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terça-feira, 26 de maio de 2026

Maranhão Sobrinho: Poetas Malditos

 
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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momentos depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176  1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Emiliano Perneta: Vencidos

 
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Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?… E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço…
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E gloria à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

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Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Emiliano David Perneta (1866 1921), paranaense nascido “em um sítio” na região de Pinhais, à época zona rural de Curitiba [hoje município de Pinhais PR], formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco), foi poeta, professor de português, jornalista e advogado; teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época, estreando em 1883 com publicação no periódico curitibano O Dilúculo; em 1887, já em São Paulo, fundou A Vida Semanária, da qual foi redator, depois foi coproprietário de A Quinzena Paulista: letras e artes (hoje, periódicos considerados raros, encontrados na Biblioteca Nacional) e, na companhia de outros intelectuais fundou a Folha Literária; em 1888 publicou seu primeiro livro, Músicas; após formar-se trabalhou como jornalista nos periódicos Cidade do Rio e Novidades, ambos no Rio de Janeiro, por um breve período exerceu o ofício de promotor de justiça em Minas Gerais, depois, de retorno a Curitiba, passou a lecionar, trabalhou como auditor do Exército, fundou a revista literária Victrix; integrando-se nos círculos boêmios da capital do estado, difundiu a leitura de autores franceses, Baudelaire entre os quais, e com isso impulsionou o movimento simbolista, ele próprio sendo considerado e reconhecido como “o maior expoente do simbolismo no Paraná”; suas obras: Músicas (1888), Carta à Condessa d’Eu (1889), O Inimigo (prosa dramática, 1889), Alegoria (prosa dramática, 1903), Ilusão (poemas, 1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, poemas, 1934); produziu libretos operísticos: Papilio Innocentia (ópera, baseada no romance Inocência, de Visconde de Taunay (1911) e A Vovozinha (ópera infantil, 1914); como jornalista, o poeta também colaborou no Diário Popular, na Gazeta de São Paulo e em mais periódicos; Emiliano Perneta foi um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná (“núcleo da atual Academia Paranaense de Letras”), do qual tornou-se presidente de 1913 a 1918.

domingo, 10 de maio de 2026

Tristan Corbière: Paris diurna

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Ver grande esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de refeição, maná, úmido em suor
Sempre o prato do dia e úmido de amor.

Os cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados também, canecas a virar;
O mísero tirita esperando seu turno.

Crês assim que o sol frita para todo mundo
Gordas férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o caldo do cão em nós cai lá do céu.

Eles sob o luzir e nós sob a goteira,
Para nós, desventura sem a lumeeira.
Nossa própria substância é o saco de fel.


Paris diurne

Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.

Les laridons en cercle attendent près du four,
On entend vaguement la chair rance bruire,
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire;
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.

Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde?
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.

Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874, Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

domingo, 3 de maio de 2026

Da Costa e Silva: Saudade

 
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Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor da minha terra… O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de Junho. O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando…
E à noite as folhas lívidas cantando
A saudade infeliz de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
Ai! mortalhas de neve sobre a serra…

Saudade! O Parnaíba velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe
O mugido dos bois da minha terra…

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Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Hermes Fontes: Estrela d'alva

 
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Vem por aí o Dia... Ó loura Estrela d'Alva,
escudeira do Sol, cuja vanguarda assumes!
Ao teu beijo estelar, a alma se nos ressalva,
e se ofusca a “lanterna azul” dos vaga-lumes...

Pela planície do Ar, que a Noite, em fuga, escalva,
vão-se os astros... Só tu sorris, e te presumes
uma salva geral de palmas, uma salva
de pétalas, de sons, de cores, de perfumes...

Estrela d’Alva, noiva e irmã dos sonhadores!
Taça, onde os olhos vão beber, contra as moléstias,
remédios imortais e purificadores...

Cercam-te, régia noiva, etéreas brumas... veste-as;
véu nupcial que te envia a Terra, expansa em flores,
Pela escada de luz das tuas louras réstias...

MCMIV.
(Apoteoses, pág. 28, 2ª Edição, 1915,
Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro,)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

sábado, 18 de abril de 2026

Alphonsus de Guimaraens: Ismália [prosa-poema]

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[prosa-poema]

          Quando ela se morreu, os seus olhos continuaram a mirar-me; não tive coragem de cerrá-los, como se faz com os olhos de todos os mortos. Os meus olhos, no entanto, não os deixavam sós: miravam-nos também, com a mesma fixidez.
          Eu via, de quando em quando, um cisne poisar na luz metálica dos olhos dela; era a sua alma que descia do céu, saudosa do ninho onde vivera durante quinze primaveras.
          Quando o cisne baixava do alto, um frêmito rápido percorria todo o corpo da formosa morta; o seu rosto sorria, num relâmpago fugace, num fogo-fátuo que era cristalino; o seu peito arfava, alevantando os seios púberes, castos como dois lírios que fossem rosas; e as suas espáduas ebúrneas, por onde nunca haviam passado outros beijos que não fossem os raios do sol, quando ela se banhava no rio hialino, estremeciam dolentemente.
          O cisne, que era a sua alma, adejou para o céu, e nunca mais voltou até ao ninho onde vivera durante quinze primaveras; mas os olhos dela continuaram a mirar-me eternamente, porque eu não tive coragem de cerrá-los, como se faz com os olhos de todos os mortos.

(© Domínio público)

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Antologia do Poema em Prosa no Brasil [várias autorias], Seleção e Organização de Fernando Paixão, 2024, Editora Unicamp e Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Alphonsus de Guimaraens (1870 1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, formou-se pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco [atual Direito USP São Paulo], foi juiz, promotor de justiça, poeta e escritor; colaborou nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de São Paulo e A Gazeta; suas obras: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Mendigos (prosa, 1920), Pauvre Lyre (1921) e, postumamente, Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Escada de Jacó e Púlvis.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Da Costa e Silva: Cântico do Sangue

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Sangue! essência vital do sentimento,
Que, rubra, móvel, plástica, incendida,
Sobe do coração ao pensamento,
Circulando nos vórtices da Vida.

Vida das vidas, alma da matéria,
Que da emoção as ondas encadeia,
Fluindo dos ventrículos à artéria,
Refluindo da artéria para a veia.

Essência misteriosa e procriadora,
Vida difusa a errar em frágeis veios,
Que as idéias inflama e os olhos doura:
Orvalho níveo dos maternos seios.

Mar Vermelho sutil de ondas estuosas,
Ao meu cajado de Moisés tristonho,
Florindo em cravos, amarantos, rosas
Lodões, corais dos litorais do Sonho.

Rubro Estige espumoso da Luxúria,
Golfão dos meus desejos rebelados,
Onde a minh’alma de Hércules, em fúria,
Pasce a Hidra de Lerna dos Pecados.

Força despertadora dos sentidos,
Que acorda, inflando, em frêmitos velozes,
Pela teia vibrátil dos tecidos,
Ânsias, desejos, sensações, nevroses…

Térmica poeira, liquefeita, insana,
Do turbilhão dos glóbulos vermelhos:
Os grãos de areia da vaidade humana
Refletida em recíprocos espelhos…

Tépido arroio vivo e purpurino,
Que aos vasos corporais a sede estanca,
Em arabesco túrgido e turquino,
De transparência azul, na pele branca.

Fonte de inspiração, Castália ardente
Dos ideais simbólicos em bando,
Em dilúvios de cor fosforescente,
Numa preamar lunática flutuando…

Sangue! fluido genésico e fecundo
Do sentimento que anda em mim disperso
Rocio com que alento e com que inundo
As sementeiras rubras do meu verso.

(Sangue — 1908)


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Da Costa e Silva: Poesias completas — 1885/1985, Edição do Centenário, 3ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1985, Editora Nova Fronteira e Instituto Nacional do Livro — Fundação Nacional Pró-Memória, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos crônicas e crítica literária publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou (entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Maranhão Sobrinho: Soror Teresa

 
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... E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado...

Somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado...

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa...

Não creio que, de amor, a morte venha,
mas, sei que a vida da soror boiava
dentro dos olhos do Senhor da Penha...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do
Simbolo, págs. 23-24 — 1908)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jules Laforgue: Lamento da Boa Defunta

 
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[paráfrase* de Régis Bonvicino]

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.

Jules Laforgue

Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient: "J'ai deviné 
Hélas! que tu m'as reconnue!"

Je la suivis illuminé!
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue;
OEillet blanc, d'azur trop veiné;
Oh! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
Oh! je rentrerai sans dîner!

Vrai, je ne l'ai jamais connue.

* Nota do tradutor Régis Bonvicino:Esta tradução é, de fato, uma paráfrase. A alternância rímica está toda modificada. Mantive a métrica de oito sílabas.
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Litanias da lua: Jules Laforgue Organização, Nota Introdutória, Notícia Biográfica e Tradução de Régis Bonvicino, edição bilíngue + Ensaios de Laforgue: Notas sobre Baudelaire (traduzido por Heloisa Braz de Oliveira Prieto e Régis Bonvicino), Um estudo sobre Corbière, Fragmento sobre Rimbaud e Fragmento sobre Mallarmé (os três, pela tradução de Heloisa B. O. Prieto) e Ensaios sobre Laforgue: Jules Laforgue, uma figura uruguaia (de Lisa Block de Bear, traduzido por Heloisa Prieto), Sob o Signo da Lua (de Nelson Ascher) e Anarquia, Verso Livre (de Régis Bonvicino), 1989, Iluminuras, São Paulo SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier, concluindo-os em Paris no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes) também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; em 1881 escreveu Stéphane Vassiliew, uma novela; consta de sua biografia ter escrito cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; e que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); em Paris, teve artigos publicados no Le Figaro e na Revue Indépendantepostumamente editaram-se os livros Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), Stéphane Vassiliew (novela escrita em 1881 e publicada en 1943) ...; a maior parte de sua obra só veio à luz após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes"; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Tristan Corbière: Duelo das camélias

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Eu vi o sol duro de encontrar aos tufos
Esgrimir.  Vi a esgrima ensolarar,
Fazendo paradas em lances bufos;
Melros de negro assistiam brilhar.

Um senhor em camisa se aprontava;
Parecia uma camélia, todo branco;
No ramo outra flor rosa vicejava
Como… E o florete vergou num flanco.

 Raiva, estou roxo!… Ah! ele me degola –
… Camélia branca  lá  como Sua gola…
Camélia amarela,  aqui  mastigada…

Meu amor morto, da lapela caiu.
 Eu, chaga aberta, flor primaveril!
Camélia viva, de sangue matizada!

Tristan Corbière

Dueul aux camélias

J'ai vu le soleil dur contre les touffes
Ferrailler. J'ai vu deux fers soleiller1,
Deux fers qui faisaient des parades bouffes;
Des merles en noir regardaient briller.

Un monsieur en ligne arrangeait sa manche;
Blanc, il me semblait un gros camélia;
Une autre fleur rose était sur la branche,
Rose comme... Et puis un fleuret plia.

Je vois rouge... Ah oui! c'est juste: on s'égorge
... Un camélia blanc comme Sa gorge...
Un camélia jaune, ici tout mâché...

Amour mort, tombé de ma boutonnière2.
A moi, plaie ouverte et fleur printanière!
Camélia vivant, de sang panaché!

Veneris Dies 13 ***

Notas do tradutor Marcos Antônio SiscarRetoma o tema baudelairiano do duelo amoroso (por exemplo, em “Duellum”). O título remete também ao romance de Alexandre Dumas Filho, A Dama das camélias, de 1849.
1. verso 2 — “Soleiller” é um neologismo, de origem provençal, construído a partir de “soleil”;
2. verso 12 — “Bouttonière” significa também a incisão fina e comprida que pode fazer um florete;
*** “Veneris Dies 13 — joga com a etimologia de “vendredi”, dia de Vênus e sexta-feira 13, dia fatídico.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.