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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sully Prudhomme: O Ideal

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[traduzido por Cruz Filho]

Cheio de astros é o céu, e grande a lua;
A terra toda é só palor estremo
E o espírito do mundo no ar flutua.
— Sonho com a estrela de esplendor supremo,

A que em nosso horizonte ainda não erra,
Mas cuja luz percorre a imensidade
E há de um dia, afinal, chegar à terra,
Para encantar os olhos de outra idade.

Quando luzir, num século remoto,
Essa estrela longínqua e soberana,
Dizei-lhe que ela em mim teve um devoto,
Ó últimas mortais da raça humana!

(Do livro a publicar, Toda a Musa.)
[Toda Musa — poesia completa,
Cruz Filho, publicado em 1965]

Sully Prudhomme

L’Idéal

À Paul Sédille

La lune est grande, le ciel clair
Et plein d’astres, la terre est blême,
Et l’âme du monde est dans l’air.
Je rêve à l’étoile suprême,

À celle qu’on n’aperçoit pas,
Mais dont la lumière voyage
Et doit venir jusqu’ici-bas
Enchanter les yeux d’un autre âge.

Quand luira cette étoile, un jour,
La plus belle et la plus lointaine,
Dites-lui qu’elle eut mon amour,
Ô derniers de la race humaine!

[Stances et Poèmes — 1865]
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sully Prudhoume: Sei de um louco que, embalde, incessante, à porfia . . . [soneto]

 
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[traduzido por Fontoura Xavier*]

Sei de um louco que, embalde, incessante, à porfia
Busca uma flor que vira um dia na Alemanha,
Flor mais rara e ideal que a edelweiss da montanha,
De um perfume sutil e vago que inebria.

Existe acaso a flor? ou foi na fantasia
Do louco que surgiu essa quimera estranha?
Não sei, sei que um encanto excêntrico acompanha
Essa flor que ele viu pela Alemanha um dia.

Diz ele que ao beijar a encantada corola
Outro mundo, outro céu no perfume se evola
E sente-se na flor uma alma que suspira.

E o louco em vão procura a flor que um orbe expande,
Mas a flor é tão rara, a Alemanha é tão grande...
E ele definha e morre enquanto em sonho a aspíra.

Sully-Prudhomme

La Folle

Errante, elle demande aux enfants d'alentour
Une fleur qu'elle a vue un jour en Allemagne,
Frêle, petite et sombre, une fleur de montagne.
Au parfum pénétrant comme un aveu d'amour.

Elle a fait ce voyage, et depuis son retour
L'incurable langueur du souvenir la gagne:
Sans doute un charme étrange et mortel accompagne
Cette fleur qu'elle a vue en Allemagne un jour.

Elle dit qu'en baisant la corolle on devine
Un autre monde, un ciel, à son odeur divine,
Qu'on y sent l'âme heureuse et chère de quelqu'un.

Plusieurs s'en vont chercher la fleur qu'elle demande,
Mais cette plante est rare et l'Allemagne est grande;
Cependant elle meurt du regret d'un parfum.

Les Épreuves (1866)

* Nota de Mello Nóbrega, tradutor de Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme...:
(Soneto incluído no livro Opalas. Colhemo-lo nas Notas de Múcio Leão às Poesias Completas de Raimundo Correia, vol. II [‘A Louca’, La Folle]. É curiosa a particularidade de o tradutor haver mudado o sexo da figura criada por Sully Prudhomme, sem qualquer motivo explicável.)
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quinta-feira, 5 de março de 2026

Sully Prudhomme: A jarra fendida

 
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[traduzido por Heitor Práguer Fróis]

A jarra em que este ramo de verbenas
Fenece por um leque foi rachada:
O choque foi na superfície apenas,
E não se ouviu ruído de pancadas...

Mas aquela fratura desprezível,
Incisando o cristal, tanto cresceu
Que, em progressão fatal, imprevisível,
Fez toda a volta, e a jarra se fendeu.

A fresca linfa aos poucos foi-se embora;
As flores estão já quase sem vida,
E ninguém o notou até agora...
Ai! não a toques, que ela está fendida!

Da mão querida quanta vez um gesto
O coração magoa e o faz sofrer...
E, em breve, sem queixume e sem protesto,
As flores desse amor vão fenecer!

Intacto sempre, no parecer do mundo,
O coração também guarda escondido
O seu sofrer, o seu penar profundo...
Ai! não o toques, que ele está ferido!

(Meus Poemas... dos Outros [Heitor
Práguer Fróis], Bahia, 1952.)

Sully Prudhomme

Le vase brisé

Le vase où meurt cette verveine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut effleurer à peine.
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime,
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.

[Stances et poèmes — 1865]
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sully-Prudhomme: Solitude

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[traduzido por Carlindo Lellis*]

Quando um poema componho em torturados
Hemistíquios, não os mais perfeitos
Pensamentos que tenho: os mais amados
Versos que eu imagino não são feitos.

Como em redor de flores, borboletas
O esplendor de asas lépidas agitam,
Em torno deste ideal, às brandas setas
De um sol de ouro, estival, versos palpitam.

Logo, porém, que os toco, o leve bando
Desfaz-se... à minha dor constante e viva
O pólen de íris fúlgido deixando
Da asa tremendo, delicada, esquiva.

Sully Prudhomme

Au Lecteur

Quand je vous livre mon poème,
Mon cœur ne le reconnaît plus:
Le meilleur demeure en moi-même,
Mes vrais vers ne seront pas lus.

Comme autour des fleurs obsédées
Palpitent les papillons blancs,
Autour de mes chères idées
Se pressent de beaux vers tremblants;

Aussitôt que ma main les touche
Je les vois fuir et voltiger,
N’y laissant que le fard léger
De leur aile frêle et farouche.

(Stances et Poèmes — 1865)

* Nota de Mello Nóbrega, tradutor de Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme...:
(Tradução ou, melhor, paráfrase do poema liminar de Stances et Poèmes, de que abrange apenas as três primeiras estrofes. Texto colhido na Antologia de Poetas Franceses — Do século XV ao século XX —, organizada por [R.] Magalhães Júnior. [Au Lecteur, no original, contém 5 estrofes])
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

domingo, 3 de agosto de 2025

Giosuè Carducci: Matinas e Noturno

 
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[traduzido por A. Herculano de Carvalho]

Da chuva da manhã, por fim, emerso,
Na pureza do azul o céu resplende,
E deste sol de maio ao universo,
O sorriso de Deus, lento, descende;

Quando álacre, ao espírito submerso,
Asas de luz, meu pensamento estende
E ao sol dos olhos teus voa meu verso
Como a trinar dum pássaro que ascende.

Mas sinto ardor no peito essa luz turva
Das pupilas, nas quais vagueia e fala
Um desejo de ignoto e estranho fito,

Quando a lua contemplo, erma de chuva,
A cidade marmórea que se cala,
Contar melancolias do infinito.


XXII.

Mattutino e notturno

Al mattin da la pioggia ecco deterso
In purità d’azzurro il ciel risplende,
E dal sole di maggio a l’universo
Il sorriso di Dio benigno scende;

Quando alacre da l’animo sommerso
L’ali innovate il mio pensiero stende,
E al sol de gli occhi tuoi rivola il verso
Come trillo di lodola che ascende.

Ma sento ardermi in cor la luce bruna
De le pupille in cui erra dolente
Il desio d’un ignoto estraneo lito,

Quando ammiro da i poggi ermi la luna
A la città marmorea tacente
Dir le malinconie de l’infinito.

[Verona, 17 luglio 1883]

(Rime nuove/Libro II — 1887),
[Rime nuove, libro II — 1906].
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 — 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais — o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, e Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século — o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Frédéric Mistral: Miréia* — Canto segundo — A Colheita [trecho]

 
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— trecho: seis primeiras estrofes —

[traduzido por Manuel Bandeira]

Canto segundo

A Colheita

       Cantai, cantai, ó raparigas!
       Pois a colheita é cantadeira.
Dormem o seu terceiro sono os belos sirgos,
       Sobre as amoreiras as moças,
       Que o bom tempo alvoroça e alegra,
       São como um enxame de loucas
Abelhas a roubar o mel aos rosmaninhos.

       Despojai das folhas os ramos!
       Cantai, cantai, ó raparigas!
Miréia está entre vós nesta manhã de maio.
       Nesta manhã colocou ela
       Por brincos em suas orelhas,
       A faceira! duas cerejas...
Nesta manhã Vicente outra vez passou lá.

       Ao seu gorro escarlate, à moda
       Das gentes dos mares latinos,
Trazia ansiosamente uma pena de galo.
       Pisando firme o chão da estrada,
       Pondo em fuga as serpes vadias,
       A golpes de bastão tangia
Para longe as sonoras pedras do caminho!

       — “Ó Vicente”, lhe diz Miréia
       Do meio dos verdes carreiros,
“Muito apressado vais!” O rapaz, prestemente,
       Vira-se para donde viera
       A voz, e lá, numa amoreira,
       Pousada como uma calhandra,
Descobriu a menina e abordou-a contente,

       — “Miréia! Então? Boa colheita?”
       — “Eh, vai indo, vai indo aos poucos.”
— “Quer que a ajude?” — “Pois sim.” E enquanto ela
       Trepava na amoreira, e ria, aos gritinhos,
       Vicente, pisando nos trevos,
       Subiu a árvore como um rato.
— “Mestre Ramon só tem uma filha, Miréia!

       “Fique nos galhos baixos, deixe
       Os altos para mim.” Ligeira,
Correndo a mão no ramo: — “Assim, em companhia,
       O trabalho não aborrece!
       Sozinha, dá uma preguiça!”
       Disse. — “Eu também, o que me amola”,
Secundou o rapaz, “é justamente isso.

[ . . . ]

Frédéric Mistral

Mirèio

Cant segound

La culido

       Cantas, cantas, magnanarello,
       Que la culido es cantarello!
Galant soun li magnan e s’endormon di tres;
       Lis amourié soun plen de fiho
       Que lou bèu tèms escarrabiho,
       Coume un vòu de blóundis abiho
Que raubon sa melico i roumanin dóu gres.

       En desfuiant vòsti verguello,
       Cantas, cantas, magnanarello!
Mirèio es à la fueio, un bèu matin de Mai.
       Aquéu matin, pèr pendeloto,
       A sis auriho, la faroto!
       Avié penja dos agrioto...
Vincèn, aquéu matin, passè 'qui tournamai.

       A sa barreto escarlatino,
       Coume an li gènt di mar latino,
Avié poulidamen uno plumo de gau;
       E’n trapejant dins li draiolo
       Fasié fugi li serp courriolo,
       E di dindànti clapeirolo
Emé soun bastounet bandissié li frejau.

       — O Vincèn, ié faguè Mirèio
       D’entre-mitan li vèrdi lèio,
Passes bèn vite, que! — Vincenet tout-d’un-tèm
       Se revirè vers la plantado,
       E, sus un amourié quihado
       Coume uno gaio couquihado,
Destouquè la chatouno, e ié landè, countènt.

       — Bèn? Mirèio, vèn bèn la fueio?
       — He! pau-à-pau tout se despueio...
— Voulès que vous ajude? — O!... Dóu tèms qu’eilamount
       Elo risié jitant de siéule,
       Vincèn, picant dóu pèd lou tréule,
       Escalè l’aubre coume un gréule.
— Mirèio, n’a que vous lou vièi Mèste Ramoun:

       Fasès li baisso! aurai li cimo,
       Iéu, boutas! — E’mé sa man primo,
Elo en mousènt la ramo: — Engardo de langui
       De travaia 'n pau en coumpagno!
       Souleto, vous vèn une cagno!
       Dis. — Iéu peréu ço que m’enlagno,
Respoundeguè lou drole, èi just acò-d’aqui.

[ . . . ]

— o -—

Mireille

Chant second

La Cueillette

       Chantez, chantez, magnanarelles! car la cueillette aime les chants. Beaux sont les vers à soie, et ils s’endorment de leur troisième somme; les mûriers sont pleins de jeunes filles que le beau temps rend alertes et gaies, telles qu’un essaim de blondes abeilles qui dérobent leur miel aux romarins des champs pierreux.

       En défeuillant vos rameaux, chantez, chantez, magnanarelles! Mireille est à la feuille, un beau matin de mai: cette matinée-là? pour pendeloques, à ses oreilles, la coquette avait pendu deux cerises.... Vincent, cette matinée, passa là de nouveau.

       A son bonnet écarlate, comme en ont les riverains des mers latines il avait gentiment une plume de coq; et en foulant les sentiers, il faisait fuir les couleuvres vagabondes, et des sonores tas de pierres avec son bâton il chassait les cailloux.

       O Vincent! lui cria Mireille du milieu des vertes allées, pourquoi passes-tu si vite! Vincent aussitôt se retourna vers la plantation, et, sur un mûrier perchée comme une gaie coquillade, il découvrit la fillette, et vers elle vola, joyeux.

       Eh bien! Mireille, vient-elle bien, la feuille? Eh! peu à peu tout (rameau) se dépouille. Voulez-vous que je vous aide? Oui! Pendant qu’elle riait là-haut en jetant de folâtres cris de joie, Vincent, frappant du pied le trèfle, grimpa sur l’arbre comme un loir. Mireille, il n’a que vous, le vieux maître Ramon:

       Faites les branches basses! j’atteindrai les cimes, moi, allez! Et de sa main légère, celle-ci trayant la ramée: Cela garde d’ennui, de travailler (avec) un peu de compagnie! Seule, il vous vient un nonchaloir! dit-elle. Moi de même, ce qui m’irrite, répondit le gars, c’est justement cela.

[ . . . ]

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado trecho do discurso de recepção proferido pelo poeta C[arl]. D[avid]. af Wirsén, “por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de Literatura” a Frédéric Mistral, no dia 10 de dezembro de 1904, na Academia Sueca:
          . . . “Em outras poesias líricas, Mistral fez valer com calor os direitos do neoprovençal a uma existência independente, procurando ao mesmo tempo protegê-lo contra toda tentativa de descrédito ou de negligência.
          O poema em forma de novela, Nerto, oferece à admiração dos leitores páginas lindíssimas. Mas a narrativa épica Lou Poeumò dou Rose tem maior profundidade. Composta por um poeta de sessenta e sete anos, é todavia cheia de vida, e nada mais cativante do que as numerosas pinturas que apresenta das regiões banhadas pelo Ródano. Que tipo soberbo aquele altivo e pio capitão de navio Aprau, que julga que para aprender a rezar é preciso ser marinheiro! E eis aqui um delicioso quadro: uma noite, a filha do piloto, Anglora, cuja imaginação se alimentara de velhas lendas, julgou ter visto, nas ondas do Ródano iluminado pela lua, o deus do rio, Lou Dra, e imagina ter sido tocada por ele. Aqui o próprio verso parece fluir e cintilar ao luar.
          Em suma, as obras de Mistral são todas monumentos elevados à glória de sua cara Provença.” . . .
O longo poema Mirèio (Mireille, Miréia), uma narrativa épica escrita originalmente no dialeto occitano/provençal, é composto por 12 cantos distribuídos em quase 900 estrofes que perfazem mais de 5.000 versos no total.
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Miréia: Frédéric Mistral, Tradução de Manuel Bandeira, Estudo Introdutivo de André Chansom, Ilustrações de Yves Brayer, Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Frédéric Mistral, por Dr. Gunnar Ahlström, Discurso de Recepção pronunciado pelo poeta C. D. af Wirsén — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Joseph Étienne Frédéric Mistral ou Josèp Estève Frederi Mistrau [no dialeto occitano ‘mistraleano’] (1830 — 1914), francês da aldeia de Maillane, comuna da região de Provence-Alpes-Côte d'Azur, estudou no Colégio Real de Avignon, formou-se em Direito na cidade de Aix [Aix-en-Provence], foi poeta, escritor e lexicógrafo em língua occitana (provençal), cultuador da Provença, tendo sido o primeiro a elevá-la à categoria de língua literária; suas obras: Mirèio (Miréia, Mireille, longo poema épico, 1859 e muitas reedições), Calendau (longo poema épico, 1867), Lis Isclo d’or (As Ilhas de Ouro, 1876), Lou Trésor dóu Félibrige, Dictionnaire provençal-français, ou O Grande Dicionário do Félibrige (dois volumes, 1878-1879), Nerto (romance/drama lírico, 1884), La Rèino Jano (tragédia provençale en 5 actes en vers, 1890), Lou Pouèmo dóu Rose (O Poema do Ródano, longo poema épico, 1897), Moun Espelido (Minhas Origens [Memori e raconte, Memórias e narrativas], 1906), La Genesi, traducho en prouvençau (O Gênese, ‘texto latino da Vulgata [bíblia, em latim] justaposto e tradução francesa ao pé da página’, edição trilíngue, 1910), Lis Óulivado (1912) ...; teve obras musicadas: Mireille (Miréio), em sua tradução francesa, inspirou uma ópera de Charles Gounod, em 1863, e Calendau, musicada pelo compositor Marèchal; vários de seus poemas receberam traduções em diversas línguas; Frédéric Mistral foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1904, e recebeu o título de doutor honoris-causa pelas universidades de Halle[-Wittenberg] e de Bonn, ambas na Alemanha.

domingo, 22 de junho de 2025

Giosuè Carducci: Sol e amor

 
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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Leves e alvas à plaga ocidental,
As nuvens vão: seja por onde for,
Sorri o céu, como o humano labor
Saúda o sol, benigno, triunfal.

Em mil flechas desponta a catedral
E santos de ouro e rosado fulgor,
Radia então a hosana e há o rumor
Dos falcões, este alívolo coral.

Assim, depois que Amor — riso de calma —
Nuvens rasgou que me agravaram tanto,
Pode exsurgir à luz do sol minha alma.

E lhe sorri multiplicado o santo
Ideal da existência: é uma harmonia
O pensamento: e o sentimento é um canto.

(Rimas Novas)

Giosuè Carducci

XXI.
Sole e Amore

Lievi e bianche a la plaga occidentale
Van le nubi: a le vie ride e su ’l fòro
Umido il cielo, ed a l’uman lavoro
Saluta il sol, benigno, trionfale.

Leva in roseo fulgor la cattedrale
Le mille guglie bianche e i santi d’oro,
Osannando irraggiata: intorno, il coro
Bruno de’ falchi agita i gridi e l’ale.

Tal, poi ch’amor co ’l dolce riso via
Rase le nubi che gravârmi tanto,
Si rileva nel sol l’anima mia,

E molteplice a lei sorride il santo
Ideal de la vita: è un’armonia
Ogni pensiero, ed ogni senso un canto.

[14-15 dicembre 1872]

(Rime nuove — Libro secondo, 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 — 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais — o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século — o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Ça Ira (1883), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.