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Dentre as
instituições que mais concorrem para a prosperidade das finanças dos nossos
funcionários públicos está essa de caixas, bancos, montepios etc.
Um funcionário
de modestos vencimentos, graças a qualquer delas, pode-se ver, de uma hora para
a outra, senhor de um conto, conto e meio e tirar naquele dia o seu ventre de
miséria, gastar à vontade, dar dinheiro e esquecer um instante a feijoada
familiar.
Um escriturário
de uma das nossas repartições, boêmio, escritor nas horas vagas, uma tarde
dessas se meteu em um conto de réis numa caixa destas por aí e tratou de
meter-lhe o pão.
Andou por
aqui e por ali, bebendo o que lhe vinha à cabeça.
Assim,
semitonado, chegou ao centro da cidade, quase sem reparar onde estava, e entrou
em uma confeitaria chique.
Esse escritor,
esse boêmio, seguia o princípio de Lafargue1 (creio eu): “o herói
bebe aguardente”. E ele assim fazia.
Sentou-se
a uma das mesinhas, tão pequenas como a nossa fortuna e pediu:
—
Traga-me um parati.
Houve susto
em todas as mesas, e o caixeiro ficou estonteado. O rapaz repetiu:
—
Traga-me uma cachaça.
As damas
quase deram faniquitos e foram fugindo uma a uma.
O caixeiro
explicou delicadamente:
— Meu
caro senhor, nós não temos essa espécie de bebida.
— Pois
bem — disse o boêmio —, traga-me uma garrafa de champanhe.
Mostrou ato
contínuo a quantia a pagar.
Servido convenientemente,
com toda a regra pegou na taça e começou a sorver o célebre vinho.
Entrou um
colega e amigo que se abancou perto dele e, no calor do vinho, ele começou a
recitar versos.
O milagre
se operou, e ninguém teve mais medo do homem tão singularmente perigoso que
parecia ser um facínora da Saúde.
O verso
faz milagres, quando é seguido do champanhe.
[Aquele2, Careta, nº 375, 28. ago.1915]
* Nota
do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução
deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, [Aquele,] entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”
Notas do
Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Paul
Lafargue (1842 — 1911) foi um jornalista, escritor e ativista político francês.
Nascido em Santiago de Cuba, de família franco-caribenha, ele passou a maior
parte de sua vida na França, e um período na Inglaterra e Espanha. Casou-se com
a segunda filha de Karl Marx, Laura. Publicou inúmeros livros sobre socialismo
revolucionário e materialismo histórico, entre eles O direito à preguiça (1880)
e O capital: Extratos, com o qual pretendeu facilitar o acesso à obra O capital
de seu sogro.
1. Assinado por Aquele. Publicado em Careta, nº 375, 28 ago. 1915;
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Sátiras e
outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução,
Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das
Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca,
estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista,
romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon,
A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio
da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do
Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar
um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905),
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma
(editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros
Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado,
publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal,
editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...