____________________
[traduzido por Augusto de Campos}
Tenho horror à impostura e à falsidade,
Mas da verdade sou servo fiel,
Quer minha voz agrade ou desagrade
Não calo, minha luta é sem quartel.
A lealdade às vezes trás revés
E a má fé boa sorte muita vez,
Mas o vilão que salta à nossa frente
Do alto irá cair rapidamente.
Os ricos têm tão grande piedade
Dos seus irmãos, quanto Caim de Abel.
Ganham dos lobos em rapacidade
E mentem mais que moças de bordel.
Se os furardes em dois pontos ou três
Nenhuma só verdade colhereis,
Só mentira, que neles é corrente
E sobreverte como uma torrente.
Vejo barões de tanta validade
Quanto os vidros que enfeitam um anel,
Quem confia na sua probidade
Dá lobo por ovelha, fel por mel.
Pois eles não têm peso nem nobreza,
Lembram rosários de rara beleza,
Com flor e cruz e lúcida corrente
De prata falsa que a fusão desmente.
De leste a oeste, a toda a humanidade
Proponho um trato novo, sem igual:
Aos leais darei ouro em quantidade
Se os desleais me derem um real.
Um marco de ouro darei ao cortês
Se cada descortês me der um réis.
Um monte de ouro a todo o que é decente
Por um ovo de cada um que mente.
Os homens que ainda têm honestidade
Cabem numa só tira de papel
Que eu poderia guardar na metade
Do polegar da luva. Um só farnel
Daria para a fome dos leais;
Mas se eu fosse prover para os venais,
Nem que tivesse todo um continente
Para dar de comer a tanta gente!
A esse que só na face tem bondade
Não tolero que chamem de leal,
Nem verdadeiro ao que ri da verdade,
Nem justo ao que só sabe fazer mal.
Pois quem fez mal não deve ter lauréis,
Nem honrarias e nem rapapés.
Assim diz o ditado sabiamente:
Quem uma vez mentiu, outra não tente.
A todos clamo neste serventês:
Quem a verdade, o amor e a honradez
Não respeitar, que nunca se apresente
Diante de mim com veste de inocente.
Sirventes
Tos temps azir falsetat et enjan
Et ab vertat et ab dreg mi capdeth,
E si per so vauc atras o enan,
No m'en rancur, ans m'es tot bon e belh;
Que’ls us dechai iiaitatz manhtas ves
E’ls autres sors enjans e mala fes;
Mas si tant es qu'om per falsetat mon,
D'aquel montar dissen pueys en preon.
Li ric home an pietat tan gran
De l’autra gen, quon ac Cayms d'Abei,
Que mais volon tolre que lop no fan
E mais mentir que tozas de bordelh;
Si’ls crebavatz en dos locx o en tres,
No us cugessetz que vertatz n’issis ges,
Mas messongas, don an al cor tal fon
Que sobrevertz cum aigua de toron.
Manhs baros vey en manhs luecx que y estan
Plus falsamens que veyres en anelh,
E qui per fis los ten, falh atretan
Cum si un Iop vendia per anhel;
Quar ilh no son ni de ley ni de pes,
Ans foron fag a ley de fals poges,
On par la cros e la flors en redon,
E no y trob' om argent, quan io refon.
Des orient entro'l solelh colguan
Fas a la gent un covinent novelh:
Al lial home donaral un bezan,
Si’l deslials mi dona un clavelh,
Et un marc d'aur donarai al cortes,
Si’l deschauzitz mi dona un tornes,
Al vertadier darai d'aur un gran mon,
S'avi' eu un huou dels messongiers qui son.
Tota la ley que’l mais de la gens an,
Escrivri' eu en fort petit de pelh;
En la mitat dei polguar de mon guan;
E’ls prozomes payssera d'un gastelh;
Quar ja pels pros no fora cars conres,
Mas si fos hom que los malvatz pagues,
Cridar pogratz e non gardessetz on:
Venetz manjar, li pro home dei mon!
Sei qui no val ni ten pro per semblan,
Pro ni valen no’s tanh que hom l'apel,
Ni dreituríer, quan met dreg en soan,
Ni vertadier, quan vertat nos espel;
Car qui fai mal ni tort, razos non es
Qu'en cueilla grat ni gran lauzor ni pres,
Anz es ben digz us reprochiers pel mon:
Sel qu'una ves escoria, autra non ton.
A totas gens dic e mon sirventes,
Que, si vertatz e dreitura e merces
Non governon home en aquest mon,
Ni sai ni lay no cre valors l'aon.
____________________
Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos — estudos críticos e poemas bilíngue de várias
autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas
de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Peire Cardenal (c. 1216 — 1271, datas aproximadas), trovador satírico,
nascido na comuna Le Puy-en-Velay, departamento de Haute-Loire, região francesa
de Auvergne-Rhône-Alpes, tido como um dos últimos trovadores provençais, “deu
ao gênero uma nova dimensão de protesto social. Cardenal protesta contra os
ricos, contra o clero e contra as mulheres, com uma energia e uma perícia
dificilmente igualáveis na poesia ocitânica”; de seus traços biográficos,
consta ter sido educado como cônego, educação voltada à poesia lírica vernácula
e que, em prol da “vaidade humana”, abandonou seu ofício na igreja; acerca de
sua obra, tem-se que restaram, e chegaram até nós, “96 peças suas, um número
raramente igualado por outros poetas da época”.