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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bertolt Brecht: Li Tai Po domina setenta idiomas . . . & Aos pósteros [Den Nachgeborenen] & O faminto . . .

 
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[traduzidos por André Vallias]

Li Tai Po domina setenta idiomas . . .

Li Tai Po domina setenta idiomas.
Setenta demônios não vão seduzi-lo.
Li Tai Po diz rezas em setenta idiomas.
Em setenta idiomas pragueja no exílio.

 o —

Aos pósteros [Den Nachgeborenen]

Confesso: eu
Não tenho esperança.
Cegos falam de uma escapatória. Eu
Enxergo.

Quando os erros já se esgotaram
Senta-se (derradeira companhia)
O nada à nossa frente.

 o —

O faminto . . .

O faminto que leva
Teu último pão tu vês como inimigo
Mas no pescoço do ladrão que nunca
Passou fome tu não pulas.

Bertolt Brecht

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden. . . .

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden.
Siebzig Teufel der Hölle können ihn nicht versuchen.
Litaipee kann in siebzig Sprachen beten.
In siebzig Sprachen kann Litaipee fluchen.

[1918]

 o —

Den Nachgeborenen

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg. Ich
Sehe.

Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.

[c. 1920]

o —

Den Hungernden, . . .

Den Hungernden, der dir
Das letzte Brot wegnimmt, siehst du als Feind an.
Aber dem Dieb, der nie gehungert hat
Springst du nicht an die Gurgel.

[c. 1934]
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Bertolt Brecht — Poesia, bilíngue, Introdução e Tradução de André Vallias, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina, em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (Sonetos Ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Bertolt Brecht: Em tempos negros

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Não se dirá: Quando a nogueira balançou no vento
Mas sim: Quando o pintor de paredes esmagou os trabalhadores.
Não se dirá: Quando o menino fez deslizar a pedra lisa pela superfície
da correnteza
Mas sim: Quando prepararam as grandes guerras.
Não se dirá: Quando a mulher foi para o quarto
Mas sim: Quando os grandes poderes se uniram contra os
trabalhadores.
Mas não se dirá: Os tempos eram negros
E sim: Por que seus poetas silenciaram?

Bertolt Brecht 

"In finsteren Zeiten"

Die werden nicht sagen: als der Walnussbaum im Wind bebte
Sondern: als der Hausmaler die Arbeiter plattmachte.
Die werden nicht sagen: als das Kind einen flachen Stein über die
Stromschnellen schob
Sondern: als die großen Kriege vorbereitet wurden.
Die werden nicht sagen: als die Frau in den Raum kam
Sondern: als die Großmächte sich gegen die Arbeiter verbündeten.
Aber sie werden nicht sagen: die Zeiten waren finster
Sondern: warum schwiegen ihre Dichter?
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Bertolt Brecht, poemas 1913—1956, Seleção e Tradução de Paulo César de Souza, 2016 (7ª edição, 1ª reimpressão), Editora 34, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina, em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (sonetos Ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Bertolt Brecht: Balada da roda d'água*

 
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[traduzido por André Vallias]

1
Dos graúdos do planeta
Nos diz mais de uma canção:
Sobem alto como estrelas
Como estrelas caem no chão.
E parece até que isso consola.
Mas pra nós, de quem a corja esfola
Os seus grãos, subir, cair, que seja
Tanto faz: quem arca com a despesa?
Claro, a roda sempre vai girar
E o que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

2
Arre, um monte de senhores
Já tivemos: águia, leão
Hiena, porco, e sempre demos
Grãos sem qualquer distinção.
Se melhor, pior: a bota de um
Era igual à do outro em nos pisar.
Arre, vocês hão de concordar:
De senhor nos falta é ter nenhum!
Claro, a roda sempre vai girar
O que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

3
Eles racham suas cabeças
Na disputa da rapina
Chamam os outros de glutões
E a si mesmos: gente fina.
Gritam, lutam entre si sem pausa.
Mas se a gente deixa de dar grãos
Num instante vão ser bons irmãos
E se unir em prol da justa causa.
Claro, a roda sempre vai girar
O que está em cima, lá não fica.
Mas, pra água embaixo, significa:
Empurrar a roda sem cessar.

Bertolt Brecht

Die Ballade vom Wasserrad

1
Von den Großen dieser Erde
Melden uns die Heldenlieder:
Steigend auf so wie Gestirne
Gehn sie wie Gestirne nieder.
Das klingt tröstlich, und man muss es wissen.
Nur: für uns, die sie ernähren müssen
Ist das leider immer ziemlich gleich gewesen.
Aufstieg oder Fall: wer trägt die Spesen?
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: dass es das Rad halt ewig treibt.

2
Ach, wir hatten viele Herren
Hatten Tiger und Hyänen
Hatten Adler, hatten Schweine
Doch wir nährten den und jenen.
Ob sie besser waren oder schlimmer:
Ach, der Stiefel glich dem Stiefel immer
Und uns trat er. Ihr versteht: Ich meine
Daß wir keine andern Herren brauchen, sondern keine!
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: dass es das Rad halt ewig treibt.

3
Und sie schlagen sich die Köpfe
Blutig, raufend um die Beute
Nennen andre gierige Tröpfe
Und sich selber gute Leute.
Unaufhörlich sehn wir sie einander grollen
Und bekämpfen. Einzig und alleinig
Wenn wir sie nicht mehr ernähren wollen
Sind sie sich auf einmal völlig einig.
Freilich dreht das Rad sich immer weiter
Daß, was oben ist, nicht oben bleibt.
Aber für das Wasser unten heißt das leider
Nur: Dass es das Rad halt ewig treibt.

(1934)

* Nota de André Vallias: Balada da roda d’água escrita entre março e abril de 1934, foi incluída na peça Cabeças Redondas, Cabeças Pontudas, com música de Hanns Eisler.
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917, iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 12 de julho de 2025

Bertolt Brecht: Elogio do comunismo*

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[traduzido por André Vallias]

Ele é inteligível, todos o entendem. Ele é fácil.
Você não é um explorador, você pode compreendê-lo.
Ele é bom para você, informe-se sobre ele.
Os burros o chamam de burro, e os sujos o chamam de sujo.
Ele é contra a sujeira e contra a burrice.
Os exploradores o chamam de crime
Mas nós sabemos:
Ele é o fim dos crimes.
Ele não é nenhuma idiotice, mas
O fim da idiotice.
Ele não é o enigma
Mas a solução.
Ele é o simples
Que é difícil de fazer.

Bertolt Brecht

Lob des Kommunismus

Er ist vernünftig, jeder versteht ihn. Er ist leicht.
Du bist doch kein Ausbeuter, du kannst ihn begreifen.
Er ist gut für dich, erkundige dich nach ihm.
Die Dummköpfe nennen ihn dumm, und die Schmutzigen nennen ihn
schmutzig.
Er ist gegen den Schmutz und gegen die Dummheit.
Die Ausbeuter nennen ihn ein Verbrechen.
Wir aber wissen:
Er ist das Ende der Verbrechen.
Er ist keine Tollheit, sondern
Das Ende der Tollheit.
Er ist nicht das Rätsel
Sondern die Lösung.
Er ist das Einfache
Das schwer zu machen ist.

(c. 1931)

* Nota de André Vallias: Elogio do comunismo incluído na peça A Mãe: Vida da Revolucionária Pelagea Wlassowa de Twer (1932), com música de Hanns Eisler.
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917, iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

domingo, 15 de junho de 2025

Bertolt Brecht: Contra a sedução

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[Versão de Edmundo Moniz]

1
Nunca se deixem seduzir
Não há caminho de regresso
Penetra o dia pelas portas
Durante a noite o vento sopra
Mas a manhã não volta mais.

2
Nunca se deixem convencer
De que esta vida vale pouco
Bebam a vida em grandes goles
Então verão que ainda foi pouco
Quando tiverem de a deixar.

3
Não vivam nunca de esperar
O tempo é muito limitado
Deixem mofar os incapazes
O grande bem é a própria vida
Vive-se apenas uma vez.

4
Nunca se deixem enganar
No mundo há fome e servidão
Qual o motivo de ter medo?
Como animais os homens morrem
E após a morte não há nada.

Bertolt Brecht

Gegen Verführung

1
Laßt euch nicht verführen!
Es gibt keine Wiederkehr.
Der Tag steht in den Türen,
Ihr könnt schon Nachtwind spüren:
Es kommt kein Morgen mehr.

2
Laßt euch nicht betrügen!
Das Leben wenig ist.
Schlürft es in schnellen Zügen!
Es wird euch nicht genügen,
Wenn ihr es lassen müßt!

3
Laßt euch nicht vertrösten!
Ihr habt nicht zu viel Zeit!
Laßt Moder den Erlösten!
Das Leben ist am größten:
Es steht nicht mehr bereit.

4
Laßt euch nicht verführen
Zu Fron und Ausgezehr!
Was kann euch Angst noch rühren?
Ihr sterbt mit allen Tieren
Und es kommt nichts nachher.

[1918]
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Bertolt Brecht: Antologia Poética [+ O Processo de Lucullus, peça teatral], Versão e Prefácio de Edmundo Moniz, 1983, Elo Editora e Distribuidora, Rio de Janeiro — RJ; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 22 de março de 2025

Bertolt Brecht: Cântico de Orge


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[traduzido por André Vallias]

Orge me disse:

1
O lugar que nesta Terra mais lhe apraz
Não seria o banco de grama no tumulto dos pais.

2
Orge me disse: O lugar que mais estima
Nesta Terra sempre será a latrina.

3
Lugar plácido em que a gente se recosta
Tendo em cima estrelas e debaixo, bosta.

4
Lugar mágico que, quando se é adulto
Se pode ficar sozinho sem tumulto.

5
Lugar de humildade em que você descobre
Que é humano, e sai desta vida sem um cobre.

6
Um lugar em que se deixa o corpo em paz
Mas depois, com força, um bem também se faz.

7
Um lugar de ciência em que você adestra
O bucho pras novas luxúrias de festa.

8
E o que você é por fim se descortina:
Um sujeito que devora  na latrina!

Bertholt Brecht

Orges Gesang

Orge sagte mir:

1
Der liebste Ort, den er auf Erden hab`
Sei nicht die Rasenbank am Elterngrab.

2
Orge sagte mir: Der liebste Ort
Auf Erden war immer der Abort.

3
Dies sei ein Ort, wo man zufrieden ist
Daß drüber Sterne sind und unten Mist.

4
Ein Ort sei einfach wundervoll, wo man
Wenn man erwachsen ist, allein sein kann.

5
Ein Ort der Demut, dort erkennst du scharf
Daß du ein Mensch nur bist, der nichts behalten darf.

6
Ein Ort, wo man, indem man leiblich ruht
Sanft, doch mit Nachdruck, etwas für sich tut.

7
Ein Ort der Weisheit, wo du deinen Wanst
Für neue Lüste präparieren kannst.

8
Und doch erkennst du dorten, was du bist:
Ein Bursche, der auf dem Aborte  frißt!

[Baal]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, edição bilíngue, Editora Perspectiva, 1ª edição, 2019, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Berthold Brecht: Cantiga da moça airada

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[traduzido por Geir Campos]

Meus senhores, com dezessete anos
Vim eu para o mercado do amor,
Onde muito já tenho provado.
Muita gente ruim,
Que este jogo é assim;
A alguns tenho mesmo interpelado.
(Ora, também sou um ser humano.)
Deus é bom, tudo passa depressa,
Mesmo o amor e os mais tristes cuidados:
Onde as lágrimas de ontem à noite?
Onde está a neve do ano passado?

Certo, com os anos a gente vai
Mais leviana ao mercado do amor
E ali abraça os que chegam em bandos.
Mas a sensação
Gela de tão fria,
Se a gente se poupa em demasia.
(Ora, toda reserva tem fim).
Deus é bom, tudo passa depressa,
Mesmo o amor e os mais tristes cuidados:
Onde as lágrimas de ontem à noite?
Onde está a neve do ano passado?

E ainda quando o negócio do amor
Na feira a gente aprendeu bastante,
Cambiar gozo em moeda sonante
Nunca há de ser fácil.
Sim, um jeito dá-se...
E vai-se envelhecendo entrementes.
(Ora, não se é sempre adolescente.)
Deus é bom, tudo passa depressa,
Mesmo o amor e os mais tristes cuidados:
Onde as lágrimas de ontem à noite?
Onde está a neve do ano passado?

Bertold Brecht

Lied des Freudenmädchens [Lied eines
Freudenmädchens]

Meine Herrn, mit siebzehn Jahren
Kam Ich auf den Liebesmarkt,
Und Ich habe viel erfahren.
Böses gab es viel,
Doch das war das Spiel;
Aber manches hab ich doch verargt.
(Schliesslich bin ich ja auch ein Mensch.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber,
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern abend?
Wo ist der Schnee vom vergangenen Jahr?

Freilich geht man mit den Jahren
Leichter auf den Liebesmarkt
Und umarmt sie dort in Scharen.
Aber das Gefühl
Bleibt erstaundlich kühl,
Wenn man damit allzuwenig kargt.
(Schliesslich geht ja jeder Vorrat zu Ende.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber,
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern abend?
Wo ist der Schnee vom vergangenen Jahr?

Und auch wenn man gut das Handeln
Lernte auf der Liebesmess’:
Lust in Kleingeld zu verwandeln,
Wird doch niemals leicht.
Nun, es wird erreicht.
Doch man wird auch alter unterdes.
(Schliesslich bleibt man ja nicht immer siebzehn.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber,
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern abend?
Wo ist der Schnee vom vergangenen Jahr?
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Bertolt Brecht: A troca da roda


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Estou sentado no barranco da estrada.
O condutor trocando a roda.
Não gosto do lugar de onde vim.
Não gosto do lugar para onde vou.
Por que eu vejo a troca da roda
Com impaciência?

Bertolt Brecht

Der Radwechsel

Ich sitze am Straßenhang
Der Fahrer wechselt das Rad.
Ich bin nicht gern, wo ich herkomme.
Ich bin nicht gern, wo ich hinfahre.
Warum sehe ich den Radwechsel
Mit Ungeduld?
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 9 de novembro de 2024

Bertolt Brecht: Balada da prostituta

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[Versão de Edmundo Moniz]

Dezesseis anos foi a idade
em que passei a me vender.
Como sofri desde esse dia!
Como ainda tenho de sofrer!
Mas há momentos desse jogo,
provavelmente não me engano,
que nunca mais hei de esquecer.
(Também eu sou um ser humano!)
Graças a Deus, pesar e amor
passam depressa sem demora!
Onde é que estão as minhas lágrimas?
Mas onde estais neves de outrora?

Com o tempo vejo que é mais fácil
o meu dinheiro receber
pelos abraços, pelos beijos
que aos homens posso conceder.
Como se esfria o coração,
nesta labuta longa e triste,
em que me entrego sem prazer!
(Inesgotável nada existe!)
Graças a Deus, pesar e amor
passam depressa, sem demora!
Onde é que estão as minhas lágrimas?
Mas onde estais neves de outrora?

No amor, que é todo o meu negócio,
por mais que eu tenha de aprender,
tornar em moedas o desejo
não deixará de constranger.
Fui progredindo mesmo assim
e desta vida estou madura.
Começo agora a envelhecer
(A mocidade não perdura!).
Graças a Deus, pesar e amor
passam depressa, sem demora!
Onde é que estão as minhas lágrimas?
Mas onde estais neves de outrora?

Bertolt Brecht

Lied Eines Freudenmädchens

Meine Herren, mit siebzehn Jahren
Kam Ich auf den Liebesmarkt
Und Ich habe viel erfahren
Böses gab es viel
Doch das war das Spiel
Aber manches hab ich doch verargt.
(Schlieβlich bin ich ja auch ein Mensch.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern Abend?
Wo ist der Schnee vom vergangenen Jahr?

Freilich geht man mit den Jahren
Leichter auf den Liebesmarkt
Und umarmt sie dort in Scharen.
Aber das Gefühl
Bleibt erstaundlich kühl
Wenn man damit allzuwenig kargt.
(Schlieβlich geht ja jede Vorrat zu Ende.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern Abend?
Wo ist der Schnee vom vergangenen Jahr?

Und auch wenn man gut das Handeln
Lernte auf der Liebesmess’:
Lust in Kleingeld zu verwandeln
Ist doch niemals leicht.
Nun, es wird erreicht.
Doch man wird auch alter unterdes.
(Schlieβlich bleibt man ja nicht immer siebzehn.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern Abend?
Wo ist der Schnee vom vergangenen Jahr?
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Bertolt Brecht: Antologia Poética [+ O Processo de Lucullus, peça teatral], Versão e Prefácio de Edmundo Moniz, 1983, Elo Editora e Distribuidora, Rio de Janeiro — RJ; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; suas primeiras poesias datam de 1913; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística: para o teatro, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) ..., em poesia, Bertolt Brechts Hauspostille (‘Taschenpostille’, coletânea de poemas, Manual de Devoção de Bertolt Brecht, 1926), Lieder Gedichte Chöre (coleção de poemas, 1934), Svendborger Gedichte (coleção de poemas, 1939), e outras coleções, perfazendo um total de mais de 2.300 textos poéticos, boa parte escrita e produzida para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.