quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Charles Bukowski: o poema

Amor é Tudo que Nós Dissemos que não Era | Amazon.com.br
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[traduzido por Fernando Koproski]

todos eles continuam publicando poemas
mas é de se duvidar do que um
poema pode realmente realizar.

séculos de poemas
e nós estamos de volta ao
ponto de partida.

como a filosofia, história,
medicina, ciência, os poemas parecem
modificar as coisas,
parecem conduzir para uma
saída
aí vacilam diante das
correntes inconstantes e crescentes
disputas.

um poema não é melhor do que um
bom abridor de latas,
um estepe,
ou
aspirina para uma
dor de cabeça.

o poema não é grande coisa
mas deixa eu te dizer
se não tivesse descoberto
ele
eu estava morto
ou
você estaria morto
estaria
morta
ou
se não morta
então terrivelmente
mutilada
num sentido ou
outro.

ainda assim, um poema pode ser
somente um poema.

versos como esses

flutuando numa página

queimando buracos no rosto da
morte

arrancando a tampa do tubo
da
noite

seguindo esse verão do cão
até o fim da
linha.

ãh?

Charles Bukowski

the poem

they all keep publishing poems
but it’s doubtful what a
poem can really accomplish.

centuries of poems
and we’re back to the
starting point.

like philosophy, history,
medicine, science, poems seem to
alter things,
seem to lead toward a way
out
then falter against the
changing currents and increasing
odds.

a poem is no better than a
good can opener,
a spare tire,
or
aspirin for a
headache.

the poem isn’t much
but let me tell you
if I hadn’t discovered
it
I  would be dead
or
you would be dead
or many people
would be
dead
or
if not dead
then horribly
mutilated
in one sense or
another.

still, a poem can only
be a poem.

lines like these

floating on a page

burning holes in the face of
death

twisting the cap off the tube
of
night

following the dog of summer
to the end of his
rope.

huh?
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Amor é tudo que nós dissemos que não era — Charles Bukowski, Seleção e tradução de Fernando Koproski, 2012, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os dois anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, contista e romancista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sully-Prudhomme: A Filosofia

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[traduzido por Antônio Sales]

Uma triste mulher, que em si mesma, silente,
se abisma, em pé curvada: eis a Filosofia.
Solitária, na sombra entra, e ali se confia
aos impulsos da fé, que em seu íntimo sente.

A terra, as estações, o azul resplandecente,
a volúpia falaz da vida que irradia,
tudo o que o nosso olhar percebe, a deixa fria:
ela reclama e busca um sempiterno ausente.

Virgem augusta, eu te amo e o teu pesar compreendo:
de ti me aproximando, o meu hálito prendo,
para não perturbar o teu labor divino.

Porque de tua boca eu espero o segredo,
que desejo saber e de que tenho medo:
 minha origem qual é, e qual o meu destino?

Sully-Prudhomme

La Philosophie

Cette femme qui, triste, en soi-même descend,
Debout, le front penché, c’est la Philosophie.
Solitaire, dans l’ombre elle entre, et se confie,
La main sur la poitrine, à l’appui qu’elle y sent.

La terre, les saisons, l’azur resplendissant,
Toutes les voluptés trompeuses de la vie,
Les choses qu’on peut voir, ne lui font point envie,
Elle réclame et cherche un éternel absent.

Vierge auguste, je t’aime et je connais ta peine.
En approchant de toi, je retiens mon haleine,
Pour que nul souffle humain ne trouble ton labeur,

Car j’attends de ta bouche à se taire obstinée,
Le mot que je désire et dont pourtant j’ai peur,
Le mot de ma naissance et de ma destinée.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês de Paris, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito e foi poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor a receber o Nobel de Literatura (1901); obra poética: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888).

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Pedro Dantas *: Autocrítica

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Quando romântico
inconformado
era o meu cântico
descabelado.

Sereno esteta
greco-romano
depois fui poeta
parnasiano.

E modernista:
meu verso lírico
mais que realista
já foi homérico.

Hoje, entretanto,
meu verso quero
de sentimento
de toda a gente,

fácil, sem arte,
rude, fatal,
de frases feitas,
como os de Homero,

e com a força
secreta e ardente
dos grandes sambas
de carnaval.

PEDRO DANTAS

* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Pedro Dantas, pseudônimo literário de Prudente de Morais Neto ou Francisco de Paula Prudente de Morais (1904  1977), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito, foi jornalista, professor, contista e poeta bissexto *; teve atuação no Modernismo, lançou e dirigiu a revista Estética (junto com Sérgio Buarque de Holanda), colaborou com os periódicos Terra Roxa, Antropofagia e Revista Nova; lecionou Técnica da Crítica e História Geral da Literatura na Universidade do Distrito Federal (Rio de Janeiro); Pedro Dantas, um dos principais polemistas do Modernismo, não publicou livros, sua pequena produção poética encontra-se esparsa em jornais e revistas da época.  

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Honório Armond: Ômega

Honório Armond, O Príncipe Dos Poetas Mineiros, Zenaide Viei
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Esta vida, estas forças que em mim agem
à espera da final libertação,
sendo o que sou, tomando a minha imagem,
que farão estas forças e onde irão?

Correndo o ciclo  a multiforme viagem
do átomo ao Ser  um novo ser farão?
ou, potência infra-atômica selvagem,
terá seu fim a desagregação?

Matéria ou força ou turbilhão etéreo
universalidade condensada
na radioatividade potencial;

seja o que for o estático mistério,
guardo em mim a dinâmica do Nada
criadora da Essência Universal!

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Honório Armond  O Príncipe dos Poetas Mineiros, Organizado por Zenaide Vieira Maia, 2007, Gráfica e Editora Cidade de Barbacena, Barbacena MG; Honório Armond (1891 1958), mineiro de Barbacena, foi professor e poeta bilíngue; lecionou Português e teve seus poemas registrados em periódicos mineiros, cariocas e paulistas; escreveu e publicou Ignotae Deae (1917), Perante o Além (1921), Les Voix e Les Bonheurs (1932); escrevia seus poemas ora em português, ora em francês; em 1927, com o patrocínio do jornal Diário de Minas, foi eleito 'Príncipe dos Poetas Mineiros', em concurso realizado por jovens modernistas mineiros liderados por Carlos Drummond de Andrade; seus poemas, dispersos em jornais, revistas e arquivos literários (jornais Cidade de Barbacena e Diário de Minas, revistas Acaiaca, Radium e Revista da Academia Mineira de Letras, Arquivo de Guimarães Rosa, entre outros periódicos) foram reunidos e ganharam uma nova edição em Poesia Completa de Honório Armond (2011); pertenceu à Academia Mineira de Letras.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Charles Bukowski: cerveja

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[traduzido por Pedro Gonzaga]

não sei quantas garrafas de cerveja
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres 
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”.

a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.

enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.

bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.

cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.

Charles Bukowski

beer 

I don't know how many bottles of beer
I have consumed while waiting for things
to get better
I dont know how much wine and whisky
and beer
mostly beer
I have consumed after
splits with women 
waiting for the phone to ring
waiting for the sound of footsteps,
and the phone to ring
waiting for the sounds of footsteps,
and the phone never rings
until much later
and the footsteps never arrive
until much later
when my stomach is coming up
out of my mouth
they arrive as fresh as spring flowers:
"what the hell have you done to yourself?
it will be 3 days before you can fuck me!"

the female is durable
she lives seven and one half years longer
than the male, and she drinks very little beer
because she knows its bad for the figure.

while we are going mad
they are out
dancing and laughing
with horney cowboys.

well, there's beer
sacks and sacks of empty beer bottles
and when you pick one up
the bottle fall through the wet bottom
of the paper sack
rolling
clanking
spilling gray wet ash
and stale beer,
or the sacks fall over at 4 a.m.
in the morning
making the only sound in your life.

beer
rivers and seas of beer
the radio singing love songs
as the phone remains silent
and the walls stand
straight up and down
and beer is all there is.
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O amor é um cão dos diabos  Charles Bukowski, Tradução de Pedro Gonzaga, 2015, reimpressão L&PM Pocket, L&PM Editores, Porto Alegre RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, contista e romancista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

Filinto de Almeida: Último apelo

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Não mais a minha Musa me obedece
como sempre, contente, obedecia;
de tudo que eu suplico ela se esquece,
como jamais outrora se esquecia.

E eu, que lhe peço? Apenas que não cesse
de me florir os campos da Poesia,
de me acender a chama que me aquece
para os estos da minha Fantasia.

Faço-lhe agora um último pedido:
é que me assista, quando o fim chegar
deste seu velho Poeta combalido;

que, quando a Morte me vier buscar,
com voz me encontre, plácido, estendido,
sobre um leito de nuvens 
 a cantar!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro  RJ; Francisco Filinto de Almeida (1857  1945), português nascido no Porto e naturalizado brasileiro, frequentou o Colégio Primário, ainda em Portugal, sem no entanto concluir seus estudos; com a idade de 10 anos, veio para o Brasil e não cursou qualquer estabelecimento de ensino; destacando-se no jornalismo, na dramaturgia e nas letras, foi redator d’O Estado de São Paulo, colaborando, ainda, em A América, O Besouro, O Combate, Folha Nova, A Estação, A Semana, O Mequetrefe, todos do Rio de Janeiro, no Diário de Santos e na Comédia, em São Paulo; escreveu e publicou Um idioma (entreato cômico, 1876), Os Mosquitos (monólogo em verso (1887), Lírica (1887), O Defunto (comédia em 1 ato, 1894), O Beijo (comédia em 1 ato, em verso, 1907), Cantos e cantigas (poesia, 1915), Camoniana (sonetos, 1945), Colunas da noite (crônicas, 1945) etc.; em colaboração com Júlia Lopes de Almeida, escritora e esposa, escreveu o romance A Casa Verde (publicado em folhetins do Jornal do Commercio, de dezembro de 1898 a março de 1899); foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.  

sábado, 26 de dezembro de 2015

Charles Bukowski: jogue os dados

Amor é Tudo que Nós Dissemos que não Era | Amazon.com.br
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[traduzido por Fernando Koproski]

se você for tentar, vá até o
fim.
caso contrário, nem comece.

se você for tentar, vá até o
fim.
isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e
talvez sua sanidade.

vá até o fim.
isso pode significar não comer por 3 ou
4 dias.
isso pode significar congelar num
banco de parque.
isso pode significar prisão,
isso pode significar descaso,
gozação,
solidão.
solidão é uma dádiva,
todo o resto é uma prova de sua
perseverança, do
quanto você realmente quer
fazer isso.
e você irá fazer
apesar da rejeição e das
piores probabilidades
e será melhor do que
qualquer outra coisa
que você possa imaginar.

se você for tentar,
vá até o fim.
não existe nenhuma outra sensação
parecida.
você ficará a sós com os
deuses
e as noites se farão em chamas com o
fogo.

faça, faça, faça.
faça.

até o fim
até o fim.

você conduzirá a vida direto à
risada perfeita, é
a única batalha
pela qual vale a pena lutar.

Charles Bukowski

roll the dice

if you're going to try, go all the
way.
otherwise, don't even start.

if you're going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.

go all the way.
it could mean not eating for 3 or
 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you'll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.

if you're going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the
 gods
and the nights will flame with
fire.

do it, do it, do it.
do it.

all the way
all the way.

you will ride life straight to
perfect laughter, it’s
the only good fight
there is.
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Amor é tudo que nós dissemos que não era Charles Bukowski, Seleção e tradução de Fernando Koproski, 2012, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro RJ; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os dois anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, contista e romancista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Guimarães Passos: Na terra estava quando te queria . . . [soneto]

Na terra estava quando te queria
De todas as mulheres diferente,
E olhando a altura com o fervor dum crente
Em nuvem de ouro a tua imagem via.

Na asa encantada que a paixão me abria
Subi, para buscar-te unicamente,
E em cima estando vi-te, de repente,
Na terra, no lugar donde eu saía.

Olhos de amante, que de tal maneira
Andam cheios de lúcida loucura,
Que assim se perdem na maior cegueira.

E vendo aquilo que não há, decerto,
Sonham longe a ilusão de uma ventura
E não vêem a ventura que têm perto.

(Versos de um simples,
 Rio de Janeiro, 1891, p. 82  83.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac);  em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Raimundo Magalhães Júnior *: Autocrítica de Deus

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Depois de muita reflexão
Positivamente acabrunhado
Deus resolveu fazer autocrítica.
Considerou bem a sua obra,
Viu toda a ruindade do homem
As misérias sem remédio da Terra
E uma lágrima imensa como um oceano
Rolou da sua pálpebra enorme
No chão incomensurável do infinito.

"Senhor!  disse um arcanjo
Desejoso de consolá-lo. 
Realmente, a tua obra não prestou,
Mas pode tomá-la em tuas mãos,
Amassar e tornar a amassar,
Começando, depois, tudo de novo!"
Mas Deus sacudiu as longas barbas
Com a mais divina tristeza
E disse desanimadamente:
"Não adianta, não adianta, não adianta!
Ide e proclamai, urbe et urbi,
Que os erros de Deus não se repetem!"



* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Raimundo Magalhães Júnior ou R. Magalhães Júnior (1907  1981), cearense de Ubajara, foi jornalista, biógrafo, tradutor, historiador, teatrólogo e poeta bissexto *; de mudança para o Rio de Janeiro, estudou humanidades e iniciou no jornalismo; trabalhou como secretário n’A Noite Ilustrada, foi um dos fundadores do Diário de Notícias, diretor das revistas Carioca, Vamos Ler e Revista da Semana e redator d’A Noite; escreveu e publicou Impróprio para menores (contos, 1934), O homem que fica (teatro, 1934), Fuga e outros contos (1936), Um judeu (teatro, 1939), Mentirosa (teatro, 1934), Carlota Joaquina (teatro, 1934), Chico-vira-bicho e outras histórias (literatura infantil, 1942), Vila Rica (teatro, 1945), Artur Azevedo e sua época (biografia, 1953), Poesia e vida de Cruz e Sousa (biografia, 1961), Poesia e vida de Álvares de Azevedo (biografia, 1962), Dicionário de coloquialismos anglo-americanos, provérbios, idiotismos e frases feitas (1964), Poesia e vida de Casimiro de Abreu (biografia, 1965), Dicionário de citações brasileiras (1971) e tantos outros títulos, além de ter organizado Contos e Crônicas de Machado de Assis (1958), Histórias brejeiras, contos escolhidos de Arthur Azevedo (1962), Antologia do Humorismo e Sátira, de Gregório de Matos a Vão Gôgo (1957) etc; obteve vários prêmios literários; traduziu poemas franceses, ingleses e italianos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade: A ilusão do migrante

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Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.

Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é conseqüência
de um certo nascer ali.

Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.

Que carregamos as coisas,
moldura da nossa vida,
rígida cerca de arame,
na mais anônima célula,
e um chão, um riso, uma voz
ressoam incessantemente
em nossas fundas paredes.

Novas coisas, sucedendo-se,
iludem a nossa fome
de primitivo alimento.
As descobertas são máscaras
do mais obscuro real,
essa ferida alastrada
na pele de nossas almas.

Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim mesmo,
este vivente enganado,
                     [enganoso.

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Farewell, Prefácio de Humberto Werneck, segunda edição, 1996, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...