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[traduzido por Raul de Sá
Barbosa]
Você tem mesmo de ir-se,
John Holmes *, com as preces e os salmos
que jamais recitou
entoados por sobre seu corpo? A morte sem fúria
que o empurre para baixo?
Louvado pelo Deus compassivo, de braço
erguido sobre o púlpito,
deixando-o tímido, sem idade verdadeira,
caiado pela crença,
insípido como o empolado pregador!
Vitimado por uma coisa
escura, John Holmes, você ficou perdido
na capela do colégio,
chorado como pai e mestre,
chorado com piedade e
graça ante a cruz da universidade.
Seu último livro sem
louvores, suas últimas críticas ignoradas,
abandonado pela ciência, o
câncer desabrochou em sua garganta,
enraizado qual buganvília
em sua espinha dorsal cinzenta,
irrompendo através dos
teus poros, até que o usasse por fora como um
casaco.
As pétalas carnudas, os
exóticos vermelhos, as púrpuras e brancos,
cobriram sua nudez e te
elevaram com todo
seu cego poder. Penso em
suas últimas noites de junho
em Boston, em seu corpo
inchado mas leve, em seus olhos apertados
ao deixar que os
enfermeiros o carregassem para uma terra ignota.
... Se isto é a morte e se
Deus é necessário, que ele se esconda,
então do missionário, do simpatizante
e da mão prestativa.
Que Deus seja alguma fêmea
tribal, conhecida mas defesa.
Que esse Deus que é mulher
o ponha
em seu barco raso, que é
mulher despida até a cintura,
molhada de suor e azeite,
mulher de alguma virtude
e seios exuberantes,
membros magníficos, sem mácula e casta.
Que ela o leve. Botará 12
homens robustos nos remos
porque você é mais forte
que o mogno e seus ossos enchem
o barco até a boca com
fruta e cascas de árvore do interior.
Ela o possuirá agora, você
que os funerais não conseguem matar.
John Holmes, feito de um
tronco só, jaz pesadamente no fundo
e desce o rio com o
marfim, a copra e o ouro.
Somewhere In Africa
Must you leave, John
Holmes, with the prayers and psalms
you never said, said over
you? Death with no rage
to weigh you down? Praised
by the mild God, his arm
over the pulpit, leaving
you timid, with no real age,
whitewashed by belief, as
dull as the windy preacher!
Dead of a dark thing, John
Holmes, you’ ve been lost
in the college chapel,
mourned as father and teacher,
mourned with piety and
grace under the University Cross.
Your last book unsung,
your last hard words unknown,
abandoned by science,
cancer blossomed in your throat,
rooted like bougainvillea
into your gray backbone,
ruptured your pores until
you wore it like a coat.
The thick petals, the
exotic reds, the purples and whites
covered up your nakedness
and bore you up with all
their blind power. I think
of your last June nights
in Boston, your body
swollen but light, your eyes small
as you let the nurses
carry you into a strange land.
... If this is death and
God is necessary let him be hidden
from the missionary, the
well-wisher and the glad hand.
Let God be some tribal
female who is known but forbidden.
Let there be this God who
is a woman who will place you
upon her shallow boat, who
is a woman naked to the waist,
moist with palm oil and
sweat, a woman of some virtue
and wild breasts, her
limbs excellent, unbruised and chaste.
Let her take you. She will
put twelve strong men at the oars
for you are stronger than
mahogany and your bones fill
the boat high with fruit
and bark from the interior.
She will have you now, you
whom the funeral cannot kill.
John Holmes, cut from a
single tree, lie heavy in her hold
and go down that river
with the ivory, the copra and the gold.
(July 1, 1962)
*Nota do blogue Verso e Conversa:
O atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que John [Albert] Holmes
[Jr.] (1904 — 1962), foi poeta, crítico literário e professor de poesia e literatura
moderna na Tufts University; organizou e proporcionou oficinas poéticas e palestras
literárias; por oito anos foi editor de poesia no periódico Boston Evening Transcript,
ali resenhou livros; escreveu e publicou vários volumes de poesia, entre os quais
The Fortune Teller (A Cartomante), indicado para o National Book Award de 1961.
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Anne Sexton: A morte não é a vida, uma biografia — Diane Wood
Middlebrook, Tradução de Rui de Sá Barbosa, Introdução do Dr. Martin T. Orne [médico
com PhD em psicologia], Prefácio e obra biográfica por Diane Wood Middlebrook, 1994,
Editora Siciliano, São Paulo — SP; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 — 1974),
estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada
pela luta contra a depressão mental, com mais de uma tentativa de suicídio, recebeu
como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de
Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton,
por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias
como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética,
dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita,
conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais
e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea
de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações;
obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do
Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things
e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin,
1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu
o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações,
1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os
Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura
Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words
for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978)
e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem
e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4
de outubro de 1974.