Mostrando postagens com marcador Ibrantina Cardona. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ibrantina Cardona. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Ibrantina Cardona: Calmo, à brisa que o afaga, o mar azul embala . . . [soneto 'Ondas']


____________________
Calmo, à brisa que o afaga, o mar azul embala
o flutígeno berço; ao léu da esteira mansa
vem à praia uma onda, e beijando-a, resvala,
e volta ao seio d'água, e desfaz-se em bonança.

Sucede à brisa o vento, e embrusca o céu de opala;
turvo, agita-se o mar; empola-se a onda, avança,
e estruge contra a praia; em fúria, a açoita, estala,
e ao seio bramidor, de retorno, se lança.

Alma ansiosa, és igual a esse mar: ora, presa
das ilusões, o amor, a paz e os teus antolhos
expandes, num sorriso; ora, atada à tristeza,

sob a dor que exaspera, estuando, dentre escolhos,
da tormenta moral rebentas a represa
e as ondas sobrevêm nas lágrimas dos olhos.

[Heptacórdio — 1922]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
____________________
Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Ibrantina Cardona*: Íntimo


____________________
Olha-me bem, e vê se pode agora
Em disfarce esconder-se o meu afeto;
Julga se é dado ao coração que adora
Mudar-me um só instante o terno aspecto...

Ah! Esse amor, revela o indiscreto
O meu olhar... Esforce-me eu embora
Para tê-lo no íntimo secreto,
Bem sei que já ninguém de todo o ignora!

E contudo... Se os olhos deram ensejo
A desvenda de um crime, se foi pouca
A força de ocultar o meu desejo,

Para que não me crescem por ti louca,
Precisava que a forma do teu beijo
Não deixasses impressa em minha boca...

[revista A Mensageira, de 15 de Dezembro de 1897,
Ano I, nº 5, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Ibrantina Cardona*: O rio


____________________
No cabeço da serra e sob a aquosa bruma,
num leito de granito o rio se desloca;
flóculos de frouxéis na tona albente espuma,
e múrmuro rasteja, a lamber a barroca.

Dorso frisado ao vento, em forma de alva pluma,
por uma nesga estreita a massa fluída emboca;
da garganta de pedra a escorrê-la se apruma,
galga ao largo o pedrouço e afunda sob a loca.

De súbito ei-lo avante... Engrossando a cascata
de água viva que freme, as válvulas descerra,
dos saltos, vence o abismo, escachoa e desata

o selvagem caudal... Desde o pendor da serra,
numa conquista audaz com que avassala e mata,
o rio a plaga inteira empolga, vence e aterra.


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
____________________
Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Ibrantina Cardona: Violetas


____________________
São minhas confidentes estas flores
que traduzem na cor tanta tristeza;
o poema ideal dos meus amores
encerram no perfume e na pureza.

Elas sabem o quanto est’alma presa
tenho pelos teus olhos tentadores,
e por isso é que hão de, com certeza,
meu nome te lembrar, por onde fores.

Recebe-as com carinho... Essas coitadas,
dos beijos, nas corolas, têm o selo,
nas pétalas têm lagrimas gravadas.

Colhi-as com amor, com muito zelo...
Pois eu quero que a ti, cheguem atadas
pelos fios sutis do meu cabelo.

[revista A Mensageira, de 15 de Fevereiro de 1899,
Ano II, nº 25, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

domingo, 22 de outubro de 2023

Ibrantina Cardona*: Ti-Chin-Fú

____________________
A Olavo Bilac

Tem olhos cor de ônix, e do Japão é filho.
Usa o rabicho a ylang-ylang perfumado.
O rosto é cor de oca, e de Nankim pintado,
O seu bigode negro e ralo tem mais brilho

Veste cetim Macau, verde claro, bordado
À ouro, com dragões e rosas no peitilho.
Traz ventarola á cinta, em delicado atilho;
Nos pés botins de cor, com bico revirado.

É mandarim fidalgo e tem ricas baixelas,
Quiosques, palanquins; habita um palacete
Com teto de cristal e crivos nas janelas.

Na mesa de charão dá sempre o seu banquete;
Fuma ópio, é feliz; e, entre mulheres belas,
Ressona embriagado em flácido tapete.

[revista A Mensageira, de 15 de Dezembro de 1897,
Ano I, nº 5, São Paulo — SP]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Ibrantina Cardona, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que se segue:
Ao se casar com o jornalista Francisco Cardona, mudou-se para Mogi-Mirim, no interior de São Paulo. Com ele, viveu um casamento considerado, no mínimo, "estranho”. Descrito pelo vigário da cidade, Monsenhor José Nardini, como uma pessoa de temperamento forte e violento, Francisco pode ter sido o grande responsável pela separação do casal. Uma separação também diferente: viviam na mesma casa, ele na parte da frente e ela, na de trás. O banheiro tinha duas portas; uma para ele, outra para ela. As refeições eram servidas separadamente, sendo que no fim do casamento, os almoços e jantares chegaram a ser feitos por pessoas diferentes. Francisco e Ibrantina não trocavam uma palavra. Quando necessário, se comunicavam por meio de bilhetes.’ (trecho do texto Não somos alegres nem tristes: somos poetas, transcrito de A Voz da Serra — sexta-feira, 14 de março de 2014, Nova Friburgo — RJ)
____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta e escritora; colaborou intensamente em periódicos da época: Revista Feminina, Senhorita X!..., A Mensageira, Gazeta de Paraopeba, ...; escreveu e publicou Plectros (1897), Primavera do Amor (1915), Heptacórdio (1922), Cleópatra (1923), Asas Rubras (1939), Cosmos (poesias de vários tempos, 1951), ...; em 1976, a poetisa foi biografada por Antônio Arruda Dantas em Ibrantina Cardona, publicado pela Editora Pannartz; Ibrantina foi membro da Academia Fluminense de Letras, participou do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa etc.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Ibrantina Cardona: Após o festim

____________________
Pouco a pouco esmorece o delírio na sala;
sob arcos de festões morre a luz de áurea esteira...
De humana exsudação um forte odor trescala,
e o ambiente corrompido a vinho e a nardo cheira.

E resto do festim no mosaico resvala...
Taças gregas, rocais e véus de bailadeira,
diademas da nobreza e túnicas de gala
rolaram na expansão da orgia derradeira...

Aos acordes finais das músicas lascivas
quedou-se de cansaço a erótica loucura;
no sono da embriaguez aquietam-se os convivas.

Silêncio em tudo agora; e noite alta, erradia,
átrio adentro, espalhando o luar que fulgura,
somente a lua vela os destroços da orgia.

____________________
Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868 1956), nascida em Nova Friburgo RJ, foi poeta; escreveu e publicou Plectros (1897), Heptacórdio (1922), Primaveras do Amor, Asas Rubras, Cleópatra, e outros títulos; colaborou em periódicos da época, tais como na Revista Feminina e n’A Mensageira.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ibrantina Cardona: A Aranha

____________________
Desperta, à luz do sol que o véu a bruma esgarça,
da própria essência a aranha o longo fio estira,
com que tece ardilosa a fina talagarça
da rede circular em que rápida gira.

De fina filosela oculta, ela retira
da entranha de veludo a fibra e, urdindo-a, esparsa
da folha de esmeralda ao botão de safira,
a translúcida trama em rendilha disfarça.

E ao centro fica à espreita a sentinela astuta...
Chega a mosca dourada, em torno, os ares corta,
e, ao vê-la, a aranha estende os tarços, pronta à luta.

Cai a mosca afinal, zumbe, a tela recorta
e barafusta, a aranha a enrodilha, transmuta,
e dentro de um casulo a mosca encerra morta.

____________________
Antologia de Poetas Fluminenses — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ibrantina Froidevaux de Oliveira Cardona (1868  1956), nascida em Nova Friburgo  RJ, foi poeta; escreveu e publicou Plectros (1897), Heptacórdio (1922), Primaveras do Amor, Asas Rubras, Cleópatra, e outros títulos.