quinta-feira, 31 de julho de 2014

José Lino Grünewald: poesia concreta (soneto)

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p   o   e   s   i   a       s   ó        e   s   p   a   ç   o

p   o   e   s   i   a       e   m       t    e   m  p   o   s

p   o   e   s   i   a       s   ó        p   á   g   i    n   a

p   o   e   s   i   a       e   m       r    i    t   m   o   s

p   o   e   s   i   a       s   ó        i    m  a   g   e   m

p   o   e   s   i   a       e   m       f    o   r   m   a   s

p   o   e   s   i   a       s   ó        s   í    l    a    b   a

p   o   e   s   i   a       e   m       f    r   a    s    e   s



p   o   e   s   i   a            p   a   l    a   v   r    a    s

p   o   e   s   i   a            e   s   t    é   t    i    c    a 

p   o   e   s   i   a            i    n   v   e   n   ç   ã    o

p   o   e   s   i   a            c   o   n   c   r    e   t     a 



q   u   a   t   o   r   z   e             l    e   t    r   a    s

q   u   a   t   o   r   z   e             l    i    n   h  a    s


Escreviver (1987)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, primeira edição, 2007, Editora Global, São Paulo — SP; José Lino Fabião Grünewald (1931 2000), nascido no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, crítico de cinema, tradutor, jornalista e advogado; participou da revista literária Noigandres, divulgadora do movimento literário concretista no país, na década de 50; obra poética: Um e dois (1958) e Escreviver (1987); antologias organizadas: Grandes sonetos da nossa língua (1987), Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX  tradução, edição bilíngüe, 1988), Os poetas da Inconfidência (1989), Poetas Franceses do Século XIX (tradução, edição bilíngüe, 1991), Pedras de toque da poesia brasileira (1996) e outros títulos; ensaio: Um filme é um filme: o cinema de vanguarda dos anos 60 (2001) etc.; colaborou com críticas de cinema, literárias e de música nos jornais Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Última Hora, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Folha de São Paulo; traduziu textos de Mallarmé, Merleau-Ponty, Walter Benjamin, Ezra Pound e outros.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

José Chagas: Lavoura azul

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Trabalho nuvens como quem trabalha
o chão que é seu, mas eu não tenho chão.
Cultivador da natureza falha,
planto no azul o que de azul me dão.

Sobre o campo de nuvens cresce a palha
de sonho e cobre a minha solidão.
E esse abrigo de sonhos me agasalha
contra os falsos azuis que vêm e vão.

Minha roça no ar produz estrelas,
mas eu não tenho mãos para colhê-las,
nesta safra de azul que é nova e antiga.

Sou lavrador do quanto não se lavra
e é preciso que eu ceife na palavra
o maduro do azul e a sua espiga. 

                 Lavoura azul, 1974

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, primeira edição, 2007, Editora Global, São Paulo — SP; José Francisco das Chagas (1924  2014), paraibano de Piancó, foi poeta, escritor, cronista e jornalista; escreveu e publicou Canção da expectativa (1955), O discurso da ponte (1959), Pedra de Assunto (crônicas, 1961), Os telhados (1965), Maré-memória (1973), Lavoura azul (1974), Colégio do vento (1974), Maré de moça (1977), Pão e água (1978), Os canhões do silêncio (1979), A arcada do tempo (1982), Cem anos de infância ou o poeta e o rio (1985), entre outros títulos; teve alguns de seus poemas musicados por cantores da MPB Chico César, Ednardo, Zeca Baleiro, Fagner e outros, no CD A Palavra Acesa de José Chagas (2013).

terça-feira, 29 de julho de 2014

Hilda Hilst: Aflição de ser eu e não ser outra. (Soneto)

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I
Aflição de ser terra
Em meio às águas
PÉRICLES E. DA SILVA RAMOS

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar... se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

(Roteiro do Silêncio, 1959 —
 Sonetos que não são — I)

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Exercícios  Hilda Hilst, organizado por Alcir Pécora, 2002, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Raimundo Correia: Luiz Gama *

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À Raul Pompéia **

Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;

Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...

Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.

Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!

(Sinfonias, 1883)


Nota do Editor:
* Luiz Gama — jornalista e poeta satírico brasileiro (1830  1882). Filho de português e de escrava, chegou a ser vendido como escravo. Após obter a sua libertação, tornou-se abolicionista militante.
** Raul Pompéia — ficcionista brasileiro (1863  1895), filiado ao Naturalismo e cuja obra mais famosa é o romance O Ateneu.
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Antologia de Poesia Brasileira  Realismo e Parnasianismo, Organização de Benjamin Abdala Junior, 1985, Editora Ática, São Paulo — SP; Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859 1911), maranhense nascido nas costas litorâneas do Maranhão (em um navio ali ancorado), formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual Direito USP), foi juiz e poeta; escreveu e publicou Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898); em sua carreira poética foi influenciado fortemente pelos românticos Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves e, a partir de 1883, com a edição de Sinfonias, assumiu o parnasianismo e passou a formar, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, a literariamente cultuada "Tríade Parnasiana"; morreu em Paris, para onde fora tratar da saúde.

domingo, 27 de julho de 2014

Castro Alves: Último Fantasma

 
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(OS ANJOS DA MEIA-NOITE
 FOTOGRAFIAS — 8a. SOMBRA)

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor, a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? — És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!

(Santa Isabel, agosto de 1870.)

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Castro Alves — Obra Completa , Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, Quinta Edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

sábado, 26 de julho de 2014

Núbia N. Marques: Valor

Não importa
desespero do nada
não importa
frio silêncio entre nós
não importa
lágrima insuspeita
não importa
eclipse da jornada

Importa sim
a deserção da vida
para segui-lo
o pouso num trapézio
que oscila entre a infância
a geometria
o medo.



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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo — SP (Prêmio Pedro Calazans Prefeitura Municipal de Aracaju 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta, escritora e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; escreveu e publicou Um Ponto Duas Divergentes, poesia (1959), João Ribeiro, o Poeta — ensaio (1960), Dimensões Poéticas, poesia (1961), Sinuosas Em Carne e Osso, crônicas (1962), Baladas do Inútil Silêncio, poesia (em parceria com Giselda Morais e Carmelita Pinto Fontes, 1964), Berço de Angústia, romance (1967), Máquinas e Lírios, poesia (1971), Geometria do Abandono, poesia (1975) entre outros títulos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Emiliano Perneta: Quadras

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À memória do Albino Silva

Eu de certo não sei, se venho d'um gorila,
Ou se venho talvez do paraíso terreal...
Em todo caso pó, e quando muito argila...
Achei-me um dia aqui; quem sabe por meu mal!

Eu não sei d'onde vim; mas viesse d'onde viesse,
Da poeira ou da luz, do gorila ou de Adão,
Toda a minha ânsia é de subir como uma prece,
Toda a minha ânsia é de brilhar como um clarão.

Para onde vou? Não sei. Qual é o meu destino?
Também não sei. Porém desejo caminhar
Por essa estrada além, bem como um peregrino,
E o meu instinto é como um pássaro a voar!...

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Ilusão e Outros Poemas  Emiliano Perneta, edição comemorativa do centenário, Organização de Tasso da Silveira  Introdução, Cronologia, Bibliografia e Fontes para Estudo por Andrade Muricy, 1966, Edições GRD, Rio de Janeiro  RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Álvares de Azevedo: Passei ontem a noite junto dela. (Soneto)

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Passei ontem a noite junto dela. 
Do camarote a divisão se erguia 
Apenas entre nós  e eu vivia 
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela 
Naqueles olhos negros! Só a via! 
Música mais do céu, mais harmonia 
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando! 
Nos lábios que sorriso feiticeiro! 
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro 
É sentir todo o seio palpitando... 
Cheio de amores! E dormir solteiro!

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Antologia da Literatura Mundial — Antologia de Poetas Brasileiros, Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, Quarta edição, 1961, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 — 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP — Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras  (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Olavo Bilac: O Pássaro Cativo

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Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
        Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
       O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
        Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

         "Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

        Da selva em que nasci;
        Da mata entre os verdores,
        Tenho frutos e flores
        Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
       Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas no arrebol!
       Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
       Quero voar! Voar!"

Estas cousas o pássaro diria,
       Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
       Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
       A porta da prisão...

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Antologia da Literatura Mundial — Antologia de Poetas Brasileiros, Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, Quarta edição, 1961, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865  1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Núbia N. Marques: Trevas

Que angústia é esta
sem pouso nem regaço
Que medo é este
que alarma as primeiras horas da manhã
Que dor é esta
que traz no seu desatino os nati-mortos do amor.

Flores espalham-se entre assombros
A espada é mais que o lírio
A mentira, verdade de todos
Árvores despidas,
mendigas do carinho
plantadas no chão das madrugadas
morrendo antes da primavera

Que homens são estes
que têm na mão o estigma da morte
antes do milagre da vida
Que agonia é esta
assanhada por ventos perplexos
Que desengano é este
que arrasta consigo as trevas da voz paridas pelo caos

É a noite poeta
É a morte sem termo
o desespero o terror.

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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo — SP (Prêmio Pedro Calazans Prefeitura Municipal de Aracaju 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta, escritora e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; escreveu e publicou Um Ponto Duas Divergentes, poesia (1959), João Ribeiro, o Poeta — ensaio (1960), Dimensões Poéticas, poesia (1961), Sinuosas Em Carne e Osso, crônicas (1962), Baladas do Inútil Silêncio, poesia (em parceria com Giselda Morais e Carmelita Pinto Fontes, 1964), Berço de Angústia, romance (1967), Máquinas e Lírios, poesia (1971), Geometria do Abandono, poesia (1975) entre outros títulos.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Emiliano Perneta: Canção do Diabo *

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Aqui, um dia, neste quarto,
Estava eu a ruminar,
Mas como um ruminante farto,
O tédio amargo, o atroz pesar…

O vento fora pela noite,
Demônio que blasfema em vão,
Cortava rijo como o açoite,
Uivava como um cão.

Eu meditava quanto a vida
Me foi cruel, me foi cruel:
Supus que fosse uma bebida
Doce, mas foi veneno e fel!

E, sobretudo, que ato breve
Dessa tragédia para rir…
Quando de leve, pois, de leve,
Senti a porta se entreabrir…

O quarto todo iluminou-se,
Mas de uma claridade tal,
Como se fosse dia, e fosse
Dia de festa nupcial.

E um vulto, bem como um segredo,
Mais belo do que uma mulher,
Sorriu-me assim: “Não tenhas medo,
Eu sou o arcanjo Lucifer.

Trêmulo de um pavor covarde,
Fugiste-me sempre, porém
Sabia eu que, cedo ou tarde,
Serias meu, de mais ninguém.

Que, ó meu querido, e pobre artista,
Todo a fazer teu próprio mel,
Tu sempre foste um diabolista,
Um anjo mau, anjo revel.

Ora, fugiu-te a primavera,
E os derradeiros sonhos teus:
O céu, a mais banal quimera,
Teu próprio Deus, teu próprio Deus.

A sorte, mesmo, a prostituta,
Inda mais nua que Lais,
Funambulesco ser, escuta,
Quis todo o mundo; e a ti não quis.

O seio abriu, que tanto exala,
Ao proxeneta, e ao ladrão;
A ti, porém, indo beijá-la,
A fêmea torpe riu-se: não!

Teu coração, alma ansiada,
Teu coração, como um Romeu,
De tanto se bater por nada,
Não sei como inda não morreu.

Teu coração, um cata-vento,
De cá pra lá sempre a bater,
Só encontrou o enervamento,
E a máscara do falso prazer.

As damas, bem como um cavalo,
Sobre esse coração d’abril,
Passaram, quase sem olhá-lo,
Nem abraçá-lo, poeta sutil.

Ninguém te amou, nem pôde amar-te,
Nem te entendeu, ser infeliz,
Mas eu, ó triste lírio d’arte,
Sempre te amei, sempre te quis.

O teu furor pela beleza,
Indiferente ao bem e ao mal,
Desoladora guerra acesa,
E, sobretudo, ódio infernal;

A tua esfaimação de oiro,
A sede de subir, subir,
Além daquele sorvedoiro
D’astros e pérolas d’Ofir;

O orgulho teu, furioso grito,
Luxuriosamente cruel,
Crescendo para o infinito,
Como uma torre de Babel.

Orgulho infindo, orgulho santo,
E diabólico, bem sei,
Que tanto horror tem feito, tanto,
Ah! Eu somente o escutei.

E disse: aquele é meu, aquelas
Mágoas cruéis são minhas, eu
Vou levantá-lo até as estrelas,
Até a luz, até o céu…

Vou lhe mostrar reinos de opalas,
Tantas cidades ideais,
Que há de querer talvez contá-las,
Sem as poder contar jamais.

Vou lhe mostrar torres tão grandes,
Torres de ouro e de marfim,
Cem vezes mais altas que os Andes,
Tantas, tantas que não têm fim.

E toda a glória minha, toda,
A ele, cuja imaginação
Inda é mais rica e inda é mais douda
Do que a do próprio Salomão.

Vendo-o descer a encosta rude
Dos anos maus, o elixir
Eu lhe darei da juventude,
Que o faça rir, que o faça rir…

Que é só bebê-lo, e embora exausto,
Embora quase morto já,
O triste e magro doutor Fausto
Reflorirá, reflorirá!

E há de subir comigo, um dia,
Há de subir comigo, a pé,
Por essa longa escadaria,
Que sobem só os que têm fé.

E eu, o flagelo, eu, o açoite,
Eu, o morcego, o diabo, cruz!
Estranho príncipe da noite,
Hei de inundá-lo só de luz!

Hei de lhe dar uma tão rara
Virtude, que baste ele olhar,
Basta querer somente, para
Que o vento acalme e a voz do mar.

E hei de fazê-lo de tal modo,
De tal fluidez, que ele por fim,
O ser humano, o limo, o lodo,
Se torne bem igual a mim.

E tudo só para ofuscá-lo,
Para encantá-lo, tenho, e lhe dou:
A minha espada e o meu cavalo,
A minha glória… E aqui estou.”

Olhei. Brilhava-lhe na fronte
A estrela d’oiro da manhã,
Como num límpido horizonte:
— Eu serei teu irmão, Satã!
(1907)


*Nota do Organizador: Esse hino, pretensamente satanista, apresenta-se numa situação análoga à de "O Corvo", de Poe. Alarga-se, porém, logo, e, numa intensidade expressional, tem ali fórmulas de excepcional força impressiva: "O teu furor pela beleza (que se tornou legendária, e como num signo distintivo da sua poesia); "A tua esfaimação de oiro". "O orgulho teu, furioso grito, / Luxuriosamente cruel", sinestesia de concretizada abstração, metáfora sonoro-dinâmica. "Lucifer" está ali oxítona, à boa maneira brasileira.
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Emiliano Perneta — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 43, Organização, Apresentação e Notas de Andrade Muricy, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa, segunda edição, 1966, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.