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[traduzido
por Geraldo Galvão Ferraz]
Aqui há
gente com nomes e com pés
com
endereço e sobrenome:
eu também
vou na fieira
com o
fio.
Há os já
debulhados
no
poço
que
fizeram e em que caíram:
há os
bons e os maus ao mesmo tempo,
os
sacrificadores e a pedra
onde
deceparam a cabeça
de
quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de
tudo na cesta: aqui só
estão
cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros,
de colheres, de bigodes:
não sei o
que me aconteceu nem o que acontecia
comigo
mesmo nem com eles,
o certo é
que os vi,
toquei-os
e como a vida anda
sem deter
suas rodas
eu os
vivi quando eles me viveram,
amigos ou
inimigos ou paredes,
ou
inaceitáveis santos que sofriam,
ou
cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões
que o vento comeu,
ou tudo
mais: o grão do paiol
as minhas
culpas desnudadas sem cessar
que ao
entrar no banho a cada dia
saíram
mais manchadas à luz.
Ai,
salve-se quem puder!
O
arquivista sou dos defeitos
de um só
dia de minha coleção
e não
tenho crueldade mas paciência:
já
ninguém chora, passou de moda
a bela
lágrima como uma açucena
e até
mesmo o remorso faleceu.
Por isso
apresento minha coroa
de iníquo
juiz que não contenta ninguém,
nem aos
ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já
sabem disso:
eu que
falo por falar falo de menos
por
quanto vi, por quanto verei
estou
ficando cego.
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| Pablo Neruda |
Repertorio
AQUÍ HAY gente con nombres y con
pies
con calle y apellido:
también yo voy en la hilera
con el hilo.
Hay los ya desgranados
en
el
pozo
que hicieron y en el que cayeron:
hay los buenos y malos a la vez,
los sacrificadores y la piedra
donde les cercenaron la cabeza
a cuantos se acercaron a su abismo.
Hay de todo en la cesta: sólo son
cascabeles aquí, ruidos de mesa,
de tiros, de cucharas, de bigotes:
no sé qué me pasó ni qué pasaba
conmigo mismo ni con ellos,
lo cierto es que los vi,
los toqué y como anda la vida
sin detener sus ruedas
yo los viví cuando ellos me
vivieron,
amigos o enemigos o paredes,
o inaceptables santos que sufrían,
o caballeros de sombrero triste,
o villanos que el viento se comió,
o todo más: el grano del granero
las culpas mías sin cesar desnudas
que al entrar en el baño cada día
salieron más manchadas a la luz.
Ay sálvese quien pueda!
Yo el archivista soy de los defectos
de un solo día de mi colección
y no tengo crueldad sino paciencia:
ya nadie llora, se pasó de moda
la bella lágrima como una azucena,
y hasta el remordimiento falleció.
Por eso yo presento mi corona
de inicuo juez que no contenta a
nadie,
ni a los ladrones, ni a su digna
esposa:
ya lo saben ustedes:
yo que hablo por hablar hablo de
menos:
de cuanto he visto, de cuanto veré
me voy quedando ciego.
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Defeitos Escolhidos & 2000 — Pablo
Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, edição bilíngue, volume 451, Coleção
L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido
e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 — 1973), nascido Ricardo Eliécer
Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade
do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos
para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado
um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou
Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa
del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general
(1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958),
Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las
manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida
(1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com
o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio
Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão,
Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.