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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Luiza Romão: Projétil de lei

 
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brasil
tu te tornas eternamente responsável
por aquilo que pões em cativeiro
da febem ao navio negreiro

sei que assusta
perder seus privilégios
somos o plano europeu que não deu certo

alerto:
reduzir a maioridade
não é questão de segurança
isso é genocídio de criança
extermínio de classe
do moleque roubar o passe
tirar a bola
é oferecer a prisão e não escola
tratar infância com escolta

então solta
larga o osso
agora não tem almoço
é fácil comer o pão
e o diabo ser o outro
mas vem do nosso rosto
o suor de todos os dias

brasil,
tu quer ser gigante?
então lembra do golias

o poder gestado pelas mãos da minoria
no país da escravidão
ainda é branca a democracia
é a bancada da bala
e seus projéteis de leis:
onde já se viu
tornar-se adulto aos dezesseis?

diga aí vocês:
o país seccionado
a fratura está exposta
nossa bandeira não é a mesma
nem durante a copa

alienistas alienados
querem o brasil-condomínio fechado
têm sangue nas mãos
e agora nos olhos
mergulham a bíblia em poça de ódio

sabe,
meritocracia é fácil
pra quem nasceu no pódio

por trás do discurso, investimentos:
células transformadas em cédulas
empresa de presos
desprezo
por qualquer matéria humana
é o capital privado financiando as campanha

o jogo é certeiro:
cercar a casa-grande
e colocar dois três porteiros
mas aê, cuidado
com quem você coloca em cativeiro.

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Pode Pá que é 10! — Antologia de Poesia e Prosa [diversas autorias], Organização: Mesquiteiros, Apresentação: ‘Literatura (é) possivel’, de Rodrigo Ciríaco, 2016, Realização: ProacSP, Mesquiteiros, Um por Todos Todos por Um, Biqueira Literária e Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo; Luiza Romão, nascida em 1992, paulista de Ribeirão Preto, formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e pela Escola de Arte Dramática — EAD ECA-USP, e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pesquisa sobre o SLAM no Brasil, é atriz, diretora de teatro, arte-educadora, poeta e slammer*; por seus traços biográficos, ficamos sabendo que a poeta “pesquisa as fricções entre a palavra e o cinema, dirigindo e atuando nos projetos Revide (2016) e Sangria (2017)”; suas obras: Koketel Motolove (2014), Sangria, edição bilíngue português-espanhol (2017), Também guardamos pedras aqui (poesia, 2021), Nadine (história de detetive narrada em versos, 2022); a poeta tem participação e é referência nos SLAMs da Guilhermina, apresentações poético-performáticas realizadas na ZL em sampa, junto à estação do metrô Guilhermina — Esperança; criou mais de quinze vídeopoemas, explorando a linguagem do spoken word; foi laureada com o Prêmio Jabuti de poesia, versão 2022, pela obra Também guardamos pedras aqui.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa — [10 poetas & 30 poemas]; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.