____________________
[Meu
glorioso pecado III]
A que
buscas em mim, que vive em meio
de nós, e
nos unindo nos separa,
não sei
bem aonde vai, de onde veio,
trago-a
no sangue assim como uma tara
Dou-te a
carne que sou, mas teu anseio
fora
possuí-la, a espiritual, a rara,
essa que
tem o olhar ao mundo alheio,
essa que
tão-somente astros encara.
Por que
não sou como as demais mulheres?
Sinto que
me possuindo, em mim preferes
aquela
que é o meu íntimo avantesma...
E, ó meu
amor, que ciúme dessa estranha,
dessa
rival que os dias me acompanha,
para
ruína gloriosa de mim mesma!
[Carne e
Alma s/d], (Carne e
Alma — 1931)
____________________
Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras
[inúmeras biografias e bibliografias]: (1711 — 2001), de Nelly Novaes Coelho, 2002,
Editora Escrituras, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 — 1980), nascida
no Rio de Janeiro — RJ, vinda de uma família de artistas, também trazia a arte nas
veias, foi poetisa do simbolismo, feminista e sufragista; desde criança fazia versos,
“com seus 13 para 14 anos ela venceu um concurso promovido
pelo jornal A Imprensa, tendo conquistado não apenas o primeiro, mas também o segundo
e o terceiro lugar com seus poemas (poemas quais foram assinados com seu nome e
com pseudônimo)”; participou da fundação da revista de orientação simbolista Rosa Cruz e colaborou na maioria dos jornais cariocas da época — Mundo Brasileiro, A Cidade, Brasil Centenário, Jornal do Comércio, entre os quais; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação
dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado
(1928), Poesia (1929), Carne e Alma (1931), Sublimação (1938), Meu Rosto (1947),
Velha poesia (1965) e Poesias Completas (1987); a respeito da poeta, o crítico literário
Péricles Eugênio da Silva Ramos comenta que “foi a maior figura feminina de nosso
Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais
Partidos e Estados de Alma.”; Gilka Machado foi pioneira no uso do erótico na poesia
feminina brasileira, e, como feminista e sufragista, fez parte do grupo de mulheres
que, ao lado de Bertha Lutz, criaram o Partido Republicano Feminino no ano de 1910
e no qual lutavam prioritariamente “pelo direito da mulher em votar”; recebeu premiações
por sua obra: Revista O Malho (1933) e Academia Brasileira de Letras — Prêmio Machado
de Assis (1979).

.jpg)



