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domingo, 24 de maio de 2026

Musset: Claustros silenciosos, abóbodas monásticas, . . . [excerto de Rolla, IV]

 

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[traduzido por Gomes Júnior]

Claustros silenciosos, abóbodas monásticas,
Só vós, túmulos frios, só vós sabeis amar!
São vossas naves frias, vossas lousas fantásticas,
Que nunca lábio em fogo beijou sem desmaiar!

Oh! vinde, vinde abrir vossas entranhas frias
Á estes entes lindos, que invejam vossa sorte,
Sobre um macio leito, cercado de magias,
Que é bom unicamente para o sono ou para a morte!

Tocar, por piedade, nos vossos sacrifícios,
Seos corações mimosos, que morrem de langor,
E nas sangrentas dores de bárbaros cilícios
Mostrai-lhes o mistério do vosso puro amor.

Banhai-lhes, pois, as frontes nas águas batismais,
Dizei-lhes quantos anos, com que constância, a sós,
Devem ajoelhar-se nas pedras sepulcrais
Antes de suspeitarem que amàm como vós!

Alfred de Musset

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères, . . .
[Rolla IV, fragment]

[ . . . ]

Cloîtres silencieux, voûtes des monastères,
C’est vous, sombres caveaux, vous qui savez aimer!
Ce sont vos froides nefs, vos pavés et vos pierres,
Que jamais lèvre en feu n’a baisés sans pâmer.
Oh! venez donc rouvrir vos profondes entrailles
À ces deux enfants-là qui cherchent le plaisir
Sur un lit qui n’est bon qu’à dormir ou mourir;
Frappez-leur donc le cœur sur vos saintes murailles,
Que la haire sanglante y fasse entrer ses clous.
Trempez-leur donc le front dans les eaux baptismales,
Dites-leur donc un peu ce qu’avec leurs genoux
Il leur faudrait user de pierres sépulcrales
Avant de soupçonner qu’on aime comme vous!

[ . . . ]

(Rolla: I, II, III, IV and V — 1833)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla: I, II, III, IV and V (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

sábado, 23 de maio de 2026

Goethe: Amável

 
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[traduzido por Daniel Martineschen]

Onde a cor que me apega
firmamento com a altura?
Bruma matutina cega
no meu olho a vista pura.

São as tendas do vizir
que ele fez a suas queridas?
São tapetes desta festa
porque se uniu à preferida?

Rubro e branco, misturados,
nada vi tão belo assim;
pode o teu Xiraz, Hafez,
vir ao norte triste, enfim?

Sim, é o colorido ópio
que se estende à vizinhança,
e causando em Marte opróbrio,
cobre os campos com pujança.

Que o sabão ainda cultive
flores lindas de uma renda,
e como hoje, o sol se altive
e as clareie em minha senda!

(Divã Ocidento-Oriental —
Livro do Cantor)

Goethe

Liebliches

Was doch Buntes dort verbindet
Mir den Himmel mit der Höhe?
Morgennebelung verblindet
Mir des Blickes scharfe Sehe.

Sind es Zelte des Wesires,
Die er lieben Frauen baute?
Sind es Teppiche des Festes,
Weil er sich der Liebsten traute?

Rot und weiß, gemischt, gesprenkelt,
Wüßt ich Schönres nicht zu schauen;
Doch wie Hafis kommt dein Schiras
Auf des Nordens trübe Gauen?

Ja, es sind die bunten Mohne,
Die sich nachbarlich erstrecken
Und, dem Kriegesgott zum Hohne,
Felder streifweis freundlich decken.

Möge stets so der Gescheute
Nutzend Blumenzierde pflegen
Und ein Sonnenschein, wie heute,
Klären sie auf meinen Wegen!

(West-östlicher Divan
Moganni Nameh: Buch des Sängers)
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Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

Goethe: Quietude no Oceano

 
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[traduzido por Ary de Mesquita]

Um silêncio desceu, profundo, sobre as águas,
E sem arfar sequer repousa o velho mar;
Entanto o pescador, a ruminar as mágoas,
Volve lasso, em redor, os olhos devagar.
Não há nenhum rumor por mais sutil e brando,
Não há no mar ou no ar vagas nem viração...
Só existe o silêncio imenso amortalhando
A impassível aquosa e límpida amplidão.

Johann Wolfgang von Goethe

Meeres Stille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche ringsumher.
Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.

[Gedichte — Erster Band]
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Clássicos Jackson, Volume XXXVIII — Poesia, 1º. Volume — [vários autores e tradutores], Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1964, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, iniciou sua formação em Direito pela universidade de Leipzig e a concluiu em Strassburg, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; em casa, aprendeu as primeiras letras com o pai [consta ter aprendido italiano, estudado latim, grego e história “ainda menino”]; Goethe realizou seus primeiros poemas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (peça pastoral em versos, 1768), Götz von Berlinchingen (drama histórico em 5 atos, 1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, romance, 1774), Clavigo (tragédia em 5 atos, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Römische Elegien (Elegias Romanas, 24 poemas, 1788-1’790), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling, balada, 1797), Hermann e Dorothea (poema épico, 1798), Die natürliche Tochter (drama em verso, 18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (romance, 1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, coleção de poemas, 1819, e versão ampliada em 1827), Gedichte (Poesias: baladas, lieder, sonetos, etc.); Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

terça-feira, 19 de maio de 2026

e. e. cummings: "do não do engodo advém..."

 
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[traduzido por Nelson Ascher]

do não do engodo advém
a verdade de um sim
(só ela mesma e quem
é sem jamais ter fim)

e assim todo demente
(como eu no inverno) aceita
que assunto algum da mente
vale uma violeta

e. e. cummings

“out of the lie of no . . .”

out of the lie of no
rises a truth of yes
(only herself and who
illimitably is)

making fools understand
(like wintry me) that not
all matterings of mind
equal one violet
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; e. e. cummings (1894 1962), ou Edward Estlin Cummings, estadunidense de Cambridge, Massachusetts, estudou na Harvard University, graduou-se em Artes e recebeu o título de Mestre, especializou-se em literatura greco-latina na Cambridge Latin High School, foi poeta de vanguarda, pintor, ensaísta e dramaturgo; escrevia poemas “diariamente” desde os oito anos; em 1917, ainda estudante, teve seus primeiros poemas publicados na coletânea Eight Harvard Poets; após formar-se trabalhou para um livreiro; andejou pela Europa e África, inscreveu-se como voluntário na primeira guerra mundial; em 1923, veio à luz sua coletânea poética de estreia: Tulips and Chimneys; trabalhou como ensaísta e retratista para a revista Vanity Fair, suas obras: The Enormous Room (1922), Tulips and Chimneys (1923), &, XLI Poems (ambos em 1925), is 5 (1926), Him (teatro, 1928), W (ViVa, 1931), CIOPW (“charcoal, ink, oil, pencil, watercolor”, desenhos e pinturas, 1931), No Thanks (1935), Collected Poems (1938), 1 x 1 (1944), Santa Claus: A Morality (teatro, 1946), XAIPE: Seventy-One Poems (1950), 95 Poems (1948), 73 Poems (phosthumous, 1963) etc.; cummings também escreveu livros para o mundo infantil; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 16 de maio de 2026

Sylvia Plath: Ovelha na névoa

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Colinas mergulham na brancura.
Estrelas ou pessoas
Me olham com tristeza, desapontadas comigo.

Um fio de hálito fica no caminho.
Ó, lento
Cavalo cor de ferrugem,

Cascos, sinos doendo
A manhã toda
Manhã ainda escurecendo,

Essa flor ao relento.
Meus ossos sentem um sossego, os campos
Distantes dissolvem meu coração.

Eles ameaçam
Me abandonar por um céu
Sem estrelas e órfã, água escura.

Sylvia Plath

Sheep in Fog

The hills step off into whiteness.
People or stars
Regard me sadly, I disappoint them.

The train leaves a line of breath.
O slow
Horse the colour of rust,

Hooves, dolorous bells
All morning the
Morning has been blackening,

A flower left out.
My bones hold a stillness, the far
Fields melt my heart.

They threaten
To let me through to a heaven
Starless and fatherless, a dark water.

2 December 1962 / 28 January 1963
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; viveu na Inglaterra desde 1956 ao se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ted Hughes: Horóscopo

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Você queria estudar
Os seus astros os carcereiros
Da sua prisão, o zodíaco. Os planetas
Murmuravam fórmulas babilônicas
Como os ossos de um xamã. Você temia, com razão,
Que os ossos rugissem muito alto,
Que um ouvido captasse com clareza
O que os ossos sussurravam
Ainda que imersos em carne cálida.

Mas você não precisava calcular
Os graus do seu disruptor do ascendente
Em Áries. Nenhum significado definido nada mais,
Segundo o livro babilônico,
Que um rosto marcado. Que mágico
Poderia enxergar mais fundo sob a pele?

Para você, bastava olhar
No rosto mais próximo de uma metáfora
Tirada do seu armário ou de seu prato
Ou então do sol, da lua ou dos teixos
Para ver seu pai, sua mãe, ou a mim
A lhe trazer todo o seu Destino.

Ted Hughes

Horoscope

You wanted to study
Your stars the guards
Of your prison yard, their zodiac. The planets
Muttered their Babylonish power-sprach
Like a witchdoctor's bones. You were right to fear
How loud the bones might roar
How clear an ear might hear
What the bones whispered
Even embedded as they were in the hot body.

Only you had no need to calculate
Degrees for your ascendant disruptor
In Aries. It meant nothing certain no more
According to the Babylonian book
Than a scarred face. How much deeper
Under the skin could any magician peep?

You only had to look
Into the nearest face of a metaphor
Picked out of your wardrobe or off your plate
Or out of the sun or the moon or the yew tree
To see your father, your mother, or me
Bringing you your whole Fate.
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Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 1998), inglês de Mytholmroyd Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazineModern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1º número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, companheira de Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por um fogão a gás, matando também sua filha cujo pai era Ted Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, sofreu suicídio por enforcamento [não era casado nem tinha filhos].

terça-feira, 12 de maio de 2026

Elizabeth Barrett Browning: Como eu te amo

 
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(traduzido por Fernando Torquato Oliveira)

De que maneira eu te amo? Impossível dizer.
Eu te amo em dimensões de abismo e de altitude,
onde a alma ainda alcança o azul da plenitude,
no limite do ideal, além do próprio ser.

Eu te amo dia a dia, em nímia beatitude,
desde a luz da manhã à luz do anoitecer;
eu te amo livremente, ou sem leis nem poder;
eu te amo com orgulho, e com terna atitude.

Eu te amo com o raro amor dos desencantos,
com a fé infantil, que permanece forte,
com o estranho calor dos crentes e dos santos.

Eu te amo com paixão, com lágrimas, transporte.
E se Deus o quiser, implorando em meus prantos,
amar-te-ei, também, depois da própria morte!

Elizabeth Barrett Browning

Sonnet 43
How do I love thee?

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.

I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right;
I love thee purely, as they turn from praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

(Sonnets from the Portuguese — 1847)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Elizabeth Barrett Browning (1806 1861), inglesa de Coxhoe Hall, Durham, foi poetisa do Romantismo e da época vitoriana; autodidata, exceto por ter recebido “algumas instruções de grego e latim de um tutor que vivia com a família e ajudava seu irmão Edward”, ainda aos dez anos de idade, já havia lido várias peças de Shakespeare, traduções homéricas, de Pope, histórias da Inglaterra, Grécia e Roma e, logo após, peças de Racine e Molière, o Inferno, de Dante; todo o Antigo Testamento, em hebraico, Tom Paine, Voltaire, Rousseau e Mary Wollstonecraft; aos 15 anos de idade, tornou-se praticamente inválida por problemas de coluna e, depois, teve sua saúde agravada por complicações pulmonares; em 1846, casando-se com o também poeta Robert Browning, mudou-se para Florença Itália, ali vivendo pelo resto da vida; Elizabeth escreveu seu primeiro poema aos 12 anos, The Battle of Marathon (A Batalha de Maratona), em 4 tomos, que seu pai mandou imprimir; suas obras: An Essay on Mind and Other Poems (Um Ensaio sobre a Mente e Outros Poemas, 1826), Prometheus e Outros Poemas (1833), The Seraphim and Other Poems (Serafim e Outros Poemas, 1838), Sonnets from the Portuguese (Sonetos da Portuguesa, 1847), Casa Guidi Windows (Janelas da Casa Guidi, 1851), Aurora Leigh (1856), Poems Before Congress (Poemas Perante o Congresso, 1860) e outros, além de textos em prosa; traduziu a peça Prometeu Acorrentado (Prometheus Bound) atribuída a Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga.

domingo, 10 de maio de 2026

Tristan Corbière: Paris diurna

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ver grande esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de refeição, maná, úmido em suor
Sempre o prato do dia e úmido de amor.

Os cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados também, canecas a virar;
O mísero tirita esperando seu turno.

Crês assim que o sol frita para todo mundo
Gordas férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o caldo do cão em nós cai lá do céu.

Eles sob o luzir e nós sob a goteira,
Para nós, desventura sem a lumeeira.
Nossa própria substância é o saco de fel.


Paris diurne

Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.

Les laridons en cercle attendent près du four,
On entend vaguement la chair rance bruire,
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire;
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.

Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde?
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.

Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874, Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

sábado, 9 de maio de 2026

Goethe: Confissão


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[traduzido por Daniel Martineschen]

O que é ruim de esconder? O fogo!
Se ao dia a fumaça o trai
à noite a chama o monstro, o ogro.
Difícil de esconder ainda mais,
O amor: guardado em cura calma,
pula ágil pra fora da alma.
O pior mesmo é esconder um poema:
pois cobri-lo dá o maior problema.
Se o poeta o recém-cantou,
de poesia se encharcou;
se o poeta o escreveu com classe,
quer que todo o mundo o abrace.
A todos lê, alegre e forte.
Azar de nós ou será sorte?

(Divã Ocidento-Oriental
Livro do Cantor)

Goethe

Geständniss

Was ist schwer zu verbergen? Das Feuer!
Denn bei Tage verrät’s der Rauch,
Bei Nacht die Flamme, das Ungeheuer.
Ferner ist schwer zu verbergen auch
Die Liebe; noch so stille gehegt,
Sie doch gar leicht aus den Augen schlägt.
Am schwersten zu bergen ist ein Gedicht;
Man stellt es untern Scheffel nicht.
Hat es der Dichter frisch gesungen,
So ist er ganz davon durchdrungen.
Hat er es zierlich nett geschrieben,
Will er, die ganze Welt soll’s lieben.
Er liest es jedem froh und laut,
Ob es uns quält, ob es erbaut.

(West-östlicher Divan
Moganni Nameh: Buch des Sängers)
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Goethe: Divã Ocidento-Oriental, bilíngue [+ Notas e Ensaios para melhor compreensão do Divã Ocidento-Oriental], Tradução e Posfácio de Daniel Martineschen e Apresentação de Marcus Mazzari, 1ª edição, 2020, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...