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Com dedos de pluma o tempo
toca a paisagem.
De mormaço e névoa embrulha o
dorso dos montes
e as muralhas do casario
coroado de antenas.
Com sopro de ventania o tempo
varre as ruas
alvoroça a cabeleira das
palmeiras nos parques
dança em rodamoinhos de folhas
pelas esquinas.
Com mãos de chuva o tempo
faxina o pó de paredes
o rastro de carros no asfalto,
de pés nas areias.
Com paciência o tempo borda
caruncho nas pedras
envelhece galhos e troncos com
varizes e fuligem
desbasta a verde pujança
raleando espessas copas
desbota o colorido esplendor
de todas as tintas
cega as arestas de qualquer
ângulo ou quina
rói balcões de ferro e apaga o
sol postiço
que reduz nas maçanetas e
corrimãos de latão.
Com a não-pressa de quem se
adivinha eterno
o tempo trabalha em compasso
firme e lerdo.
Porém o homem na pungente
urgência de seu curto
prazo, agride com vigor o
regaço da paisagem:
e chegam famintos caminhões
que rápidos engolem
camas, mesas, cadeiras, caixas
e bagagens
mais portas, pias, soalhos,
tijolos e destroços
e chegam fartos caminhões que
céleres vomitam
outros tijolos, cimento e
areia de nova argamassa
seguidos de portas, janelas,
vasos e pias
mais novas camas, mesas,
alfaias e caixas.
Então, outra já é a paisagem.
Foi se a vila
onde nos ruivos telhados se
hospedavam pombos.
Foram-se os pombos em
companhia dos escombros
— Ó gente, quem diria que um
dia existiu
no espaço o que já não passa
de pura fantasia
matéria de sonho e razão de
meu assombro?
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Poesia de Brasília (antologia:
[várias autorias]), Organização de Joanyr de Oliveira e Apresentação [orelhas
do livro] de Jason Tércio, 1998, Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro —
RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense e manaura, formou-se
em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ, em
Literatura Inglesa e Norte-Americana pelo IBEU — Instituto Brasil-Estados
Unidos, Rio de Janeiro, fez mestrado em Teoria Literária pela UNB, Brasília — DF
e em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras, foi/é poeta,
contista, professora, pesquisadora, tradutora e diplomata; ainda adolescente mudou-se
para o Rio e, depois, por força do ofício, residiu em Brasília, Chicago,
Beirute, além de em Manaus; lecionou inglês, língua e literatura no nível médio
e na UNB — Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços
de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação
brasileira em Beirute e em Chicago; traduziu Resistance to Civil Government (A
Desobediência civil) e Walden (Walden, ou a vida nos bosques) de H. D. Thoreau,
ambos em 1984; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia,
1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986),
Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia
— reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003), Palavra
na berlinda (2011), Infância em franjas (2014) e outros títulos;
desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora
em jornais e revistas especializadas; recebeu premiações: Prêmio José Décio
Filho, da União Brasileira de Escritores de Goiás (1981, por Ponto de Cruz), Prêmio
Olavo Bilac, da ABL — Academia Brasileira de Letras (1987, por Lição de Alice),
Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (1998, por Intramuros), Prêmio Nacional
de Poesia, da ABL (2004, por Rasos d’água) e outros.