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domingo, 3 de agosto de 2025

Giosuè Carducci: Matinas e Noturno

 
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[traduzido por A. Herculano de Carvalho]

Da chuva da manhã, por fim, emerso,
Na pureza do azul o céu resplende,
E deste sol de maio ao universo,
O sorriso de Deus, lento, descende;

Quando álacre, ao espírito submerso,
Asas de luz, meu pensamento estende
E ao sol dos olhos teus voa meu verso
Como a trinar dum pássaro que ascende.

Mas sinto ardor no peito essa luz turva
Das pupilas, nas quais vagueia e fala
Um desejo de ignoto e estranho fito,

Quando a lua contemplo, erma de chuva,
A cidade marmórea que se cala,
Contar melancolias do infinito.


XXII.

Mattutino e notturno

Al mattin da la pioggia ecco deterso
In purità d’azzurro il ciel risplende,
E dal sole di maggio a l’universo
Il sorriso di Dio benigno scende;

Quando alacre da l’animo sommerso
L’ali innovate il mio pensiero stende,
E al sol de gli occhi tuoi rivola il verso
Come trillo di lodola che ascende.

Ma sento ardermi in cor la luce bruna
De le pupille in cui erra dolente
Il desio d’un ignoto estraneo lito,

Quando ammiro da i poggi ermi la luna
A la città marmorea tacente
Dir le malinconie de l’infinito.

[Verona, 17 luglio 1883]

(Rime nuove/Libro II — 1887),
[Rime nuove, libro II — 1906].
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, e Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

domingo, 22 de junho de 2025

Giosuè Carducci: Sol e amor

 
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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Leves e alvas à plaga ocidental,
As nuvens vão: seja por onde for,
Sorri o céu, como o humano labor
Saúda o sol, benigno, triunfal.

Em mil flechas desponta a catedral
E santos de ouro e rosado fulgor,
Radia então a hosana e há o rumor
Dos falcões, este alívolo coral.

Assim, depois que Amor riso de calma
Nuvens rasgou que me agravaram tanto,
Pode exsurgir à luz do sol minha alma.

E lhe sorri multiplicado o santo
Ideal da existência: é uma harmonia
O pensamento: e o sentimento é um canto.

(Rimas Novas)

Giosuè Carducci

XXI.
Sole e Amore

Lievi e bianche a la plaga occidentale
Van le nubi: a le vie ride e su ’l fòro
Umido il cielo, ed a l’uman lavoro
Saluta il sol, benigno, trionfale.

Leva in roseo fulgor la cattedrale
Le mille guglie bianche e i santi d’oro,
Osannando irraggiata: intorno, il coro
Bruno de’ falchi agita i gridi e l’ale.

Tal, poi ch’amor co ’l dolce riso via
Rase le nubi che gravârmi tanto,
Si rileva nel sol l’anima mia,

E molteplice a lei sorride il santo
Ideal de la vita: è un’armonia
Ogni pensiero, ed ogni senso un canto.

[14-15 dicembre 1872]

(Rime nuove — Libro secondo, 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Ça Ira (1883), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Giosuè Carducci: A Igreja de Polenta * [trecho]

 
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[traduzido por Dom F. de Aquino Correia]

[ . . . ]

Ave, Maria! Quando na aura aflante,
Corre esta humilde voz os horizontes,
Dos vis mortais, como de Haroldo e Dante,
Curvam-se as frontes.

Uma de flautas harmonia linda
Passa entre a terra e os céus, que além se coram:
Espíritos, talvez, dos que são inda,
Dos quem já foram?

Um doce esquecimento da oprimente
Vida, um suspirar fundo pela calma,
Um gosto de chorar suavemente
Invade a alma.

Cala-se a fera, o homem, tudo, e quando
Róseo, no azul se esfuma além o dia,
Cantam nas torres os sinos, ondulando:
Ave, Maria!

(Rimas e Ritmos)

Giosuè Carducci

La chiesa di Polenta [trecho]

[ . . . ]

Ave Maria! Quando su l’aure corre
l’umil saluto, i piccioli mortali
scovrono il capo, curvano la fronte
                    Dante ed Aroldo.

Una di flauti lenta melodi
passa invisibil fra la terra e il cielo:
spiriti forse che furon, che sono
                    e che saranno?

Un oblio lene de la faticosa
vita, un pensoso sospirar quïete,
una soave volontà di pianto
                    l’anime invade.

Taccion le fiere e gli uomini e le cose,
roseo ’l tramonto ne l’azzurro sfuma,
mormoran gli alti vertici ondeggianti
                    Ave Maria.

[luglio 1897]

(Rime e ritmi  1898)

* Nota do blogue Verso e Conversa: em pesquisas googleanas, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página descobriu que o poema carducciano A Igreja de Polenta [La chiesa di Polenta] é composto por 128 versos distribuídos em 32 estrofes [de 4 versos cada]; neste Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci..., constam, traduzidos por Dom Francisco de Aquino Correia, apenas as quatro últimas estrofes [versos 113 a 128].
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

domingo, 27 de abril de 2025

Giosuè Carducci: A morte de Eugênio Napoleão

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Este a inconsciente azagaia bárbara
prostrou tirando dos olhos fúlgidos
vida em que riam as visões
flutuantes pelo azul imenso.

Outro beijado pelas austríacas
plumas, sonhando pela alba gélida
a diana e o rufo pugnasse,
dobrou como pálido jacinto.

Ambos das mães distantes: e as mórbidas
tranças florentes de puerícia
eram como à espera do sulco
da maternal carícia. E em vez,

a sombra viu estas almas núbiles
sem um conforto: e até nem o pátrio
louvor seguia os rastros seus
com voz de amor e com voz de glória.

Isto não foi, ó filho de Hortênsia,
o prometido na infância,
pois em Paris tu lhe pediste
a sorte longe de rei de Roma.

De Sebastopol paz e vitória
iam ninando com as asas límpidas
o pequeno: Europa admirava:
a coluna esplendia como um fogo.

Mas de dezembro, mas de brumário
cruento é o lodo, a neblina é pérfida:
não crescen arbustos pela aura,
ou dão frutos de dinza e veneno.

Ó solitária casa de Ajaccio,
que grandes qüercos sombreiam vírides
e os cumes coroam serenos
diante de quem o amor é cantiga!

Aí Letícia, belo nome itálico,
feito de dor por todos os séculos,
esposa foi: foi mãe ditosa
por breve tempo e apenas e ali,

lançado aos tronos o raio último,
dadas ao povo leis de concórdia,
devias, cônsul, entre o mar
e o deus a que oras retirar-te.

Familiar sombra, mora Letícia
na casa vaga: nenhuma auréola
cesária a cinge: ora a mãe corsa
existe posta entre tumbas e aras.

Sou fatal filho, o de olhos de águia,
as filhas, bem como a aurora esplêndidas,
netos que são bela esperança,
todos fenecem bem longe dela.

Vai pelas noites a corsa Níobe,
está na porta aonde iam férvidos
para o batismo os filhos e ora
estende os braços pelo mar árduo.

Implora, implora, se das Américas,
se da Inglaterra, se da ardente África
alguém de sua trágica prole
a morte faça vir ao seu seio.

(Odes bárbaras)


Per la morte di Napoleone Eugenio

Questo la inconscia zagaglia barbara
prostrò, spegnendo li occhi di fulgida
vita sorrisi da i fantasmi
fluttuanti ne l’azzurro immenso.

L’altro, di baci sazio in austriache
piume e sognante su l’albe gelide
le dïane e il rullo pugnace,
piegò come pallido giacinto.

Ambo a le madri lungi; e le morbide
chiome fiorenti di puerizia
pareano aspettare anche il solco
de la materna carezza. In vece

balzâr ne ’l buio, giovinette anime,
senza conforti; né de la patria
l’eloquio seguivali al passo
co i suon’ de l’amore e de la gloria.

Non questo, o fósco figlio d’Ortensia,
non questo avevi promesso al parvolo:
gli pregasti in faccia a Parigi
lontani i fati del re di Roma.

Vittoria e pace da Sebastopoli
sopían co ’l rombo de l’ali candide
il piccolo: Europa ammirava:
la Colonna splendea come un faro.

Ma di decembre, ma di brumaio
cruento è il fango, la nebbia è perfida:
non crescono arbusti a quell’aure,
o dan frutti di cenere e tòsco.

O solitaria casa d’Aiaccio,
cui verdi e grandi le querce ombreggiano
e i poggi coronan sereni
e davanti le risuona il mare!

Ivi Letizia, bel nome italico
che omai sventura suona ne i secoli,
fu sposa, fu madre felice,
ahi troppo breve stagione! ed ivi,

lanciata a i troni l’ultima folgore,
date concordi leggi tra i popoli,
dovevi, o consol, ritrarti
fra il mare e Dio cui tu credevi.

Domestica ombra Letizia or abita
la vuota casa; non lei di Cesare
il raggio precinse: la còrsa
madre visse fra le tombe e l’are.

Il suo fatale da gli occhi d’aquila,
le figlie come l’aurora splendide,
frementi speranza i nepoti,
tutti giacquer, tutti a lei lontano.

Sta ne la notte la còrsa Niobe,
sta sulla porta donde al battesimo
le uscíano i figli, e le braccia
fiera tende su ’l selvaggio mare:

e chiama, chiama, se da l’Americhe,
se di Britannia, se da l’arsa Africa
alcun di sua tragica prole
spinto da morte le approdi in seno.

(Odi Barbare [prima edizione] — 1877)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Giosuè Carducci: Canto da manhã

 
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[traduzido por Freitas Guimarães]

Bate à tua janela o sol, e assim te fala:
Vamos! chegou o tempo em que se deve amar!
Eu conduzo comigo o aroma que trescala
A violeta, e o hino esplêndido que exala
Cada rosa, a se abrir, para a manhã saudar.
Eu trago do áureo trono excelso abril e maio,
Para te homenagear, ó flor primaveril!
E o novo ano que vai doirando com o seu raio
A frescura que tens, e evitando o desmaio
Da tua mocidade estranha e senhoril!

Diz o vento, batendo, à tua porta: quanto
Espaço eu não venci, dos montes através
E das planícies! Por sobre a terra em quebranto,
Um só concerto se ouve, apenas se ouve o canto
Que a natureza entoa, ajoelhada a teus pés!
Já chegou a estação: amemos, flor, amemos!
E os túmulos também, dentre as flores que vemos
A enfeitá-los de novo, erguem brados supremos:
Vêde o tempo que passa! amai, amai, amai!

Bate em teu coração, belo jardim florido,
Meu pensamento e diz: Pode-se entrar aqui?
Um viajante eu sou, tristonho e envelhecido...
Sentindo-me sem ar e já desfalecido
Venho pedir descanso àquela a quem servi!
Quisera receber entre estas lindas flores
Sonhando um bem que nunca ninguém sonhou:
Quisera descansar aqui das minhas dores,
Sonhar junto de ti, sonho dos meus amores,
Um bem que não gozei e já por mim passou!

(Rimas Novas [1887])

Giosuè Carducci

LII.
Mattinata

Batte a la tua finestra, e dice, il sole:
Lèvati, bella, ch’è tempo d’amare.
Io ti reco il desir de le viole
E gl’inni de le rose al risvegliare.
Dal mio splendido regno a farti omaggio
Io ti meno valletti aprile e maggio
E il giovin anno che la fuga affrena
Su ‘l fior de la tua vaga età serena

Batte a la tua finestra, e dice, il vento:
Per monti e piani ho viaggiato tanto!:
Sol uno de la terra oggi è il concento,
E de’ vivi e de’ morti un solo è il canto.
De’ nidi a i verdi boschi ecco il richiamo
Il tempo torna: amiamo, amiamo, amiamo
E il sospir de le tombe rinfiorate
Il tempo passa: amate, amate, amate.

Batte al tuo cor, ch’è un bel giardino in fiore,
Il mio pensiero, e dice:  Si può entrare?
Io sono un triste antico vïatore,
E sono stanco, e vorrei riposare.
Vorrei posar tra questi lieti mai
Un ben sognando che non fu ancor mai:
Vorrei posare in questa gioia pia
Sognando un bene che già mai non fia.

20 marzo 1882

(Rime Nuove — 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Giosuè Carducci: Só, passa a minha nave entre o sentido . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Só, passa a minha nave entre o sentido
Pranto alciôneo na água procelosa,
Envolve-a e fere-a a sempre esplendorosa
Luz do raio e das ondas o rugido.

Voltam agora ao teu amargo lido
As memórias de face lacrimosa,
E a esperança vencida à fatigosa
Vista se abate no remo partido.

Mas o meu gênio sobre a popa erguido
Contempla o céu e o mar e canta forte
Do vento e das antenas ao gemido.

Vamos vogar, desesperada coorte,
Ao porto que é só nuvens, o do olvido,
Aos recifes mais brancos, os da morte.

(Juvenília)

Giosuè Carducci

Passa la nave mia, sola, tra il pianto

XXXVI.

Passa la nave mia, sola, tra il pianto
De gli alcïon, per l’acqua procelosa:
E la involge e la batte, e mai non posa
De l’onde il tuon, de i folgori lo schianto.

Volgono al lido, omai perduto, in tanto
Le memorie la faccia lacrimosa,
E vinte le speranze in faticosa
Vista s’abbatton sovra il remo infranto.

Ma dritto su la poppa il genio mio
Guarda il cielo ed il mare, e canta forte
De’ venti e de le antenne al cigolío:

Voghiam, voghiamo, o disperate scorte,
Al nubiloso porto de l’oblio,
A la scogliera bianca de la morte.

(Juvenília — Libro Terzo, 1850)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Ça Ira (1883), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Giosuè Carducci: A Giuseppe Garibaldi

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

O ditador diante do lúgubre
esquadrão é revolto e tácito,
cavalga; firmamento e terra
pálidos, plúmbeos, frios em torno.

Dos seus cavalos cascos ouviam-se
calcar a lama enquanto eram trêmulos
passos cadentes e suspiros
de heróicos peitos dentro da noite.

Porém das leivas da noite lívida,
porém dos brotos de sangue róridos,
por onde havia mesquinha fibra,
ó mães itálicas, do peito vosso,

tal como estrelas surgiam flâmulas,
surgiam vozes tal como cânticos.
Roma esplendia olímpica ao fundo,
corria pelo céu um peã.

Surge em Mentana o horror dos séculos,
de Pedro e César amplexo fúnebre.
Tu, Garibaldi, ora em Mentana
César e Pedro calcaste aos pés.

Ó de Aspromonte rebelde esplêndido,
ó de Mentana soberbo víndice,
vem e narra Palermo e Roma
no Capitólio para Camilo.

Como as arcanas vozes de espíritos,
ia a correr pelo céu de Itália,
o dia em que uivaram os vis
cães temerosos da ação da vara.

Hoje te adora a Itália, invocando-te
a nova Roma que és novo Rômulo;
sobes, divino: e paire longe
de tua fronte a mudez da morte.

Das almas vai assoprando o vértice,
ó refulgente, chamam-te os séculos
às alturas do almo concílio,
o dos indígetes numes da pátria.

Sobes. E Dante diz a Virgílio:
“Nunca pensamos formas mais fúlgidas
de herói.” Di-lo Lívio e sorri:
“Ele é da história, ó poetas.

“Da história cívica de nossa Itália,
é esta audácia tenace lígure;
que só defende o justo e o alto,
mira irradiante por sobre o ideal.”

Glória a ti, pai. No torvo frêmito
já sopra do Etna e sopra dos vórtices,
dos Alpes teu peito de leão,
oposto aos bárbaros como os tiranos.

Brilha o teu peito suave no cérulo
riso do mar do céu dos flóridos
maios difuso sobre os sepulcros
que nunca olvidam os seus heróis.

(Odes Bárbaras)

Giosuè Carducci

A Giuseppe Garibaldi
III novembre MDCCCLXXX

Il dittatore, solo, a la lúgubre
schiera d’avanti, ravvolto e tacito
cavalca: la terra ed il cielo
squallidi, plumbei, freddi intorno.

Del suo cavallo la pésta udivasi
guazzar nel fango: dietro s’udivano
passi in cadenza, ed i sospiri
de’ petti eroici ne la notte.

Ma da le zolle di strage livide,
ma da i cespugli di sangue roridi,
dovunque era un povero brano,
o madri italiche, de i cuor vostri

salíano fiamme ch’astri parevano,
sorgeano voci ch’inni suonavano:
splendea Roma olimpica in fondo,
correa per l’aëre un peana.

― Surse in Mentana l’onta de i secoli
dal triste amplesso di Pietro e Cesare:
tu hai, Garibaldi, in Mentana
su Pietro e Cesare posto il piede.

O d’Aspromonte ribelle splendido,
o di Mentana superbo vindice,
vieni e narra Palermo e Roma
in Capitolïo a Camillo.

Tale un’arcana voce di spiriti
correa solenne pe ’l ciel d’Italia
quel dí che guairono i vili,
botoli timidi de la verga.

Oggi l’Italia t’adora. Invòcati
la nuova Roma novello Romolo:
tu ascendi, o divino: di morte
lunge i silenzii dal tuo capo.

Sopra il comune gorgo de l’anime
te rifulgente chiamano i secoli
a le altezze, al puro concilio
de i numi indigeti su la patria.

Tu ascendi. E Dante dice a Virgilio:
“Mai non pensammo a forma piú nobile
d’eroe„. Dice Livio, e sorride,
“È de la storïa, o poeti.

De la civile storia d’Italia
è quest’audacia tenace ligure,
che posa nel giusto, ed a l’alto
mira, e s’irradia ne l’ideale”.

Gloria a te, padre. Nel torvo frêmito
spira de l’Etna, spira ne’ turbini
de l’alpe il tuo cor di leone
incontro a’ barbari ed a’ tiranni.

Splende il soave tuo cor nel cerulo
riso del mare del ciel de i floridi
maggi diffuso su le tombe
su’ marmi memori de gli eroi.

(1877)

(Ode Barbare — Libro primo, 1880)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.