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Da Mensageira, Revista
dada à luz na Paulicéia,
uma questão ponho à vista,
e não é theodicéia.
As eruditas senhorasque ilustram a Mensageiracertamente são credorasde saudação lisonjeira.
Eu, portanto, mui sinceroas cumprimento e saúdo;no acolhimento, que espero,estribo-me e não me iludo.
E conto que elas me escutematentas, benevolentes;pois casos que se discutemnão se topam indolentes.
Vou falar das criaturasque povoam este globo,quer boas, quer más figuras,homem, mulher, loba ou lobo.
A preferência dos sexosé o ponto discutível,e eu, sem rodeios complexos,direi qual o preferível.
Que é mais garboso o cavalo
do que sua companheira
não é preciso prová-lo
nem há aí quem o requeira.
A mais formosa vitela,de mais luzidio couro,de ser desenhada em telaé menos digna que um touro.
Se em crista, em cores, em caudao galo vence a galinha,para que melhor se aplauda,o paralelo se alinha.
Se o passarinho bem canta,fica sabido que é macho,nem mais questão se levanta,pois motivos lhe não acho.
Se o peru todo enfunadono brio se conceitua,não tem crédito abonadoa cabisbaixa perua.
Vai sendo dito e redito,e a fama não corre, voa,que um pavão é tão bonito,quanto é feia uma pavoa.
Não ser o pato vaidoso,
comparado com a pata,
caso é assaz duvidoso,
e que não se desempata.
Incapaz de aleivosia,se discorro desta sorte,não é porque primaziaqueira dar ao sexo forte.
Longe mim tal intento,nesta medalha há reverso,e demonstrá-lo é o que tentoneste meu prosaico verso.
O meu intuito é discreto,não sei jogar por tabelae aceito como decretoo parecer de uma bela.
Sem timidez nem fraqueza,pois que nenhuma é medrosa,cada uma com franquezaexprima-se em verso ou prosa.
Declare a mais erudita,assim em forma de esboço,se acha a moça mais bonita,ou se é mais bonito o moço.
Com a candura de um anjo,
cujas vistas não são baças,
encare bem um marmanjo,
olhe bem para um barbaças.
E nesta questão pendente,se ser franca bem o pode,fotografe um pretendente,figurino de bigode.
Merece fotografia,e menção em treva ou copla!A mão ele nunca enfia,Por ser maior que a manopla!
E quanto ao pé, não falemos,nem o castelo se arrase!Descende dos Polyphemos,a julgar-se pela base!
Raciocinando com jeito,e dando o seu a seu dono,veja se um outro sujeitonão escapou de ser mono.
Repare se o mais janota,que é besouro quando canta,não tem um nó que se nota,e lhe faz grossa a garganta.
Diga tudo quanto saiba,
ajuste o direito ao fato,
e, ainda que bem não caiba,
a execução eu lhe acato.
Se as razões que há pró e contracom restrições eu lhe aplaudo,a incerteza que se encontraexige de mim um laudo.
Não dou muito apreço às raçasem cujo instinto há fereza,para não fazer pirraçasao primor da natureza.
E exponho, enfim, o meu voto,que pouco influi no libelo:O sexo que é mais devotoÉ sem dúvida o mais belo.
Barbacena, 24 de Fever[eiro] de
1898.
P. Corrêa de Almeida
[A Mensageira — São Paulo,
15 de março de 1898 — Ano I, nº II]
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A Mensageira
— Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de
Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes
e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP,
São Paulo — SP; José Joaquim Correia de Almeida (1820 — 1905), mineiro de
Barbacena, foi professor de latim e poeta satírico; presbítero secular (padre),
ordenado em 1844, Correia de Almeida logo teve as ordens sacerdotais cassadas por
uma vez ter revelado, em poemas, coisas de sabor cômico que uma beata lhe confidenciou
no segredo do confessionário; suas obras: Satyras, epigramas e outras poesias (1ª
edição em 1854), A república dos tolos — dois volumes (1881 e 1887), Sonetos e sonetinhos
(1884), Sonetos e sonetinhos — 2º volume (1887), Sensaborias métricas — 2 volumes
(1890 e 1892), Decrepitudes metromaníacas (1894), Produções da caducidade (1896),
Puerilidades de um macróbio (1898), entre outros.

