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quarta-feira, 12 de junho de 2019

Emílio de Meneses: Noite de insônia

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Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto.
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito.
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

Louco e só! Desvairado!  A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Seleção e Organização de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Emílio Nunes Correia de Meneses (1866 1918), paranaense de Curitiba, foi jornalista, cronista e poeta satírico; considerado excêntrico para os padrões da época, com seus textos cáusticos, mordazes e ferinos, nos meios literários houve e há quem o aproxime de Gregório de Matos; fez uso de diversos pseudônimos (Neófito, Gaston d’Argy, Gabriel de Anúncio, Cyrano & Cia., Emílio Pronto da Silva) para subscrever muito do que publicou: escreveu Marcha fúnebre (sonetos, 1892), Poemas da morte (1901), Dies irae — A tragédia de Aquidabã (1906), Poesias (1909), Últimas rimas (1917).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Emílio de Meneses: Envelhecendo

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Tomba às vezes meu ser. De tropeço a tropeço,
Unidos, alma e corpo, ambos rolando vão.
É o abismo e eu não sei se cresço ou se decresço,
À proporção do mal, do bem à proporção.

Sobe às vezes meu ser. De arremesso a arremesso,
Unidos, estro e pulso, ambos fogem ao chão.
E eu ora encaro a luz, ora à luz estremeço.
E não sei onde o mal e o bem me levarão.

Fim, qual deles será? Qual deles é começo?
Prêmio, qual deles é? Qual deles é expiação?
Por qual deles ventura ou castigo mereço?

Ante o perpétuo sim, e ante o perpétuo não,
Do bem que sempre fiz, nunca busquei o preço,
Do mal que nunca fiz, sofro a condenação.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Seleção e Organização de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Emílio Nunes Correia de Meneses (1866  1918), paranaense de Curitiba, foi jornalista, cronista e poeta satírico; considerado excêntrico para os padrões da época, com seus textos cáusticos, mordazes e ferinos, nos meios literários houve e há quem o aproxime de Gregório de Matos; fez uso de diversos pseudônimos (Neófito, Gaston d’Argy, Gabriel de Anúncio, Cyrano & Cia., Emílio Pronto da Silva) para subscrever muito do que publicou: escreveu Marcha fúnebre (sonetos, 1892), Poemas da morte (1901), Dies irae — A tragédia de Aquidabã (1906), Poesias (1909), Últimas rimas (1917).

sábado, 29 de novembro de 2014

Emílio de Meneses: Prosopopeia da Pepa ao Pupo

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“A Sra. Pepa Ruiz e os Sr. Pupo de Morais
andam em negociações para o arrendamento
do Mercado do Rio de Janeiro.” DOS JORNAIS

Parece peta, a Pepa aporta à praça
e pede ao Pupo que lhe passe o apito.
Pula do palco, pálida, perpassa
por entre um porco, um pato e um periquito, 

Após, papando, em pé, pudim com passa,
depois de peixes, pombos e palmito,
precípite, por entre a populaça,
passa, picando a ponta de um palito, 

Peças compostas por um poeta pulha,
que a papalvos perplexos empulha,
prestando apenas pra apanhar os paios,

permuta a Pepa por pastéis, pamonha...
 Que a Pepa apupe o Pupo e à popa ponha 
papas, pipas, pepinos, papagaios!

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Poesia Parnasiana — Antologia, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos (vários autores), 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Emílio de Meneses (1866  1918), paranaense de Curitiba, foi jornalista, cronista e poeta satírico; considerado excêntrico para os padrões da época, com seus textos cáusticos, mordazes e ferinos, nos meios literários houve e há quem o aproxime a Gregório de Matos; fez uso de diversos pseudônimos (Neófito, Gaston d’Argy, Gabriel de Anúncio, Cyrano & Cia., Emílio Pronto da Silva) para subscrever muito do que publicou; escreveu Marcha fúnebre (sonetos, 1892), Poemas da morte (1901), Dies irae  A tragédia de Aquidabã (1906), Poesias (1909), Últimas rimas (1917). 

sábado, 4 de agosto de 2012

Edgar Allan Poe: O Corvo (na forma de sonetos)


No livro, "'O Corvo' e suas traduções", além de constar o poema em sua língua original (The Raven, 1845) e a tradução em soneto feita por Emílio de Meneses (1917) transcrita nesta postagem, também há outras oito traduções: as de Charles Baudelaire (1853), Stéphane Mallarmé (1888), Machado de Assis (1883), Fernando Pessoa (1924), Gondin da Fonseca (1928), Milton Amado (1943), Benedito Lopes (1956) e Alexei Bueno (1980).
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À memória de Machado de Assis

O inexcedido e inexcedível tradutor do genial
poema de Edgar Poe, consagro esta pálida
paráfrase que em nada se aproxima e jamais
pretendeu aproximar-se da imorredoura
tradução feita pelo Mestre dos Mestres


I

Desta amarga existência em certo amargo dia,
À hora da meia-noite, augural e profana,
Eu, de velha doutrina, as páginas relia
Curvo ao peso do sono e da fadiga insana.

Mal do meu pensamento a direção seguia
Por essa hora de horror em que da treva emana
Toda em funda hediondez, desolada e fria,
Da atra recordação, a atra saudade humana.

Foi assim que senti, do meu triste aposento,
Como um leve sussurro a passar, lento e lento,
E uma leve pancada a bater nos umbrais.

Disse comigo: é alguém que pela noite fora,
Vem, retarda visita, e retarda-se agora...
A bater mansamente à porta, nada mais!...

II

Ó se o recordo, e bem! numa invernia brava,
O ríspido e glacial Dezembro decorria
E, da lareira ao chão, cada brasa lançava
O supremo fulgor da sua lenta agonia.

E eu a esperar, em vão, a aurora que tardava
Queria, em vão, achar nessa velha teoria
Contida no volume antigo que estudava,
Um consolo sequer à dor que me pungia.

Em vão! consolo, em vão! à minha dor profunda
Em vão repouso, em vão! à alma que se me inunda
Desta imortal saudade aos prantos imortais.

Porque jamais se esquece, alma consoladora
Como essa que nos céus é chamada Eleonora,
Nome que nunca mais ouvirei, nunca mais!

III

Ante o vago oscilar, indefinido e brando,
Das cortinas que o vento, ao leve, sacudia,
Ia-me o coração sinistramente entrando
O sombrio terror da noite erma e sombria.

Um tétrico pavor que então desconhecia
E que me estrangulava o peito miserando,
A alma, sem compaixão, de dúvidas me enchia
E pouco a pouco foi meu ser avassalando.

Enfim, para volver à ambiciosa calma
E a coragem, de novo, amparar-se-me d'alma,
Repetia a mim mesmo estas palavras tais:

"Nada mais é talvez que retarda visita
Que vem de noite em fora e entrada solicita!
É visita que vem, por certo, nada mais!"

IV

A calma que até aí do peito me fugia
Voltou de novo ao peito e, à coragem primeira,
Não mais vacilações, não mais mente erradia!
Ao estranho rumor falo desta maneira:

"Como nesta ocasião o sono me prendia
E a pancada foi tal, tão leve e tão ligeira,
Que presto não corri; perdoai-me esta ousadia
Dama ou senhor que estais da minha porta à ombreira.

Tão receosamente e vagarosamente
Batestes, que não fui receber-vos contente,
Como hóspede que sois e à minha porta estais.”

E assim falando e olhando, escancarei a porta,
Mas só encontrei naquela hora adiantada e morta,
Treva! Treva somente! A treva e nada mais!

V

Cravo os olhos na treva e longamente a escruto,
E a treva é muda e é muda a própria ventania,
E longo tempo assim com o próprio medo luto,
De dúvida e terror povoando a fantasia.

Sonhos que outro mortal, como eu nunca ousaria
Sonhar, me vêm num bando esmagador e bruto.
Profunda calma aquieta a quieta calmaria,
Imóvel é o silêncio e só o silêncio escuto!...

A única voz humana, o único som ouvido,
É este nome, em surdina e a medo proferido;
É este nome que encerra os meus mortos ideais.

Sou eu quem o profere, eu que o trago na mente,
E um eco a repercutir, repete-o vagamente:
 "Eleonora! Eleonora!" É isto e nada mais!

VI

Entrei de novo em ânsia e ardendo a estranho fogo,
Senti que, dentro de mim, todo o meu ser ardia.
Ouvi distintamente outra pancada e, logo,
De outra pancada o som mais claro percutia.

A essa nova impressão, volto-me e monologo:
Talvez cousa qualquer me bata á gelosia.
Certamente que sim, pois que ludíbrio e jogo
Do pavor de mim mesmo, eu, certo, não seria!

Fujamos, pois, do medo ao tenebroso império!
Ânimo, coração! sondemos o mistério,
Se bem que a noite esteja uivando aos vendavais.

E continuando fui: Nada mais foi que o vento,
Não foi mais que o feroz, não foi mais que o violento
Sopro do furacão! Foi isso e nada mais...

VII

Abro a janela e vejo entrar, ruidosamente,
Amplas asas batendo e ares de fidalguia,
Um majestoso corvo altivo e irreverente
Como arauto feral da noite erma e bravia.

Sem fazer o menor sinal de cortesia,
Sem um gesto sequer de hesitação prudente,
Como entraria um nobre, alta dama entraria,
Entrou e se alojou despreocupadamente.

Vagaroso e solene, ar indolente e farto,
Exatamente sobre a entrada de meu quarto,
Seguro abrigo achou acima dos portais

Esta recordação até agora me enerva:
Sobre um pálido busto antigo de Minerva,
Rígido e senhorial, postou-se e nada mais!

VIII

A este pássaro audaz, de ébano a cor das penas,
Grave na compostura e na fisionomia,
Que ao cérebro me dava idéias mais serenas
Que me acalmava o peito, e a sorrir me induzia.

Voltando-me disse eu: "Tu que te não encenas
De altas cristas ou poupa à negra frontaria,
Velho corvo feral que te mostras apenas,
Certo, não és vil núncio da covardia.

Corvo! antigo viajor que das regiões da noite
Partiste a procurar um teto que te acoite,
Dize-me tu quais são teus títulos reais!

Qual a pátria ante a qual teu orgulho se ufana?
Quais as tuas regiões na noite plutoniana?...
E o corvo senhorial respondeu: "Nunca mais!..."

IX

Ao perceber assim que a ave me compreendia
E que dava resposta a esta pergunta estranha
Que eu, entre espanto e medo, a medo lhe fazia,
Senti, de pasmo, n'alma um peso de montanha.

Porque ainda quem tenha uma intuição tamanha
Capaz de perceber o que outrem mal veria,
Certo, não achará neste dédalo um guia
Para o tirar do caos em que a alma se emaranha!

Ninguém verá, como eu, a ave negra num busto,
Sem que a mova o receio e sem que a mova o susto,
Tranqüila espreguiçando as asas triunfais,

Ouvir a minha voz a lhe indagar o nome
E ante a curiosidade atroz que me consome,
Dizer-me simplesmente a frase: Nunca mais!...

X

A ave hedionda, entretanto, erma, a encimar o busto,
Sobre cuja brancura as asas distendia,
Como se essa palavra o sentido mais justo
Tivesse e contivesse a suprema harmonia;

Fosse do pensamento um invólucro augusto
Cheio de precisão e cheio de energia,
Nada mais pronunciou, nem ao menos, a custo,
Uma pluma moveu da plumagem macia.

Eu que continha mal toda a minha saudade,
Apenas murmurei: Amigos de outra idade
Tive, partiram; certo, assim também te vais!

Assim também te irás, mal rompa em luz a aurora!
Esperanças que tive, assim fostes embora!
E o corvo repetiu a frase: Nunca mais!...

XI

Todo o assombro em meu ser por tremor se anuncia,
Ouvindo a ave augural sem o menor estorvo,
Tal resposta me dar, com tanta analogia
Que inda agora, a lembrá-la, eco por eco a sorvo.

Certo a frase aprendeu na triste companhia
De algum mestre infeliz cujo destino torvo,
Da dor o escravisou da fera tirania,
E a sabe assim de cor, o foragido corvo!

Tantas vezes a ouviu. Tão repetidamente
O seu mestre infeliz lha fez vibrar na mente,
Que hoje a profere a rir, como a profere em ais!

De profundis! cruel de uma morta esperança,
Tão tristonhas canções deixaram na lembrança,
Do corvo este estribilho, este só: Nunca mais!

XII

Como apesar de tudo a calma conseguia
Fazer-me d'alma vir, do lábio, um riso, à tona,
Chegando-me ao portal, do corvo hospedaria,
Sentei-me e recostei-me a uma antiga poltrona.

Frente à frente do corvo, a alma já me sorria
E toda entregue a mim, como quem se abandona,
Busco ansioso indagar que novas me traria
O fúnebre viajor que inda hoje me emociona!

Procuro compreender qual o escondido gozo
Desse vil e sinistro arauto tenebroso
Que em dois termos resume os seus  vis cabedais;

Que os seus vis cabedais de ciência e e de linguagem
Resume ao exibir-me a tétrica plumagem
Crocitando e grasnando a frase: Nunca mais!

XIII

Deixo-me após ficar com quem se extasia
Entre a alucinação e a funda conjetura,
Ante a luz da razão e a névoa da utopia,
Sem nada a me apoiar a mente mal segura.

Nada mais pronunciei, nem um som se me ouvia
E como a um ferro em brasa, a uma horrível tortura,
Da ave ao olhar hostil e à pérfida ironia
N'alma entrou-me o terror que as almas transfigura.

Mas a um torpor de quem vagamente ressona,
Recosto-me ao espaldar dessa velha poltrona
Que eu para ali trouxera em ânsias infernais,

E vejo a luz brilhar sobre o roxo veludo
Em que por tanta vez d'Ela o semblante mudo
Brilhou, mas nunca mais brilhará! Nunca mais!

XIV

Sinto assim a envolver-me uma nuvem de incenso,
Solta de um incensório oculto que pendia
Das invisíveis mãos de anjos que em coro extenso,
Revoavam roçagando a ampla tapeçaria.

Haurindo o ar aromado e, de bálsamo, denso,
De mim para mim mesmo exclamo em gritaria:
Infeliz! Infeliz! Um Deus piedoso e imenso
Pelos anjos te manda o repouso e a alegria!

Do nepentes é o sumo! Ei-lo, bebe-o! Ei-lo, esquece!
Ele é a seara do bem, do esquecimento a messe!
Nele ouvirás a voz dos gozos celestiais!

É o nepentes ideal que Deus te manda agora!
Bebe-o! Bebe-o olvidando a tua morta Eleonora!
E o corvo crocitou de novo:  Nunca mais!

XV

Pássaro ou Satanás, ave de profecia,
Sejas ave ou Satã, sempre hás de ser profeta!
Venhas do teu inferno ou da brava invernia
Que náufrago te fez, acalma esta alma inquieta.

Já que a noite exigiu, no vôo que te guia,
Que caisses aqui, onde a angústia secreta,
Onde o secreto horror tem teto ou moradia,
Do pouco que disseste o sentido completa!

Dize-me, por quem és, se neste mundo triste,
Existe algum repouso, algum consolo existe
Para estes meus cruéis sofrimentos mortais!

Existe esse mendaz bálsamo da Judéia
Que, da saudade, a dor nos arranca da idéia?
E o corvo, inda outra vez, repetiu: Nunca mais!

XVI

Profeta ou Satanás, negro ser da desgraça!
Profeta sempre atroz de negra profecia,
Pelo azul deste céu que sobre nós se espaça,
Pelo Deus, todo luz, que em ambos nós radia,

Dize a esta alma sem luz e de dúvidas baça,
Baça de incertidão e de melancolia:
Ser-lhe-á dado abraçar o anjo que entre anjos passa,
E de cujo esplendor hoje o céu se atavia?

Ser-lhe-á dado abraçar a virgem pura e santa,
Virgem casta e piedosa e que os anjos encanta
Com seus gestos de encanto e encantos virginais?

Ser-lhe-á dado abraçar, oh! dize-o sem demora,
A rútila, a radiosa, a radiante Eleonora?
E o corvo rouquejou, roufenho: Nunca mais!

XVII

"Que negra palavra, enfim! de negra profecia
Do teu regresso o início ambicionado seja!
Regressa ao reino teu, à noite que te envia,
À noite plutoniana, essa que em ti negreja!

Volve! Cala essa voz que me fere e angustia!
Reentra no temporal, volve à tua peleja
De lá fora e não fique uma só pluma esguia
Neste chão, de tua vil plumagem malfazeja!

Não quero que de ti uma reminiscência
Fique nesta de dor, sagrada residência,
Sobre a qual distendeste as asas funerais!

Vai-te! Deixa da deusa a face casta e branca!
Arranca-me do seio as garras vis, arranca!"
E o corvo crocitou de novo: Nunca mais!

XVIII

E o corvo permanece em perpétua estadia,
Sinistro a repousar, do mármore à brancura.
Quem o contempla assim pela verdade jura
Que algum sonho feroz seu aspecto anuncia.

É um demômio a sonhar sonhos que o inferno cria
E que lhe enrijam mais a rija catadura,
Tal o fulgor do olhar que os olhos lhe alumia
E com que a própria sombra ele sondar procura.

Essa sombra que a luz da lâmpada suspensa
Faz refletir no chão, qual atra nuvem densa,
No mesmo chão negreja em linhas sepulcrais:

E desse âmbito negro, esse âmbito de sombra,
Minha alma que da dor da saudade se assombra,
Nunca mais sairá! Nunca mais! Nunca mais!
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Extraído de O Corvo e suas traduções — Organização e Introdução de Ivo Barroso e Apresentação de Carlos Heitor Cony, 1998 — Lacerda Editorial, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro — RJ.