Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!
Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro1 que rói-lhe o seio!
Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo2
Motejam3 dos vendavais;
Coberto de atros4 matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!
Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!
Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias5 da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?
No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!
Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!
Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!
Vem, oh! Morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!
Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?
Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!
Notas:
Dos
organizadores:
* Poema em versos de sete sílabas (redondilhas maiores);
1. Doença. Câncer;
2. Traiçoeiro;
3. Zombam;
4. Lancinantes;
5. Cantos fúnebres.
Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e
Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio
Faraco registra acerca de Fagundes Varela:
“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.”
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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização,
Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico
Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora
e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 — 1875), nascido em Rio Claro
— RJ, concluiu seus estudos do primário e secundário em Angra dos Reis e
Petrópolis, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São
Francisco) e, depois, na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no
4º ano, dedicou-se à literatura, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado
um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo);
obras poéticas: Noturnas (1861), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas
patrióticos), Cantos e Fantasias ([considerado sua obra prima], 1865), Cantos Meridionais
(1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou Evangelho nas Selvas (publicação
póstuma, 1875), Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro (ambos publicações póstumas,
1878 e 1880), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre — França);
morreu de alcoolismo.

