segunda-feira, 31 de março de 2025

Pierre Ronsard: Os amores de Cassandra [Sonetos, II]

 
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Sonetos (II)

Céu, ar e ventos, montes e vargedos,
Bífidos cerros, matas verdejantes,
Ribas tortuosas, fontes ondulantes,
Capões de mato, e vós, verdes bosquedos;

Antros musgosos, fendas nos rochedos,
Prados, botões, capins, flores rubentes,
Morros, vinhas, e praias fulvescentes,
Gastine, Loir, e vós, versos não ledos,

Pois que, ao partir, roído de pesar,
Ao teu olhar o adeus não pude dar,
Que perto e longe o amor me prende assim,

Eu vos suplico, céus, planícies, montes,
Capões, florestas, ribas, antros, fontes,
Prados e flores lho digais por mim.

Pierre Ronsard

Les amours de Cassandre

Sonnets (II)

Ciel, air et vents, pleine et monts découverts,
Tertres fourchus et forêts verdoyantes,
Rivages tors, et sources ondoyantes,
Taillis rasés, et vous, bocages verts;

Antres moussus à demi front ouverts,
Prés, boutons, fleurs et herbes rousoyantes,
Côteaux vineux et plages blondoyantes,
Gastine, Loir, et vous, mes tristes vers,

Puisqu’au partir, rongé de soin et d’ire,
A ce bel oeil l’adieu je n’ai su dire,
Qui près et loin me détient em émoi,

Je vous suplli’, ciel, air, vents, monts et plaines,
Taillis, fôrets, rivages et fontaines,
Antres, prés, fleurs, dites-le-lui pour moi.
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Pierre Ronsard (1524 1585), francês de Vendôme, próximo à aldeia de Couture-sur-Loir, à época Reino da França, foi poeta, invariavelmente prestou serviços à Corte: foi pajem do delfim Francisco [filho de Francisco I, rei da França, patrono das artes e iniciador/impulsionador do Renascimento francês] e, depois, esteve com Carlos Duque de Orleans, Madalena de França, esposa do Rei Jaime V da Escócia, depois, com o próprio Jaime V, esteve ainda a serviço na Escócia, em Londres, em Flandres [hoje, região da Bélgica]; após uma doença tê-lo feito perder parte da audição, teve que interromper seus serviços [diplomáticos] à Corte, dedicou-se aos estudos [processos literários da literatura italiana: Dante, Petrarca, Boccaccio], leu Lemaire de Belges, Guillaume Coquilard, Clément Marot, compôs algumas odes orácicas [de Horácio], mas também prestou serviços ao Rei Charles d’Orleans [Carlos II] e, após a morte deste, a seu delfim Henri [II]; suas obras: Odes (Les Odes, 1550 1552), Amores (Les Amours, 1552 1578), Hinos (Les Hymnes, 1555 1556), Discursos (Les Discours, 1562 1563), Sonetos para Helena (Sonnets pour Hélène, 1578), Os Amores de Cassandra [Les Amours de Cassandre, coleção de poemas em decassílabos, extraídos de Les Amours) ...; teve poemas musicados por músicos de várias épocas.

domingo, 30 de março de 2025

Sully Prudhomme: Prece

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Ah! se soubesses como eu choro
Por viver só meus pobres dias,
Muitas vezes por onde eu moro
Tu passarias.

Se soubesses o que revela
Ao triste o olhar de uma alma boa,
Olharias minha janela
Assim, à toa.

Se soubesses como conforta
Uma presença amiga e sã,
Ficarias à minha porta
Como uma irmã.

Se soubesses, se adivinhasses
Como eu te amo, principalmente,
É possível até que entrasses
Bem simplesmente.

Sully-Prudhomme

Prière

Ah! si vous saviez comme on pleure
De vivre seul et sans foyers,
Quelquefois devant ma demeure
Vous passeriez.

Si vous saviez ce que fait naitre
Dans l´âme triste un pur regard,
Vous regarderiez ma fenêtre
Comme au hasard.

Si vous saviez quel baume apporte
Au coeur la présence d´un coeur,
Vous vous assoiriez sous ma porte
Comme une soeur.

Si vous saviez que je vous aime,
Surtout si vous saviez comment,
Vous entreriez peut-être même
Tout simplement.

[Les Vaines tendresses — 1875]
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Poetas de França [vários autores]: Seleção, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sábado, 29 de março de 2025

Paul Valéry: A Adormecida

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

A Lucien Fabre.

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

1920

Paul Valéry

La Dormeuse

A Lucien Fabre.

Quels secrets dans son coeur brûle ma jeune amie,
Âme par le doux masque aspirant une fleur?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie?

Souffles, songes, silence, invincible accalmie,
Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Conspirent sur le sein d’une telle ennemie.

Dormeuse, amas doré d’ombres et d’abandons,
Ton repos redoutable est chargé de tels dons,
Ô biche avec langueur longue auprès d’une grappe,

Que malgré l’âme absente, occupée aux enfers,
Ta forme au ventre pur qu’un bras fluide drape,
Veille; ta forme veille, et mes yeux sont ouverts.

[Album de vers Anciens (1920)]
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924 foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras: A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto, 1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952), Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke ...

sexta-feira, 28 de março de 2025

Georg Trakl: Canções do rosário

 
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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

À irmã

Para onde vais será outono e tarde,
Veado azul que sob árvores soa,
Solitário lago na tarde.

Baixo o vôo dos pássaros soa,
Sobre teus olhos a melancolia dos arcos,
Teu leve sorriso soa.

Das tuas pálpebras Deus fez arcos.
Estrelas procuram à noite, filha de sexta-feira santa,
Na tua fronte, os arcos.

Proximidade da morte
2ª versão

Oh, a tarde, que vai às sombrias aldeias da infância.
O lago sob os salgueiros
Enche-se de suspiros empestados de melancolia.

Oh, a floresta, que baixa discreta os olhos castanhos,
Quando das mãos magras do solitário
Cai a púrpura de seus dias extasiados.

Oh, a proximidade da morte. Oremos.
Nesta noite em travesseiros momos
E amarelados de incenso soltam-se os membros frágeis dos amantes

Amém

Decomposição deslizando pelo quarto podre;
Sombras no papel de parede amarelo; em escuros espelhos se
Curva a tristeza ebúrnea de nossas mãos.
Pérolas marrons correm pelos dedos falecidos.
No silêncio
Abrem-se azuis os olhos-papoula de um anjo.

Azul é também a tarde;
O momento de nossa morte, a sombra de Azrael,
Que escurece um jardinzinho marrom.

(1912/13)

Georg Trakl

Rozenkranzlieder

An die schwester

Wo du gehst wird Herbst und Abend,
Blaues Wild, das unter Bäumen tönt,
Einsamer Weiher am Abend.

Leise der Flug der Vögel tönt,
Die Schwermut über deinen Augenbogen.
Dein schmales Lächeln tönt.

Gott hat deine Lider verbogen.
Sterne suchen nachts, Karfreitagskind,
Deinen Stirnenbogen.

Nähe des todes
2. Fassung

O der Abend, der in die finsteren Dörfer der Kindheit geht.
Der Weiher unter den Weiden
Füllt sich mit den verpesteten Seufzern der Schwermut.

O der Wald, der leise die braunen Augen senkt,
Da aus des Einsamen knöchernen Händen
Der Purpur seiner verzückten Tage hinsinkt.

O die Nähe des Todes. Laß uns beten.
In dieser Nacht lösen auf lauen Kissen
Vergilbt von Weihrauch sich der Liebenden schmächtige Glieder.

Amen

Verwestes gleitend durch die morsche Stube;
Schatten an gelben Tapeten; in dunklen Spiegeln wölbt
Sich unserer Hände elfenbeinerne Traurigkeit.
Braune Perlen rinnen durch die erstorbenen Finger.
In der Stille
Tun sich eines Engels blaue Mohnaugen auf.

Blau ist auch der Abend;
Die Stunde unseres Absterbens, Azraels Schatten,
Der ein braunes Gärtchen verdunkelt.

(1912/13)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Aleksandr Blok: Cleópatra

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

O museu triste da rainha
Há um, dois, três anos já se abriu.
Bêbada e louca a turba ainda se apinha…
Ela espera no túmulo sombrio.

Jaz na sinistra caixa
De vidro, nem morta nem viva.
Sobre ela a multidão saliva
Palavras torpes em voz baixa.

Ela se estende preguiçosamente
No sono eterno a que se recolhera…
Lenta e suave, uma serpente
Morde o peito de cera.

Eu mesmo, fútil e perverso,
Com olheiras de anil,
Vim ver o lúgubre perfil
Na cera fria imerso.

Todos te contemplamos neste instante.
Se essa tumba não fosse uma mentira
Eu ouviria, outra vez, arrogante,
Teu lábio putrefato que suspira:

“Dai-me incenso. Esparzi-me flores.
Em eras anteriores
Fui rainha do Egito. Hoje sou só
Cera. Apodrecimento. Pó.”

“Rainha! O que há em ti que me fascina?
No Egito, como escravo, eu te adorei.
Agora a sorte me destina
A ser poeta e rei.

Da tua tumba não vês que já imperas
Na Rússia como em Roma? Não vês, mais,
Que eu e César, em séculos e eras,
Ante o destino seremos iguais?”

Emudeço. Contemplo. Ela não muda.
Só o peito pulsa, quase
Respirando entre a gaze,
E ouço uma fala muda:

“Outrora eu suscitei paixões e lutas.
O que suscito agora?
Um poeta bêbado que chora
E o riso bêbado das prostitutas.”

Aleksandr Blok

Клеопатра

Открыт паноптикум печальный
Один, другой и третий год.
Толпою пьяной и нахальной
Спешим... В гробу царица ждет.

Она лежит в гробу стеклянном,
И не мертва и не жива,
А люди шепчут неустанно
О ней бесстыдные слова.

Она раскинулась лениво
Навек забыть, навек уснуть...
Змея легко, неторопливо
Ей жалит восковую грудь...

Я сам, позорный и продажный,
С кругами синими у глаз,
Пришел взглянуть на профиль важный,
На воск, открытый напоказ...

Тебя рассматривает каждый,
Но, еслиб гроб твой не был пуст,
Я услыхал бы не однажды
Надменный вздох истлевших уст:

“Кадите мне. Цветы рассыпьте.
Я в незапамятных веках
Была царицею в Египте.
Теперь  я воск. Я тлен. Я прах.”

“Царица! Я пленен тобою!
Я был в Египте лишь рабом,
А ныне суждено судьбою
Мне быть поэтом и царем!

Ты видишь ли теперь из гроба,
Что Русь, как Рим, пьяна тобой?
Что я и Цезарь  будем оба
В веках равны перед судьбой?”

Замолк. Смотрю. Она не слышит.
Но грудь колышется едва
И за прозрачной тканью дышит...
И слышу тихие слова:

“Тогда я исторгала грозы.
Теперь исторгну жгучей всех
У пьяного поэта  слезы,
У пьяной проститутки  смех.”

[16 декабря 1907]
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poesia da recusa (várias autorias) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos, Introdução e Notas de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Aleksandr Blok (1880 1921), russo de São Petersburgo, estudou Direito, desistiu, transferiu-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia (историко-филологического факультета) da Universidade de São Petersburgo e ali se formou, foi poeta lírico, escritor, tradutor, publicitário, dramaturgo e crítico literário; ainda estudante tornou-se famoso como poeta simbolista; de sua biografia, consta que “aos cinco anos de idade” iniciou-se na arte poética, aos dez anos, criou dois números da revista “Ship (Корабль), e, de 1894 a 1897, Aleksandr Blok e seus irmãos criaram e publicaram a revista ‘manuscrita’ “Vestnik (Вестник), num total de 37 edições; a partir sobretudo da Revolução de 1905, sua poesia passou a refletir profunda preocupação social; depois da Revolução de Outubro (1917) escreveu “relativamente” pouca poesia; em 1918, seu longo poema Os Doze (Двенадцать) provocou acirradas polêmicas: muitos revolucionários consideraram tal obra “alheia ao verdadeiro espírito de Outubro”, já a maioria dos seus amigos e antigos companheiros do simbolismo passaram a ver o poeta como “um trânsfuga, um renegado”; tido “como o poeta máximo do simbolismo russo”, ele próprio já via tal corrente como “completamente ultrapassada, pelo menos nos últimos anos de vida”; suas obras: em poesia: До света (Ante Lucem [Antes da luz], 1898-1900), Стихи о Прекрасной Даме (Versos sobre a bela dama, 1904-1905), Нечаянная радость e Снежная маска (O gozo imprevisto e Máscara de neve, ambos em 1907), Земля в снегу (A terra na neve, 1908), Ночные часы (As horas da noite, 1911), Двенадцать (Os doze, 1918), para teatro: Балаганчик (O teatro de feira), Король на площади (O rei na praça), Незнакомка (A desconhecida), todos de 1906, Песня Судьбы (A canção do Destino, 1908), Роза и Крест (A rosa e a cruz, 1913), Рамзес (Ramsés, 1919) ...; nos anos 1918-1920, o poeta foi eleito e ocupou várias funções no governo revolucionário que se iniciava, trabalhou muito, cansou-se, talvez daí possa decorrer seu “silêncio criativo”, teve sua saúde minada e adoeceu; na primavera de 1921, Aleksandr Blok e outro poeta pediram permissão à burocracia do governo para buscar tratamento da saúde fora do país, na Finlândia, e tiveram seu visto de saída negado, tal autorização só foi concedida após interferência de outros escritores russos, mas chegou tarde; o escritor Maximo Gorky, um dos intervenientes pró Blok, só soube do visto em 6 de agosto e, no dia seguinte, o poeta faleceu.

quarta-feira, 26 de março de 2025

John Keats: Ao Ver os Mármores de Elgin


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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Fraco está meu espírito a mortalidade
Oprime-me demais, qual sono indesejado;
Cada pico ou abismo de divino fado
De que não deixo de morrer me persuade,

Morrer como águia enferma, o olhar ao céu voltado.
É contudo um prazer amável prantear
Que eu os nebulosos ventos não haja de guardar
Frescos para o olho da manhã, mal descerrado.

Essas glórias que a ideia forma vagamente
Cercam de intensa má vontade o coração:
Tais maravilhas trazem dor e confusão

Que mesclam a grandeza grega com o inclemente
Passar do velho Tempo com um mar fremente
  Um sol a sombra de sublime condição.

John Keats

On Seeing the Elgin Marbles *

My spirit is too weak mortality
    Weighs heavily on me like unwilling sleep,
    And each imagin’d pinnacle and steep
Of godlike hardship tells me I must die
Like a sick Eagle looking at the sky.
    Yet ’tis a gentle luxury to weep
    That I have not the cloudy winds to keep,
Fresh for the opening of the morning’s eye.
Such dim-conceived glories of the brain
    Bring round the heart an undescribable feud;
So do these wonders a most dizzy pain,
    That mingles Grecian grandeur with the rude
Wasting of old time with a billowy main
    A sun a shadow of a magnitude.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Keats foi ver os mármores que lorde Elgin trouxera da Grécia, os do frontão sul do Partenon, em companhia de Haydon, a quem enviou um par de sonetos a propósito. Isso antes de 3 de março de 1817 — data em que Haydon agradeceu a remessa —, tendo sido os dois sonetos publicados no Examiner e no Champion quase em seguida, no dia 9. [verso] 8 — olho da manhã: o sol. [verso] 14 — the shadow of a magnitude: “a concepção de algo tão grandioso que só pode ser obscuramente apreendido” (Allott).
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Poemas de John Keats — edição bilíngue, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Coleção Toda Poesia 1, 1987, 2ª edição revista, Art Editora, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

terça-feira, 25 de março de 2025

Federico García Lorca: A casada infiel

 
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[traduzidos por Carlos Drummond de Andrade]

Eu que a levei ao rio,
supondo fosse donzela,
quando já tinha marido.

Era noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e se acenderam os grilos.
Já nas últimas esquinas
toquei-lhe os seios dormidos
e se me abriram de pronto
como ramos de jacintos.
O polvilho de sua anágua
vinha ranger-me no ouvido
como uma peça de seda
por dez lâminas rompida.
Sem luz de prata nas copas
os troncos tinham crescido
e um horizonte de cães
ladrava longe do rio.

Atravessando o silvado,
depois dos juncos e espinhos,
sob a sua cabeleira
fiz uma cama no limo.
Tirei a minha gravata.
Ela tirou seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpinhos.
Nem nardos e nem búzios
têm uma cútis tão fina,
nem sob a lua os cristais
relumbram com tanto brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
metade cheias de lume,
outra metade de frio.
Naquela noite corri
pelo melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar,
sem freios e sem estribos.
Não quero dizer, sou homem,
as coisas que ela me disse.
É que a luz do entendimento
me torna mui comedido.
Suja de beijos e areia,
levei-a dali do rio.
Com o ar se arremessavam
altas espadas, os lírios.

Portei-me como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Dei-lhe estojo de costura,
grande, de fina palhinha,
mas não quis enamorar-me
porque, já tendo marido,
me disse que era donzela
quando eu a levava ao rio.

Federico García Lorca

La Casada Infiel

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.

Fue la noche de Santiago
y casi por compromiso.
Se apagaron los faroles
y se encendieron los grillos.
En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
El almidón de su enagua
me sonaba en el oído,
como una pieza de seda
rasgada por diez cuchillos.
Sin luz de plata en sus copas
los árboles han crecido,
y un horizonte de perros
ladra muy lejos del río.

Pasadas las zarzamoras,
los juncos y los espinos,
bajo su mata de pelo
hice un hoyo sobre el limo.
Yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
Ni nardos ni caracolas
tienen el cutis tan fino,
ni los cristales con luna
relumbran con ese brillo.
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre,
la mitad llenos de frío.
Aquella noche corrí
el mejor de los caminos,
montado en potra de nácar
sin bridas y sin estribos.
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimento
me hace ser muy comedido.
Sucia de besos y arena
yo me la llevé del río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
Le regalé un costurero
grande, de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido,
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.
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Poesia Traduzida: Carlos Drummond de Andrade [várias autorias], edição bilíngue, Organização e Notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, Introdução de Júlio Castañon Guimarães, Coleção Ás de colete, 2011, Cosac Naify, São Paulo — SP e 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; em Almeria iniciou seus estudos secundários e os primeiros estudos musicais, depois, mudando-se para Granada com a família, fez seus primeiros estudos universitários Filosofia e Letras e Direito ; em 1919 decidiu mudar-se para Madri e então conheceu Salvador Dalí, Luis Buñuel, Pedro Salinas, Rafael Alberti e outros; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Hans-Curt Flemming: desmatado


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

quando finalmente
trouxe uma
nota boa
para casa
minha mãe disse
“sorte”
pra eu
não me gabar nem me
“crescer as árvores
até o céu” *

Hans-Curt Flemming

abgeforstet

wenn ich endlich
einmal eine
gute note
nach hause brachte
sagte meine mutter
“zufall”
damit ich mir
nichts einbilden solte und mir
“die bäume nicht
in den himmel wachsen”

* Nota dos tradutores: desmatado  “crescer as árvores até o céu” — trocadilho com a expressão “que as árvores não cresçam até o céu” [daß die Bäume nicht in den Himmel wachsen], com o sentido de que tudo tem de ter seus limites.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.