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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

William Shakespeare: Em mim tu podes ver a quadra fria . . . [soneto]


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[traduzido por Oscar Mendes]

Soneto LXXIII

Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
      Sabê-lo faz o teu amor mais forte
      Por quem em breve há de levar a morte.

[William Shakespeare] — Obra completa, trad.
Oscar Mendes, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

William Shakespeare

Sonnet LXXIII

That time of year thou mayst in me behold
When yellow leaves, or none, or few, do hang
Upon those boughs which shake against the cold,
Bare ruin’d choirs, where late the sweet birds sang.
In me thou see’st the twilight of such day
As after sunset fadeth in the west;
Which by and by black night doth take away,
Death’s second self, that seals up all in rest.
In me thou see’st the glowing of such fire,
That on the ashes of his youth doth lie,
As the death-bed whereon it must expire,
Consum’d with that which it was nourish’d by.
      This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,
      To love that well which thou must leave ere long.

William Shakespeare, em Howard Staunton (ed.), The Globe
Illustrated Shakespeare. The Complete Works, Nova York,
Greenwich House, Crown Publishers, 1986, pp. 2297, 2303-4.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

domingo, 29 de janeiro de 2023

William Shakespeare: Não fiques triste, amigo, à hora em que, sem caução, . . . [soneto]


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[traduzido por Oscar Mendes]

Soneto LXXIV

Não fiques triste, amigo, à hora em que, sem caução,
Vier deter-me um dia esse cruel arresto,
Pois terá minha vida interesse em meus versos
Que devem junto a ti defender-me a lembrança.
O que podes rever, se estes versos revires,
É esta parte de mim que te foi consagrada:
De mim mesmo o melhor, minha alma, a ti pertence,
Se este barro que sou deve ao barro voltar.
E do meu ser assim perdes a lia apenas,
Aos vermes dada em presa à hora em que o corpo morre,
Conquista sem honor da faca de um vilão,
Indigno de encontrar recordação em ti:
      Minha alma o preço faz que nele está incluso,
      E jaz junto de ti, nestes versos, minha alma.

[William Shakespeare] — Obra completa, trad.
Oscar Mendes, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

William Shakespeare

Sonnet LXXIV

But be contented: when that fell arrest
Without all bail shall carry me away,
My life hath in this line some interest,
Which for memorial still with thee shall stay.
When thou reviewest this, thou dost review
The very part was consecrate to thee:
The earth can have but earth, which is his due;
My spirit is thine, the better part of me:
So, then, thou hast but lost the dregs of life,
The prey of worms, my body being dead;
The coward conquest of a wretch’s knife,
Too base of thee to be remembered.
      The worth of that, is that which it contains,
      And that is this, and this with thee remains

William Shakespeare, em Howard Staunton (ed.), The Globe
Illustrated Shakespeare. The Complete Works, Nova York,
Greenwich House, Crown Publishers, 1986, pp. 2297, 2303-4.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

sábado, 3 de dezembro de 2022

T. S. Eliot: A Terra Desolada* [trechos]


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[traduzido por Ivan Junqueira]

[I – O Enterro dos Mortos]

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos,
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

[ . . . ]

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre de morte ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! mon semblable , mon frère!”

T.S. Eliot — Poesia, Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1981.

T. S. Eliot

The Waste Land

[I. The Burial of the Dead]

APRIL is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

[ . . . ]

Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.
Flowed up the hill and down King William Street,
To where Saint Mary Woolnoth kept the hours
With a dead sound on the final stroke of nine.
There I saw one I knew, and stopped him, crying ‘Stetson!
‘You who were with me in the ships at Mylae!
‘That corpse you planted last year in your garden,
‘Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
‘Or has the sudden frost disturbed its bed?
‘Oh keep the Dog far hence, that’s friend to men,
‘Or with his nails he’ll dig it up again!
‘You! hypocrite lecteur! mon semblable, mon frère!’

[T.S. Eliot — Poesia, Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1981.]

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que o longo poema A Terra Desolada (The Waste Land), publicado pela primeira vez em 1922 na revista Criterion, é composto de 5 tópicos; ora estão expostos e traduzidos dois trechos do primeiro tópico, I. O Enterro dos Mortos (I. The Burial of the Dead).
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Dante Alighieri: Inferno, VII, 73 — 96


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[traduzido por Eugenio Mauro]

[ . . . ]

Ele, cujo saber tudo transcende,
fez os céus e lhes deu quem os conduz:
se em toda parte cada parte esplende

é que igualmente lhes reparte a luz;
do mesmo modo pra pompa mundana
designou uma ministra e deu-lhe jus

de ir permutando a riqueza profana
de um pra outro sangue, e de gente em gente,
livre do alcance da cobiça humana.

Logo, uma gente impera, e languescente
fica a outra então conforme o arbítrio dela,
que é oculto como na relva a serpente.

É vão vosso querer controvertê-la:
em seu reino prevê, julga e procede
ela só, como, noutro, outro deus zela.

Sua contínua permutação não cede;
necessidade o giro lhe apressura,
assim sempre aparece quem sucede.

Ela é posta em odiosa conjuntura
mesmo por quem mais deveria louvá-la
com vã calúnia e infundada censura;

mas, beata, não ouve a vossa fala;
co’as outras primas criaturas, leda
gira sua roda, e sua ventura embala.

[ . . . ]

(A Divina comédia, São Paulo, Editora 34, 1998.)

Dante Alighieri

Inferno, VII, 73 — 96

[ . . . ]

Colui lo cui saver tutto transcende,
fece li cieli e diè lor chi conduce
sí, ch’ogne parte ad ogne parte splende,

distribuendo igualmente la luce.
Similemente a li splendor mondani
ordinò general ministra e duce

che permutasse a tempo li ben vani
di gente in gente e d’uno in altro sangue,
oltre la difension d’i senni umani;

per ch’una gente impera e l’altra langue,
seguendo lo giudicio di costei,
che è occulto come in erba l’angue.

Vostro saver non ha contasto a lei:
questa provede, giudica, e persegue
suo regno come il loro li altri dèi.

Le sue permutazion non hanno triegue;
necessità la fa esser veloce;
sí spesso vien chi vicenda consegue.

Quest’è colei ch’è tanto posta in croce
pur da color che le dovrien dar lode,
dandole biasmo a torto e mala voce;

ma ella s’è beata e ciò non ode:
con l’altre prime creature lieta
volve sua spera e beata si gode.

[ . . . ]

(La Divina Commedia, Milão, Ulrico Hoepli, 1987.)
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Dante Alighieri (1265 1321), nascido em Florença [à época República de Florença, região da Toscana, atual Itália], estudou gramática, retórica, dialética, música, astronomia, geometria e aritmética, foi político e estadista florentino, escritor e poeta; suas obras: La Vita Nuova (Vida Nova, fala do amor platônico de Dante, Beatriz provavelmente Beatrice Portinari), Le Rime (ou Canzoniere, com evocações a Beatriz, Pietra e outros temas), De Vulgari Eloquentia (prosa, na qual defende a língua italiana), Il Convivio (prosa, incompleto, deixou conclusos 4 livros, de um total prometido de 15, nos quais pretendia resumir todo o conhecimento da época) De Monarchia (prosa, tratado em defesa da separação total entre a Igreja e o Estado), Commedia ([La Divina Commedia] ou Divina Comédia, dividida em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, obra elaborada em longos quatorze anos); pela quase totalidade dos biógrafos do poeta, ficamos sabendo que há a ressalva de que muitas das informações a respeito da vida de Dante educação, família e opiniões são apenas suposições; desde 1302 e até o final de sua vida, Dante Alighieri esteve exilado em diversas cidades [comunas] fora da então República de Florença e para onde não podia retornar, sob pena de ser levado à fogueira e consequente morte, já que por inimizades políticas sofrera acusações de corrupção, improbidade administrativa, oposição ao papa, não pagara pesada multa e sofrera banimento; morreu no exílio, em Ravenna.

domingo, 13 de novembro de 2022

William Shakespeare: Que eu não veja empecilhos na sincera . . . [soneto]


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[traduzido por Oscar Mendes]

Soneto CXVI

Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
      E, se se prova que num erro estou,
      Nunca fiz versos nem jamais se amou.

[William Shakespeare]   Obra completatrad.
Oscar Mendes, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995.

William Shakespeare

Sonnet CXVI

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O, no! it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth’s unknow, although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
      If this be error, and upon me prov’d,
      I never writ, nor no man ever lov’d.

William Shakespeare, em Howard Staunton (ed.), The Globe
Illustrated Shakespeare. The Complete Works, Nova York,
Greenwich House, Crown Publishers, 1986, pp. 2297, 2303-4.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Lucrécio: Da Natureza [trecho], livro I. 445 — 458


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[traduzido por Agostinho da Silva]

Portanto, além dos corpos e do vazio, não fica, no número
das coisas, nada que caia em qualquer momento na
denúncia dos nossos sentidos ou que possa ser percebido
pelo raciocínio do espírito. Tudo aquilo que tem um nome,
encontrá-lo-ás ou inerente a uma destas coisas ou como
acidental. É inerente tudo o que não se pode separar ou
abstrair do corpo sem a destruição deste, como, por
exemplo, o peso da pedra, o calor do fogo, o fluido da
água, a tangibilidade de todos os corpos, a intangibilidade
do vazio. Mas a escuridão, a pobreza e a riqueza, a
liberdade, a guerra, a paz, tudo aquilo que, por chegar ou
partir, não modifica a natureza dos corpos, tem, segundo o
nosso costume e como é justo, o nome de acidental.


De natura rerum [trecho], livro I. 445 458

Ergo praeter inane et corpora tertia per se                    [445]
nulla potest rerum in numero natura relinqui,
nec quae sub sensus cadat ullo tempore nostros
nec ratione animi quam quisquam possit apisci.
Nam quae cumque cluent, aut his coniuncta duabus
rebus ea invenies aut horum eventa videbis.                  [450]
coniunctum est id quod nusquam sine permitiali
discidio potis est seiungi seque gregari,
pondus uti saxis, calor ignis, liquor aquai,
tactus corporibus cunctis, intactus inani.
servitium contra paupertas divitiaeque,                         [455]
libertas bellum concordia cetera quorum
adventu manet incolumis natura abituque,
haec soliti sumus, ut par est, eventa vocare.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Titus Lucretius Carus, Tito Lucrécio Caro (99 a.C? 55 a.C.), nascido provavelmente em Roma, de quem temos pouquíssimas informações sobre sua vida, foi poeta e filósofo; chegou até nossos dias uma sua única obra: De rerum natura (Da natureza das coisas), um poema contendo 7 mil versos deixado inacabado, “um tratado epicurista escrito em versos hexamétricos, em gênero didático”, conforme registro de Guilherme Gontijo Flores, em Por que calar nossos amores? — poesia homoerótica latina; afora isso, restam algumas especulações, notícias sem comprovação, e tudo o mais permanece desconhecido; acerca de De rerum natura, neste Poetas que pensaram o mundo, o pensador filósofo Francis Wolff registra ser “a mais longa obra materialista da Antiguidade, o mais importante poema filosófico de todos os tempos, o principal testemunho que nos resta da doutrina epicuriana”; Lucrécio foi contemporâneo de Cícero (106 a.C. 43 a.C.).

sábado, 23 de novembro de 2019

Paul Valéry: Vento do Nordeste

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[traduzido por Michel Déguy (?)]

                    O homem ainda não começou seu trabalho: está ainda preparando suas ferramentas. Quando chegar o momento, dificilmente conservará o nome de homem…
                    (O grande vento que faz, que assobia na lareira, me sopra insanidade.)
                     Que aquisição a memória!…
                    Quando o homem tiver reconhecido que é nada, então poderá começar. Poderá a inteligência ou desaparecer ou substituir tudo? Ela começará a construir.
                    As questões, os enigmas necessários terão sido rebaixados. Nascer, sofrer, morrer não serão mais dificuldades. Haverá muito que a energia, os materiais, os seres vivos auxiliares estarão à disposição. O comércio e a indústria não mais existirão. Haverá uma única ciência e ela será quase inata.
                    A terra será apenas uma cidade. Nada mais se fará naturalmente isto é, às cegas.

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Paul Valéry

Vent du Nord-Est

                    L’homme n’a pas encore commencé son travail: il en est encore à préparer ses outils. Quand le temps sera venu, à peine gardera-t-il ce nom d’homme…
                    (Le grand vent qu’il fait, qui crie dans la cheminée, me souffle des insanités.)
                     Quelle acquisition, la mémoire!…
                    Quand l’homme aura reconnu qu’il n’est rien, alors cela pourra commencer. Alors l’intelligence pourra ou disparaître, ou tout remplacer? Elle commencera à bâtir.
                    Les questions, les énigmes nécessaires auront été avalées. Naître, souffrir, mourir ne feront plus de difficultés. Il y aura longtemps que l’énergie, les matières, les êtres vivants auxiliaires seront à disposition. Le commerce, l’industrie, ne seront plus. Il y aura une seule science et elle sera presque innée.
                    La terre ne sera qu’une ville. Rien ne se fera plus naturellement c’est-à-dire aveuglément.

                    Paul Valéry, VI, 255 [1916], em Poésie perdue,
Paris, Gallimard, 2000, p. 118.
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Poetas que pensaram o mundo — Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Friedrich Hölderlin: Canção do Destino de Hipérion

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[traduzido por Antonio Cicero]

Andais lá em cima na luz
    Em chão macio, gênios felizes!
        Cintilantes brisas divinas
            Tocam-vos de leve
                Como os dedos da artista
                    Cordas sagradas.

Sem destino, qual o lactente
    Adormecido, respiram os divinos;
        Casto, guardado
            Em botão simples
                Floresce-lhes
                    Eterno o espírito
                        E os olhos felizes
                            Fitam em calma
                                Eterna claridade.

Mas a nós não é dado
    Em lugar algum repousar:
        Fenecem, caem
            Os homens sofredores
                Cegamente de uma
                    Hora para outra
                        Como água de penhasco
                            Em penhasco lançada
                                Incessantemente no incerto.

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Friedrich Hölderlin

Hyperions Schicksalslied

Ihr wandelt droben im Licht
   Auf weichem Boden, selige Genien!
      Glänzende Götterlüfte
         Rühren euch leicht,
            Wie die Finger der Künstlerin
               Heilige Saiten.

Schicksallos, wie der schlafende
    Säugling, atmen die Himmlischen;
        Keusch bewahrt
            In bescheidener Knospe,
                Blühet ewig
                    Ihnen der Geist,
                        Und die seligen Augen
                            Blicken in stiller
                                Ewiger Klarheit.

Doch uns ist gegeben,
    Auf keiner Stätte zu ruhn;
        Es schwinden, es fallen
            Die leidenden Menschen
                Blindlings von einer
                    Stunde zur andern,
                        Wie Wasser von Klippe
                            Zu Klippe geworfen,
                                Jahrlang ins Ungewisse hinab.
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Poetas que pensaram o mundo Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen am Neckar, foi poeta lírico, romancista e filósofo; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826) etc.