domingo, 31 de dezembro de 2023

Amadeu Amaral: A um poeta


____________________
XI

Tu és como um triste avaro,
que, trazendo vestes rotas,
guarda um tesouro fúlgido e raro,
preciosidades ignotas.

Vestido em crianças esfarrapadas
e ilusões gastas e frias,
tens no peito aferrolhadas
preciosas pedrarias.

E ficas-te, embevecido,
muita vez, a contemplá-las.
Podem rir-te do vestido!
Ostentem suas brilhantes galas!

Tu tens riquezas maiores,
maiores preciosidades:
são ametistas as tuas dores,
são opalas as saudades;

os teus sonhos, esses luzem
de um vário brilho de pedrarias,
onde acaso se recruzem
irisações fugidias...

Urzes — 1889

____________________
Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (atual Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; fez o curso primário em sua cidade natal, aos onze anos veio pra São Paulo, autodidata, frequentou algumas aulas no Curso Anexo da Faculdade de Direito, não concluiu o ensino secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924), Tradições populares (folclore, publicação póstuma, 1948) etc.; sua obra Dialeto Caipira, escrita à luz da linguística, foi pioneira no estudo científico de um dialeto regional no país; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Pablo Neruda: Repertório


____________________
[traduzido por Geraldo Galvão Ferraz]

Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.

Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.

Ai, salve-se quem puder!

O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.

Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.

Pablo Neruda

Repertorio

AQUÍ HAY gente con nombres y con pies
con calle y apellido:
también yo voy en la hilera
con el hilo.
Hay los ya desgranados
en
el
pozo
que hicieron y en el que cayeron:
hay los buenos y malos a la vez,
los sacrificadores y la piedra
donde les cercenaron la cabeza
a cuantos se acercaron a su abismo.

Hay de todo en la cesta: sólo son
cascabeles aquí, ruidos de mesa,
de tiros, de cucharas, de bigotes:
no sé qué me pasó ni qué pasaba
conmigo mismo ni con ellos,
lo cierto es que los vi,
los toqué y como anda la vida
sin detener sus ruedas
yo los viví cuando ellos me vivieron,
amigos o enemigos o paredes,
o inaceptables santos que sufrían,
o caballeros de sombrero triste,
o villanos que el viento se comió,
o todo más: el grano del granero
las culpas mías sin cesar desnudas
que al entrar en el baño cada día
salieron más manchadas a la luz.

Ay sálvese quien pueda!
 
Yo el archivista soy de los defectos
de un solo día de mi colección
y no tengo crueldad sino paciencia:
ya nadie llora, se pasó de moda
la bella lágrima como una azucena,
y hasta el remordimiento falleció.

Por eso yo presento mi corona
de inicuo juez que no contenta a nadie,
ni a los ladrones, ni a su digna esposa:
ya lo saben ustedes:
yo que hablo por hablar hablo de menos:
de cuanto he visto, de cuanto veré
me voy quedando ciego.
____________________
Defeitos Escolhidos & 2000 — Pablo Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, edição bilíngue, volume 451, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Carlos Drummond de Andrade: Sonetos Heredianos


____________________
I

Era bom traduzir os sonetos de Herédia
a poder de martelo, altas horas da noite.
No suplício da forma um sabor de comédia
testará o animal que na treva se acoite.

O desfecho (in)feliz envolve-se na média
de galas esmagadas. Qualquer um que se afoite
nos meandros do mot há de soltar as rédeas
ao cavalo interior, carente de pernoite.

A língua, inda sangrando em cacos de palavras
que jamais tornarão à virtude primeira,
pergunta (ou quase que), após servido o chá.

E o bardo, recalcando aporias escravas,
silente se recolhe à furna derradeira.
Ninguém que me responda: Herédia ou Herediá?

II

A concha de Heredia encanta e contagia
o brasílio Parnaso. O verbo alexandrino
reluz em facho de ouro, e a noite se faz dia
por artes do cantor e seu sabor ladino.

Ingrato, o nosso idioma, e por isso mais fino
o triunfo verbal que ao público extasia:
vulva frêle et navrée, num lance cristalino,
expõe-se, esplendorosa, em sua plena magia.

Palmas ao tradutor, esforçado xavante,
guarani culto e sábio ou famoso tupi,
mestre no deglutir, em quarteto e terceto,

o sol, o sal, a cor que iguais eu nunca vi,
embora nosso herói se confesse ofegante
depois de haver parido um alheio soneto.

Amar se aprende amando — 1985

____________________
Amar Se Aprende Amando, poesia de convívio e de humor — Carlos Drummond de Andrade, 6ª edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Narcisa Amália: Recordação Fatal


____________________
Distende essa mimosa envergadura
Verso! Leve, transpondo os altos montes,
Sobe! Assombra-te, acaso, a terra impura?
Mergulha, inteiro, nas celestes fontes!

Anima-te! Esvoaça! Olvida a escura
Geena! Choradas lágrimas não contes...
Porque prantos cantar, se é em festa a altura?
 Se há, bengali, rosais nos horizontes?

Mas ai! triste galé!  quer o poema
De amor dos sóis surpreendas, quer a casta
Rola por tua voz soluce e gema,

Será contigo a lúgubre, a nefasta
Recordação, que arrasto, como a ema
A asa partida pelo campo arrasta.

A Mensageira, de 15 de Abril de 1899,
Ano II, nº 27, São Paulo — SP

____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter-se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro publicado, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Lili Leitão: 9º Mandamento & Coruja


____________________
9º Mandamento

Que os padres não me passem sarabanda
Por algum pecadinho que eu tiver;
Pois sou cristão de fato, em qualquer banda,
E hei de morrer assim, se Deus quiser.

Dos mandamentos faço propaganda,
Cumpro-os à risca, como a igreja quer,
Principalmente aquele tal que manda
Não desejar do próximo a mulher.

Apesar de um mortal estar sujeito
Às tentações que neste mundo vejo,
As mulheres dos próximos respeito.

Passei, por elas como passa um monge;
Tanto que da mulher que amo e desejo
O marido está longe... muito longe...

— o —

Coruja

Vai-te, coruja, vai-te, mais distante
pousar de mim, noutro qualquer arbusto,
onde eu não possa ouvir este implicante
gargalhar, que me causa horror e susto!

Não queiras perturbar-me; dormir custo,
ouvindo o teu cantar, coruja errante,
Deixa-me em paz, o que te peço é justo,
ave fatal, nojenta e horripilante!

Vai-te coruja, e seja a derradeira
esta vez em que te ouço, ave agoureira
que de pavor o peito meu trespassa...

Muita aversão eu tenho-te, acredita:
tua presença os nervos meus irrita.
Vai-te, ó prenúncio negro da desgraça!

____________________
Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica "roda", para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Lautréamont: Os Cantos de Maldoror [excerto]


____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

(Canto primeiro — estrofe 2)

Leitor, talvez seja o ódio que você queira que eu invoque no início desta obra! Quem lhe diz que você não torcerá o nariz, banhado em inúmeras voluptuosidades, tal como queira, com suas narinas orgulhosas, grandes e estreitas, revirando o ventre, como um tubarão, no ar belo e, negro, como se você compreendesse a importância deste ato e a importância não menor de seu legítimo apetite, lentamente e majestosamente, as emanações vermelhas? Eu lhe asseguro, elas irão alegrar os dois buracos informes de teu museu hediondo, ó monstro, se todavia você antes se dedicasse a respirar três mil vezes seguidas a maldita consciência do Eterno! Tuas narinas que ficarão desmesuradamente dilatadas de satisfação inefável, de êxtase imóvel, não vão pedir qualquer coisa de melhor ao espaço, de ter vindo embalsamado tal como perfumes e incensos; pois elas estarão saciadas de uma felicidade total, como os anjos que moram na paz e magnificência de céus aprazíveis.

Lautréamont

(Les Chants de Maldoror:
Chant premier — strophe 2)

Lecteur, c'est peut-être la haine que tu veux que j'invoque dans le commencement de cet ouvrage! Qui te ditque tu n'en renifleras pas, baigné dans d'innombrables voluptés, tant que tu voudras, avec tes narines orgueilleuses, larges et maigres, en te renversant de ventre, pareil à un requin, dans l'air beau et noir, comme si tu comprenais l'importance de cet acte et l'importance non moindre de ton appétit légitime, lentement et majestueusement, les rouges émanations? Je t'assure, elles réjouiront les deux trous informes de ton museau hideux, ô monstre, si toutefois tu t'appliques auparavant à respirer trois mille fois de suite la conscience maudite del'Éternel! Tes narines, qui seront démesurément dilatées de contentement ineffable, d'extase immobile, ne demanderont pas quelque chose de meilleur à l'espace, devenu embaumé comme de parfums et d'encens; car, elles seront rassasiées d'un bonheur complet, comme les anges qui habitent dans la magnificence et la paix des agréables cieux.
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Conde de Lautréamont (1846 1870), pseudônimo literário de Isidore Lucien Ducasse, uruguaio de Montevidéu, educado por jesuítas, aos quatorze anos embarcou para a França e ali se tornou aluno interno do Liceu Imperial de Tarbes e, depois, do de Pau, estudou letras e ciências [Retórica e Filosofia] e foi poeta; suas obras: Les Chants de Maldoror (Os Cantos de Maldoror [I, II, III, IV, V e VI], 1869) e Poésies (em dois fascículos, textos em prosa de natureza ensaística, 1870); consta que André Breton (1896 1966), escritor tido como pai e fundador do Movimento Surrealista, considerava Lautréaumont, de certa forma, como um dos precursores do surrealismo; ainda em criança, Isidore Ducasse era tido como “de inteligência precoce, mas de saúde delicada” e que “rapidamente se destacou pelo seu humor bastante selvagem”; morreu jovem, a 24 de novembro de 1870; é o que se encontrou de sua biografia.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

genésio dos santos: dona bidunga *

____________________
fazer poemas é tão necessário
quanto o era para a mãe esculpir
bolinhos de chuva ao fritá-los
em óleo de amendoim ou óleo de algodão
ou banha de porco
naquele outrora

quem sabe
assim desenhasse o poeta
guri nos seus sete anos
enquanto devorava os bolinhos
e folheava a cartilha do tatu
cheia de letras e gravuras

de calças curtas,
ele só não tinha como imaginar
que lá no futuro iria escrever um poema
pra dona bidunga,
apelido de saturnina de almeida fagundes,
autora da cartilha.

sp, 24.12.2023


*Nota deste Verso e Conversa: O poema Dona Bidunga foi ideado em algum momento desde outubro de 2020, mês em que este ex-guri e aprendiz de blogueiro, filho de ferroviário, pesquisador e poeta, buscou e adquiriu em sebo um exemplar da Cartilha do Tatu — Caderno de Alfabetização, de Saturnina de Almeida Fagundes, a Dona Bidunga; tal cartilha, impressa nas gráficas da EFS — Estrada de Ferro Sorocabana, propiciou ao poeta um primeiro contato escolar com letras e gravuras, contato esse ocorrido em 1959, no início do então curso primário na Escola Rural da Estação, Vila Isabel, em Itapeva — SP.
____________________
genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — caderno de alfabetização, de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

domingo, 24 de dezembro de 2023

Narcisa Amália: Desalento


____________________
Adeus, lendas de amor, doirados sonhos
De meu cérebro enfermo;
Adeus, da fantasia, ó lindas flores,
Rebentadas no ermo.

Um dia, da quimera no regaço,
Adormeci sorrindo;
E os astros, lá do empíreo debruçados,
Verteram brilho infindo...

Como à flux da onda egéia um divo canto
De Homero, o bardo cego,
Resvalei da paixão nas vagas fúlgidas,
De esplendores num pego!...

Mas depois... densa nuvem desenhou-se
Na safira do céu,
E a ledice infantil fugiu tremendo
Ao futuro escarcéu!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Por que deixas, ó Deus, que o gelo queime
Minh’alma, planta fria?!...
Cedo descansarei (que importa?) os membros
Na penumbra sombria

Onde a roxa saudade funerária
Enlaça-se ao cipreste;
Onde a lua, chorosa, peregrina,
Derrama a luz celeste!

A vós, lendas de amor, sombras queridas
Dos devaneios meus;
A vós, que me embalastes a adolescência!...
Meu pranto e eterno adeus!...

____________________
Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter-se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro publicado, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase.

sábado, 23 de dezembro de 2023

Cassiano Machado Tavares Bastos: Elevação


____________________
Envolve-toi bien lain de ces mesmes morbidez,
Va te purifier dans l’air supérieur”.
CH. BAUDELAIRE.

Para os azuis sidérios, poeta, eleva
O teu eterno cíato de prata,
Onde o absinto que te queima e mata
Faz com que vejas o luar na treva!

E que o teu verso aureolado deva
Subir à luz que nele se retrata,
Vai, nas Esferas teu amor dilata,
Tu’alma lá pelas Alturas neva!...

Nos puros longes eterais penetra
Altivamente, e sem temor soletra
O alfabeto estelar desse outro mundo...

Que te não percas nesse abismo enorme,
Mas entre os anjos e as estrelas dorme,
Dorme sonhando num sonhar profundo!...

(Ermida, pág. 31.)

____________________
Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Cassiano Machado Tavares Bastos (1885 1973), nascido em Santa Maria Madalena RJ, ou C. Tavares Bastos, fez seus primeiros estudos em colégio particular no Rio de Janeiro, aos 11 anos matriculou-se no Internato do Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II), depois transferiu-se para o Externato do mesmo instituto, cursou a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelou-se em Ciências e Letras, foi funcionário público e poeta do Simbolismo; iniciando sua carreira como auxiliar de escrita da Estrada de Ferro Central do Brasil, exerceu inúmeras funções no alto escalão do serviço público e na área diplomática, aposentou-se em 1941 e passou a dedicar-se exclusivamente às letras; colaborou no semanário Rua do Ouvidor, na Folha do Dia (redigia a coluna “Crônica Semanal”, sob o pseudônimo “Cornely”), na revista Rosa Cruz e na revista Sousa Cruz, estas últimas de inspiração simbolista; traduziu Victor Hugo, Baudelaire e Dante; escreveu e publicou Ermida (poesia, versos dos 15 aos 17 anos, 1900), Versões Poéticas Brasileiras de Victor Hugo (1952), Dante e Outros Poetas Italianos na Interpretação Brasileira (1953), Baudelaire no Idioma Vernáculo (1963), Trovas do Crepúsculo (poesias, 1965), além de ter produzido vários livros na área de Estatística; Cassiano Machado foi participante ativo no movimento simbolista ao lado dos amigos e companheiros literários Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Carlos D. Fernandes, Castro Meneses e outros; seu estudo “Como surgiram os Místicos da Rosa Cruz (O Simbolismo no Brasil A Influência de Saturnino de Meireles Os discípulos de Cruz e Sousa Vicissitudes de uma Revista de Arte)”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de março de 1937, é de importância fundamental para a história do simbolismo brasileiro, na sua segunda fase, no relato de Andrade Muricy, organizador deste Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

José María de Heredia: Os Conquistadores


____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

Tal voo dos falcões, lá do ninho natal,
Cansados de trazer misérias altaneiras,
Do Palos, de Moguer, capitães e guerreiros
Partiam, ébrios num sonho heroico e brutal.

Iam a conquistar fabuloso metal
Que guardava Cipango em minas sem fronteira,
E as antenas dos ventos alíseos à beira,
Nas margens de mistério em mundo ocidental.

Cada noite, esperando as alvoradas épicas,
O azul fosforescente pelo mar dos Trópicos
Encantava o dormir em miragem dourada;

Ou, pendidos na proa de alvas caravelas,
Eles viam subir por um céu ignorado
Do fundo do Oceano outras novas estrelas.

José María de Heredia

Les Conquérants

Comme un vol de gerfauts hors du charnier natal,
Fatigués de porter leurs misères hautaines,
De Palos de Moguer, routiers et capitaines
Partaient, ivres d'un rêve héroique et brutal.

Ils allaient conquérir le fabuleux métal
Que Cipango mûrit dans ses mines lointaines,
Et les vents alizés inclinaient leurs antennes
Aux bords mystérieux du monde occidental.

Chaque soir, espérant des lendemains épiques,
L'azur phosphorescent de la mer des Tropiques
Enchantait leur sommeil d'un mirage doré;

Ou penchés à l'avant des blanches caravelles,
Ils regardaient monter en un ciel ignoré
Du fond de l'Océan des étoiles nouvelles.

[Les Trophées — 1893]
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; José María de Heredia Girard (1842 1905), nascido em Cuba (à época, colônia espanhola), na localidade de Cafeyre, próxima a Santiago de Cuba, aos oito anos tendo sido mandado para a França, estudou e bacharelou-se no colégio dos padres vicentinos, o liceu Saint-Vincent, em Senlis, foi poeta, escritor e tradutor; em 1859, de volta a Cuba, Havana, onde permaneceu por pouco mais de um ano, aprofundou os conhecimentos da língua e da literatura espanhola, compôs seus primeiros poemas franceses que chegaram até nós, e depois retornou para Paris França; fez parte do grupo que tinha em Leconte de Lisle um “chefe e mestre”, e do qual também participavam François Coppée, Sully Prudhomme, Paul Verlaine e outros, todos se tornando conhecidos como os poetas do Parnaso, “os parnasianos”; José María de Heredia, que naturalizou-se francês, publicou Les Trophées (118 sonetos e 4 poemas de maior extensão, 1893) e no ano seguinte foi eleito membro da Academia Francesa; também foi diretor da Biblioteca do Arsenal, de Paris, e organizou uma edição crítica das obras do poeta André Chénier; Heredia é reconhecido como um dos poetas do Parnasianismo francês, embora com “produção pouco abundante, mas de boa qualidade”; além da já citada publicação de Les Tropheés, deixou-nos também sua obra esparsa em revistas literárias da época e contribuiu para a Revue de Deux Mondes, o Le Temps e o Journal des Débats; traduziu, do espanhol para o francês, A Verdadeira História da Conquista da Nova-Espanha — 3 volumes, do Capitão Bernal Diaz del Castillo (Véridique histoire de la conquête de la Nouvelle-Espagne — 3 volumes, 1877-1878).

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Marquesa de Alorna: Eu cantarei um dia da tristeza . . . [soneto]


____________________
Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.

Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os respeitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, fonte, montanha, flor, corrente,
comigo hão de chorar de amor enredos.

Mas, ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.

____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Marquesa de Alorna (1750 1839), portuguesa e lisboeta, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, ou Alcipe, de pseudônimo literário, pertenceu à nobreza e foi poetisa; devido a disputas familiares na corte, viveu parte de sua vida encarcerada no convento São Félix, em Chelas, com sua mãe, enquanto o pai esteve preso na Torre de Belém e no Forte de Junqueira; também esteve exilada e morou fora do país; presa em Chelas, estudou obras de Rousseau, Voltaire, Montesquieu, Pierre Bayle, conheceu a Enciclopédia D’Alembert e Diderot, e dedicou-se à poesia, as quais foram reunidas em suas obras completas, como Poesias de Chelas; conheceu outras línguas e também traduziu; suas obras: publicadas em vida, De Buonaparte e dos Bourbons, Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião, 2 tomos (1820), Elegia à morte de S. A. R. o príncipe do Brazil (1788), e, postumamente, Obras Poéticas de D. Leonor d’Almeida, 6 volumes (Tomos I, II, III, IV, V e VI), e outros textos; pouco conhecida no Brasil, a poeta Marquesa de Alorna é tida como o nome mais importante de autoria feminina em Portugal, onde também vicejaram Florbela Espanca (na primeira metade do século XX) e as “três Marias”, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno que “se uniram para escrever as Novas Cartas Portuguesas na década de 70 também do século XX.