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— trecho: seis primeiras estrofes —
[traduzido por Manuel Bandeira]
Canto segundo
A Colheita
Cantai, cantai, ó raparigas!
Pois a colheita é cantadeira.
Dormem o seu terceiro sono os belos sirgos,
Sobre as amoreiras as moças,
Que o bom tempo alvoroça e alegra,
São como um enxame de loucas
Abelhas a roubar o mel aos rosmaninhos.
Despojai das folhas os ramos!
Cantai, cantai, ó raparigas!
Miréia está entre vós nesta manhã de maio.
Nesta manhã colocou ela
Por brincos em suas orelhas,
A faceira! duas cerejas...
Nesta manhã Vicente outra vez passou lá.
Ao seu gorro escarlate, à moda
Das gentes dos mares latinos,
Trazia ansiosamente uma pena de galo.
Pisando firme o chão da estrada,
Pondo em fuga as serpes vadias,
A golpes de bastão tangia
Para longe as sonoras pedras do caminho!
— “Ó Vicente”, lhe diz Miréia
Do meio dos verdes carreiros,
“Muito apressado vais!” O rapaz, prestemente,
Vira-se para donde viera
A voz, e lá, numa amoreira,
Pousada como uma calhandra,
Descobriu a menina e abordou-a contente,
— “Miréia! Então? Boa colheita?”
— “Eh, vai indo, vai indo aos poucos.”
— “Quer que a ajude?” — “Pois sim.” E enquanto ela
Trepava na amoreira, e ria, aos gritinhos,
Vicente, pisando nos trevos,
Subiu a árvore como um rato.
— “Mestre Ramon só tem uma filha,
Miréia!
“Fique nos galhos baixos, deixe
Os altos para mim.” Ligeira,
Correndo a mão no ramo: — “Assim, em companhia,
O trabalho não aborrece!
Sozinha, dá uma preguiça!”
Disse. — “Eu também, o que me amola”,
Secundou o rapaz, “é justamente isso.
[ . . . ]
Mirèio
Cant
segound
La
culido
Cantas,
cantas, magnanarello,
Que la
culido es cantarello!
Galant
soun li magnan e s’endormon di tres;
Lis
amourié soun plen de fiho
Que
lou bèu tèms escarrabiho,
Coume
un vòu de blóundis abiho
Que
raubon sa melico i roumanin dóu gres.
En
desfuiant vòsti verguello,
Cantas,
cantas, magnanarello!
Mirèio
es à la fueio, un bèu matin de Mai.
Aquéu
matin, pèr pendeloto,
A sis
auriho, la faroto!
Avié
penja dos agrioto...
Vincèn,
aquéu matin, passè 'qui tournamai.
A sa
barreto escarlatino,
Coume
an li gènt di mar latino,
Avié
poulidamen uno plumo de gau;
E’n
trapejant dins li draiolo
Fasié
fugi li serp courriolo,
E di
dindànti clapeirolo
Emé
soun bastounet bandissié li frejau.
— O Vincèn,
ié faguè Mirèio
D’entre-mitan
li vèrdi lèio,
Passes
bèn vite, que! — Vincenet tout-d’un-tèm
Se
revirè vers la plantado,
E, sus
un amourié quihado
Coume
uno gaio couquihado,
Destouquè
la chatouno, e ié landè, countènt.
— Bèn?
Mirèio, vèn bèn la fueio?
— He!
pau-à-pau tout se despueio...
— Voulès
que vous ajude? — O!... Dóu tèms qu’eilamount
Elo
risié jitant de siéule,
Vincèn,
picant dóu pèd lou tréule,
Escalè
l’aubre coume un gréule.
— Mirèio,
n’a que vous lou vièi Mèste Ramoun:
Fasès
li baisso! aurai li cimo,
Iéu,
boutas! — E’mé sa man primo,
Elo en
mousènt la ramo: — Engardo de langui
De
travaia 'n pau en coumpagno!
Souleto,
vous vèn une cagno!
Dis. —
Iéu peréu ço que m’enlagno,
Respoundeguè
lou drole, èi just acò-d’aqui.
[ . . . ]
— o -—
Mireille
Chant second
La Cueillette
Chantez, chantez, magnanarelles! car la
cueillette aime les chants. Beaux sont les vers à soie, et ils s’endorment de
leur troisième somme; les mûriers sont pleins de jeunes filles que le beau
temps rend alertes et gaies, telles qu’un essaim de blondes abeilles qui
dérobent leur miel aux romarins des champs pierreux.
En défeuillant vos rameaux, chantez,
chantez, magnanarelles! Mireille est à la feuille, un beau matin de mai: cette
matinée-là? pour pendeloques, à ses oreilles, la coquette avait pendu deux
cerises.... Vincent, cette matinée, passa là de nouveau.
A son bonnet écarlate, comme en ont les
riverains des mers latines il avait gentiment une plume de coq; et en foulant
les sentiers, il faisait fuir les couleuvres vagabondes, et des sonores tas de
pierres avec son bâton il chassait les cailloux.
O Vincent! lui cria Mireille du milieu
des vertes allées, pourquoi passes-tu si vite! Vincent aussitôt se retourna
vers la plantation, et, sur un mûrier perchée comme une gaie coquillade, il
découvrit la fillette, et vers elle vola, joyeux.
Eh bien! Mireille, vient-elle bien, la
feuille? Eh! peu à peu tout (rameau) se dépouille. Voulez-vous que je vous
aide? Oui! Pendant qu’elle riait là-haut en jetant de folâtres cris de joie,
Vincent, frappant du pied le trèfle, grimpa sur l’arbre comme un loir.
Mireille, il n’a que vous, le vieux maître Ramon:
Faites les branches basses! j’atteindrai
les cimes, moi, allez! Et de sa main légère, celle-ci trayant la ramée: Cela
garde d’ennui, de travailler (avec) un peu de compagnie! Seule, il vous vient
un nonchaloir! dit-elle. Moi de même, ce qui m’irrite, répondit le gars, c’est
justement cela.
[ . . . ]
* Nota do blogue Verso e Conversa: O
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado trecho do discurso
de recepção proferido pelo poeta C[arl]. D[avid]. af Wirsén, “por ocasião da
entrega do Prêmio Nobel de Literatura” a Frédéric Mistral, no dia 10 de
dezembro de 1904, na Academia Sueca:
. . . “Em outras poesias líricas, Mistral fez valer com calor os direitos do neoprovençal a uma existência independente, procurando ao mesmo tempo protegê-lo contra toda tentativa de descrédito ou de negligência.O poema em forma de novela, Nerto, oferece à admiração dos leitores páginas lindíssimas. Mas a narrativa épica Lou Poeumò dou Rose tem maior profundidade. Composta por um poeta de sessenta e sete anos, é todavia cheia de vida, e nada mais cativante do que as numerosas pinturas que apresenta das regiões banhadas pelo Ródano. Que tipo soberbo aquele altivo e pio capitão de navio Aprau, que julga que para aprender a rezar é preciso ser marinheiro! E eis aqui um delicioso quadro: uma noite, a filha do piloto, Anglora, cuja imaginação se alimentara de velhas lendas, julgou ter visto, nas ondas do Ródano iluminado pela lua, o deus do rio, Lou Dra, e imagina ter sido tocada por ele. Aqui o próprio verso parece fluir e cintilar ao luar.Em suma, as obras de Mistral são todas monumentos elevados à glória de sua cara Provença.” . . .
O longo poema Mirèio (Mireille, Miréia), uma
narrativa épica escrita originalmente no dialeto occitano/provençal, é composto
por 12 cantos distribuídos em quase 900 estrofes que perfazem mais de 5.000
versos no total.
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Miréia:
Frédéric Mistral, Tradução de Manuel Bandeira, Estudo Introdutivo de André
Chansom, Ilustrações de Yves Brayer, Pequena História da atribuição do Prêmio
Nobel a Frédéric Mistral, por Dr. Gunnar Ahlström, Discurso de Recepção
pronunciado pelo poeta C. D. af Wirsén — Biblioteca dos Prêmio Nobel de
Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Joseph Étienne
Frédéric Mistral ou Josèp Estève Frederi Mistrau [no dialeto occitano
‘mistraleano’] (1830 — 1914), francês da aldeia de Maillane, comuna da região de
Provence-Alpes-Côte d'Azur, estudou no Colégio Real de Avignon, formou-se em
Direito na cidade de Aix [Aix-en-Provence], foi poeta, escritor e lexicógrafo
em língua occitana (provençal), cultuador da Provença, tendo sido o primeiro a
elevá-la à categoria de língua literária; suas obras: Mirèio (Miréia, Mireille,
longo poema épico, 1859 e muitas reedições), Calendau (longo poema épico,
1867), Lis Isclo d’or (As Ilhas de Ouro, 1876), Lou Trésor dóu Félibrige,
Dictionnaire provençal-français, ou O Grande Dicionário do Félibrige (dois
volumes, 1878-1879), Nerto (romance/drama lírico, 1884), La Rèino Jano
(tragédia provençale en 5 actes en vers, 1890), Lou Pouèmo dóu Rose (O Poema do
Ródano, longo poema épico, 1897), Moun Espelido (Minhas Origens [Memori e raconte,
Memórias e narrativas], 1906), La Genesi, traducho en prouvençau (O Gênese,
‘texto latino da Vulgata [bíblia, em latim] justaposto e tradução francesa ao
pé da página’, edição trilíngue, 1910), Lis Óulivado (1912) ...; teve obras
musicadas: Mireille (Miréio), em sua tradução francesa, inspirou uma ópera de
Charles Gounod, em 1863, e Calendau, musicada pelo compositor Marèchal; vários
de seus poemas receberam traduções em diversas línguas; Frédéric Mistral foi
laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1904, e recebeu o título de doutor
honoris-causa pelas universidades de Halle[-Wittenberg] e de Bonn, ambas na
Alemanha.