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Aqui, um dia, neste quarto,
Estava eu a ruminar,
Mas como um ruminante farto,
O tédio amargo, o atroz pesar…
O vento fora pela noite,
Demônio que blasfema em vão,
Cortava rijo como o açoite,
Uivava como um cão.
Eu meditava quanto a vida
Me foi cruel, me foi cruel:
Supus que fosse uma bebida
Doce, mas foi veneno e fel!
E, sobretudo, que ato breve
Dessa tragédia para rir…
Quando de leve, pois, de leve,
Senti a porta se entreabrir…
O quarto todo iluminou-se,
Mas de uma claridade tal,
Como se fosse dia, e fosse
Dia de festa nupcial.
E um vulto, bem como um segredo,
Mais belo do que uma mulher,
Sorriu-me assim: “Não tenhas medo,
Eu sou o arcanjo Lucifer.
Trêmulo de um pavor covarde,
Fugiste-me sempre, porém
Sabia eu que, cedo ou tarde,
Serias meu, de mais ninguém.
Que, ó meu querido, e pobre
artista,
Todo a fazer teu próprio mel,
Tu sempre foste um diabolista,
Um anjo mau, anjo revel.
Ora, fugiu-te a primavera,
E os derradeiros sonhos teus:
O céu, a mais banal quimera,
Teu próprio Deus, teu próprio
Deus.
A sorte, mesmo, a prostituta,
Inda mais nua que Lais,
Funambulesco ser, escuta,
Quis todo o mundo; e a ti não
quis.
O seio abriu, que tanto exala,
Ao proxeneta, e ao ladrão;
A ti, porém, indo beijá-la,
A fêmea torpe riu-se: não!
Teu coração, alma ansiada,
Teu coração, como um Romeu,
De tanto se bater por nada,
Não sei como inda não morreu.
Teu coração, um cata-vento,
De cá pra lá sempre a bater,
Só encontrou o enervamento,
E a máscara do falso prazer.
As damas, bem como um cavalo,
Sobre esse coração d’abril,
Passaram, quase sem olhá-lo,
Nem abraçá-lo, poeta sutil.
Ninguém te amou, nem pôde amar-te,
Nem te entendeu, ser infeliz,
Mas eu, ó triste lírio d’arte,
Sempre te amei, sempre te quis.
O teu furor pela beleza,
Indiferente ao bem e ao mal,
Desoladora guerra acesa,
E, sobretudo, ódio infernal;
A tua esfaimação de oiro,
A sede de subir, subir,
Além daquele sorvedoiro
D’astros e pérolas d’Ofir;
O orgulho teu, furioso grito,
Luxuriosamente cruel,
Crescendo para o infinito,
Como uma torre de Babel.
Orgulho infindo, orgulho santo,
E diabólico, bem sei,
Que tanto horror tem feito, tanto,
Ah! Eu somente o escutei.
E disse: aquele é meu, aquelas
Mágoas cruéis são minhas, eu
Vou levantá-lo até as estrelas,
Até a luz, até o céu…
Vou lhe mostrar reinos de opalas,
Tantas cidades ideais,
Que há de querer talvez contá-las,
Sem as poder contar jamais.
Vou lhe mostrar torres tão
grandes,
Torres de ouro e de marfim,
Cem vezes mais altas que os Andes,
Tantas, tantas que não têm fim.
E toda a glória minha, toda,
A ele, cuja imaginação
Inda é mais rica e inda é mais
douda
Do que a do próprio Salomão.
Vendo-o descer a encosta rude
Dos anos maus, o elixir
Eu lhe darei da juventude,
Que o faça rir, que o faça rir…
Que é só bebê-lo, e embora
exausto,
Embora quase morto já,
O triste e magro doutor Fausto
Reflorirá, reflorirá!
E há de subir comigo, um dia,
Há de subir comigo, a pé,
Por essa longa escadaria,
Que sobem só os que têm fé.
E eu, o flagelo, eu, o açoite,
Eu, o morcego, o diabo, cruz!
Estranho príncipe da noite,
Hei de inundá-lo só de luz!
Hei de lhe dar uma tão rara
Virtude, que baste ele olhar,
Basta querer somente, para
Que o vento acalme e a voz do mar.
E hei de fazê-lo de tal modo,
De tal fluidez, que ele por fim,
O ser humano, o limo, o lodo,
Se torne bem igual a mim.
E tudo só para ofuscá-lo,
Para encantá-lo, tenho, e lhe dou:
A minha espada e o meu cavalo,
A minha glória… E aqui estou.”
Olhei. Brilhava-lhe na fronte
A estrela d’oiro da manhã,
Como num límpido horizonte:
— Eu serei teu irmão, Satã!
(1907)
*Nota do Organizador: Esse hino, pretensamente satanista, apresenta-se numa situação análoga à de "O Corvo", de Poe. Alarga-se, porém, logo, e, numa intensidade expressional, tem ali fórmulas de excepcional força impressiva: "O teu furor pela beleza (que se tornou legendária, e como num signo distintivo da sua poesia); "A tua esfaimação de oiro". "O orgulho teu, furioso grito, / Luxuriosamente cruel", sinestesia de concretizada abstração, metáfora sonoro-dinâmica. "Lucifer" está ali oxítona, à boa maneira brasileira.
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Emiliano Perneta — poesia, Coleção Nossos
Clássicos — Volume 43, Organização,
Apresentação e Notas de Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu
Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, segunda edição, 1966, Livraria Agir
Editora, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866 — 1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta,
professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito
de São Paulo (atual USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em
revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa
poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de
Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista,
dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta
de São Paulo entre outros periódicos.