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domingo, 19 de maio de 2024

Lima Barreto*: Alfa e Ômega


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          Dentre as instituições que mais concorrem para a prosperidade das finanças dos nossos funcionários públicos está essa de caixas, bancos, montepios etc.
          Um funcionário de modestos vencimentos, graças a qualquer delas, pode-se ver, de uma hora para a outra, senhor de um conto, conto e meio e tirar naquele dia o seu ventre de miséria, gastar à vontade, dar dinheiro e esquecer um instante a feijoada familiar.
          Um escriturário de uma das nossas repartições, boêmio, escritor nas horas vagas, uma tarde dessas se meteu em um conto de réis numa caixa destas por aí e tratou de meter-lhe o pão.
          Andou por aqui e por ali, bebendo o que lhe vinha à cabeça.
          Assim, semitonado, chegou ao centro da cidade, quase sem reparar onde estava, e entrou em uma confeitaria chique.
          Esse escritor, esse boêmio, seguia o princípio de Lafargue1 (creio eu): “o herói bebe aguardente”. E ele assim fazia.
          Sentou-se a uma das mesinhas, tão pequenas como a nossa fortuna e pediu:
           Traga-me um parati.
          Houve susto em todas as mesas, e o caixeiro ficou estonteado. O rapaz repetiu:
           Traga-me uma cachaça.
          As damas quase deram faniquitos e foram fugindo uma a uma.
          O caixeiro explicou delicadamente:
           Meu caro senhor, nós não temos essa espécie de bebida.
           Pois bem disse o boêmio , traga-me uma garrafa de champanhe.
          Mostrou ato contínuo a quantia a pagar.
          Servido convenientemente, com toda a regra pegou na taça e começou a sorver o célebre vinho.
          Entrou um colega e amigo que se abancou perto dele e, no calor do vinho, ele começou a recitar versos.
          O milagre se operou, e ninguém teve mais medo do homem tão singularmente perigoso que parecia ser um facínora da Saúde.
          O verso faz milagres, quando é seguido do champanhe.

[Aquele2, Careta, nº 375, 28. ago.1915]


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, [Aquele,] entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Paul Lafargue (1842 1911) foi um jornalista, escritor e ativista político francês. Nascido em Santiago de Cuba, de família franco-caribenha, ele passou a maior parte de sua vida na França, e um período na Inglaterra e Espanha. Casou-se com a segunda filha de Karl Marx, Laura. Publicou inúmeros livros sobre socialismo revolucionário e materialismo histórico, entre eles O direito à preguiça (1880) e O capital: Extratos, com o qual pretendeu facilitar o acesso à obra O capital de seu sogro.
1. Assinado por Aquele. Publicado em Careta, nº 375, 28 ago. 1915;
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...