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terça-feira, 20 de agosto de 2024

Wisława Szymborska: Foto da multidão

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

Na foto da multidão
minha cabeça é a sétima do canto,
ou talvez a quarta da esquerda
ou a vigésima de baixo para cima.

minha cabeça, não sei qual,
já não uma, não única,
já semelhante a semelhantes,
nem de mulher nem de homem;

os sinais que ela me dá
não são sinais particulares;

talvez o Espírito do Tempo
a veja, mas não a examine;

minha cabeça estatística,
que consome aço e cabos
do modo mais sereno e global;

sem prurido de ser qualquer uma,
sem desespero de ser permutável;

como se de fato eu não a tivesse
à parte e do meu jeito;

como se escavassem um cemitério,
cheio de crânios anônimos
de boa conservabilidade
malgrado a mortalidade;

como se ela já estivesse lá,
minha cabeça, alheia, uma qualquer

onde, caso recorde algo,
será talvez o futuro profundo.

Wisława Szymborska

Fotografia tłumu

Na fotografii tłumu
moja głowa siódma z kraja,
a może czwarta na lewo
albo dwudziesta od dołu;

moja głowa nie wiem która,
już nie jedna nie jedyna,
już podobna do podobnych,
ni to kobieca ni męska;

znaki, które mi daje,
to znaki szczególne żadne;

może widzi ją Duch Czasu,
ale się jej nie przygląda;

moja głowa statystyczna,
co spożywa stal i kable
najspokojniej, najglobalniej;

bez wstydu, że jakakolwiek,
bez rozpaczy, że wymienna;

jakbym wcale jej nie miała
po swojemu i z osobna

jakby cmentarz odkopano
pełen bezimiennych czaszek
o niezłej zachowalności
pomimo umieralności;

jakby ona już tam była,
moja głowa wszelka, cudza

gdzie, jeżeli coś wspomina,
to chyba przyszłość głęboką.

(Wszelki wypadek — 1972)
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Wisława Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim,  Wisława deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

domingo, 30 de junho de 2013

Euclides da Cunha: O estouro da boiada

          Em Os Sertões, Euclides da Cunha nos mostra o que ocorria pelas bandas do sertão baiano (a terra) com o sertanejo (o homem) e seu cotidiano, para descrever e explicar (a luta) a Guerra de Canudos.
          Num pequentrecho do livro, o autor relata o estouro da boiada. Naquele sertão descrito pelo autor, o clique para o estouro podia ser qualquer coisa, bastava um incidente trivial como “o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo”.
          E ao vaqueiro, era em vão todo o esforço para acalmar a manada e, assim, trazê-la de volta à trilha e conduzí-la ao seu destino pré-estabelecido. Restava aguardar. Só com o atropelo dos brutos cessado é que "reaviam-no à vereda da fazenda".

PS: Os grifos do texto, em negrito, são um puro atrevimento de responsabilidade deste blogueiro que aqui está postando.
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A arribada

          Segue a boiada vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso. Escanchado, desgraciosamente, na sela, o vaqueiro, que a revê unida e acrescida de novas crias, rumina os lucros prováveis: o que toca ao patrão, e o que lhe toca a ele, pelo trato feito. Vai dali mesmo contando as peças destinadas à feira; considera, aqui, um velho boi que ele conhece há dez anos e nunca levou à feira, mercê de uma amizade antiga; além, um mumbica claudicante, em cujo flanco se enterra estrepe agudo, que é preciso arrancar; mais longe, mascarado, cabeça alta e desafiadora, seguindo apenas guiado pela compressão dos outros, o garrote bravo, que subjugou, pegando-o "de saia", e derrubando-o, na caatinga; acolá, soberbo, caminhando folgado, porque os demais o respeitam, abrindo-lhe em roda um claro, largo pescoço, envergadura de búfalo, o touro vigoroso, inveja de toda a redondeza, cujas armas rígidas e curtas relembram, estaladas, rombas e cheias de terra, guampaços formidáveis, em luta com os rivais possantes, nos logradouros; além, para toda a banda, outras peças, conhecidas todas, revivendo-lhe todas, uma a uma, um incidente, um pormenor qualquer da sua existência primitiva e simples.

          E prosseguem, em ordem, lentos, ao toar merencório da cantiga, que parece acalentá-los, embalando-os com o refrão monótono:

                                   E cou mansão
                                  E cou... ê caõ...

ecoando saudoso nos descampados mudos...

Estouro da boiada
         
          De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura. . . (*)
          A boiada arranca.
          Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros.
          Origina o incidente mais trivial o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-os embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.
          E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão longínquo...
         Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a "arribada"  milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo o vaqueiro!
         Já se lhe tem associado, em caminho, os companheiros, que escutaram, de longe, o estouro da boiada. Renova-se a lida: novos esforços, novos arremessos, novas façanhas, novos riscos e novos perigos a despender, a atravessar e a vencer, até que o boiadão, não já pelo trabalho dos que o encalçam e rebatem pelos flancos senão pelo cansaço, a pouco e pouco afrouxe e estaque, inteiramente abombado.
         Reaviam-no à vereda da fazenda; e ressoam, de novo, pelos ermos, entristecedoramente, as notas melancólicas do aboiado.

(*) Estourar, arrancar, ou arribar a boiada, são sinônimos do mesmo fato que nos sertões do norte reproduzem, talvez mais intensas, as disparadas dos pampas.

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Os Sertões, Livro I, 1973, Editora Três, São Paulo SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 1909), nascido em Cantagalo RJ, foi escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro; seu grande feito literário foi Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos-reportagens do jornal O Estado de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora à cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, espanhol, dinamarquês, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Boaventura de Sousa Santos: A democracia hoje vigente, seus limites e novos desafios.

Reproduzo, de Carta Maior, texto assinado por Boaventura de Souza Santos, sociólogo.
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Colunistas| 14/12/2011

DEBATE ABERTO

Terceira Carta às Esquerdas

As novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não

Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir
sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e quando o fazem é
sempre por reação a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do
poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objetivo.

Esta indisponibilidade para reflexão, se foi sempre perniciosa, é agora suicida. Por duas razões. A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobbistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho. Pelo contrário, as esquerdas estão desprovidas de instrumentos de reflexão abertos aos não militantes e, internamente, a reflexão segue a linha estéril das facções.

Circula hoje no mundo uma imensidão de informações e análises que
poderiam ter uma importância decisiva para repensar e refundar as esquerdas depois do duplo colapso da social-democracia e do socialismo real. O desequílibrio entre as esquerdas e a direita no que respeita ao conhecimento estratégico do mundo é hoje maior que nunca.

A segunda razão é que as novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não e a prova está nas tentativas de cooptar, ensinar, minimizar, ignorar a nova militância.

Proponho algumas linhas de reflexão. A primeira diz respeito à polarização social que está a emergir das enormes desigualdades sociais. Vivemos um tempo que tem algumas semelhanças com o das revoluções democráticas que avassalaram a Europa em 1848. A polarização social era enorme porque o operariado (então uma classe jovem) dependia do trabalho para sobreviver mas (ao contrário dos pais e avós) o trabalho não dependia dele, dependia de quem o dava ou retirava a seu belprazer, o patrão; se trabalhasse, os salários eram tão baixos e a jornada tão longa que a saúde perigava e a família vivia sempre à beira da fome; se fosse despedido, não tinha qualquer suporte exceto o de alguma economia solidária ou do recurso ao crime. Não admira que, nessas revoluções, as duas bandeiras de luta tenham sido o direito ao trabalho e o direito a uma jornada de trabalho mais curta. 150 anos depois, a situação não é totalmente a mesma mas as bandeiras continuam a ser atuais.

E talvez o sejam hoje mais do que o eram há 30 anos. As revoluções foram
sangrentas e falharam, mas os próprios governos conservadores que se
seguiram tiveram de fazer concessões para que a questão social não
descambasse em catástrofe. A que distância estamos nós da catástrofe? Por enquanto, a mobilização contra a escandalosa desigualdade social
(semelhante à de 1848) é pacífica e tem um forte pendor moralista denunciador.

Não mete medo ao sistema financeiro-democrático. Quem pode garantir que assim continue? A direita está preparada para a resposta repressiva a qualquer alteração que se torne ameaçadora. Quais são os planos das esquerdas? Vão voltar a dividir-se como no passado, umas tomando a posição da repressão e outras, a da luta contra a repressão?

A segunda linha de reflexão tem igualmente muito a ver com as revoluções de 1848 e consiste em como voltar a conectar a democracia com as aspirações e as decisões dos cidadãos. Das palavras de ordem de 1848, sobressaíam liberalismo e democracia. Liberalismo significava governo
republicano, separação ente estado e religião, liberdade de imprensa;
democracia significava sufrágio “universal” para os homens. Neste domínio,
muito se avançou nos últimos 150 anos. No entanto, as conquistas têm vindo a ser postas em causa nos últimos 30 anos e nos últimos tempos a
democracia mais parece uma casa fechada ocupada por um grupo de
extraterrestres que decide democraticamente pelos seus interesses e
ditatorialmente pelos interesses das grandes maiorias. Um regime misto,
uma democradura.

O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas sua assembleias. São loucos ou são um sinal das exigências que vêm aí? As
esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na república) esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

domingo, 30 de outubro de 2011

Castro Alves: O povo ao poder (Poesias Coligidas)

Nestes tempos em que, pelo mundo afora, uma geração de jovens fazem ocupação de praças em inúmeras cidades-referência da modernidade, o poema O povo ao poder, de Castro Alves, é oportuno. Como cantou o poeta, "a praça é do povo como o céu é do condor"; os grifos feitos em negrito no poema são um puro atrevimento deste aprendiz de blogueiro que vos escreve.
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QUANDO nas praças s'eleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário, 
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.

A praça! A praça é do povo 
Como o céu é do condor
 
É o antro onde a liberdade 
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.

A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu'infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.

No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".

Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...

Ah! não há muitos setembros!
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,

E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.

Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.

Irmãos da terra da América, 
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas, 
Bebei torrentes de luz... 
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, ó povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

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Castro Alves - Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A - Rio de Janeiro - RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 - 1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da estrada, Tragédia no Lar...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Vladimir Safatle: A nova geração de lutadores sociais

Reproduzo texto do pensador Vladimir Safatle, filósofo da USP  (Folha de São Paulo, 25.10.2011), acerca dos movimentos sociais de uma nova geração que, a exemplo do "Ocupe Wall Street", segue ousando acampar em praças públicas de cidades referências do mundo moderno em diversas regiões do nosso Planeta Terra. Os jovens acampados portam uma pauta heterogênea de reivindicações que se unem num só brado: querem abrir discussão com os donos do poder político, os quais são quase que unicamente orientados e representados pelos detentores do sistema financeiro global.
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São Paulo, terça-feira, 25 de outubro de 2011


VLADIMIR SAFATLE

Eles sabem o que fazem

Um dos mantras preferidos daqueles que chegam aos 40 anos é: os jovens de hoje não têm grandes ideais, eles não sabem o que fazem.
Há algo cômico em comentários dessa natureza, pois os que tinham 18 anos no início dos anos 90 sabem muito bem como nossas maiores preocupações eram: encontrar uma boa rave em Maresias (SP), aprender a comer sushi e empregar-se em uma agência de publicidade. Ou seja, esses que falam dos jovens atuais foram, na maioria das vezes, jovens que não tiveram muito o que colocar na balança.
Por isso, devemos olhar com admiração o que jovens de todo o mundo fizeram em 2011.
Em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".
Mas, mesmo assim, boa parte da imprensa mundial gosta de transformá-los em caricaturas, em sonhadores vazios sem a dimensão concreta dos problemas. Como se esses arautos da ordem tivessem alguma ideia realmente sensata de como sair da crise atual.
Na verdade, eles nem sequer têm ideia de quais são os verdadeiros problemas, já que preferem, por exemplo, nos levar a crer que a crise grega não seria o resultado da desregulamentação do sistema financeiro e de seus ataques especulativos, mas da corrupção e da "gastança" pública.
Nesse sentido, nada mais inteligente do que uma das pautas-chave do movimento "Ocupe Wall Street". Ao serem questionado sobre o que querem, muito jovens respondem: "Queremos discutir".
Pois trata-se de dizer que, após décadas da repetição compulsiva de esquemas liberais de análise socioeconômica, não sabemos mais pensar e usar a radicalidade do pensamento para questionar pressupostos, reconstruir problemas, recolocar hipóteses na mesa. O que esses jovens entenderam é: para encontrar uma verdadeira saída, devemos primeiro destruir as pseudocertezas que limitam a produtividade do pensamento. Quem não pensa contra si nunca ultrapassará os problemas nos quais se enredou.
Isso é o que alguns realmente temem: que os jovens aprendam a força da crítica. Quando perguntam "Afinal, o que vocês querem?", é só para dizer, após ouvir a resposta: "Mas vocês estão loucos".
Porém toda grande ideia apareceu, aos que temem o futuro, como loucura. Por isso, deixemos os jovens pensarem. Eles sabem o que fazem.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Slavoj Zizek: sonho e pesadelo da juventude americana acampada; divórcio entre democracia e capitalismo; combatam o sistema e não a corrupção ou a ganância!


Reproduzo texto publicado em Carta Maior (11.10.2011) —  pronunciamento do pensador esloveno Slavoj Zizek quando em sua visita ao acampamento do movimento "Ocupar Wall Street" em Nova York; este aprendiz de blogueiro colocou boa parte do texto em negrito, embora o texto todo pudesse estar em negrito.
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Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou

O FILÓSOFO E ESCRITOR ESLOVENO SLAVOJ ZIZEK VISITOU A ACAMPAMENTO DO MOVIMENTO OCUPAR WALL STREET, NO PARQUE ZUCCOTTI, EM NOVA YORK E FALOU AOS MANIFESTANTES. “ESTAMOS TESTEMUNHANDO COMO O SISTEMA ESTÁ SE AUTODESTRUINDO. "QUANDO CRITICAREM O CAPITALISMO, NÃO SE DEIXEM CHANTAGEAR PELOS QUE VOS ACUSAM DE SER CONTRA A DEMOCRACIA. O CASAMENTO ENTRE A DEMOCRACIA E O CAPITALISMO ACABOU". LEIA A ÍNTEGRA DO PRONUNCIAMENTO DE ZIZEK.

Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.

Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.

Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”

Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.

Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?

Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”

É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.

Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.

A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.

Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.

O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net