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Eu gostei duma minina,
moreninha, piquinina,
de cinturinha bem fina
i de cabelo incacheado.
Puis sempre qu'eu le dizia
uma palavra macia,
não me oiáva nem me ovía...
I eu, de lado!...
A coisa foi indo, indo,
fui secando, fui sumindo,
dia a dia diminuindo
i ficando disgraçado.
Ela passava i fingia,
virava a cara i si ria
i despois, inté guspia...
I eu, de lado!...
I os dia se foi passando:
ela rindo i eu chorando,
eu gemendo, ela cantando,
i eu sempre incabulado.
Ela ia p'ra Avenida,
vaidosa, cabeça erguida,
c'uma cara de fingida...
I eu, de lado!...
Ela ia lá p'ra escola,
de brusa branca i de gola,
carregando uma sacola,
de braços c'o namorado.
Os dois passava juntinho,
bem pertinho, chegadinho,
cuchichando bem baxinho...
I eu, de lado!...
Um dia, tudo mudô:
ela foi, diferençô,
por mim nunca mais passô,
qu'inté fiquei discunfiado.
Despois sube que a bichinha
se casô c'o armofadinha
i foi morá na Biquinha...
I eu, de lado!...
Um dia — que triste dia!...
nem sei o quê que eu sintia...
Eu vi os dois que subia
i fiquei desesperado.
Os dois se ria contente,
mostrando tudos os dente,
ela i o marido na frente...
I eu, de lado...
A paxão não suportei,
cheguei p'ra ela i falei
daquele jeito que eu sei,
de Dão Juão apaxonado.
O marido, precavido,
me tacô dois pé-d'ovido,
que me dexô sem sintido...
I eu, de lado...
Despois disso, numa ceia,
eu tava de cara cheia,
num dizia nem abêia...
Ela chamô dois sordado
i disse cum ar de gente:
"Carreguim esse indecente,
qu'eu vô cum vocêis, na frente..."
I eu, de lado!...
(Favas de Ingá)
| Abílio Víctor (Nhô Bentico) |
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Pitoco e outros poemas — Coleção
Pé Vermeio, Organização, Edição e Apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª edição, 2007, Editora Petra, Tatuí — SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô
Bentico e Abílio Víctor (1899 — 1952) foram uma só pessoa, um só
poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames
rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu
e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas
Sertanejos.


