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segunda-feira, 9 de março de 2026

Anne Sexton: Em algum lugar da África

 
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[traduzido por Raul de Sá Barbosa]

Você tem mesmo de ir-se, John Holmes *, com as preces e os salmos
que jamais recitou entoados por sobre seu corpo? A morte sem fúria
que o empurre para baixo? Louvado pelo Deus compassivo, de braço
erguido sobre o púlpito, deixando-o tímido, sem idade verdadeira,

caiado pela crença, insípido como o empolado pregador!
Vitimado por uma coisa escura, John Holmes, você ficou perdido
na capela do colégio, chorado como pai e mestre,
chorado com piedade e graça ante a cruz da universidade.

Seu último livro sem louvores, suas últimas críticas ignoradas,
abandonado pela ciência, o câncer desabrochou em sua garganta,
enraizado qual buganvília em sua espinha dorsal cinzenta,
irrompendo através dos teus poros, até que o usasse por fora como um
casaco.

As pétalas carnudas, os exóticos vermelhos, as púrpuras e brancos,
cobriram sua nudez e te elevaram com todo
seu cego poder. Penso em suas últimas noites de junho
em Boston, em seu corpo inchado mas leve, em seus olhos apertados

ao deixar que os enfermeiros o carregassem para uma terra ignota.
... Se isto é a morte e se Deus é necessário, que ele se esconda,
então do missionário, do simpatizante e da mão prestativa.
Que Deus seja alguma fêmea tribal, conhecida mas defesa.

Que esse Deus que é mulher o ponha
em seu barco raso, que é mulher despida até a cintura,
molhada de suor e azeite, mulher de alguma virtude
e seios exuberantes, membros magníficos, sem mácula e casta.

Que ela o leve. Botará 12 homens robustos nos remos
porque você é mais forte que o mogno e seus ossos enchem
o barco até a boca com fruta e cascas de árvore do interior.
Ela o possuirá agora, você que os funerais não conseguem matar.

John Holmes, feito de um tronco só, jaz pesadamente no fundo
e desce o rio com o marfim, a copra e o ouro.

Anne Sexton

Somewhere In Africa

Must you leave, John Holmes, with the prayers and psalms
you never said, said over you? Death with no rage
to weigh you down? Praised by the mild God, his arm
over the pulpit, leaving you timid, with no real age,

whitewashed by belief, as dull as the windy preacher!
Dead of a dark thing, John Holmes, you’ ve been lost
in the college chapel, mourned as father and teacher,
mourned with piety and grace under the University Cross.

Your last book unsung, your last hard words unknown,
abandoned by science, cancer blossomed in your throat,
rooted like bougainvillea into your gray backbone,
ruptured your pores until you wore it like a coat.

The thick petals, the exotic reds, the purples and whites
covered up your nakedness and bore you up with all
their blind power. I think of your last June nights
in Boston, your body swollen but light, your eyes small

as you let the nurses carry you into a strange land.
... If this is death and God is necessary let him be hidden
from the missionary, the well-wisher and the glad hand.
Let God be some tribal female who is known but forbidden.

Let there be this God who is a woman who will place you
upon her shallow boat, who is a woman naked to the waist,
moist with palm oil and sweat, a woman of some virtue
and wild breasts, her limbs excellent, unbruised and chaste.

Let her take you. She will put twelve strong men at the oars
for you are stronger than mahogany and your bones fill
the boat high with fruit and bark from the interior.
She will have you now, you whom the funeral cannot kill.

John Holmes, cut from a single tree, lie heavy in her hold
and go down that river with the ivory, the copra and the gold.

(July 1, 1962)

*Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que John [Albert] Holmes [Jr.] (1904 — 1962), foi poeta, crítico literário e professor de poesia e literatura moderna na Tufts University; organizou e proporcionou oficinas poéticas e palestras literárias; por oito anos foi editor de poesia no periódico Boston Evening Transcript, ali resenhou livros; escreveu e publicou vários volumes de poesia, entre os quais The Fortune Teller (A Cartomante), indicado para o National Book Award de 1961.
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Anne Sexton: A morte não é a vida, uma biografia — Diane Wood Middlebrook, Tradução de Rui de Sá Barbosa, Introdução do Dr. Martin T. Orne [médico com PhD em psicologia], Prefácio e obra biográfica por Diane Wood Middlebrook, 1994, Editora Siciliano, São Paulo — SP; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Anne Sexton: Uma combinação obsessiva de fuga interior ontológica, trapaça e amor

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[traduzido por Raul de Sá Barbosa]

Atarefada, com uma ideia como código, eu escrevo
sinais que correm da esquerda para a direita,
ou da direita para a esquerda, por caminhos obscuros,
por motivos que só a mim dizem respeito;
tomando uma palavra qualquer como ‘escreve’
através de incontáveis tentativas até que seus ritos secretos
façam sentido; ou até que de súbito, RATOS
se convertam de forma surpreendente e engraçada de ESTRELA
e da direita para a esquerda essa pequenina estrela
é minha, para meu deleite para que eu contemple
do avesso para o direito suas cinco pontas da sorte e guarde-a
com carinho e para sempre como se fora uma estrela de verdade
que eu tivesse tocado e como um milagre eu realmente escrevesse.

Anne Sexton

An obsessive combination of ontological inscape, trickery
and love *

Busy, with an idea for a code, I write
signals hurrying from left to right,
or right to left, by obscure routes,
for my own reasons; taking a word like ‘writes’
down tiers of tries until its secret rites
make sense; or until, suddenly, RATS
can amazingly and funnily become STAR
and right to left that small star
is mine, for my own liking, to stare
its five lucky pins inside out, to store
forever kindly, as if it were a star
I touched and a miracle I really wrote.

* Nota do blogue Verso e Conversa: Nesta obra biográfica Anne Sexton: A morte não é a vida, pela tradução de Raul de Sá Barbosa, está exposto na seção 1959-1960 — Mortes, remoções e substituições acerca do poema An obsessive combination of ontological inscape, trickery and love:
     "‘Uma chave para um importante sentido latente no fecho de “Com perdão para os cúpidos” é a alusão ao palíndromo favorito de Sexton, “rats live on no evil star” (“ratos não vivem sob uma estrela maligna”). Em 1958, possivelmente durante a semana que ela passou em Antioch com Soter, Sexton produziu um pequenino e inconveniente exercício intitulado “An obsessive combination of ontological inscape, trickery and love” (“Uma combinação obsessiva de fuga interior ontológíca, trapaça e amor”), no qual ela tentou, pela primeira vez, explicar o significado, para ela, desse jogo de palavras.
     [RATS — STAR]
     ‘Rato’ era uma das metáforas de Sexton para o seu Eu doente. Em outro poema religioso, escrito em junho de 1960, ela fez dos ratos agentes da morte de Cristo. O poema se chama “No museu profundo”. Mas já em 1958 ela fizera dessa inversão rats/star um exemplo (para o Dr. Orne) de como as palavras a usavam como veículo para trazer significados ao mundo. (“Naturamente EU SEI que as palavras não passam de um jogo de contar. Tenho consciência disso até que as palavras começam a se rearranjar sozinhas e a escrever algo melhor do que eu jamais seria capaz”.) Esse ‘milagre’ inevitavelmente ocorreu com o uso da rima, na opinião de Sexton. Palavras escolhidas por um tipo de semelhança (som) demonstravam outros tipos, uma vez postas no lugar que lhes fora destinado, e assim expressavam significados muito mais ricos do que os que se tinha em mente. Seus poemas davam testemunho de sua saúde psicológica. “Estou fingindo quando acho a palavra, mas sou real quando acho a palavra aceitável. (...) Fiz, logo devo ser real.'”
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Anne Sexton: A morte não é a vida, uma biografia — Diane Wood Middlebrook, Tradução de Rui de Sá Barbosa, Introdução do Dr. Martin T. Orne [médico com PhD em psicologia], Prefácio e obra biográfica por Diane Wood Middlebrook, 1994, Editora Siciliano, São Paulo — SP; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com internações hospitalares e mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Anne Sexton: A música nada de volta para mim

 
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[traduzido por Raul de Sá Barbosa]

Espere, Mister. Para que lado é a minha casa?
Eles apagaram a luz
e a escuridão move no canto [da sala].
Não há postes de sinalização aqui dentro,
quatro senhoras de mais de oitenta,
todas de fralda.
La la la, Oh a música nada de volta para mim
e eu posso reconhecer o tema que tocaram
na noite em que me deixaram
nesta instituição particular no alto de uma colina.

Imagine só. Um rádio tocando
e todo mundo louco por aqui.
Eu gostei e dancei em roda.
A música se derrama sobre os sentidos
e, curiosamente,
vê mais do que eu mesma.
Quero dizer: ela se lembra melhor;
se lembra da primeira noite neste lugar.
Fazia o frio sufocado de novembro;
até as estrelas estavam amarradas no céu
e aquela lua, brilhante demais
se enfiava entre as grades para me espetar
com cantoria na cabeça.
Todo o resto esqueço.

Eles me prendem nesta cadeira às oito da manhã
e não há sinalização que mostre o caminho,
só o rádio tocando para ele mesmo
e a canção que se lembra
mais das coisas do que eu. Oh, la la la,
essa música me volta à memória.
Na noite em que cheguei, dancei em roda
e não tive medo.
Mister?

Anne Sexton

Music Swims Back to Me *

Wait Mister. Which way is home?
They turned the light out
and the dark is moving in the corner.
There are no sign posts in this room,
four ladies, over eighty,
in diapers every one of them.
La la la, Oh music swims back to me
and I can feel the tune they played
the night they left me
in this private institution on a hill.

Imagine it. A radio playing
and everyone here was crazy.
I liked it and danced in a circle.
Music pours over the sense
and in a funny way
music sees more than I.
I mean it remembers better;
remembers the first night here.
It was the strangled cold of November;
even the stars were strapped in the sky
and that moon too bright
forking through the bars to stick me
with a singing in the head.
I have forgotten all the rest.

They lock me in this chair at eight a. m.
and there are no signs to tell the way,
just the radio beating to itself
and the song that remembers
more than I. Oh, la la la,
this music swims back to me.
The night I came I danced a circle
and was not afraid.
Mister?

(The Complete Poems of Anne Sexton, Boston: Houghton Mifflin, 1981).

* Nota do blogue Verso e Conversa: Nesta obra biográfica Anne Sexton: A morte não é a vida, pela tradução de Raul de Sá Barbosa, está exposto na seção 1957-1958 — De rats a star, acerca do poema Music Swims Back to Me [A música nada de volta para mim]:
     ‘O mais importante relacionamento na vida de Anne Sexton como poeta foi a amizade que ela estabeleceu em 1957, com Maxine Kumin, um laço extraordinário que perduraria até o dia de sua morte.
     [ . . . ] Sexton cruzou com Kumin na biblioteca, a Newton Free Library. Conversaram e descobriram que eram vizinhas [ . . . ] Ansiosa por sugestões sobre poesia contemporânea, Sexton pediu conselho à colega. [ . . . ]
     Poucos dias depois desse encontro casual, Sexton chamou Kumin. “Escrevi um troço — Não sei se é um poema ou não. Posso ir até sua casa?” Levou “Music Swims Back to Me” (“A música nada de volta para mim) e, sentada, esperou nervosamente que Kumin lesse o texto. [ . . . ]
     É extraordinário que Sexton já tivesse então a força e a veemência que lhe iriam valer tantos elogios três anos depois, por seu primeiro livro publicado, Para Bedlam e meio caminho de volta, no qual “A música nada de volta para mim” aparece quase que sem modificações da versão que Maxine Kumin leu em setembro de 1957.
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Anne Sexton: A morte não é a vida, uma biografia — Diane Wood Middlebrook, Tradução de Rui de Sá Barbosa, Introdução do Dr. Martin T. Orne [médico com PhD em psicologia], Prefácio e obra biográfica por Diane Wood Middlebrook, 1994, Editora Siciliano, São Paulo — SP; Anne Gray Harvey ou Anne Sexton (1928 1974), estadunidense de Newton, Massachusetts, foi poeta e ensaísta; teve sua vida marcada pela luta contra a depressão mental, com internações médicas e mais de uma tentativa de suicídio, recebeu como instrução formal tão somente aulas de educação de adultos em faculdades de Boston e, apesar disso, ensinou redação criativa na Boston University; Anne Sexton, por sugestão de seu médico e terapeuta, encorajou-se, passou a escrever poesias como forma de tratamento clínico e, devido a sua imaginação e sensibilidade poética, dava início à vida literária; em 1957 começou sua participação em workshops de escrita, conheceu os poetas Robert Lowell e Maxine Kumin, teve poemas veiculados em jornais e revistas; em 1960 estreou com a publicação de To Bedlam and Part Way Back (coletânea de poemas), tal lançamento fez deslanchar sua carreira literária e recebeu premiações; obras publicadas: To Bedlam and Part Way Back (poesias, Alta Parcial do Manicômio, 1960), All My Pretty Ones (Todas as Pessoas que Amo, 1962), Eggs of Things e More Eggs of Things (ambos de literatura infantil, em parceria com Maxine Kumin, 1963 e 1964), Selected Poems (1964), Live or Die (poesias, Viver ou Morrer, recebeu o Prêmio Pulitzer, 1966), Love Poems (Poemas de Amor, 1969), Transformations (Transformações, 1971), The Book of Folly (O Livro da Besteira, 1972), The Death Notebooks (Os Cadernos da Morte, 1974), The Awful Rowing Toward God (póstumo, A Remadura Medonha Rumo a Deus, 1975), 45 Mercy Street (póstumo, Mercy Street, 45, 1976), Words for Dr. Y: uncollected poems with three stories (póstumo, Palavras ao Dr. Y., 1978) e outros títulos; suicidou-se aos 45 anos e 11 meses, trancando-se em sua garagem e, deixando o motor do carro ligado, intoxicou-se com monóxido de carbono; era 4 de outubro de 1974.