Metendo uma ginga lá nele cobrinha entrou no "café bar e bilhares flor do estácio" O gerente ia berrar que não tinha mais cabide pra pendurar nem tusta de cigarro quando o cobra pediu
— Dá licença de eu ir na privada?
— Tem gente
gerente explicou e teve vai-não-vai pra dizer que a gente era desabrigo Mas viu que podia se dar mal na galhada e se agüentou
Desabrigo se enfiara mesmo no w.c. para evitar encrenca Bem que bastava pra aporrinhar bastante uma carta que ele recebera assim
Senhor oscar
Cordiais saudações
Eu já andava queimada com o senhor porque me disseram que o senhor tinha dito que eu trabalhava pro senhor Ah meu Deus como eu fui boba! pensava que o senhor gostava de mim e o senhor estava me fazendo de boba Agora não quero mais saber do senhor porque já sei quem o senhor é Mesmo o senhor anda sujando o seu nome apanhando navalhada na cara e eu que fique envergonhada meu Deus! Não ligava pro dinheiro que dava pro senhor mas assim é demais!
Lhe aviso que vou fazer a vida na casa da sara de novo e só se o senhor não tiver vergonha é que o senhor vai lá Mas eu bato com a porta na sua cara com toda a força e lhe dou um baile e vou dizer na polícia as suas sujeiras Pra mim não tem diferença fazer vida na rua ou na janela
Quando vivi com o senhor fazia na rua e lhe dava o dinheiro dos michês agora quero dar pra cafetina
Sem mais criada as ordens
Durvalina Pinto Lisboa
P.S. Desculpe a letra
Aquele "apanhando navalhada na cara" era de amargar Mas olhando pras paredes da latrina cheinhas de safadeza escrita e desenhada desabrigo tirou a forra lendo aqueles versos célebres
Neste lugar solitário
onde a vaidade se acaba
todo covarde faz força
todo valente se caga
Depois puxou a válvula pra atender o aviso da gerência e saiu mais aliviado
Glossário:
baile — zanga, estrilo, briga verbal;
cabide — crédito, conta aberta. Botar no cabide, pôr na conta;
cara — pessoa indeterminada. Estar com a cara e a coragem: estar desprovido de
tudo, sem ter perdido o ânimo;
galhada — o que deriva de um ato, conseqüência;
michê — cliente de prostituta. Provém do vetusto francês miché.
tusta — variante de tista, corruptela de tostão, moeda de cem réis;
w.c. — iniciais de water closet, pintadas nas portas de latrinas de boteco.
____________________
Desabrigo e Outros Trecos, Edições Relume Dumará, Rio de Janeiro - RJ, 1999, 4ª edição (Seleção, organização, prefácio e notas de Maria Célia Barbosa Reis da Silva; Antônio da Fraga Fernandes (1916 — 1993), carioca, teve sua novela Desabrigo publicada em 1ª edição em 1945 pela Editora Macunaíma (RJ) da qual o autor era sócio juntamente com o escritor Antônio Olinto e Ernande Soares. Teve uma 2ª edição realizada pela Edições Mundo Livre (1978) e ainda uma 3ª edição pela Biblioteca Carioca (1990), do Rio de Janeiro — RJ; Antônio Fraga também teve publicado o seu poema dramático Moinho (1957), além de alguns contos, crônicas e ensaios divulgados pela imprensa oficial e alternativa de sua época; como um dos formadores do grupo literário Malraux, ainda em 1945, juntamente com mais participantes do grupo — Antônio Olinto, Luciano Maurício, Hélio Justino, Ernande Soares, Aladyr Custódio, José Galdino e Levy Menezes — participa da realização da Primeira Exposição Pública de Poesia do Mundo, uma espécie de retrato poético-ideológico da Geração 45, conforme nos informa Maria Célia Barbosa em "Prefácio Marginal" de Desabrigo e Outros Trecos.
— Dá licença de eu ir na privada?
— Tem gente
gerente explicou e teve vai-não-vai pra dizer que a gente era desabrigo Mas viu que podia se dar mal na galhada e se agüentou
Desabrigo se enfiara mesmo no w.c. para evitar encrenca Bem que bastava pra aporrinhar bastante uma carta que ele recebera assim
Senhor oscar
Cordiais saudações
Eu já andava queimada com o senhor porque me disseram que o senhor tinha dito que eu trabalhava pro senhor Ah meu Deus como eu fui boba! pensava que o senhor gostava de mim e o senhor estava me fazendo de boba Agora não quero mais saber do senhor porque já sei quem o senhor é Mesmo o senhor anda sujando o seu nome apanhando navalhada na cara e eu que fique envergonhada meu Deus! Não ligava pro dinheiro que dava pro senhor mas assim é demais!
Lhe aviso que vou fazer a vida na casa da sara de novo e só se o senhor não tiver vergonha é que o senhor vai lá Mas eu bato com a porta na sua cara com toda a força e lhe dou um baile e vou dizer na polícia as suas sujeiras Pra mim não tem diferença fazer vida na rua ou na janela
Quando vivi com o senhor fazia na rua e lhe dava o dinheiro dos michês agora quero dar pra cafetina
Sem mais criada as ordens
Durvalina Pinto Lisboa
P.S. Desculpe a letra
Aquele "apanhando navalhada na cara" era de amargar Mas olhando pras paredes da latrina cheinhas de safadeza escrita e desenhada desabrigo tirou a forra lendo aqueles versos célebres
Neste lugar solitário
onde a vaidade se acaba
todo covarde faz força
todo valente se caga
Depois puxou a válvula pra atender o aviso da gerência e saiu mais aliviado
Glossário:
baile — zanga, estrilo, briga verbal;
cabide — crédito, conta aberta. Botar no cabide, pôr na conta;
cara — pessoa indeterminada. Estar com a cara e a coragem: estar desprovido de
tudo, sem ter perdido o ânimo;
galhada — o que deriva de um ato, conseqüência;
michê — cliente de prostituta. Provém do vetusto francês miché.
tusta — variante de tista, corruptela de tostão, moeda de cem réis;
w.c. — iniciais de water closet, pintadas nas portas de latrinas de boteco.
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Desabrigo e Outros Trecos, Edições Relume Dumará, Rio de Janeiro - RJ, 1999, 4ª edição (Seleção, organização, prefácio e notas de Maria Célia Barbosa Reis da Silva; Antônio da Fraga Fernandes (1916 — 1993), carioca, teve sua novela Desabrigo publicada em 1ª edição em 1945 pela Editora Macunaíma (RJ) da qual o autor era sócio juntamente com o escritor Antônio Olinto e Ernande Soares. Teve uma 2ª edição realizada pela Edições Mundo Livre (1978) e ainda uma 3ª edição pela Biblioteca Carioca (1990), do Rio de Janeiro — RJ; Antônio Fraga também teve publicado o seu poema dramático Moinho (1957), além de alguns contos, crônicas e ensaios divulgados pela imprensa oficial e alternativa de sua época; como um dos formadores do grupo literário Malraux, ainda em 1945, juntamente com mais participantes do grupo — Antônio Olinto, Luciano Maurício, Hélio Justino, Ernande Soares, Aladyr Custódio, José Galdino e Levy Menezes — participa da realização da Primeira Exposição Pública de Poesia do Mundo, uma espécie de retrato poético-ideológico da Geração 45, conforme nos informa Maria Célia Barbosa em "Prefácio Marginal" de Desabrigo e Outros Trecos.