando
Na explosão de meus gelos mais pungentes

Me for a mágoa de te haver perdido.
És a imagem querida do meu êxtase;
Intacta ficarás. Por entre a nuvem
Que o infortúnio lançou-me*** sobre os olhos,
A mesma me será no pensamento,
Benfazeja visão de um sonho eterno!

 

Notas de Antenor Nascentes:
* Alâmpada: Forma clássica protética de lâmpada, empregada na linguagem literária;
** Dentro em: Locução literária, substituída na linguagem corrente por dentro de, exceto nas expressões dentro em brevedentro em pouco;
*** Que o infortúnio lançou-me: Pronome oblíquo enclítico, apesar do relativo. Colocação bem brasileira, admitida por Laurindo e pelos nossos melhores poetas, em época em que a colocação à moda de Portugal ainda não constituía idéia dominante nos escritores.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Laurindo Rabelo: Riso e morte*

 
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Eu vim ao mundo chorando,
Chorar é o meu viver;
Quando eu deixar de chorar,
Estou prestes a morrer.

Quando a alma ao infortúnio
Assim ligado se tem,
Como termo da desgraça
A morte não longe vem.

Quando eu deixar de chorar,
Quando contente me rir,
Não se enganem, desconfiem,
Que não tardo a sucumbir.

Vem, oh! morte, ver meu pranto,
Não receies, podes vir;
Choro nos braços da vida,
Nos teus braços me hei de rir.

Muitas vezes um prazer
Que parece de ventura,
Não é mais que um riso d’alma
Vendo perto a sepultura.

O feliz ri-se da vida
Por ver nela o seu jardim;
O desgraçado, na morte
Por ver da desgraça, o fim.


Nota de Antenor Nascentes: Consta da Coleção A. G. Guimarães, I caderno, pág. 5. Musicada por João Cunha.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Laurindo Rabelo: Angústia

 
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Quando morta a f’licidade*,
A fé expira também!
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros, que alvo têm?

Morta a fé, vai-se a esperança;
Como pois, viver pudera
Saudade que não tem crença,
Saudade que desespera?

Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O cepticismo nos brada,
Foi mentira, engano tudo?

Em nada creio do mundo:
Ludíbrio da desventura,
A felicidade me acena
Só de um ponto a sepultura.

Morreram minhas saudades,
E nem suspiros calados
Dentro d’alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados.


* Nota de Antenor Nascentes: F’licidade: Síncope de cunho muito lusitano, evitada hoje pelos nossos poetas, mas empregada com frequência na época de Laurindo.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; suas obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Laurindo Rabelo: De ti fiquei tão escravo*

 
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De ti fiquei tão escravo
Depois que teus olhos vi,
Que só vivo por teus olhos,
Não posso viver sem ti.

Contemplando o teu semblante
Sinto a vida me escapar.
Num teu olhar perco a vida,
Ressuscito noutro olhar.

       Mas é tão doce
       Morrer assim.
       Lília, não deixes
       De olhar p’ra mim.

Num raio de teus olhares
Minh’alma inteira perdi.
Se tens minh’alma nos olhos,
Não posso viver sem ti.

A qualquer parte que os volvas,
Minh’alma sinto voar,
Inda que livre nas asas,
Presa só no teu olhar.

       Mas é tão doce
       Prisão assim.
       Lília, não deixes
       De olhar p’ra mim.

Que era meu fado ser teu
Ao ver-te reconheci,
Não se muda a lei do fado,
Não posso viver sem ti.

Por não ver inda completa
Minha doce escravidão,
Se me ferem teus olhares,
Choro sobre meu grilhão.

       Mas é tão doce
       Prisão assim.
       Lília, não deixes
       De olhar p’ra mim.


* Nota de Antenor Nascentes: Consta da coleção de A. G. Guimarães, I caderno, pág.35.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro — RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Laurindo Rabelo: Para do mundo dar completo cabo . . . [soneto]

 
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Para do mundo dar completo cabo,
Lá do negro recinto o soberano
Meditava a forjar horrível plano
Coçando a grenha, sacudindo o rabo.

Merecedor enfim de imenso gabo,
Eis o que assim disse muito ufano:
Para a missão cumprir digesto humano
Quero fazer que nasça hoje um diabo.

E o 23 de maio nisso raia...
Teotônio nasceu, e a fama soa
Jamais ter visto infame dessa laia.

Pois para Satã ser mesmo em pessoa,
Traja, qual bruxa velha, negra saia,
Como o rei dos bandalhos tem coroa *.


Nota de Antenor Nascentes: Feito quando o poeta era ainda seminarista; ataca um sacerdote não identificado.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 17 de julho de 2021

Laurindo Rabelo: Último canto do cisne*

 
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Quando eu morrer, não chorem minha morte,
Entreguem o meu corpo à sepultura;
Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha
Os andrajos que deu-me1 a desventura.

Não mintam ao sepulcro apresentando
Um rico funeral de aspecto nobre:
Como agora a zombar me dizem vivo,
Digam-me também morto aí vai um pobre!

De amigos hipócritas não quero
Públicas provas de afeição fingida;
Deixem-me morto só, como deixaram-me2
Lutar contra a má sorte toda a vida.

Outros prantos não quero, que não sejam
Esse pranto de fel amargurado
De minha companheira de infortúnios,
Que me adora apesar de desgraçado.

O pranto, açucena de minh’alma,
Do coração sincero, d’alma sã,
De um anjo que também sente meus males,
De uma virgem que adoro como irmã.

Tenho um jovem amigo, também quero
Que junte em minha Essa os prantos seus
Aos de um pobre ancião que perfilhou-me3
Quando a filha entregou-me4 aos pés de Deus.

Dos meus todos eu sei que terei preces,
Saudades, lágrimas também;
Que não tenho a lembrança de ofendê-los
E sei quanta amizade eles me têm.

E tranqüilo, meu Deus, a vós me entrego,
Pecador de mil culpas carregado:
Mas os prantos dos meus perdão vos pedem,
E o muito que também tenho chorado.


Notas de Antenor Nascentes:
* Eis como Joaquim Norberto, um dos biógrafos de Laurindo, descreve a gênese desta poesia:
Pálido e triste despontou para ele o dia 28 de setembro de 1864. Sentia a mão da morte gelar-lhe o coração. Pediu papel e escreveu o Último canto do cisne. Leu depois em voz entrecortada de soluços os sentidos quartetos que traçara. A esposa, que lhe sustinha a cabeça entre as mãos, desfazia-se em pranto.
Em discurso pronunciado na Academia quando esta comemorou em 8 de julho de 1926 o centenário do nascimento de Laurindo, disse Constâncio Alves:
Aqueles versos (o último canto), escrito à hora da morte, estão em música e choram com eles os violões”. (“Revista da Academia Brasileira de Letras”, LX. 254).
Com efeito, A. J. S. Monteiro escreveu música para eles;
  1. Que deu-me: Pronome oblíquo enclítico, apesar do relativo. Colocação bem brasileira, admitida por Laurindo e pelos nossos melhores poetas, em época em que a colocação à moda de Portugal ainda não constituía ideia dominante nos escritores;
  2. Como deixaram-me: Ver nota 1;
  3. Que perfilhou-me: Ver nota 1;
  4. Quando, ... entregou-me.: Ver nota 1.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Laurindo Rabelo: Aos anos de um respeitável ancião

 
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I

Já seca pende morta essa grinalda
          Que outrora me adornou!
Da inspiração a luz que me animava
          De todo se apagou!...

Os astros de luz tão bela
          Estão sem claridade;
Apagaram-se todos, mal ergueu-se
          O astro da verdade

Fui livre quando, louco! no infinito
          Voava da demência;
A razão cativou minh’alma presa
          Nos ferros da evidência.

Fecharam-se os jardins da fantasia,
           Nem há mais uma flor!
Domina-me a razão como ser livre,
           Sendo de mim senhor?

Se, conhecendo o mundo limitado
          Perante os meus projetos,
Os vôos enfreei do entusiasmo,
          Prendi os meus afetos?

Minh’alma nos limites circunscrita
          Da franca humanidade,
Abandonou a posse do infinito
          Perdeu a liberdade.

          A lanterna da exp’riência*
          Com seu escasso clarão
          Não pode mostrar imagens
          Do mundo da inspiração.

          A verdade deste mundo
          Seca, morta, sem fulgor,
          Não deixa medrar as flores
          Da palma do trovador.

          A pobre realidade
          Que o mundo inteiro respira:
          O trovador não encontra
          Nas notas da sua lira.

          Das verdades deste mundo
          A misérrima visão
          Adormece, mata, extingue
          O fogo da inspiração.

Mas, assim como a lâmpada que exala
A vida no seu último lampejo,
O meu último canto hoje dar quero
À glória dos teus anos. Sim, um hino,
Um hino de amizade, extremas notas
Sejam da lira que, jamais manchada
De infame adulação, só dedicou-se
À virtude, ao amor, aos bons amigos
          E à pátria, que a despreza!...

II

Mais um ano hoje contas, mais um dia
Desses que valem anos te é marcado.
Vês em redor de ti os teus, contente,
Vês um grupo de amigos a teu lado.

Contente a verde prole nos teus braços
Em transporte de amor hoje se lança;
Na mãe dos filhos teus vês a bondade,
E vês em cada filho uma esperança.

Filhos! não iludis os seus desejos,
Não deis às esperanças desenganos;
Vosso pai já velou nos anos vossos,
Compete-vos velar sobre seus anos.

Vede, os anos passaram-lhe na fronte
Sem lhe deixar um sulco de desgosto;
Respeitai o que os tempos respeitaram,
Não aumenteis as rugas do seu rosto.

Começa o ancião a encanecer-se**,
E já lhe vejo as têmporas nevadas;
Ah! mais do que a ninguém, incumbe aos filhos
Conservar de seu pai as cãs honradas.

Um pai não vive em si, nos filhos vive,
Mal sentem estes os vitais lampejos,
Todo o bem, que é só seu, o pai esquece,
O bem dos filhos seus são seus desejos.

Dá-lhe Deus a ciência do futuro
Ganhada dos trabalhos pelo trilho,
Quando do amor paterno iluminado
O pai sempre conhece o bem do filho.

Amortalha, portanto, o seu futuro,
Cair no precipício certo vai
O filho que o amor paterno esquece,
Desprezando um conselho de seu pai.

Filhos, beijai a destra deste velho,
É a bênção de Deus nela encarnada:
Ele vos deu segura mocidade,
Dai-lhe também velhice afortunada.


Notas de Antenor Nascentes:
* Exp’riência: Síncope de cunho muito lusitano, evitada hoje pelos nossos poetas, mas empregada com frequência na época de Laurindo;
** Encanecer-se: Pronominal.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 30 de maio de 2021

Laurindo Rabelo: O jornaleiro

 
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                É igual a ti mesmo, a ti somente
                               (Do poema “O Ganhador”)

Quando ousado o poeta a voz levanta,
Em punho tendo o látego da sátira,
P’ra castigar hipócritas malvados,
É a voz da verdade a voz que soa!

Desmascarar falsários intrigantes,
O vício espezinhar, punir tartufos,
Velhacos suplantar, caluniadores,
São atos que de austera probidade
Louvor sincero e atenção merecem.
Armado pois, de um retorcido relho,
A um negro covil talvez o inferno
Por um forte cabresto bem seguro,
Eu vou buscar um torpe Jornaleiro,
Que entre sujos papéis escrevinhados
(Que só p’ra guardanapo têm valia)
Sentado em tamborete junto à banca,
Tendo nas garras de algum corvo a pena,
Baldões, insultos contra a honra atira!
Trazer pretendo o ganhador escriba
Qual jumento manhoso à praça pública
E expô-lo às apuradas dos moleques,
Por quem apedrejado ser devia...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Quem não conhecerá o Miguelista,
Escória dos sandeus de quem eu falo?!...
Chicanista imoral, doutor em nada,
Insosso prosador alto pedante
Que estudar foi na estranja patacoadas
Para dizer-se aqui homem de letras?
Quem não conhecerá o sábio lente,
Que num certo colégio desta Corte
Ciência geográfica ensinava?
Quem não conhecerá o que na escola,
Onde quer se instruir jovem guerreiro,
Explicando o direito ensina o torto?!...
O homem que insultava adversários,
Alcunhando-os heróis das “vacas gordas”,

E que agora sedento a grossa teta
Bem agarrado, chupitar procura?!
Homens raros assim todos conhecem!...

Eu não preciso retratá-lo ao vivo,
Descrever-lhe o carão, onde grudados
Nos olhos tem pedaços de vidraça,
O corpo infame, o bojo monstruoso,
Qual um balão de fedorentos gases;
E mostrar o letreiro que na fronte
Em letras garrafais diz “Ganhador”!
Todos bem sabem de que peça falo:
O trabalho me tira a grande fama
Que por falso, impudente tem ganhado.

Sim, ó grão1 Redator (a ti me volvo)
Ao público amador quero mostrar-te,
P’ra que faça a justiça que mereces...
És qual tarpéia rocha inabalável
Em teu princípio firme-o da calúnia
És herói dos heróis, quando se trata
De vis aduladores intrigantes!
Um singular portento és na mentira!
Tu és grande! és enorme!! porque arrumas
Patadas, couces mil, no mundo inteiro!!
A natureza pasma ao contemplar-te,
Julgando que não és uma obra sua!
Embasbaca-se o gênio das trapaças
Vendo brilhar o teu saber ingente!
Té o demo de gosto pinoteia,
E berrando que tu, seu protegido,
Que és glória sua comunica à terra!...
E no entanto ninguém teu pai se julga!...

Nem o podem dizer, porque não sabem...
Quem te acendeu nos cascos esses fogos
Que tudo abrasam, sem queimar-te a bola?

Quem és pois? de onde vens? P’ra onde te atiras?!...
És abutre que mágica do Averno
Em homem transformou p’ra da calúnia
O instrumento ser aqui na terra?
És do zoilo invejoso a alma errante,
Ou um sopro de negra, imunda harpia?
Onde encontraste o ser? a origem tua?...
Vieste por acaso do planeta
Que Vulcano por lei dizem chamar-se?
Onde fixaste o norte de teu rumo,
Ó ente singular, teu paradeiro?
Para onde irás tu, quando partires
Deste imenso teatro em que tens feito
O papel mais infame que se pode?!
Abutre, harpia ou sopro, ou quer que sejas2,
És igual a ti mesmo, a ti somente!
Cansa-se a pena a enumerar teus feitos!
Envergonha-se aquele que o censura,
Olhando para ti, vendo que és homem,
Na figura somente... em nada mais!...

Imortal, Redator do papelucho
A quem um respeitável nome deste
(Sim que o nome da Pátria, para o probo,
Que não p’ra ti, é nome respeitável),
É tempo de voltar ao antro escuro,
Ou p’ra o lugar ignoro donde hás vindo!
Já muito por aqui de mal tens feito...
As cinzas venerandas revolveste

De um dos heróis da “Independência” nossa!...
Tua missão cumpriu-se!... é tempo, volta...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Era minha intenção trazer-te à praça;
Mas desisto da empresa!... A puros homens
É um crime mostrar torpes figuras,
Negros quadros, que infâmias representam!
Vai-te! foge daqui! do vate a destra
Só cordas vibra de doiradas liras:

Se indignado empunha o forte relho
Para surrar hipócritas malvados,
Envergonha-se logo do que há feito!
É nobre o fim p’ra que o Poeta nasce;
E não para amansar bestas bravias
Ou corrigir sicários sevandijas!...


Notas de Antenor Nascentes:
  1. Grão: A forma apocopada de grande hoje só aparece em substantivos compostos;
  2. Quer que seja: Haplologia da expressão o que quer que seja, determinada por motivos estéticos. Há muito que.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; suas obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.