Mostrando postagens com marcador Lygia Fagundes Telles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lygia Fagundes Telles. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Lygia Fagundes Telles: Poesia até o infinito

 
____________________
          Li o livro do Carlos Drummond ele disse. E prosseguiu com uma careta: Horrível! Então aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é demais!
           Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! confessei.
           É impossível que você tenha gostado! retorquiu o poeta. Ouça só esta maravilha que eu tive a paciência de decorar… (…) Começou:

          No meio do caminho tinha uma pedra
           tinha uma pedra no meio do caminho
           tinha uma pedra
           no meio do caminho tinha uma pedra.

           Nunca me esquecerei desse acontecimento
           na vida de minhas retinas tão fatigadas.
           Nunca me esquecerei que no meio do caminho
           tinha uma pedra
           tinha uma pedra no meio do caminho
           no meio do caminho tinha uma pedra.

          (…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma risada:
           Não acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado exclamei.
          O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso uns versos que compusera.
          Leu-os. E depois disse:
           Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há idéia e ritmo, compreendeu? Ao passo que…
           Sim, eu sei! interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: Mas o fato é que já esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a que você acaba de se referir.
          (…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não, que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim, fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma vaga que foi preenchida por um outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros encontros, chegarão outras cartas, abrir-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca mais serão esquecidos.
          Agora eu já não achava essa poesia gozada. Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.

(“Poesia até o infinito”, A Manhã, Letras
e Artes, Rio de Janeiro, 01.05.1948)

____________________
Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; Lygia Fagundes Telles, nascida em 1923, paulista e paulistana, fez o curso fundamental na Escola Caetano de Campos e se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP-SP), tendo também cursado a Escola Superior de Educação Física da USP, foi procuradora, romancista, contista e cronista; ainda estudante publicou nos jornais Arcádia e A Balança, ambos da Academia de Letras da Faculdade de Direito; colaborou como colunista de crônicas no jornal carioca A Manhã; bibliografia: Porão e Sobrado (contos, 1938), Praia Viva (contos, 1944), Ciranda da Pedra (romance, 1954), O Jardim Selvagem (contos, 1965), Antes do Baile Verde (contos, 1970), As Meninas (romance, 1973), Seminário de Ratos (contos, 1977), As Horas Nuas (romances, 1989), A Noite Escura e Mais Eu (contos, 1995), Invenção e Memória (contos, 2000) Conspiração de nuvens (2007) e tantos outros títulos; teve seus livros publicados em vários países: Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, entre outros, além de obras adaptadas para televisão, teatro e cinema; recebeu inúmeros prêmios e condecorações por sua obra, entre os quais alguns Jabuti, alguns APCA, Prêmio Juca Pato e Prêmio Camões, sua consagração definitiva.