sexta-feira, 31 de julho de 2015

Paul Verlaine: O céu acima do telhado

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[tradução de José Lino Grünewald]

O céu acima do telhado
                  Tão azul, calmo!
A árvore acima do telhado
                  Embala a palma.

O sino, que no céu se vê,
                  Suave, soa.
A ave que na árvore se vê
                  A dor entoa.

Meu Deus, meu Deus, a vida é lá,
                  Simples, tranqüila.
Esse plácido rumor lá
                  Vem lá da vila.

 Que fizeste, tu, que lá estás
                  Choras saudade,
Diga, que fizestes, tu, que lá estás
                  Da mocidade?

Paul Verlaine

Le ciel par-dessus le toit...

Le ciel est, par-dessus le toit,
            Si bleu, si calme!
Um arbre, par-dessus le toit,
            Berce sa palme.

La cloche, dans le ciel que’on voit,
            Doucement tinte,
Um oiseau sur l’arbre qu’on voit,
            Chante sa plainte.

Mon Dieu, mon Dieu, la vie est là,
            Simple et tranquille.
Cette paisable rumeur-là,
            Vient de la ville.

 Qu’as-tu fait, ô toi que voilà
            Pleurant sans cesse,
Dis, qu’as-tu fait, toi que voilà,
            De ta jeunesse?
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

racismo:

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racismo, comportamento.

Maria Rita Kehl: recurso

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O método faz milagres.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.

O método tece uma teia 
horários  rotas de ônibus  receitas 
telefonemas na 6a. 
caderninhos 

quando a trama é bem firme cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.

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Processos Primários — poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho 1996, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro, ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Processos Primários — poemas (1996), Deslocamento do Feminino — A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011), etc; ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Francesco Petrarca: Os olhos que cantei ardentemente [Soneto CCXCII]

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[tradução de Ivo Barroso]

Os olhos que cantei ardentemente
E os seus braços, e as mãos, e os pés, e o viso,
Tudo que fez de mim, me achar diviso
E estranho parecer a toda gente;

A cabeleira de ouro reluzente
e o lampejar do angélico sorriso
Que faziam da terra um paraíso,
Tudo é desfeito em pó, que nada sente.

Contudo eu vivo; e disso me desdenho,
Pois fiquei sem a luz que amava tanto,
Vogasse em firme ou desarmado lenho,

Que chegue ao termo este amoroso canto:
Secou-se a veia do inspirado engenho
E a minha lira se desfez em pranto.

Petrarca

CCXCII

Gli occhi di ch’io parlai sí caldamente,
E le braccia, e le mani, e i piedi e ’l viso,
Che m’avean sí da me stesso diviso,
E, fatto singular da l’altra gente;

Le crespe chiome d’òr puro lucente,
E’l lampeggiar de l’angelico riso
Che solean fare in terra un paradiso,
Poca polvere son, che nulla sente.

Et io pur vivo; onde mi doglio e sdegno,
Rimaso senza ’l lume ch’amai tanto,
In gran fortuna, e ’n disarmato legno.

Or sia qui fine al mio amoroso canto:
Secca è la vena de l’usato ingegno,
E la cetera mia rivolta in pianto.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304  1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, África  épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Dora Ferreira da Silva: Nascimento do poema

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É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

                         (Transcrito de Poesia Reunida  1999, pág. 39)

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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Dora Ferreira da Silva (1918  2006), paulista de Conchas, foi poetisa e tradutora; foi co-fundadora da revista Diálogo (anos 50, ao lado do marido e filósofo Vicente Ferreira da Silva) e criou a revista Cavalo Azul (final dos anos 60) para difusão de poesias; escreveu e publicou Andanças (1970, reúne poemas de 1948 a 1970), Uma via de ver as coisas (1973), Menina seu mundo (1976), Jardins  esconderijo (1979), Talhamar (1982), Retratos da origem (1988), Poemas da estrangeira (1996), Poemas em fuga (1997), Poesia reunida (1999), Hídrias (2005) etc.; traduziu obras de Rainer Maria Rilke, Hölderlin, Carl Gustav Jung, San Juan de La Cruz, Angelus Silesius e outros; recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura (1996 e 2005) por Poemas da estrangeira e Hídrias e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (1999), por Poesia Reunida.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Maria Rita Kehl: corte de cabelos para ficar triste

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Tipo faça-você-mesma. Trabalho incansável.
Pode durar uma noite  ou mais  fio por fio 
a memória na ponta da tesoura,
obcecada.
Medo crescente. Medo até a paixão.
Ou até conferir pelo espelho:
aquela lá morreu mesmo.

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Processos Primários — poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho, 1996, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro, ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Processos Primários — poemas (1996), Deslocamento do Feminino — A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011), etc; ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país.

domingo, 26 de julho de 2015

Affonso Ávila: Discurso da difamação do poeta 11 / Pobre velha música

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O poeta falava e as pessoas o ouviam atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas às vezes o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e algumas pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava mas raras pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas o ouviam sem atenção

O poeta falava e as pessoas já não o ouviam

O poeta falava e as pessoas já o olhavam sem ouvir

O poeta mal fala e as pessoas já abrem a boca em fastio

A ATITUDE DIANTE DO POETA É O BOCEJO

(Transcrito de Discurso da difamação
 do poeta  1978, pág. 103)

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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Affonso Celso Ávila (1928  2012), mineiro de Belo Horizonte, foi ensaísta, jornalista, crítico, pesquisador e poeta; colaborou com os jornais Diário de Minas, Estado de Minas e foi colunista do Estado de São Paulo, entre outros periódicos; foi co-fundador da revista de vanguarda Tendência e participou da revista Invenção, voltada para o concretismo; escreveu e publicou O açude e Sonetos da descoberta (poesias, ambos em 1953), Carta do solo (poesias, 1961) Frases-feitas (poesias, 1963), Resíduos Seiscentistas em Minas (ensaio, dois volumes, 1967), O poeta e a consciência crítica (ensaio, 1969), Gertrude’s instante (poema-postal, 1969), Código de Minas e Poesia anterior (ambos em 1969), O lúdico e as projeções do mundo barroco (ensaio, 1971), Código nacional de trânsito (poesias, 1972), Cantaria barroca (1975), Modernismo (ensaio, 1975), Discurso da difamação do poeta (poesias, 1976), Delírios dos cinquent’anos (1984), e outros títulos; foi vencedor de prêmios por suas publicações.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Guilherme de Almeida: O pequenino livro em que me atrevo . . . [soneto]

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I

O pequenino livro, em que me atrevo
a  mudar numa trêmula cantiga
todo o nosso romance, ó minha amiga,
será, mais tarde, nosso eterno enlevo.

Tudo o que fui, tudo o que foste eu devo
dizer-te: e tu consentirás que o diga,
que te relembre a nossa vida antiga,
nos dolorosos versos que te escrevo.

Quando, velhos e tristes, na memória
rebuscarmos a triste e velha história
dos nossos pobres corações defuntos,

que estes versos, nas horas de saudade,
prolongarem numa doce eternidade
os poucos meses que vivemos juntos.

Nós  1917


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Messidor, poesias (coletânea: Nós, A Dança das Horas, Suave Colheita ), sem data, Círculo do Livro, São Paulo SP; Guilherme de Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, além de jurista e professor de direito, foi poeta, jornalista, cronista social, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator em diversos periódicos paulistanos, entre eles O Estado de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haikais em português", inicia-se após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; escreveu e publicou, em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), O anjo de sal (1951), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948); e muitos outros títulos em verso e prosa, além de várias traduções, entre estas, Flores do Mal, de Baudelaire, e Paralelamente, de Verlaine.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

João Antônio: Camponesa

joao-antonio-neto
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Quando o sol acorda os ninhos,
Ela vai, ridente e grata,
Colhendo por entre espinhos,
As ternas flores da mata.

Os cândidos passarinhos,
Em matinal serenata,
Vão ouvir pelos caminhos
Os cantos que ela desata.

E colhe as flores mais belas,
Brancas, rosas, amarelas,
Que sobre a estrada se deitam...

E vendo-as, não sei, senhores,
Se são flores que a enfeitam,
Ou se ela que enfeita as flores!...
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João Antônio Neto, natural de Couto de Magalhães TO (Ex-Goiás), nasceu em 1920, formou-se advogado, foi professor universitário em áreas do Direito e das Letras e é desembargador aposentado e poeta; ocupa a cadeira 25 da Academia Mato-Grossense de Letras; escreveu e publicou Vozes do Coração (poesia, 1941), Três gerações (1949), Poliedro (1970), Remanso (1982), Silhuetas (1988) e outros títulos na área do Direito.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Paulo Bomfim: Do caos

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Invento este soneto onde procuro
Surgir de um ventre de palavras novas,
Nascer de mim, de ti, de tantas provas
Que me iniciam como um deus futuro.

Modelo sensações num mundo escuro
Onde semeio o corpo pelas covas,
Berços de terra, fonte onde renovas
As vidas que guardaste com meu muro.

Enquanto pelo céu as grandes naves
Vão sangrando de azul as descobertas
E os anjos vão ficando inda mais graves,

Invento este soneto de granizo,
Ferindo em minhas folhas entreabertas,
O caos que se transforma num sorriso.

(Sonetos da vida e da morte — 1963)

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Paulo Bomfim — Poemas Escolhidos, Introdução de Nogueira Moutinho, 1973, Círculo do Livro, São Paulo — SP;  Paulo Lébeis Bomfim, nascido em 1926, paulista e paulistano, é jornalista e poeta; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo, colaborando também com o Diário de Notícias, do Rio; sua obra poética de estréia, Antônio Triste (com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada, no ano seguinte, com o prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; depois, vieram Transfiguração (1951), Relógio de sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), O colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004) etc.; atuou na Fundação Cásper Líbero, produziu e participou de programações para rádio e televisão.