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É
igual a ti mesmo, a ti somente
(Do
poema “O Ganhador”)
Quando ousado o poeta a voz
levanta,
Em punho tendo o látego da sátira,
P’ra castigar hipócritas malvados,
É a voz da verdade a voz que soa!
Desmascarar falsários intrigantes,
O vício espezinhar, punir tartufos,
Velhacos suplantar, caluniadores,
São atos que de austera probidade
Louvor sincero e atenção merecem.
Armado pois, de um retorcido relho,
A um negro covil — talvez o inferno
—
Por um forte cabresto bem seguro,
Eu vou buscar um torpe Jornaleiro,
Que entre sujos papéis
escrevinhados
(Que só p’ra guardanapo têm valia)
Sentado em tamborete junto à banca,
Tendo nas garras de algum corvo a
pena,
Baldões, insultos contra a honra
atira!
Trazer pretendo o ganhador escriba
Qual jumento manhoso à praça
pública
E expô-lo às apuradas dos moleques,
Por quem apedrejado ser devia...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quem não conhecerá o Miguelista,
Escória dos sandeus de quem eu
falo?!...
Chicanista imoral, doutor em nada,
Insosso prosador — alto pedante —
Que estudar foi na estranja —
patacoadas
Para dizer-se aqui homem de letras?
Quem não conhecerá o sábio lente,
Que num certo colégio desta Corte
Ciência geográfica ensinava?
Quem não conhecerá — o que na
escola,
Onde quer se instruir jovem
guerreiro,
Explicando o direito ensina o
torto?!...
O homem que insultava adversários,
Alcunhando-os heróis das “vacas
gordas”,
E que agora sedento — a grossa teta
Bem agarrado, chupitar procura?!
Homens raros assim todos
conhecem!...
Eu não preciso retratá-lo ao vivo,
Descrever-lhe o carão, onde
grudados
— Nos olhos — tem pedaços de
vidraça,
O corpo infame, o bojo monstruoso,
Qual um balão de fedorentos gases;
E mostrar o letreiro que na fronte
— Em letras garrafais — diz
“Ganhador”!
Todos bem sabem de que peça falo:
O trabalho me tira a grande fama
Que por falso, impudente tem
ganhado.
Sim, ó grão1 Redator
(a ti me volvo)
Ao público amador — quero
mostrar-te,
P’ra que faça a justiça que
mereces...
És qual tarpéia rocha inabalável
Em teu princípio firme-o da calúnia
—
És herói dos heróis, quando se
trata
De vis aduladores intrigantes!
Um singular portento és na mentira!
Tu és grande! és enorme!! porque
arrumas
Patadas, couces mil, no mundo
inteiro!!
A natureza pasma ao contemplar-te,
Julgando que não és uma obra sua!
Embasbaca-se o gênio das trapaças
Vendo brilhar o teu saber ingente!
Té o demo — de gosto — pinoteia,
— E berrando que tu, seu protegido,
Que és glória sua comunica à
terra!...
E no entanto ninguém teu pai se
julga!...
Nem o podem dizer, porque não
sabem...
Quem te acendeu nos cascos esses
fogos
Que tudo abrasam, sem queimar-te a
bola?
Quem és pois? de onde vens? P’ra
onde te atiras?!...
És abutre — que mágica do Averno —
Em homem transformou p’ra da
calúnia
O instrumento ser aqui na terra?
És do zoilo invejoso a alma
errante,
Ou um sopro de negra, imunda
harpia?
Onde encontraste o ser? a origem
tua?...
Vieste por acaso do planeta
Que Vulcano por lei dizem
chamar-se?
Onde fixaste o norte de teu rumo,
Ó ente singular, teu paradeiro?
Para onde irás tu, quando partires
Deste imenso teatro em que tens
feito
O papel mais infame que se pode?!
Abutre, harpia ou sopro, ou quer
que sejas2,
— És igual a ti mesmo, a ti
somente! —
Cansa-se a pena a enumerar teus
feitos!
Envergonha-se aquele que o censura,
Olhando para ti, vendo que és
homem,
Na figura somente... em nada
mais!...
Imortal, Redator do papelucho
A quem um respeitável nome deste
(Sim que o nome da Pátria, para o
probo,
Que não p’ra ti, é nome respeitável),
É tempo de voltar ao antro escuro,
Ou p’ra o lugar — ignoro donde hás
vindo!
Já muito por aqui de mal tens
feito...
As cinzas venerandas revolveste
De um dos heróis da “Independência”
nossa!...
Tua missão cumpriu-se!... é tempo,
volta...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Era minha intenção trazer-te à
praça;
Mas desisto da empresa!... A puros
homens
É um crime mostrar torpes figuras,
Negros quadros, que infâmias
representam!
Vai-te! foge daqui! do vate a
destra
Só cordas vibra de doiradas liras:
Se indignado empunha o forte relho
Para surrar hipócritas malvados,
Envergonha-se logo do que há feito!
É nobre o fim p’ra que o Poeta
nasce;
E não para amansar bestas bravias
Ou corrigir sicários sevandijas!...
Notas de Antenor Nascentes:
- Grão:
A forma apocopada de grande hoje só aparece em substantivos compostos;
- Quer
que seja: Haplologia da expressão o que quer que
seja, determinada por motivos estéticos. Há muito que.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo
Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular
Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação
e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 — 1864), nascido
no Rio de Janeiro — RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a
carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio
e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também
abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também
poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário;
teve textos publicados na Marmota Fluminense; suas obras: Trovas (1853), Tese
apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856),
Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de
Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas
regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882);
Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26
da Academia Brasileira de Letras.