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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Yehoasch: Rosa seca

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[traduzido por Cecília Meireles]

Caiu de um livro no meu regaço
uma dessas velhas
relíquias de um sonho de juventude:
uma rosa seca.

E eu perguntei ao livro de onde vinha
aquela flor.
O livro calou-se: não chegou ao meu ouvido
nem palavra nem som.

Então, meus olhos descobriram uma página
onde havia uma nódoa.
Há muito, muito tempo alguém tinha chorado.
Oh! quando e onde?

Beijei a rosa murcha, a rosa seca
e a lágrima também.
Há muito, muito tempo alguém tinha amado:
Oh! quem? e a quem?

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Quatro Mil Anos de Poesia — vários autores, Organização e Prefácio de J. Guinsburg e Introdução de Zulmira Ribeiro Tavares, 1969, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Yehoasch (1871 1927), nascido na Rússia, em Verbalis Lituânia, nome literário de Salomão Bloomgarten ou Solomon Blumgarten, foi escritor, poeta, contista, fabulista e tradutor; sua poesia foi traduzida para o russo, holandês, polaco, finlandês, alemão, espanhol, inglês e hebraico; Yehoasch verteu para o ídiche muitas obras da literatura mundial, incluindo o Velho Testamento e partes do Corão; obra poética: Guezamlte Lider (Cantos Reunidos), Naie Schriften (Novos Escritos, em 2 vols., um de poesia e outro de poesia e prosa),In Zun un Nebel (Ao Sol e Névoa, poesia, prosa), Schloimes Ring (O Anel de Salomão, balada), In Gueveb (Na Tessitura, 2 vols., poesias) etc.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Boris Pasternak: Sobre estes Versos

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[Traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]

Pelas calçadas trituro
Meio a meio, vidro e sol.
Abro no frio para o sótão,
Dou de ler aos cantos úmidos.

A água-furtada recita
À neve, por esquadrias.
Pula-pulando às cornijas
Penas, cenas, bizarrias.

Varre o fim, cobre o início,
Meses a fio, a nortada.
Me lembro que o sol existe!
E a luz, como está mudada!

Natal  pequenina pega,
E a tardinha dissoluta
Mostrou-me e à minha dileta
Quanta coisa que era oculta.

Cache-nez, rosto escondido,
Grito aos meninos lá fora:
Queridos (pelo postigo)
Que milênio soa agora?

Quem à porta rompe em rumo
Da furna, poeira só,
Enquanto eu com Byron fumo
E viro a taça com Poe?

Darial me serve de abrigo 
De inferno, arsenal, paiol.
E embebo a vida no vinho.
Lábios. Tremor. Liermontóv.

Boris Pastermak

Про эти стихи

На тротуарах истолку
С стеклом и солнцем пополам,
Зимой открою потолку
И дам читать сырым углам.

Задекламирует чердак
С поклоном рамам и зиме,
К карнизам прянет чехарда
Чудачеств, бедствий и замет.

Буран не месяц будет месть,
Концы, начала заметет.
Внезапно вспомню: солнце есть;
Увижу: свет давно не тот.

Галчонком глянет Рождество,
И разгулявшийся денек
Прояснит много из того,
Что мне и милой невдомек.

В кашне, ладонью заслонясь,
Сквозь фортку крикну детворе:
Какое, милые, у нас
Тысячелетье на дворе?

Кто тропку к двери проторил,
К дыре, засыпанной крупой,
Пока я с Байроном курил,
Пока я пил с Эдгаром По?

Пока в Дарьял, как к другу, вхож,
Как в ад, в цейхгауз и в арсенал,
Я жизнь, как Лермонтова дрожь,
Как губы в вермут окунал.

[1917]
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Quatro Mil Anos de Poesia — vários autores, Organização e Prefácio de J. Guinsburg e Introdução de Zulmira Ribeiro Tavares, 1969, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

domingo, 12 de abril de 2015

Heinrich Heine: Uma Dona

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[tradução de Haroldo de Campos]

Amor de fato era o deles,
Uma bisca e um ladrão reles!
Ele fazia as trapaças,
Ela ria às gargalhadas.

De dia, no mole e fácil;
à noite, ela em seus braços.
Ele foi dar numa cela;
Ela ria, na janela.

Ele lhe diz: Eu te quero,
Por você me desespero,
Doo de amor,  e ela rindo
Sacode a cabeça linda.

Às seis foi ele enforcado.
Às sete estava enterrado.
Ela porém, já às oito,
Ria, com vinho no copo.

Heinrich Heine

Ein Weib

Sie hatten sich beide so herzlich lieb, 
Spitzbübin war sie, er war ein Dieb. 
Wenn er Schelmenstreiche machte, 
Sie warf sich aufs Bett und lachte.

Der Tag verging in Freud und Lust, 
Des Nachts lag sie an seiner Brust. 
Als man ins Gefängnis ihn brachte, 
Sie stand am Fenster und lachte.

Er ließ ihr sagen: O komm zu mir, 
Ich sehne mich so sehr nach dir, 
Ich rufe nach dir, ich schmachte – 
Sie schüttelt' das Haupt und lachte.

Um sechse des Morgens ward er gehenkt, 
Um sieben ward er ins Grab gesenkt; 
Sie aber schon um achte 
Trank roten Wein und lachte.
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Quatro Mil Anos de Poesia — vários autores, Organização e Prefácio de J. Guinsburg e Introdução de Zulmira Ribeiro Tavares, 1969, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico poética musicada por vários compositores de sua época (Franz SchubertRobert SchumannFelix Mendelssohn, Brahms, Hugo WolfRichard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha FerreiraHans Werner HenzeLord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro,  1851), Der Doktor Faust Ein Tanzpoem (Doutor Fausto um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Iossef Milbauer: Política

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[tradução de J. Guinsburg e Zulmira Ribeiro Tavares]

O mundo está atulhado de clãs e de pátrias.
Os povos aclamam os homens que bradam.

E à medida que soltam seus clamores soturnos,
os ricos vão às suas festas e os pobres às suas.

O homem toma a mulher e lhe dá alegria.
À sua volta se desdobra a presença divina.

A lâmpada abre a porta ao sonho que torna.
O gato se atirou à sua sombra e a guarda.

O poeta assentou praça face a si mesmo
e espera que a noite lhe sopre um poema.

A criança debruçada em um livro de figuras
segue o voo de um milhano que persegue as nuvens.

Nos mosteiros os monges meditam.
Os corvos corvejam. Os mestres gritam.
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Quatro Mil Anos de Poesia  vários autores, Organização e Prefácio de J. Guinsburg e Introdução de Zulmira Ribeiro Tavares, 1969, Editora Perspectiva, São Paulo  SP; Iossef Milbauer (1897  1970), polonês de Varsóvia, estudou na Bélgica, foi escritor, poeta, tradutor e pintor; como conhecedor do idioma francês, traduziu para esta língua textos de poetas e contistas representativos da literatura hebraica moderna (Pages Israéliennes, Pages Juives, Quelques Poètes Hébreux, ...); de sua autoria, entre outros títulos, escreveu e publicou Chants Orbes (Cantos Censurados) e Jourdain et Autres Poèmes (Jordão e Outros Poemas); desde 1944 viveu em Jerusalém.