quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Antonio Cicero: O que é poesia? — Entrevista


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          Pergunta: O que é poesia para você? 
          Antonio Cicero: A poesia é o que faz de um "poema" um poema; ou, o que dá no mesmo, é o que faz de um poema um poema bom. Também se pode dizer: é a propriedade do poema enquanto poema. É a propriedade que torna um objeto  em particular, um objeto verbal  algo que, mesmo sendo inútil, mereça existir. Se fosse possível descrever essa propriedade, seria possível dar uma receita de poema. Isso, porém, é impossível. Como diz Montaigne, é mais fácil produzir poesia do que conhecê-la. "Em certa medida baixa", afirma ele, "pode-se julgá-la pelos preceitos e pela arte [isto é, pela técnica]. Mas a boa, a excessiva, a divina está acima das regras e da razão". É que a razão é apenas uma das faculdades humanas; ora, a poesia é produzida e apreciada com todas as faculdades humanas, inclusive as não-racionais, elevadas ao seu mais alto grau.

          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          AC: Acho que há diferentes caminhos. Penso, porém, que o mais importante é, em primeiro lugar, aprender a ler e apreciar poesia. e isso se faz, em primeiro lugar, através da leitura intensiva dos grandes poemas da tradição. É através deles que se sabe o que é a poesia.


          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?        
          AC: Citarei Horácio, T.S. Eliot e Drummond. Digamos o poema 7 do Livro IV das Odes de Horário; o poema "East Coker", de Four Quartets, de T.S. Eliot; "Coração Numeroso", de Alguma Poesia, de Drummond. São três obras-primas. Admiro imensamente seus autores. Todos são mestres insuperáveis da forma, da sutileza, da malícia... Horácio, por exemplo, usa todos os recursos da língua, como, por exemplo, a liberdade da ordem das palavras, em latim, para multiplicar maravilhosamente os sentidos de cada verso, de cada palavra, de cada estrofe. Ele é intraduzível, de modo que aprendi a apreciá-lo tarde, quando estudei a sério o latim. Cito T.S. Eliot porque foi através dele que me imbuí, na adolescência, dos ritmos da poesia moderna. E não é necessário explicar a escolha de Drummond. Ele e Pessoa são, para mim, o máximo da poesia moderna em português, e tão grandes quanto qualquer outro poeta, de qualquer outra língua.


Resultado de imagem para antonio cícero poemas
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; No livro, Antonio Cicero e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Antonio Cicero, nascido em 1945 no Rio de Janeiro  RJ, além de poeta, é compositor, filósofo e escritor, e tem um blogue: www.antoniocicero.blogspot.com/

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Marcos de Farias Costa: Oficina do soneto


Roteiro da poesia brasileira - anos 80 | Amazon.com.br
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Pra cometer um soneto é preciso
dosar-se muito bem amor e morte,
e da mistura então glosar o mote,
assim como quem monta um paraíso.


Um soneto se faz com azar e sorte,
uns lances de loucura e de juízo 
um soneto se arma em pranto e riso,
e coração ao sul e a mente ao norte.

Mas fazê-lo perfeito, necessário
o tom mais pessoal, e o verbo vário,
senão resta somente artifício.


E eis que chego ao fim do impune vício,
ponho o verso final, branco no preto,
e pronto, terminei este soneto.


A quadratura do círculo (1991)

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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 80, Seleção e Prefácio de Ricardo Vieira Lima, Direção de Edla van Steen, 2010, Editora Global, São Paulo   SP; Marcos de Farias Costa, alagoano de Maceió, nascido em 1952, compositor, letrista, ensaísta e poeta, publicou, entre outros livros, O amador de sonhos (1982), Ócios do ofício (1984), A quadratura do círculo (1991), A comédia de Eros (1997) e Doce estilo novo —  antologia poética (2000).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ivo Barroso: Nova profissão de fé


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O poeta já não escreve.
Sua escrita
por mais breve
ele digita.

Hoje se arrima

na frase elétrica
muito mais prática:
Adeus à rima.
Adeus à métrica.
Adeus gramática.

Como declara
ser bom poeta
na tela clara,
jã não procura
a via reta
na selva escura.

E de atalaia

se põe à espreita
de uma palavra que lhe caia
na rede branca que ele deita.

Ronda noturna essa

caçada
que nunca cessa.
No fim da madrugada
ainda acessa.

Da tela branca

noite afora
por fim arranca
a sua aurora.

No fim cansado

de tanta busca
com dissabor
toca o teclado
de forma brusca.

Nada se salva

de seu labor
de poeta.
Pois nada salva
na tela alva
que ele deleta.

A caça virtual e outros poemas (2001)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 80, Seleção e Prefácio de Ricardo Vieira Lima, Direção de Edla van Steen, 2010, Editora Global, São Paulo  SP; Ivo Barroso, mineiro de Ervália, nascido em 1929, tradutor e poeta, já verteu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot, Ítalo Calvino, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como poeta, escreveu Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas  antologia (2001) e outros títulos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Barão de Itararé: Os Créves (Parrong ta Idarrarré)


Zubblemend to Alle...Manha

Parrong ta Idarrarré*

          Bra dudos lados gue a chende virra os orrêlhas, a chende oufe o baláfra CRÉVE Eng gada chornal te 4 dosdongs gue a chende lê, lá está o baláfra CRÉVE. Créve bra gá. créve bra lá, créve bra dudos bartes ta mundo! E borgausa te guê? Só borgausa gue as homengs gue deng a cofêrna ta mundo nos mongs ainda nong gombreentêrong gue dudos homengs estong ikwals berrande os leis. Leis te Teus e Leis ta homengs mesmos! Asing, bra menos, está esgrefido na babél lá tendro tos rebardisongs e tos pipliodékos, borgue aqui fóra, no brádika tiárrio to vida tas bofos, está muido tiferrende... E borguê eksisdeng tiferrensas, eksisdeng dampeng os créves!
          Os sosietades estong tivitidos eng tuas kruppos brinsibals:  uma begueninha gue deng muido, (deng indé temais); ôdra crande  o maiorria apsoluto  gue nong deng nada e nong cânha nada e bresiça drapalhá, drapalhá te fertade!
          A brimêra kruppo, estong as crandes intusdrials e nekosiandes, gabidalistas gue eksblórong, gue deng a tinhêrra nos mongs e as cofêrnas tos nasongs; a ôdra, estong as begueninhas, oberrários bóbres, estes song eksblorradas e cofernadas te gwalgué cheido.
          A brimêra é muido mais fórte borguê deng eksersidos, esgwadras e afiasong; a ôdra só deng as suas prassos e os seus mongs, gue ella bóde mofimendá ou imopilissá, e estas prassos e estes mongs deng ung forsa formitafel  gwando eng mofimendo, borguê brotúceng chênerros bra alimendasong, roubas bra fesdir a chende, galsados e ung borsong te ôdros goisas gue a chende bresiça bra vive; mas gwuando eles se imopilisong, numa mofimendo te créve cherral, o seu forsa está, endong, mais formitafel ainda! Bóde indé, terupá cofêrnas, mutar rechimengs, se ela está peng tirrichido.

*Idarrarré, a monumendaal eks-parrong, eks-tuke, eks-crong-tuke e hoche imberrator: esta sucheido sembre tominei os mulditongs, ou te cifils ou te milidarres. Elle fui a crande jeffe gue gommantei as soltades to uldimo refolusong e gue mantei simpora a zenhor Fais Indong Ludwig. Acora elle está tiesgansande bra tispois tominá odreveis as suas ekserites e os seus marrinhes te maar e te aar.
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Zubblemend to Alle... Manha Barão de Itararé, Introdução, Estabelecimento de Texto, Seleção e Notas de Carlos Eduardo Schmidt Capela e Ana Carina Baron Engerroff, Editora UFPR, 2006, Curitiba PR. (Ano XXI nº 38 Rio de Janeiro, 17/01/1946, p. 11; * Ano III nº 48 Rio de Janeiro, 27/11/1931, p. 7); Barão de Itararé e Fernando Apparicio Brinkerhoff Torelly (1895 1971), humorista, publicitário, escritor, frasista, jornalista, trocadilhista, editor... foram a mesma pessoa.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: Carta Aberta para Satélio (De um S-3 na berlinda)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 15  Junho e Julho de 1981)

          Satélio, tô com o BIP nº 78 nas mãos. E tô preocupado com o que deve vir por aí, pois na página quatro tem uma matéria que diz que "ser comissionado é uma boa opção".
          De cara, e meio no deboche, os ómis  que cuidam dos recursos humanos do banco começam se lamentando "que a legislação trabalhista atual (que é uma josta!) e as instruções internas do BB (a CIC Funci) não prevêem a obrigatoriedade de o funcionário aceitar a designação para o exercício de cargo comissionado".
          Tamanha ousadia a de nossos patrões! Se marcá bobeira é bem capaz deles querê anulá aquele artigo da CLT que diz que a jornada de trabalho de bancário é de seis horas por dia e nem um minuto a mais. A CIC Funci, por outro lado, é facinho deles alterá e eles já vêm alterando dia após dia.
          Mas, Satélio, esse assunto do BIP nº 78 não tá bem explicado pelos ómis. Acontece que os tais "incentivos" às comissões para os funcionários-ônus vêm condicionados a transferências para as longínquas cidades do norte-nordeste, como Ipu no Ceará ou Piracuruca no Piauí. É o que o BIP vem colocando toda quinzena na página três. A Direção Geral é uma madrasta de boa, ocê não acha?
          Ipuenses e piracuruquenses, a vocês eu me dirijo neste momento, e que fique claro que eu não tenho nada contra vocês. Muito pelo contrário... Fiquem sabendo que eu também sou do nortão, da terra dos raimundos e dos severinos. Só que eu vim pra cidade grande já faz tempo e acabei viciando. Tudo o que não presta vicia. Já tô até gostando dos viadutos; dos prédios e praças pintados de verde, que é pra disfarçá o cinzento da poluição; do barulhão do ronco dos carros que passam de lá pra cá e de cá pra lá. Já tô até me acostumando com o cheiro do Tamanduateí e do Tietê.
          Eu vim pra São Paulo numa época em que o nordeste tava ficando vazio. Era aquele mundão de gente que embarcava nos paus-de-arara, abismado que ficava com as notícias da cidade grande. E vinham pra trabalhá em tudo quanto é serviço, que ninguém tinha instrução alguma. De lá nós viemos só com o diploma do mobral. Foi aqui, e com muito custo, que terminamos o madureza do ginásio e do colégio. Se ocês pensam que foi fácil de chutá aquelas cruizinhas estão enganados. Num foi, mas nós passamos. E quem não passou hoje tá trabalhando na construção civil ou pegou o caminho da Dutra e foi pro Rio trabalhá no metrô. Uns pouquinhos fizeram faculdade e hoje são advogados. Não sei se estão bem, não... Eu fiz teste no Banco, passei e tô aqui até hoje defendendo os meus trocados. Já faz quase vinte anos. O emprego até que não tá ruim. Se não fosse esse absurdo do BIP...
          Satélio, agora é com você... Então ocê acha que eu, hoje que estou bastante sossegado, vou me afundá praqueles mundão  e morrê por lá? Uns vinte anos no meio de mandacaru, bode magro e jegue já foi muito pro meu gosto. Lá, vira-e-mexe os prefeitos andam decretando estado de calamidade pública. Quando não é porque tá com o chão esturricado de seco é porque choveu demais e enlameou tudo. Nunca tem medida. Quem ainda não foi que experimente. Eu não, que não tô bestando. Além do mais ocê acha que eu vô deixá de assisti de pertinho o meu curingão com o dotô de bola? Nem matando...
          Satélio, ipuenses e piracuruquenses, depois de quase vinte anos de Banco, eu quero é que sobre tempo pra mim descansá, pra mim assisti futebol e filme de pornografia. E pra que ocês não pensem que eu sou um machista e um alienadão, que num liga pra tal transformação da sociedade, aqui vai uma diquinha subversiva procêis: Se eu fosse Básico, eu arrumava um jeito de lutá e derrubá esse quadro de carreira que congela o salário de meio mundo. E a tal da isonomia salarial, cumé que fica?
          Sem mais, aqui deposito minhas
          Onerosas saudações.

                                              Um S-3 na berlinda.

PS: Como adido ninguém me manda, né!?

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Satélio, P. da Silva e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: 1981 (II)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 12  Março de 1981)

(...continuação do número anterior)
          Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!... B.B. Chimite foi rabiscando no papel de anotações, até ver preenchida a última linha. O olho mágico, por sua vez, continuava vomitando informações e mais informações.
          Falava sobre as frequentes invasões de tribos cearasianas que saqueavam vilas de regiões fronteiriças no território prazilandense. E, informando ser iminente a declaração de guerra à Cearásia, convocava todos os cidadãos ativos a se alistarem nas fileiras das Legiões do Povo, que já estavam entrando em regime de prontidão. Informava também que cearasianos muito bem treinados andavam se transferindo clandestinamente para Prazilândia e que tais incursões tinham o evidente propósito de arregimentar forças a se sublevarem contra o Grande Irmão. Por isso, a voz do olho mágico argumentava que a Patrulha do Pensamento encontrava rebeldes em todos os lugares e a qualquer hora do dia e da noite. E foi num lampejo que Chimite percebeu que já podia se considerar como um rebelde.
          Aquelas frases repetidas incansavelmente na folha de anotações eram a certeza de sua rebelião. Elas o denunciavam perante a Patrulha e perante si mesmo. E já não havia a possibilidade de qualquer negativa. O mal, raciocinou, já estava feito. Mais dia menos dia, mais hora menos hora, a Patrulha do Pensamento o interceptaria e aí seria o fim ou o começo de tudo. No entanto Chimite se sentia aliviado.
          Sabia que a Cearásia, já há alguns anos, vinha perdendo todas suas safras devido à seca que assolava aquela região. E, acossados pelo desespero da fome e da sede, os cearasianos invadiam os celeiros nas fronteiras de Prazilândia. Esta notícia Chimite só soubera por acaso. Ouvira em cochichos de encarregados de seu andar que militavam nas Legiões do Povo e que tinham acesso a essas informações. Do olho mágico ele só ouvia o que qualquer prazilandense mal informado já estava sabendo: que rebeldes cearasianos estavam invadindo e saqueando vilas de Prazilândia e que, consequentemente, a guerra entre cearasianos e prazilandenses ia ser decretada pelo Grande Irmão.
          Com mais um pouco de reflexão, Chimite percebeu que antes mesmo de ter rabiscado aquelas frases no papel já poderia ser classificado como rebelde ante a Patrulha do Pensamento. Muito antes até do dia em que casualmente ouvira os cochichos dos militantes das Legiões. Lembrava-se, embora de uma forma um tanto difusa, da última vez em que estivera com seus pais.
          Chimite devia ter seus sete anos quando muito. Recordava de uma confusão nas ruas, dois corpos sendo arrastados à força e uma voz seca que dizia, a alguém seu acompanhante, algo parecido como ser necessário instruir à criança que seus pais haviam morrido honrosamente lutando nas Legiões quando em combate contra forças inimigas. Mas ele não se lembrava bem do rosto da voz que falava aquilo nem a quais inimigos a voz se referia.
          Também não dava para afirmar se aquela criança do passado era ele próprio. Às vezes recordava-se de outras passagens, também difusas, e ouvia vozes que julgava serem de seus pais. Eram marcadas pelo ódio às Legiões do Povo e ao antecessor do Grande Irmão. Era isso o que conseguia captar do seu passado, mas era o suficiente. Chimite começou a sentir que já não acreditava cegamente no Grande Irmão. Só então ele percebeu o passo que havia dado.
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: 1981 (I)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 11  Fevereiro de 1981) 

          Faltavam mais de dois anos para o sinistro 1984. Era um dia frio e ensolarado do mês de agosto  e os relógios estavam prestes a bater treze horas. B.B. Chimite, o queixo fincado no peito, numa tentativa de fugir ao vento impiedoso e sem estampar nenhum prazer no rosto, esgueirou-se rápido pelas enormes portas do Edifício São João; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero. O saguão cheirava à poluição e no capacho um tanto gasto via-se o emblema da empresa.
          Algumas colunas pareciam sustentar o teto; numa delas, um cartaz colorido, grande demais, mostrava uma cara descomunal de feições rústicas mas atraentes. Era a foto do Grande Irmão, o fundador Número Um da empresa. Mais à frente, noutra coluna, outro cartaz um pouco menor mas também colorido fazia a propaganda e convocava os funcionários e sócios da firma a adquirirem o carnê CBF, nova invenção dos governadores de Prazilândia. Chimite encaminhou-se diretamente para a escada em forma de caracol.
          Inútil esperar o elevador. Dos três existentes, há tempos que somente um funcionava; os outros estavam sempre à espera de conserto. E isso provocava extensas filas, principalmente àquela hora. À boca pequena comentava-se que a empresa estava implantando a nova política de contenção de custos operacionais imposta pelo Grande Irmão que, por sua vez, tinha íntimas ligações com os governadores da "Cidade dos Prazeres". B.B. Chimite foi galgando os degraus.
          Um, dois, três andares... Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Parecia segui-lo por toda parte. O Grande Irmão zela por ti, dizia uma legenda logo abaixo. Mais alguns andares e ele alcançou a sua seção.
          Dirigiu-se à chapeira, bateu o seu cartão e, cumprimentando os encarregados com um gesto de cabeça acompanhado de um pequeno grunhido, caminhou decidido até sua bancada  onde o esperava na troca do turno outro funcionário com o que sobrara da cota da manhã: algumas relações de computador, fichas e mais fichas e alguns carimbos. Era a tarefa a ser cumprida naquele dia. Lá fora, através do vidro fumê, o mundo parecia mais cinzento ainda.
          Saindo à janela, se percebia a Patrulha da Polícia transitando entre o povo, sempre à espreita, sempre à procura de algum contra-revolucionário que se denunciasse por suas atitudes. E apesar da vigilância e das constantes detenções para averiguações de atividades suspeitas, jamais se conseguia exterminar os rebeldes. Eles brotavam da terra e também pareciam estar em toda parte. Todo humano era suspeito em potencial até prova em contrário. Dentro da empresa, a vigilância era exercida pela Patrulha da Inspetoria, que podia aparecer a qualquer momento, em qualquer seção e fazer perguntas a qualquer funcionário ou sócio. Mas Chimite não ligava muito para a Patrulha da Polícia nem para a Patrulha da Inspetoria.
          Terrível mesmo era a Patrulha do Pensamento que vasculhava a todo instante não as ações mas as idéias dos homens. Nas paredes da seção, nos corredores, nos banheiros, nas residências, nos bares, nos postes das ruas mal iluminadas, enfim em toda parte, lá estavam os olhos mágicos da temida patrulha perscrutando a mente de cada indivíduo, sempre em contato direto com o Ministério da Liberdade. Era preciso estar atento, pois ninguém sabia quando os olhos mágicos estavam ligados. E tanto serviam de visor e escuta como para transmitir ordens e instruções de novas invenções adotadas pelo Grande Irmão e pelos governadores. Serviam também para projetar, em telas previamente dispostas nos edifícios e nas ruas, filmes e slides que contavam as vitórias de Prazilândia contra os ataques dos inimigos metalúrgicos e de outros inimigos. B.B.Chimite, sentado em sua banqueta, entregava-se à monotonia do serviço.
          Ao mesmo tempo em que se ocupava com a conferência das fichas que pareciam não ter mais fim ouvia as novas estatísticas transmitidas pelo olho mágico bem à sua frente. Diziam  respeito aos índices de reajuste salarial, negociados pelo Grande Irmão com os seus funcionários, a entrar em vigor a partir do mês de setembro. Justificavam os índices pela baixa margem de lucro da firma no ano anterior, como também pela política de contenção de despesas impostas recentemente pelos governadores de Prazilândia. A expressão facial de B.B.Chimite não denuncia o que se passa em sua mente naquele momento.
          Mas, sem se dar conta do risco que corria, ele viu-se de repente rabiscando repetidas vezes numa folha de anotações em cima da bancada: Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!
(...continua no próximo número)
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Vladimir Safatle: Sobre terceirizações...

Reproduzo texto de Vladimir Safatle, pensador do Departamento de Filosofia da USP (Folha de São Paulo, 21.02.2012):
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Escravos da modernidade
          Na semana passada, a imprensa veiculou a notícia de que uma construtora servia-se de trabalho escravo.
          A obra não era uma hidrelétrica na região Norte ou em algum lugar de difícil acesso, onde sempre é mais complicado descobrir o que se passa. Na verdade, a obra encontrava-se quase na esquina com a avenida Paulista.
          Trata-se da reforma de um dos mais conhecidos hospitais da capital paulista, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ironicamente, a empresa responsável pela obra chama-se "Racional" Engenharia.
          Como não podia deixar de ser, a empresa afirmou que os trabalhadores respondiam a uma empresa terceirizada e que os dirigentes desconheciam realidade tão irracional. Este foi o mesmo argumento que a rede espanhola de roupas Zara utilizou quando foi flagrada servindo-se de mão de obra escrava boliviana empregada em oficinas terceirizadas no Bom Retiro.
          É muito interessante como empresas que gastam fortunas em publicidade e propaganda institucional são tão pouco cuidadosas no que diz respeito às condições aviltantes de trabalho das quais se beneficiam por meio do truque tosco da terceirização. Quando se contrata uma empresa terceirizada, não é, de fato, complicado averiguar as reais condições a que trabalhadores estão submetidos, se seus turnos são respeitados e se seus alojamentos são decentes.
          Há de se perguntar se tal desenvoltura não é resultado da crença de que ninguém nunca perceberá o curto-circuito entre imagens institucionais modernas, requintadas, "racionais", e sistemas medievais de exploração.
          No fundo, essa parece ser mais uma faceta de um velho automatismo brasileiro de repetição: discursos cada vez mais elaborados e modernos, práticas cada vez mais arcaicas. Afinal, tal precariedade foi feita em nome de novas práticas trabalhistas, mais flexíveis e adaptadas aos tempos redentores que, enfim, chegaram.
          Não mais a rigidez do emprego e do controle dos sindicatos, mas a leveza do paraíso da terceirização, onde todos serão, em um horizonte próximo, empresas. Cada trabalhador, um empresário de si mesmo.
          Que essa flexibilidade tenha aberto as portas para uma vulnerabilidade que remete trabalhadores à pura e simples escravidão, isto não retiraria em nada o brilho da ideia. Pois apenas os que temem o risco e a inovação poderiam querer ainda as velhas práticas trabalhistas. Pena que o novo tenha uma cara tão velha.
          Pena também que, como os gregos mostrem a cada dia, quem paga o verdadeiro preço do risco sejam, como dizia o velho Marx, os que já perderam tudo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vitor Knijnik: Blog do Marco Polo

Reproduzo de Carta Capital (n.683, de 08.02.2012) texto de Vitor Knijnik: 
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Sobre Mim
Mercador, embaixador, explorador e escritor.
E dizer que comecei por baixo, trabalhando
numa confecção, costurando jacarés em camisas.
Daí a alcunha Marco Polo.
Sobre o Blog
O Mark sugeriu que eu transformasse este espaço
numa Timeline. Mas preferi ficar no modelo antigo.
Esta é a minha afã page.
Arquivo do Blog
2012 (1)
     Fevereiro (1)
          FACEBOOKISTÃO, UM
          LUGAR PARA CURTIR
Outros Blogs do Além

FACEBOOKISTÃO, UM LUGAR PARA CURTIR
          Visitei terras e culturas diferentes. Percorri boa parte do Oriente Médio e da Ásia. Travei contato com diversos povos. Fui um dos primeiros ocidentais a percorrer a Rota da Seda, em busca de um tecido que, ao ser rasgado, se transformasse em elogio. Sou cartão platinum em quase todas as companhias. Por isso, posso dizer de cadeira: não há lugar no mundo como o Facebookistão.
          Esse país, de paisagem branca e azul, congrega mais de 800 milhões de pessoas. Um em cada 13 habitantes do planeta vive lá. Dentro de suas fronteiras falam-se algo em torno de 70 idiomas. Não incluindo aí o novo léxico pictórico, tipo \o/ , :) , :( etc.
          A população é essencialmente linda, bem-sucedida, de gosto refinado, preocupada com a justiça social, o meio ambiente e os animais. É um povo muito receptivo. Cada pessoa tem por volta de 130 amigos. A maioria só convive mesmo com uns 4 desses 130. Mesmo assim estão sempre abertos a novas solicitações, não sem antes olhar o álbum de fotos do pretendente, é claro.
          O ambiente é democrático, apesar de ser uma monarquia absoluta. O monarca, de apenas 28 anos, pode não só fazer as leis, como também excluir qualquer pessoa que estiver, inclusive, andando na linha. Em breve, o rei, como muitos outros governantes, venderá a nação para o mercado financeiro através de um IPO.
          Nesse estranho país, protesta-se contra reacionários, insensíveis, fofoqueiros, sertanejos, funkeiros, homofóbicos, racistas, corruptos, fúteis, ditadores, mal-educados. O efeito dessas vozes dentro do território é inócuo, uma vez que ninguém lá possui tais defeitos. É muito comum no Facebookistão as pessoas protestarem também contra a falta de privacidade de seus dados. Poucos têm paciência de ler atentamente as cláusulas que regem o uso das informações fornecidas. Estes preferem usar o tempo para relatar publicamente como anda sua digestão ou expor as fotos da operação de fimose.
          A principal atividade é a postagem. Todo dia, a população publica mais de 250 milhões de fotos. A cada 20 minutos, 10 milhões de comentários são escritos, 2 milhões de perfis são atualizados e 1 milhão de links são compartilhados. Que trabalho terão os cientistas sociais do futuro.
          A moeda de troca é o like. Trocam-se likes por mais likes. O que no fim das contas não faz a economia produzir valor. A não ser para o monarca, que, com esse intenso tráfego de gentilezas, vende com mais facilidade os espaços publicitários aos anunciantes.
          Quando conto essas coisas, as pessoas pensam que estou inventando ou que fiquei louco, acham que é mais uma viagem de Marco Polo.
          Enfim, se você se interessou em visitar, saiba que, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, entrar para essa comunidade especial é simples. Basta apresentar seu nome, um e-mail e a data de nascimento. Esses dados nem precisam ser verdadeiros. Entrar é facílimo, difícil mesmo é sair.
Postado por Marco Polo às 8:45                                                               O comentários

Carlos Drummond de Andrade: Questão de idade

     — PERDÃO,CAVALHEIRO. O senhor não pode.
     — Não posso por quê? Tá aqui a entrada que eu comprei.
     — O filme é proibido para 75 anos, não viu na bilheteria?
     — Vi. Eu tenho 76.
     — Então me mostre a carteira de identidade, por gentileza.
     — A carteira de identidade está na minha cara.
     — Ah, é? Parece ter 55, 60 no mais tardar. Infelizmente não pode.
     — Este bom aspecto que o senhor achou em mim — aliás, eu lhe agradeço, viu? — é porque eu me cuido: ioga, meditação transcendental, Cooper, macrobiótica.
     — Tá bom, mas sem documento não insista.
     — Espere aí, me deixe argumentar.
     O gerente aproxima-se:
     — Quê que há?
     — É este jovem aí que quer entrar e não tem idade suficiente.
     — Jovem? O senhor me chamou de jovem? Agora está debochando de mim?
     — Não senhor. Se o cara não tem condição de ver o filme, eu chamo ele de jovem.
     — Cara! O chefe de seção aposentado de uma das mais importantes repartições federais, ser tratado de cara!
     — Meu amigo, calma. O rapaz está cumprindo com o dever. São ordens superiores. Compreenda a nossa posição. A freqüência está baixando devido às últimas disposições sobre idade-limite. Já pensamos mesmo em transformar este estabelecimento em edifício-garagem.
     — E eu com isso?
     — Se o senhor entra, vem o fiscal e fecha o cinema por infração.
     — Melhor até. Facilita a mudança de ramo.
     — Não brinque com essas coisas. Colabore conosco. Inclusive a fila está aumentando, e o senhor bloqueou a entrada.
     — Se a fila aumenta, como é que diminui a freqüência?
     — Este filme é dos raros, entende? Que ainda lotam a casa. Claro: proibido até 75 anos.
     — Por isso mesmo é que eu quero ver.
     — Mas se não atingiu a idade, se ainda não conquistou esse direito, como é que eu posso permitir essa... como direi, essa inconstitucionalidade? Seja razoável.
     — Seja razoável também. Sou uma pessoa respeitável, está para nascer quem tenha me visto mentir uma vez na vida. Completei 76 anos em 15 de fevereiro, sou um home de Aquário, e Aquário não é de embromar ninguém.
     — Acredito, mas e a carteira?
     — A carteira estava no carro, o carro saiu com meu neto, sei lá onde ele anda a esta hora.
     A fila começa a impacientar-se. Pigarros. Tosses. Irritação sonora.
     — Entra ou sai logo!
     — Por que não deixam ele entrar? Será que veio nova portaria, proibindo até 80?
     — Aquele ali? Coitado, já passou da idade de freqüentar cinema.
     — Só a gente criando uma associação de freqüentadores de cinema, para garantir nossos direitos.
     — Garantir como? E quem garante a associação?
     — Esse velho está enchendo.
     — O gerente também.
     — Velho por quê? Quem é velho aqui? Eu não me considero velho. Velhice é estado de espírito.
     — Acaba com isso! Decide logo!
     O gerente nervoso:
     — Viu o que o senhor me arranjou? Essa turma de 75, quando se chateia, é capaz de arrebentar o cinema. E eu não tenho nada com o peixe, eu cumpro determinações do alto, eu nem sequer posso entrar na sala de projeção, ainda não fiz 40! Nem eu nem o porteiro... Os vaga-lumes, um tem 77 e o outro 78 anos, por causa da proibição, o senhor sabia? Pelo amor de Deus, suma da minha presença!
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DRUMMOND  De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica, Livraria José Olympio Editora, 1974, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987),  poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos oferece como legado incontáveis obras em verso e prosa: Alguma Poesia; Brejo das Almas; Sentimento do Mundo; José; A Rosa do Povo; Novos Poemas; Claro Enigma; Fazendeiro do Ar; A vida Passada a Limpo; Lição de Coisas; A Falta que Ama; As Impurezas do Branco; Boitempo; Menino Antigo (Boitempo II); Versiprosa; Viola de Bolso; Discurso de Primavera, e algumas sombras; Contos de Aprendiz; Confissões de Minas; Passeios na Ilha; Fala, Amendoeira; A Bolsa e a Vida; Cadeira de Balanço; Caminhos de João Brandão; O Poder Ultrajovem; De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica; ...