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— Li
o livro do Carlos Drummond — ele disse. E prosseguiu com uma careta: — Horrível! Então
aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é
demais!
—
Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! — confessei.
— É
impossível que você tenha gostado! — retorquiu o poeta. — Ouça só esta maravilha que eu tive a paciência de
decorar… (…) —
Começou:
No
meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca
me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma
risada:
— Não
acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado — exclamei.
O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso uns
versos que compusera.
Leu-os. E depois disse:
—
Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há idéia e
ritmo, compreendeu? Ao passo que…
—
Sim, eu sei! —
interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as
verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: — Mas o fato é que já
esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a
que você acaba de se referir.
(…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando
em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas
aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não,
que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do
caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim,
fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro
desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma
vaga que foi preenchida por um outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros
encontros, chegarão outras cartas, abrir-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa
caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele
sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca
mais serão esquecidos.
Agora eu já não achava essa poesia gozada.
Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.
(“Poesia até o infinito”, A Manhã, Letras
e Artes, Rio de
Janeiro, 01.05.1948)
Uma Pedra No
Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond
de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de
Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; Lygia Fagundes
Telles, nascida em 1923, paulista e paulistana, fez o curso fundamental na
Escola Caetano de Campos e se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco
(atual USP-SP), tendo também cursado a Escola Superior de Educação Física da
USP, foi procuradora, romancista, contista e cronista; ainda estudante publicou
nos jornais Arcádia e A Balança, ambos da Academia de Letras da Faculdade de
Direito; colaborou como colunista de crônicas no jornal carioca A Manhã; bibliografia:
Porão e Sobrado (contos, 1938), Praia Viva (contos, 1944), Ciranda da Pedra
(romance, 1954), O Jardim Selvagem (contos, 1965), Antes do Baile Verde
(contos, 1970), As Meninas (romance, 1973), Seminário de Ratos (contos, 1977),
As Horas Nuas (romances, 1989), A Noite Escura e Mais Eu (contos, 1995),
Invenção e Memória (contos, 2000) Conspiração de nuvens (2007) e tantos outros
títulos; teve seus livros publicados em vários países: Portugal, Espanha,
França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, entre outros, além
de obras adaptadas para televisão, teatro e cinema; recebeu inúmeros prêmios e
condecorações por sua obra, entre os quais alguns Jabuti, alguns APCA, Prêmio
Juca Pato e Prêmio Camões, sua consagração definitiva.

