sábado, 31 de agosto de 2024

Peire Cardenal: Serventês

 
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[traduzido por Augusto de Campos}

Tenho horror à impostura e à falsidade,
Mas da verdade sou servo fiel,
Quer minha voz agrade ou desagrade
Não calo, minha luta é sem quartel.
A lealdade às vezes trás revés
E a má fé boa sorte muita vez,
Mas o vilão que salta à nossa frente
Do alto irá cair rapidamente.

Os ricos têm tão grande piedade
Dos seus irmãos, quanto Caim de Abel.
Ganham dos lobos em rapacidade
E mentem mais que moças de bordel.
Se os furardes em dois pontos ou três
Nenhuma só verdade colhereis,
Só mentira, que neles é corrente
E sobreverte como uma torrente.

Vejo barões de tanta validade
Quanto os vidros que enfeitam um anel,
Quem confia na sua probidade
Dá lobo por ovelha, fel por mel.
Pois eles não têm peso nem nobreza,
Lembram rosários de rara beleza,
Com flor e cruz e lúcida corrente
De prata falsa que a fusão desmente.

De leste a oeste, a toda a humanidade
Proponho um trato novo, sem igual:
Aos leais darei ouro em quantidade
Se os desleais me derem um real.
Um marco de ouro darei ao cortês
Se cada descortês me der um réis.
Um monte de ouro a todo o que é decente
Por um ovo de cada um que mente.

Os homens que ainda têm honestidade
Cabem numa só tira de papel
Que eu poderia guardar na metade
Do polegar da luva. Um só farnel
Daria para a fome dos leais;
Mas se eu fosse prover para os venais,
Nem que tivesse todo um continente
Para dar de comer a tanta gente!

A esse que só na face tem bondade
Não tolero que chamem de leal,
Nem verdadeiro ao que ri da verdade,
Nem justo ao que só sabe fazer mal.
Pois quem fez mal não deve ter lauréis,
Nem honrarias e nem rapapés.
Assim diz o ditado sabiamente:
Quem uma vez mentiu, outra não tente.

A todos clamo neste serventês:
Quem a verdade, o amor e a honradez
Não respeitar, que nunca se apresente
Diante de mim com veste de inocente.

Peire Cardenal

Sirventes

Tos temps azir falsetat et enjan
Et ab vertat et ab dreg mi capdeth,
E si per so vauc atras o enan,
No m'en rancur, ans m'es tot bon e belh;
Que’ls us dechai iiaitatz manhtas ves
E’ls autres sors enjans e mala fes;
Mas si tant es qu'om per falsetat mon,
D'aquel montar dissen pueys en preon.

Li ric home an pietat tan gran
De l’autra gen, quon ac Cayms d'Abei,
Que mais volon tolre que lop no fan
E mais mentir que tozas de bordelh;
Si’ls crebavatz en dos locx o en tres,
No us cugessetz que vertatz n’issis ges,
Mas messongas, don an al cor tal fon
Que sobrevertz cum aigua de toron.

Manhs baros vey en manhs luecx que y estan
Plus falsamens que veyres en anelh,
E qui per fis los ten, falh atretan
Cum si un Iop vendia per anhel;
Quar ilh no son ni de ley ni de pes,
Ans foron fag a ley de fals poges,
On par la cros e la flors en redon,
E no y trob' om argent, quan io refon.

Des orient entro'l solelh colguan
Fas a la gent un covinent novelh:
Al lial home donaral un bezan,
Si’l deslials mi dona un clavelh,
Et un marc d'aur donarai al cortes,
Si’l deschauzitz mi dona un tornes,
Al vertadier darai d'aur un gran mon,
S'avi' eu un huou dels messongiers qui son.

Tota la ley que’l mais de la gens an,
Escrivri' eu en fort petit de pelh;
En la mitat dei polguar de mon guan;
E’ls prozomes payssera d'un gastelh;
Quar ja pels pros no fora cars conres,
Mas si fos hom que los malvatz pagues,
Cridar pogratz e non gardessetz on:
Venetz manjar, li pro home dei mon!

Sei qui no val ni ten pro per semblan,
Pro ni valen no’s tanh que hom l'apel,
Ni dreituríer, quan met dreg en soan,
Ni vertadier, quan vertat nos espel;
Car qui fai mal ni tort, razos non es
Qu'en cueilla grat ni gran lauzor ni pres,
Anz es ben digz us reprochiers pel mon:
Sel qu'una ves escoria, autra non ton.

A totas gens dic e mon sirventes,
Que, si vertatz e dreitura e merces
Non governon home en aquest mon,
Ni sai ni lay no cre valors l'aon.
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Verso Reverso Controverso: Augusto de Campos estudos críticos e poemas bilíngue de várias autorias, Apresentação, Tradução dos poemas, Informação bibliográfica e Notas de Augusto de Campos, 2ª edição revista, 1998, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Peire Cardenal (c. 1216 1271, datas aproximadas), trovador satírico, nascido na comuna Le Puy-en-Velay, departamento de Haute-Loire, região francesa de Auvergne-Rhône-Alpes, tido como um dos últimos trovadores provençais, “deu ao gênero uma nova dimensão de protesto social. Cardenal protesta contra os ricos, contra o clero e contra as mulheres, com uma energia e uma perícia dificilmente igualáveis na poesia ocitânica”; de seus traços biográficos, consta ter sido educado como cônego, educação voltada à poesia lírica vernácula e que, em prol da “vaidade humana”, abandonou seu ofício na igreja; acerca de sua obra, tem-se que restaram, e chegaram até nós, “96 peças suas, um número raramente igualado por outros poetas da época”.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Georg Trakl: primavera da alma

 
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[versão de Roswitha Kempf]

Um brado no sonho; por becos negros precipita-se o vento,
o azul da primavera acena entre os galhos partidos,
o orvalho purpúreo e as estrelas esmorecem ao redor.
Esverdeado clareia o rio, prateadas as velhas áleas
e as torres da vila; ó suave embevecimento
no barco deslizante e os gritos sombrios do melro
em jardins infantis. Raleia a rósea florada.

Solenes murmuram as águas. Ó, as sombras úmidas do prado,
o animal que caminha; verdejantes ramos floridos
tangem a fronte de cristal; luminosa canoa balouçante.
Soa de leve o sol entre as nuvens rosadas que envolvem a colina,
grande é o silêncio do pinheiral, as graves sombras do rio.

Pureza! Pureza! Onde estão os terríveis caminhos da morte,
do silêncio cinzento de pedra, as rochas da noite
e as sombras sem paz? Abismo solar radiante.
Quando encontrei-te irmã, na erma clareira do bosque
e o sol estava a pino e grande era a mudez do animal;
brancas, sob carvalhos silvestres e os espinhos floriam prateados.
Um morrer imenso e a chama cantante na alma.

As águas cercam mais sombrias os belos folguedos dos peixes.
Hora de luto, um mudo contemplar do sol;
é a alma uma estranha na terra. Raia o azul
irreal sobre a mata massacrada e um sino grave
plange longamente na vila: um cortejo tranquilo.
Discreta floresce a murta alva sobre as pálpebras brancas do morto.

Soam de leve as águas na tarde que finda,
a selva verdeja mais intensa na margem do rio,
júbilo no vento rosado
e a canção suave do irmão no outeiro da noite.

Georg Trakl

Frühling der Seele

Aufschrei im Schlaf; durch schwarze Gassen stürzt der Wind,
Das Blau des Frühlings winkt durch brechendes Geäst,
Purpurner Nachttau und es erlöschen rings die Sterne.
Grünlich dämmert der Fluß, silbern die alten Alleen
Und die Türme der Stadt. O sanfte Trunkenheit
Im gleitenden Kahn und die dunklen Rufe der Amsel
In kindlichen Gärten. Schon lichtet sich der rosige Flor.

Feierlich rauschen die Wasser. O die feuchten Schatten der Au,
Das schreitende Tier; Grünendes, Blütengezweig
Rührt die kristallene Stirne; schimmernder Schaukelkahn.
Leise tönt die Sonne im Rosengewölk am Hügel.
Groß ist die Stille des Tannenwalds, die ernsten Schatten am Fluß.

Reinheit! Reinheit! Wo sind die furchtbaren Pfade des Todes,
Des grauen steinernen Schweigens, die Felsen der Nacht
Und die friedlosen Schatten? Strahlender Sonnenabgrund.

Schwester, da ich dich fand an einsamer Lichtung
Des Waldes und Mittag war und groß das Schweigen des Tiers;
Weiße unter wilder Eiche, und es blühte silbern der Dorn.
Gewaltiges Sterben und die singende Flamme im Herzen.

Dunkler umfließen die Wasser die schönen Spiele der Fische.
Stunde der Trauer, Schweigender Anblick der Sonne;
Es ist die Seele ein Fremdes auf Erden. Geistlich dämmert
Bläue über dem verhauenen Wald und es läutet
Lange eine dunkle Glocke im Dorf; friedlich Geleit.
Stille blüht die Myrthe über den weißen Lidern des Toten.

Leise tönen die Wasser im sinkenden Nachmittag
Und es grünet dunkler die Wildnis am Ufer, Freude im rosigen Wind;
Der sanfte Gesang des Bruders am Abendhügel.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981 — Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Gabriela Mistral *: O menino só

 
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[traduzido por  Agmar Murgel Dutra

Parei, ouvindo um choro, em meio da subida,
e então me aproximei da choça do caminho.
Com doçura, do leito, olhou-me um garotinho;
e a ternura me deu a ebriez da bebida.

Lá na lavoura a mãe se retardou na lida;
e o infante, ao acordar, procurou logo o ninho
do róseo seio... e pôs-se a chorar... Com carinho
ao peito o aconcheguei, ninando-o enternecida.

Pela janela aberta a lua nos fitava.
A criança dormia, e a canção me banhava
como um outro luar, o peito enriquecido.

E, assim, quando a mulher a porta abriu, aflita,
em minha face viu tanta ventura escrita,
que em meus braços deixou o filho adormecido.

Gabriela Mistral

El niño solo

Como escuchase un llanto, me paré en el repecho
y me acerqué a la puerta del rancho del camino.
Un niño de ojos dulces me miró desde el lecho.
¡Y una ternura inmensa me embriagó como un vino!

La madre se tardó, curvada en el barbecho;
el niño, al despertar, buscó el pezón de la rosa
y rompió en llanto... Yo lo estreché contra el pecho,
y una canción de cuna me subió, temblorosa...

Por la ventana abierta la luna nos miraba.
El niño ya dormía, y la canción bañaba,
como otro resplandor, mi pecho enriquecido...

Y cuando la mujer, trémula, abrió la puerta,
me vería en el rostro tanta ventura certa
¡que me dejó el infante en los brazos dormido!

* Nota de Vasco de Castro Lima, Organizador e Autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto: Tanto na prosa, como na poesia, é inigualável em riqueza e harmonia. Romântica e mística. Escreveu, entre outros livros, "Sonetos da Morte". Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. O suicídio do noivo ensombrou sua poesia para sempre.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Leconte de Lisle: Paisagem polar

 
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[traduzido por Raymundo Correia]

Do mar a imensa escuma o frio aglomerou-a,
E um mundo morto fez, sem luz, sem vegetais,
E onde do gelo duro as agulhas fatais
Rasgam do fusco céu a perpétua garoa;

Em avalanches rola a neve, e se amontoa...
Tudo estéril; e atroz confusão de infernais
Brados, imprecações, roncos, soluços e ais,
Que aos seus clarins de ferro o vento arranca, troa.

Nivoso, hirto, glacial, das brumas através,
O branco e antigo deus, pai das primevas raças,
Inteiriçado jaz, do promontório aos pés...

E a babar de volúpia, em meio à cerração,
Os ursos colossais e formidandas massas
Trôpegos, cá e lá bambaleando vão...

Leconte de Lisle

Paysage polaire

Un monde mort, immense écume de la mer,
Gouffre d’ombre stérile et de lueurs spectrales,
Jets de pics convulsifs étirés en spirales
Qui vont éperdument dans le brouillard amer.

Un ciel rugueux roulant par blocs, un âpre enfer
Où passent à plein vol les clameurs sépulcrales,
Les rires, les sanglots, les cris aigus, les râles
Qu’un vent sinistre arrache à son clairon de fer.

Sur les hauts caps branlants, rongés des flots voraces,
Se roidissent les Dieux brumeux des vieilles races,
Congelés dans leur rêve et leur lividité;

Et les grands ours, blanchis par les neiges antiques,
Çà et là, balançant leurs cous épileptiques,
Ivres et monstrueux, bavent de volupté.

[Poèmes barbares — 1862]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Hans-Curt Flemming: um bilhete na minha porta:


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

estou
em busca de
mim
daí que não
me encontrem por enquanto

até lá
o que se parece comigo é
só a embalagem

Hans-Curt Flemming

ein zettel an meiner tür:

ich bin
auf der suche nach
mir
daher bin ich
verübergehend nicht anzutreffen

bis dahin ist
was aussieht wie ich
nur die verpackung
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

António Botto: Homens que vens de humanas desventuras, . . . [soneto]

 
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Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas, e cantas e aborreces,

Arquiteto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
Eu sou teu camarada e teu irmão.

(As Canções de Antônio Botto — 1941)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto: Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Thomaz Botto (1897 1959), português de Concavada, concelho de Abrantes, distrito de Santarém, “não se lhe conhecendo instrução formal aprofundada”, consta ter sido autodidata, trabalhou de ajudante em uma livraria, foi funcionário público, poeta, contista e dramaturgo; escreveu para adultos e crianças, como funcionário público, trabalhou em Lisboa e, por um período, em Angola e Luanda; suas obras: em poesia: Trovas (1917), Cantigas da Saudade (1918), Canções (1921), Motivos de Beleza (1923), Curiosidades Estéticas (1924), Pequenas Esculturas (1925), Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Baionetas da Morte (1936), A vida que te dei (1938), Sonetos (1938), As Canções de Antônio Botto (reunião dos volumes anteriores, 1941), em prosa: Os Contos de Antônio Botto para crianças e adultos (1924) e Ódio e Amor (contos, 1947) e para teatro: Flor do Mal (1919), Alfama (1933), Antônio (1933), 9 de Abril (1938), Aqui ninguém nos ouve (1942), O Livro das Crianças (literatura infantil, 1944); de seus traços biográficos, consta, em relação à sua homossexualidade, ter sido ele “o primeiro a escala global [com sua arte] a assumir-se abertamente e sem rodeios. A sua obra, largamente elogiada pelo genial Fernando Pessoa, não mais seria olhada da mesma forma. Há quase cem anos, António Botto chocou a pudica sociedade portuguesa.”; em 1921, com a publicação de Canções, sua arte se expôs “de forma despudorada, descomplexada e clara numa preferência pela estética do amor homossexual”, e, em 1922, com a obra reeditada por Fernando Pessoa, causou escândalo, teve os exemplares aprendidos nas livrarias e queimados, de nada valendo os apoios recebidos favoravelmente de Fernando Pessoa, poeta e editor, e dos intelectuais do Grupo Presença, entre estes o de José Régio; Canções também recebeu uma tradução inglesa feita pelo próprio Fernando; em 1942, António Botto foi demitido de seu humilde emprego público, “por alegadamente não saber manter o decoro no local de trabalho”; em 1947, o poeta exilou-se voluntariamente no Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro; em 16 de março de 1959, António Botto veio a falecer vítima de atropelamento em uma avenida da cidade, teve morte abrupta.

Guilhermino César: As vísceras


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As vísceras me transportam
sou o mesmo sangue
o urgente da sede
na véspera
                 do estrume.
As vísceras madrugam
ao menor sinal de marcha.
As vísceras são tristes
(veja o amor em ato).
As vísceras em mim, as vísceras
na estria, na fibra de um nome.

Das vísceras, o abismo
em que não me descubro.

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Sistema do Imperfeito & Outros Poemas — Guilhermino César, 1977, Editora Globo, Porto Alegre — RS; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases MG; o poeta foi um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde cataguasense, que deu origem à verdejante revista; na década de 1940 mudou-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além de sua atuação na Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito & Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

domingo, 25 de agosto de 2024

Vitorino Nemésio: O pastor morto

 
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De madrugada a neve envidraçou-o.
Seus olhos rasos de um espanto podre,
As águias o mediram pelo vôo
E se encheu de silêncio como um odre.

Cheirado dos carneiros atrevidos,
Húmido fica já no fio lilás,
Aquilo sim, é que se chama paz,
Ali, à serra e à morte todo ouvidos!

Lá vêm as flores da neve à sua cara
E seu rubor perdido copiado
Pelo extenso corar das ervas gordas.

Atravessa, atravessa os rolos frios
Do tempo, o nevoeiro, e o passo às hordas
Dourado e podre sob os astros frios.

Poesia 1935-1940 (1961)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz — Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966), Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).

sábado, 24 de agosto de 2024

Tove Ditlevsen: O trio eterno


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[traduzido por José Paulo Paes]

Há dois homens neste mundo
que cruzam sempre a minha estrada;
um é aquele a quem amo,
o outro, por quem sou amada.

Um está nos sonhos que à noite
me enchem de sombras a mente;
à porta do meu coração,
bate o outro inutilmente.

Um me deu primaveril
ventura logo consumida;
sem nada ganhar em troca,
o outro me deu sua vida.

Um canta no sangue, onde o amor
é puro, livre, risonho;
o outro une-se ao dia triste
onde se afogam os sonhos.

entre os dois, tão pura e amada
é toda mulher que talvez
ocorra a cada cem anos
num só se fundirem os três.

Tove Ditlevsen

De evige tre

Der er to mænd i verden, der
bestandig krydser min vej;
den ene er ham jeg elsker,
den anden elsker mig.

Den ene er i en natlig drøm
der bor i mit mørke sind,
den anden står ved mit hjertes dør,
jeg lukker ham aldrig ind.

Den ene gav mig et vårligt pust
af lykke, der snart fo'r hen,
den anden gav mig sit hele liv
og fik aldrig en time igen.

Den ene bruser i blodets sang,
hvor elskov er ren og fri,
den anden er eet med den triste dag,
drømmene drukner i.

Hver kvinde står mellem disse to,
forelsket, elsket og ren
een gang hvert hundrede år kan det ske,
de smelter sammen til een.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tove Irma Margit Ditlevsen (1918 1976), dinamarquesa de Copenhague, nascida no bairro Vesterbro, em ambiente de extrema pobreza e problemas sociais por que passava a classe trabalhadora, recebeu pouca educação escolar formal e, autodidata, tornou-se escritora, romancista, contista, memorialista e poeta; sua escrita transitou “entre o autobiográfico e o ficcional, com foco na ansiedade e na dor, na criança queimada e nos problemas psicológicos dos adultos”; teve seu primeiro poema publicado no Vild Invede, jornal editado por Viggo F. Møller, seu marido à época; em 1939, publicou Pigesind, sua coleção de poesias de estréia na literatura; suas obras: Pigesind (poesias, 1939), Man did et barn træð (romance, 1941), Lille verden (poesias, 1942), Barndommens gade (romance, 1943), Den fulde frihed (contos, 1944), Dommeren (contos, 1948), Paraplyen (contos, 1952), Kvindesind (poesias, 1955), Annelise — tretten år (literatura infantil, 1959), Hva nå, Annelise? (literatura infantil, 1960), Den hemmelige rude (poesias, 1961), Den onde lykke (contos, 1963), Ansigterne (romance, 1968), De voksne (poesias, 1969), Det tidlige forår — erindringene Barndom og Ungdom (memórias, Infância e Juventude, 2 volumes, 1969), Gift (memória, Dependência, 1971), Vilhelms værelse (romance, 1975) e outros títulos; a poeta, já adulta, viveu adoecida, tratou de ansiedade, foi internada mais de uma vez em hospitais psiquiátricos, foi medicada e viciou-se em drogas até o fim da vida, suicidando-se entre os dias 4 e 7 de março de 1976 devido overdose de comprimidos para dormir, tendo sido encontrada em 8 de março; já havia tentado o suicídio dois anos antes; suas obras e sua vida inspiraram musicistas, tornaram-se performance teatral, foram transportadas para o cinema, caso do filme Barndommens gade (1986), baseado no romance de igual nome; além de autora, Ditlevsen foi editora da coluna de cartas [caixa do correio] na revista Famile Journalen; premiações: Emil Aarestrup-medaljen (1954), Undervisningsministeriets (prêmio do Livro Infantil, 1959), Søren Gyldendal-prisen (1971) ...; hoje a poeta faz parte da lista de autores canônicos daneses e compõe o rol das leituras obrigatórias na escola primária; seus três livros de memórias, Barndom, Ungdom e Gift, também são conhecidos como Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Ernani Vieira: Dentro da Cidade da Lepra & Dona Tuberculosa

 
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Dentro da Cidade da Lepra

Chagas e chagas... Pestilência... Sangue...
Homens, mulheres, crianças... Meus irmãos...
E, sobretudo, a circunstância exangue
de todos todos! terem sido sãos!

Uns, com o rosto disforme... Outros, sem mãos...
Muitos, sem pés ou sem nariz... E, langue,
vagos vislumbres de vigores vãos,
no escapamento atro e fatal do sangue...

E a Ciência é vaga... E a Medicina é vaga,
diante da solução desse Problema
da cicatrização de tanta chaga!

E em meio a mudos desesperos e ais,
vibra a Promiscuidade como esquema,
e os "menos" doentes vão ficando "mais"!...


Dona Tuberculosa

Surge, esgalga e serena, e vai, de par em par,
com a sua Tosse (o seu Presente e o seu Porvir!) ,
os brônquios a tossir, cansados de sangrar...
a garganta a sangrar, cansada de tossir!

É tão calma, entretanto, e linda, e singular,
(Messalina do Nada à espera de um Vizir),
que seus olhos, assim, não cansam de sonhar,
que seus lábios, assim, não cansam de sorrir!...

Tão nova! E tem no peito a Velhice Precoce,
que é de quem filosofa e sabe não ter queixa,
pela Resignação da Lógica da Tosse...

Dona Tuberculosa!... E lá prossegue, louca,
em procura da Vida a mesma que ela deixa
para trás , que lhe foge... aos poucos... pela boca...
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ernani Vieira (1896 1938), amazonense e manauara, não cumpriu o ciclo inicial do ensino formal (frequentou por alguns meses a escola primária de Fortaleza CE, depois, mudando-se com os pais para Abaeté, hoje Abaetetuba PA, aos 8 anos de idade foi matriculado em escola primária, em pouquíssimo tempo se indispôs com o diretor e negou-se a continuar comparecendo ao banco escolar ali, e, na impossibilidade de frequentar outro estabelecimento de ensino, compulsoriamente tornou-se autodidata), foi tipógrafo e poeta; aprendeu conhecimentos de leitura e escrita, com seus livros, em uma pequena tipografia do pai, proprietário do semanário O Comércio; de seus traços biográficos, no relato de Rodrigues Pinagé, da Academia Paraense de Letras, consta que foi “nos caixotins da modesta tipografia que Ernani se fez conhecedor dos primeiros rudimentos gramaticais, cujas questões analisava com sabedoria precoce.”; em 1910, de mudança para Recife PE (ele e suas duas irmãs), a convite de um seu tio que passou a ampará-los, Ernani empregou-se como tipógrafo em um jornal recifense, no qual trabalhou “quotidianamente em suas edições matutina e vespertina”; em 1913, Ernani Vieira, “abatido por insidiosa moléstia” a lepra, uma doença infectocontagiosa crônica , foi forçado a retornar definitivamente para Belém, e ali se isolou, passando “a morar em quartos separados nas chamadas ‘Repúblicas’” da capital paraense e seu convívio no lar, com os pais, só se dava nas refeições; nas palavras de Vasco de Castro Lima, organizador e autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto, “Ernani Vieira é considerado um perfeito imitador do estilo científico de Augusto dos Anjos, como se pode aquilatar pelos seus dois fortes sonetos Dentro da Cidade da Lepra e Dona Tuberculosa.”; suas obras: em poesia: Ritornelos (1919), Barquinhos de Papel (1926), De Picareta e Pá e Dona Filosofia (ambos em 1928), Para Você, Dona Cidade, Toca de Fel e Cano de Esgoto (todos em 1929), Poema dos Canoeiros do Pará (1932), em prosa: Iza (romance, 1929), para teatro: Sangue Português (drama em 3 atos, 1926) e Purriba di Muá (comédia em 1 ato), e outros títulos; faleceu num leprosário, em Belém PA, no dia 30 de maio de 1938.