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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Abílio Víctor (Nhô Bentico): I eu, de lado!...

Livro - Pitoco e Outros Poemas - Sebo do Messias
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Eu gostei duma minina,
moreninha, piquinina,
de cinturinha bem fina
i de cabelo incacheado.
Puis sempre qu'eu le dizia
uma palavra macia,
não me oiáva nem me ovía...
I eu, de lado!...

A coisa foi indo, indo,
fui secando, fui sumindo,
dia a dia diminuindo
i ficando disgraçado.
Ela passava i fingia,
virava a cara i si ria
i despois, inté guspia...
I eu, de lado!...

I os dia se foi passando:
ela rindo i eu chorando,
eu gemendo, ela cantando,
i eu sempre incabulado.
Ela ia p'ra Avenida,
vaidosa, cabeça erguida,
c'uma cara de fingida...
I eu, de lado!...

Ela ia lá p'ra escola,
de brusa branca i de gola,
carregando uma sacola,
de braços c'o namorado.
Os dois passava juntinho,
bem pertinho, chegadinho,
cuchichando bem baxinho...
I eu, de lado!...

Um dia, tudo mudô:
ela foi, diferençô,
por mim nunca mais passô,
qu'inté fiquei discunfiado.
Despois sube que a bichinha
se casô c'o armofadinha
i foi morá na Biquinha...
I eu, de lado!...

Um dia  que triste dia!...
nem sei o quê que eu sintia...
Eu vi os dois que subia
i fiquei desesperado.
Os dois se ria contente,
mostrando tudos os dente,
ela i o marido na frente...
I eu, de lado...

A paxão não suportei,
cheguei p'ra ela i falei
daquele jeito que eu sei,
de Dão Juão apaxonado.
O marido, precavido,
me tacô dois pé-d'ovido,
que me dexô sem sintido...
I eu, de lado...

Despois disso, numa ceia,
eu tava de cara cheia,
num dizia nem abêia...
Ela chamô dois sordado
i disse cum ar de gente:
"Carreguim esse indecente,
qu'eu vô cum vocêis, na frente..."
I eu, de lado!...
(Favas de Ingá)

Abílio Víctor
(Nhô Bentico)
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Pitoco e outros poemas — Coleção Pé Vermeio, Organização, Edição e Apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí — SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899  1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Abílio Victor (Nhô Bentico): A mula preta do sur

O poema abaixo é uma paródia da música Moda da Mula Preta, de Raul Torres, compositor de moda de viola caipira; para ouvir a dupla Raul e Florêncio cantando, é só clicar no título acima. 
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Eu fiz, um dia, uma viage
lá p'ras banda do Sur
i truxe u'a mula preta
iguarzinha a do Raur.

Tinha seis parmo de artura,
cumprimento, ela ganhava!
Quanto mais capim cumia,
mais a mula se espichava.
Pramórde sê tão cumprida,
quarqué cerca ela pulava.

Tocava a espora na bicha,
bem na artura da paleta,
i a mula, dando um corcovo,
me jugava na sarjeta.

Nunca vi mula danada,
de tanta disinvortura!
De tanto pulá nas pedra,
gastava inté as ferradura.
C'os pulo daquela mula,
me isfriava inté as frissura.

Sortava fogo p'ros óio,
parecia um Lucifé;
si o cabra num fosse bamba,
prifiria andá de a pé.

Quando eu ia p'ra cidade,
pela rua que eu passava,
quando via moça bunita,
a mula inté se impinava:
as moça corria de medo,
quando a mula se apinchava.

Um dia, batendo estrada,
eu me incontrei c'um tropêro
que ofereceu pela mula,
mil e duzentos cruzêro.

Eu respondi:  "Nem te ligo,
seu barriga de alifante,
minha  mula eu num disponho:
dinhêro tenho bastante".
O marvado, só de inveja,
na mula ponhô quebrante...

Um dia, vim da cidade,
veja o que me aconteceu:
sortei a mula no pasto,
i um gafanhoto mordeu.

A mula ficô tristonha,
mais nem gemê num gemeu;
durô, malemá, quatro hora,
deu treis suspiro i morreu.
I acabô-se a mula preta
que tanto susto me deu.
Favas de Ingá  1950

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Pitoco e outros poemas — Coleção Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nhô Bentico (Abílio Víctor): A morte de Catulo

Livro - Pitoco e Outros Poemas - Sebo do Messias
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A morte nunca foi boa,
puis ninguém ela perdoa.
A morte, que tudo vence,
num dia lindo d'um mêis
do ano quarenta e seis,
matô Catulo Cearense.

Dêxo as mata sintida,
as cachuêra imudecida;
ponhô de luto o grótão,
O próprio vento gemeu
baxinho: Morreu... morreu
o poeta d' "O Meu Sertão".

O bando de passarinho
ficô chorano nos ninho
quano Catulo morreu!
As istrela, num cortêjo,
trazeno ramos de bêjo,
na iscada do céu desceu!

O sór tombô nas montanha,
numa tristeza tamanha,
amorteceno o clarão.
A lua, rasgano as mata,
c'os raio da cor de prata,
iluminô seu caixão...

A natureza interinha
sintiu a perda que tinha
c'a morte do trovadô;
no sereno que caía
a gente inté percebia
que a natureza chorô.

Morreu o pueta das mata,
das istrela e a lua de prata,
o cantadô do "Marruêro",
mais não morreu a sodade
que fica pr'a eternidade
no coração brasilêro!
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Pitoco e outros poemas  Coleção Pé Vermeio, Organização, Edição e Apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

No linque http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/catulo3.html#12 estão disponíveis poemas de Catulo da Paixão Cearense (1863  1946) e textos sobre a sua obra e sua vida.

Nhô Bentico (Abílio Víctor): O rádio

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O tár de rádio, Nenê,
diviam chamá de "rabo",
puis fique certo, mecê,
que é coisa feita pro diabo!

Puis, dunde mecê já viu
uns aparêio sozinho,
sem nada, sem nenhum fiu,
falano desse jeitinho?

A gente fica iscuitano
i se ôve o dia intêro
os samba que tão cantano
inté no Riu de Janero!

É pra dexá nós tontiado
i bobo, de boca aberto,
u o mundo tá virado,
u tá co finzinho perto!

Os antigo bem dizia
que quano fosse na hora,
muitas coisa aparecia
que tá apareceno agora.

Eu falo memo a verdade:
do rádio tenho inté medo;
quano escuito na cidade,
me benzo cos cinco dedo!

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Pitoco e outros poemas Coleção Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª  edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Folhas do Mato  versos caipiras (2ª edição aumentada, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba SP); Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1889 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Victor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Cavalinho de sabugo

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(Em Favas de Ingá  e Poemas Sertanejos)

Pidi p'ra Papai Noel
que me truxésse um presente
que fôsse bem bunitinho
qui eu ficaria contente!

Quano foi naquela noite,
noite linda de Natá,
me deitei muito mais cedo,
antes dos galo cantá.

Deitei já quaji dormino
i logo já fui sonhano
cum tanta coisa bunita
que inté agora tô lembrano...

Sonhei que, do céu, descia
mais de quinhentos balão,
tudo cheio de brinquedo,
doce, rodela de pão;

rôpas bunita, sapato,
um bando de carnerinho,
úa violinha, um pandêro,
um cavalo bem branquinho...

Vi tantas coisa bunita
drento de pôcos momento:
meu coração de criança
se incheu de contentamento!

Que noite cheia de incanto,
que noite de maravia!
Num posso nem le expricá
quanto foi minha alegria...

A noite se foi fugino...
e eu acordei contente,
desci ligêro da cama,
precurano o meu presente.

Oiei p'ro meu sapatinho
quaji sem sola, rasgado,
chorei devéra, baixinho,
i fiquei desconsolado!

Meu sonho só foi contrário...
Saiu tudo diferente,
quano oiei no meu sapato,
reparano o meu presente!

Papai Noel foi injusto,
de mim não compadeceu,
me deu um presente pobre
que muito me intristeceu.

Um cavalo de sabugo
pintadinho de carvão,
que só dexô sintimento
drento do meu coração.

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Pitoco e outros poemas  Coleção Pé Vermeio, Organização, edição e apresentação de Maria das Mercês Rocha Leite, 1ª edição, 2007, Editora Petra, Tatuí SP; este poema foi publicado originalmente em Favas de Ingá; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.