sexta-feira, 31 de julho de 2026

Paul Verlaine: Moderação

 
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[traduzido por Baptista Cepellos]

A batallas de amor campo de pluma.
(Gongora)

Languidez, languidez! tem paciência, formosa!
Acalma esse febril e indômito desejo;
A amante deve ter, no embate mais sobejo,
o abandono da irmã, tímida e carinhosa.

Em teus afagos, pois, sê branda e langorosa,
como do teu olhar o dormente lampejo,
que embora fementido, um prolongado beijo
vale mais que a expressão da carne luxuriosa.

Tu me dizes, porém, que no teu seio ardente,
ruge a fulva paixão, famulenta e bravia;
pois deixá-la rugir desenfreadamente!

A fronte em minha fronte e a mão na minha presa,
choremos, doce amor, até que venha o dia,
jurando o que amanhã negarás com certeza!

Paul Verlaine

Lassitude

[V]

A batallas de amor campo de pluma.
(Gongora.)

De la douceur, de la douceur, de la douceur!
Calme un peu ces transports fébriles, ma charmante.
Même au fort du déduit, parfois, vois-tu, l’amante
Doit avoir l’abandon paisible de la sœur.

Sois langoureuse, fais ta caresse endormante,
Bien égaux tes soupirs et ton regard berceur.
Va, l’étreinte jalouse et le spasme obsesseur
Ne valent pas un long baiser, même qui mente!

Mais dans ton cher cœur d’or, me dis-tu, mon enfant,
La fauve passion va sonnant l’oliphant
Laisse-la trompetter à son aise, la gueuse!

Mets ton front sur mon front et ta main dans ma main,
Et fais-moi des serments que tu rompras demain,
Et pleurons jusqu’au jour, ô petite fougueuse!

(Poèmes Saturniens — 1866)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [várias autorias e tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 — 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (Lycée Condorcet, atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público, bacharelou-se em Literatura, foi professor e, desde cedo, escrevia poemas, inicialmente influenciado pelo parnasianismo; em 1866, estreou em livros com Poèmes Saturniens, teve sete de seus poemas publicados no Parnasse Contemporain; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio — Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... —, grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889), Hombres (poemas eróticos [escritos até 1891], publicação clandestina, 1903) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; em 1875, no Reino Unido, Verlaine lecionou “latim, grego, desenho e francês” no Stickney Grammar School — Boston; participou da Comuna de Paris sem ter sido atuante nas ruas, teve poemas musicados pelo compositor Claude Debussy em Ariettes oubliées [‘Canções esquecidas, ciclo de seis melodias para voz e piano’]; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Maria Lúcia Dal Farra: Penteando uma cabeça grega

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Ao Rubens Rodrigues Torres Filho

A atenção do rosto grego
está toda nos cabelos —
a porção mais inquieta do mármore.
Daí que a ausência do urgente instrumento
para subjugá-los
embarace o enigma mais à mão:
o pente
(fuso das parcas)
tece ou doma os fios?

Indiferente à pergunta,
a peruca
(coroa de fina trança e franja)
desce distraída pelos cantos da nuca
como rios que
(de repente)
se encapelassem na barba —
barca que traz impressa na carcaça
as ondas do mar Egeu.

À tona
o golfo fundo dos olhos ocos
mostra cavidade bastante para desvendar
o curso dos anos e oceanos.
Mas ainda assim
(patética)

a máscara boia entre tragédia e riso
e o ricto da boca
(imperceptível)
se afunda ornado de medusas —
que asseguram em coro:

devora-me ou decifro-te!

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Alumbramentos — poesia: Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação [texto/orelha do livro] de Inês Pedrosa­, 1ª edição, 2012, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, ensaísta, pesquisadora e também professora universitária, hoje aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley — EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, Trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Florbela Espanca, Afinado desconcerto (2002), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Correspondência amorosa de Florbela Espanca 1920-1925 (2008, ) Alumbramentos (laureado com o Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Jan Wagner: ensaio sobre guardanapos


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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

como frígida garça de origami
ou com o orgulho de navios de quatro
mastros cruzando as mesas,

sempre ao norte, ao norte...
bastante cedo cai das claraboias
uma luz derradeira, arde

como nódoa de molho na sua alvura,
amarrotados restam nas bordas dos pratos
com nada além da borboleta rubra

de batom no centro; bastante cedo
com seus congêneres flutuam
pelo purgatório de grandes lavanderias,

não sabendo pra quê pela manhã
ressuscitam sob as mãos ligeiras
das copeiras: será uma dança

de antemão para o cerco,
a beleza de uma capitulação?
o truque tardio de um bêbado,

uma chave que some? ou o chato
zumbir, daquela estampa, errata
de moscas na toalha, seu miúdo e besuntado F?

Jan Wagner

versuch über servietten

als kühler origamikranich,
oder mir dem stolz von viermastern
über die tische kreuzend,

immer nach norden, nach norden...
früch genug fällt ein letztes licht
durch hohe fenster, brennt sich

als soßenfleck in iht weiß,
liegen sie zerknüllt am tellerrand,
mit nichts als dem roten falter

aus lippenstift im innern; früh genug
schweben sie mit ihresgleichen
durchs fegefeur der großwäscherei,

nicht wissend, wozu sie am morgen
auferstchen unter den flinken
händen der kellnerinnen: wird es

ein tänzchen, den belagerten voraus,
die schönheit einer kapitulation?
der späte trick eines betrunkenen,

ein schlüssel, der verschwindet? oder
das lästige summen, jener druckfehler
von fliege im tischtuch, ihr kleines, verschmiertes F?
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt — 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Vinicius de Moraes: Sórdido

 
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Olhei dentro da noite e recebi o espaço
Carregado de ultimatuns e de estrelas indecisas
O momento era futuro e extremamente grave
Devido em parte à grande falta de divisas.

Fortalezas voadoras passavam em câmara lenta
Tornadas obsoletas por outros monstros a jato
Carregando pilotos com a fisionomia despregada
A chorar o porvir imediatamente passado.

Mas o que mais me preocupava era a vizinha ao lado
A comer calmamente uma salada de cactos
Enquanto sua filha é brutalmente estuprada
Por um bando a brincar de novela de rádio.

Fora isso, e outras coisas de somenos importância
Como o suicídio de um fascista e a nomeação de um general
A noite prosseguia absolutamente imperturbável
Arrastando a lua hermética e as estrelas em ânsia.

Pensei comigo: A vida é uma coisa delirante!
Enquanto uns ouvem jazz, outros morrem de câncer
Ali a esposa aguarda, o peito a vazar leite
O marido que se esbalda na albumina da amante.

E pensei comigo: A vida, que coisa imunda!
Que incrível falta d’água e de dignidade
Quanta gente a beber para esquecer a vida
E bêbada, a buscar o sexo, que fecunda!

E de novo pensei: Que linda a vida é!
Como a face do povo a espiar a vitrine
Como a face de Susana voltando do balé
Como a face do Cristo e a face de Lenine!

Mas meus pensamentos não adiantam em nada
Ao menino a morrer de sífilis cerebral
Nem à noiva a coser a última peça do enxoval
Para casar amanhã com um tarado sexual.

No entanto, que desejo em mim angustiado
De suster uma faca e olhar um louco em face
Muito embora a traição comendo à minha volta
Me infiltre de um certo instinto sanguinário...

A vida, a vida apenas, a santa, a ávida vida
A vida que só é quando se ama e se luta
A vida que só se revela na ferida
A vida que só é se for filha da puta.

Eu sei, e me alucino; e digo NÃO mil vezes
Não! o homem nasceu para gozar do mundo
Não é preciso o pária a escarrar o pulmão
Sobre o lixo que guarda o supérfluo dos fregueses.

E digo não! como posso eu viver, dormir, ouvir Beethoven
Morrer sobre o Quarteto op.136
Quando a meu lado há criaturas que não ouvem
Mas não como ele... de uma mais trágica surdez.

E então a vida em mim se resume na luta
É lutar que eu preciso! e abro meu pavilhão
E meus olhos veem longe uma aurora absoluta
E eu choro sobre mim mesmo e me peço perdão.

Los Angeles, 28 de maio de 1949

(Poema inédito — extraído de documentos do Arquivo-Museu de
Literatura Brasileira (AMLB) da Fundação Casa de Rui Barbosa)

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50 poemas macabros [inclui poemas inéditos]: Vinicius de Moraes, Organização e Posfácio de Daniel Gil, Ilustrações de Alex Cerveny, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Vinicius de Moraes (1913 — 1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford — Inglaterra; foi poeta, crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para o filme Orfeu Negro, que se tornaria premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; seus principais parceiros na música: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra ...; como crítico de cinema, trabalhou no jornal A Manhã; foi colaborador da revista Clima e dirigiu o suplemento literário de O Jornal; obras poéticas: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.; produção musical, discografia: Orfeu da Conceição (1956), Vinicius e Odette Lara (1963), Vinicius e Caymmi (1965), Os Afro-Sambas: Baden e Vinicius (1966), Vinicius: poesia e canção (volumes I e II, 1966), Vinicius em Portugal (1969), Como dizia o poeta: Vinicius, Marilia Medalha e Toquinho (1971), Vinicius, Bethânia e Toquinho: En La Fusa — Mar del Plata (1971), Poeta, moça e violão: Vinicius, Clara Nunes e Toquinho (1973), O Poeta e o Violão: Toquinho e Vinicius (1975), A Arca de Noé (músicas para crianças, 1980), Um pouco de ilusão: Toquinho e Vinicius (1980) ...; como diplomata, atuou em Los Angeles — Estados Unidos, Paris — França, Roma — Itália e Montevidéu — Uruguai; em 1968, período de ditadura militar, foi afastado da carreira diplomática e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, com a alegação de ter comportamento boêmio, e que isso o impedia de cumprir funções diplomáticas; em 1998, o poeta foi anistiado (post-mortem) pela Justiça brasileira.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Da Costa e Silva: Visões da morte

 
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Almas tristes, sinistras e angustiadas,
Almas sombrias dos desiludidos,
Dos seres para sempre adormecidos
Na poeira azul das eras apagadas.

Almas doidas de amor, martirizadas,
Almas errantes dos incompreendidos
Que hoje descansam frios, envolvidos
No sudário das noites desoladas.

Castas filhas do Medo e do Mistério,
Duendes tremendos do Pavor, medonhos
Espectros que vagais no cemitério...

Quão semelhantes sois, mudos, tristonhos,
Nesse cortejo lúgubre e funéreo,
À Procissão de Passos dos meus sonhos!

(Sangue, pág. 28. — 1908)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária — publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro] e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

domingo, 26 de julho de 2026

Shakespeare: Busco, à noite, o meu leito, exausto da labuta, . . . [soneto]

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[traduzido por Gomes Filho]

"Soneto XXVII"

Busco, à noite, o meu leito, exausto da labuta,
pois é justo um repouso aos membros fatigados.
Nova jornada, entanto! É meu cérebro em luta
com o pensamento vivo, e os sonhos acordados.

Romaria ou vigília?... Eu sei que não me escuta
tão longe de onde estou, por mal dos meus pecados,
aquela por quem vivo. E o coração disputa
às estrelas do céu seus olhos encantados.

Bem abertas mantendo as pálpebras dormentes,
cego, na escuridão, sinto mais que os videntes
que falta em sua face a luz do mar que é puro.

Assim, de dia ao corpo, e de noite, à minha alma,
por que hão de me roubar ao espírito a calma
que esse amor não me deu porque foi tão perjuro?

Shakespeare

Sonnet XXVII

Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear repose for limbs with travel tired;
But then begins a journey in my head
To work my mind, when body's work's expired:
For then my thoughts — from far where I abide —
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see:
Save that my soul's imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which, like a jewel hung in ghastly night,
Makes black night beauteous, and her old face new.
   Lo! thus, by day my limbs, by night my mind,
   For thee, and for myself, no quiet find.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; William Shakespeare (1564 — 1616), inglês nascido em Stratford upon-Avon, “provavelmente” tenha iniciado seus estudos em casa, frequentou a Petty School até os sete anos de idade, foi poeta, ator e dramaturgo profissional, e é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; em seus traços biográficos conhecidos há a especulação de que possa ter seguido para Londres por volta de 1592, época em que, com suas peças encenadas, se consolidou como dramaturgo ali; consta que com o fim da epidemia de peste que assolou na época, Shakespeare e outros atores, antes pertencentes a diferentes companhias, se uniram e formaram a Companhia do Lorde Chamberlaim, que os patrocinava, e, por quase vinte anos, passaram a participar dos lucros da empresa; o dramaturgo também se tornou membro dos consórcios que administravam o Globe Theatre e o Blackfriars Theatre; como escritor e poeta, suas primeiras obras impressas foram dois longos poemas: Vênus e Adônis (Venus and Adonis, 1593) e O Estupro de Lucrécia (The Rape of Lucrece, 1594); do poeta, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura — que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias: Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Dream), O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice), A Comédia de Erros (The Comedy of Errors), A Megera Domada (Taming of the Shrew), A Tempestade (The Tempest), Os Dois Cavalheiros de Verona (The Two Gentlemen of Verona), Cimbelino, e tantas outras, tragédias: Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc., dramas históricos: Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III.

sábado, 25 de julho de 2026

T. S. Eliot: O enterro dos mortos

 
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[traduzido por Idelma Ribeiro de Faria]

(Fragmentos)

[I.]

Abril é o mais cruel dos meses, germinando
Lilases na terra morta, misturando
Lembranças e desejos, excitando
Com chuva primaveril a tórpida raiz.
Aquecia-nos o inverno recobrindo
A terra de anestesiante neve, alimentando
Com tubérculos secos vida mínima.
O verão nos surpreendeu, com chuvas
Sobre o Starmbergersee; na colunata paramos
E com o sol prosseguimos Holfgarten a dentro
E tomamos café e conversamos.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
E quando crianças, visitando
O arquiduque, meu primo, com ele andei
De trenó. E tive medo. Ele disse, Maria,
Maria, segure firme. E descemos
Nas montanhas, lá nos sentimos livres
Leio, quase toda a noite, e no inverno vou ao sul.

     Que raízes brotam, que ramos grimpam
Desse entulho pedregoso? Filho do homem,
Dizer ou supor não podes, só conheces
Um feixe de imagens quebradas batidas de sol;
E a árvore morta não dá asilo, o grilo, alívio
E a pedra seca nenhum murmúrio de água.
Há sombra apenas sob essa rocha vermelha,
(Vem para a sombra da rocha vermelha)
E te nostrarei qualquer coisa diferente
Da sombra que atrás de ti caminha de manhã
Ou da que à tarde se ergue ao teu encontro;
O medo mostrarei em um punhado de pó.
[ . . . ]

     Cidade irreal.
Sob o escuro nevoeiro da aurora hibernal,
Fluía a multidão sobre a Ponte de Londres, tantos,
Jamais pensei que a morte tantos houvesse desfeito.
Raros, curtos suspiros e cada homem
Os olhos fixos nos pés
Fluíam morro acima e King William Street abaixo,
Para onde Saint Mary Woolnoth assinalava as horas
Com surdo som no extremo soar das nove.
Eis vejo um conhecido; paro-o e grito: “Stetson!
Tu que estavas comigo nos barcos em Mylae!
O cadáver que o ano passado em teu jardim plantaste
Começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou a súbita geada o leito perturbou-lhe?
Oh, quarda o Cão à distância, é amigo dos homens,
Ou com as unhas o desenterrará!
Tu! hypocrate lecteur! — mon semblable, — mon frère!”

(A Terra Gasta — I, 1921-1922)

T. S. Eliot

I. The Burial of the Dead

(Fragments)

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the archduke’s,
My cousin’s, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.

     What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats.
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
[ . . . ]

     Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.
Flowed up the hill and down King William Street,
To where Saint Mary Woolnoth kept the hours
With a dead sound on the final stroke of nine.
There I saw one I knew, and stopped him, crying: 'Stetson!
‘You who were with me in the ships at Mylae!
‘That corpse you planted last year in your garden,
‘Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
‘Or has the sudden frost disturbed its bed?
‘Oh keep the Dog far hence, that’s friend to men,
‘Or with his nails he’ll dig it up again!
‘You! hypocrite lecteur! — mon semblable, — mon frère!”

(The Waste Land — I, 1921-1922)
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Seleção: T. S. Eliot, Emily Dickinson e René Depestre — edição bilíngue, Tradução, Organização e Ensaios de Idelma Ribeiro de Faria, 1992, Editora Hucitec, São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 — 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Harvard, em Boston, estudou Língua e Literatura francesa na Sorbonne, Paris — França, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista, conferencista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford — Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Prufrock and Other Observations (poems, 1917), Poems (1920), The West Land (poem [5 partes], 1922), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 1958—1959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Jules Laforgue: Jogos

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ah! a Lua, a Lua me assedia...
Acreditas que algo remedia?

Morta? Porque ela dorme assim seria,
Em clorofórmio cósmico, alvadia?

Rosácea em tumular eflorescência
Da Basílica do Silêncio.

Persistes em tua atitude,
Eu me sufocando em solitude!

Sim, sim, tens o colo bem feito;
Mas se eu jamais ali me aleito?...

Mais uma tarde, e minhas berquinadas 
Vão-se rir às bandeiras despregadas,

Dando ao meu platonismo um teor
De êxtase digno de pescador!

Salve Regina dos Lys! a que reina,
Quero te atravessar com as falenas!

Quero beijar a tua pátena triste,
(A travessa viúva da cabeça)
De São João Batista!

Quero achar um lied! que te toca,
Faz que emigres para esta boca!

— Mas, nem mesmo mais rimas para a Lua...
Ah! que lamentável lacuna!

Jules Laforgue

Jeux

Ah! la Lune, la Lune m'obsède...
Croyez-vous qu'il ait un remède?

Morte? Se peut-il pas qu'elle dorme
Grise de cosmiques chloroformes?

Rosace en tombale efflorescence
De la Basilique du Silence.

Tu persistes dans ton attitude,
Quand je suffoque de solitude!

Oui, oui, tu as la gorge bien faite;
Mais, si jamais je ne m'y allaite?...

Encore un soir, et mes berquinades
S'en iront rire à la débandade,

Traitant mon platonisme si digne
D'extase de pêcheur à la ligne!

Salve Régina des Lis! reine,
Je te veux percer de mes phalènes!

Je veux baiser ta patène triste,
Plat veuf du chef de Saint Jean Baptiste!

Je veux trouver un lied! qui te touche
A te faire émigrer vers ma bouche!

— Mais, même plus de rimes à Lune...
Ah! quelle regrettable lacune!
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 — 1887), nascido em Montevidéu — Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier  concluindo-os em Paris, no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes), também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio; teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha — foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.