domingo, 31 de maio de 2020

Stéphane Mallarmé: Aparição

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

A lua estava triste. Arcanjos sonhadores
Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores
Aéreas, vinham virar de evanescentes violas
Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.
— Era o dia feliz do teu primeiro beijo.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.

Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,
Quando, trazendo nos cabelos um sol lindo,
Na alameda e na tarde apareceste rindo.
E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada
Que nos meus sonos bons de criança mimada
Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas
Punhados celestiais de estrelas perfumadas.

Stéphane Mallarmé
Stéphane Mallarmé

Apparition

La lune s'attristait. Des séraphins en pleurs
Rêvant, l'archet aux doigts, dans le calme des fleurs
Vaporeuses, tiraient de mourantes violes
De blancs sanglots glissant sur l'azur des corolles.
— C'était le jour béni de ton premier baiser.
Ma songerie aimant à me martyriser
S'enivrait savamment du parfum de tristesse
Que même sans regret et sans déboire laisse
La cueillaison d'un rêve au coeur qui l'a cueilli.

J'errais donc, l'oeil rivé sur le pavé vieilli,
Quand, avec du soleil aux cheveux, dans la rue
Et dans le soir, tu m'es en riant apparue.
Et j'ai cru voir la fée au chapeau de clarté
Qui jadis sur mes beaux sommeils d'enfant gâté
Passait, laissant toujours de ses mains mal fermées
Neiger de blancs bouquets d'étoiles parfumées.
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Poetas de França (vários autores)  Guilherme de Almeida, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Um coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sábado, 30 de maio de 2020

william butler yeats: nenhuma tróia a mais

Poesia da Recusa
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[traduzido por Augusto de Campos]

Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Tróia a mais teria que incendiar?

William Butler Yeats

no second troy

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for na Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Jacques Prévert: Familiar

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[traduzido por Silviano Santiago]

A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.

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Jacques Prévert

Familiale

La mère fait du tricot
Le fils fait la guerre
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu'est-ce qu'il fait le père?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu'est-ce qu'il trouve le fils?
Il ne trouve rien absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père des affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle tricote
Le père continue il fai des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
La père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre les affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimetière.
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Poesia de Todos os Tempos: Jacques Prévert — Poemas, Seleção, Tradução e Introdução de Silviano Santiago, 2000, 8ª impressão, Editora Nova Fronteira, São Paulo — SP; Jacques Prévert (1900 1977), francês de Neuilly-sur-Seine, foi roteirista de cinema e poeta; sua obra: Paroles (1946), Le Cheval de Trois (1946), Histoires (1946), Contos para crianças não sábias e O pequeno leão (ambos de literatura infantil, 1947), Des bêtes (1950), Spectable (1951), Lettre des îles Baladar (literatura infantil, 1952), Tour le chant (1953), L’Opéra de lune (literatura infantil, 1953), além de outros textos em verso e prosa e também para crianças; Jacques Prevért foi criador de roteiros e diálogos de extensa filmografia da escola do realismo poético francês, filmes estes realizados por Jean Renoir, Marcel Carné e outros cineastas; teve poemas musicados.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Cuti: Negroesia

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enxurrada de mágoas sobre os paralelepípedos
por onde passam carroções de palavras duras
com seus respectivos instrumentos de tortura

entre silêncios
augúrios de mar e rios
o poema acende seus pavios
e se desata
do vernáculo que mata

ao relento das estrofes
acolhe os risos afros
embriagados de esquecimento e suicídio
no horizonte do delírio

e do âmago do desencanto contesta as máscaras
lançando explosivas metáforas pelas brechas dos poesídios
contra o arsenal do genocídio.

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Cuti: Negroesia — Antologia Poética, Apresentação de Moema Parente Augel, 2ª edição, 2010, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; bibliografia: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia — Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Lêdo Ivo: Soneto Campestre

tesco aqui: 2016
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Talo de planta, falsa primavera
na terra clara, junto às brancas árvores.
Pantera feita d'água e de relâmpago,
a chuva cai, tornando o tempo célebre.

Repartida na fúria e na indolência,
a vida é vegetal, cresce entre as pedras.
Vejo o dia de todas as janelas
e há árvores azuis em toda parte.

Sou de pedra sonhando o panorama
similar às savanas saqueadas
por mim, em meus passeios de menino.

Naquele tempo tudo era possível.
Orgulhoso, silente e sem linguagem,
Eu era a natureza. Eu me inventava.

A “Aurora” póstuma de Lêdo Ivo (Parte II) - Jornal Opção
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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S.A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Rainer Maria Rilke: Torso arcaico de Apolo

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[traduzido por Manuel Bandeira]

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

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Archaïscher Torso Apollos

Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,

sich hält und glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
und flimmerte nicht so wie Raubtierfelle;

und bräche nicht aus allen seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.

(Der neuen Gedichte anderer Teil  1908)
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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

P. B. Shelley: Nênia

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Áspero vento, que lamentas alto
Dor muito triste para ser cantada,
Vento bravio, quando a escura nuvem
Dobra ao longo da noite consternada;

Bosques despidos, cujos galhos se contorcem,
Triste tormenta, de prantear tão infecundo,
Fundas cavernas e medonho mar,
Chorai pela injustiça deste mundo.

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P. B. Shelley

A Dirge

Rough wind, that moanest loud
Grief too sad for song;
Wild wind, when sullen cloud
Knells all the night long;

Sad storm whose tears are vain,
Bare woods, whose branches strain,
Deep caves and dreary main,
Wail, for the world’s wrong!
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P. B. Shelley: Ode ao Vento Oeste e outros poemas — Organização e Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2009, 2ª edição, Editora Hedra, São Paulo — SP; Percy Bysshe Shelley (1792 1822), inglês nascido em Field Place, Horsham, foi poeta, ensaísta e dramaturgo do Romantismo da Inglaterra; de família abastada, fez seus estudos na Syon House Academy Brentford e no Eton College, uma escola secular nos arredores do Castelo de Windsor; depois, matriculou-se na University College Oxford, de onde foi expulso por ter publicado anonimamente um panfleto, The Necessity of Atheism, enviado aos bispos e outras personalidades, com um convite para debate e, intimado pelas autoridades escolares, ter-se calado, não respondendo se o folheto era ou não de sua autoria; com um professor de clássicos estudou de Horácio e Virgílio a Homero; traduziu O Banquete, de Platão; conheceu Lord Byron, John Keats, Leigh Hunt e outros escritores e poetas de sua época, convivendo com eles; bibliografia: Zastrozzi (romance, 1810), Original Poetry by Victor and Cazire (em coautoria com sua irmã Elizabeth Shelley, 1810), The Cenci, a Tragedy, in Five Acts (Os Cenci, uma Tragédia em 5 Atos, 1819), The Masque of Anarchy (1819), Una Favola (original em italiano, 1819), Ode to the West Wind (Ode ao Vento Oeste, 1819), Prometheus Unbound, A Lyrical Drama, in Four Acts (Prometeu Libertado, 1820), Adonais — elegia sobre a morte de John Keats (1821), Hellas, A Lyrical Drama (1821), e outros títulos; O poeta Shelley morreu no mar, quando o barco em que velejava desapareceu na neblina de uma tempestade, tendo seu corpo sido encontrado; Robert Schumann, Samuel Barber, Berthold Goldschmidt e outros compositores musicaram textos do poeta.

Ludwig Uhland: A serenata

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[traduzido por Fagundes Varela]

Oh, minha mãe, que harmonias
Vêm meu sono interromper!
Não ouvis? Ai, são tão belas
Que me sinto reviver.

Dorme, filhinha, é o delírio
Que te causa a febre ardente:
Quem tocará serenatas
Na porta de um doente?

Não é música terrestre
Que ao sono rasga-me o véu,
Oh, mãe, é o coro dos anjos
Que me chamam para o céu!

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Ludwig Uhland

Das Ständchen

Was wecken aus dem Schlummer mich
Für süsse Klänge doch?
O Mutter, sieh! wer mag es sein,
In später Stunde noch?

“Ich höre nichts, ich sehe nichts.
O schlummre fort so lind!
Man bringt dir keine Ständchen jetzt,
Du armes, krankes Kind!”

Es ist nicht irdische Musik,
Was mich so freudig macht:
Mich rufen Engel mit Gesang.
O Mutter, gute Nacht!
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Ludwig Uhland (1787 1862), alemão de Tübingen, à época ducado de Württemberg, estudou jurisprudência e formou-se em direito na universidade local, estudioso da literatura medieval, em especial da poesia alemã e francesa antigas, foi poeta, filólogo, historiador literário, advogado e político; bibliografia: Vaterländische Gedichte (coleção de poemas, 1815, com outras edições que incluíam novos poemas), Ernst, Herzog von Schwaben e Ludwig der Baier (obras dramáticas, 1818 e 1819, respectivamente)...; consta da biografia do poeta que suas baladas se tornaram amplamente populares e que algumas delas se transformaram em hinos.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Augusto dos Anjos: Versos de amor

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A um poeta erótico

Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias o inventor da flauta
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!

Pau d’Arco, agosto  1907.

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Eu, outras poesias, poemas esquecidos — Texto e Nota: Antonio Houaiss, Elogio do poeta: Orris Soares, Notas biográficas: Francisco de Assis Barbosa — 30ª. edição, 1965, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba, Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.