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[traduzido por Cláudia
Cavalcanti]
Montanhas: negror, neblina e
neve.
Vermelha, a caça desce a
floresta;
Oh, os olhares de musgo da
presa.
Silêncio da mãe; sob pinheiros
negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a
fria lua.
Oh, o nascimento do Homem.
Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em
suspiros sua imagem,
E pálido corpo desperta em
câmara úmida.
Duas luas
Iluminam os olhos da anciã
pétrea.
Dor, grito que dá à luz. Com
asa negra
A noite toca a têmpora do
menino,
Neve que desce de nuvem
purpúrea.
(1913)
Geburt
Gebirge: Schwärze, Schweigen
und Schnee.
Rot vom Wald niedersteigt die
Jagd;
O, die moosigen Blicke des
Wilds.
Stille der Mutter; unter
schwarzen Tannen
Öffnen sich die schlafenden
Hände,
Wenn verfallen der kalte Mond
erscheint.
O, die Geburt des Menschen. Nächtlich
rauscht
Blaues Wasser im Felsengrund;
Seufzend erblickt sein Bild
der gefallene Engel,
Erwacht ein Bleiches im
dumpfer Stube.
Zwei Monde
Erglänzen die Augen der
steinernen Greisin.
Weh, der Gebärenden Schrei.
Mit schwarzem Flügel
Rührt die Knabenschläfe die
Nacht,
Schnee, der leise aus
purpurner Wolke sinkt.
(1913)
* Nota do blogue Verso e
Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo
o relato da tradutora Cláudia Cavalcanti, no Posfácio — Emergir das Profundezas de G. T.: Uma tentativa,
deste De Profundis e outros poemas:
‘É também em Nascimento que o azul ganha a tonalidade mais frequente na obra trakliana. Se nos seus primeiros versos notava-se ainda alguma claridade naquela cor, com o passar dos anos o poeta imprime-lhe mais e mais gotas de cor preta. Assim, a noturna água azul no fundo da rocha só pode ser mesmo negra aos olhos do leitor. No círculo cromático do poeta, nada mais compreensível:
“O azul é a mais profunda das cores: nele o olhar mergulha sem encontrar qualquer obstáculo, perdendo-se até o infinito, como diante de uma perpétua fuga da cor. O azul é a mais imaterial das cores: a natureza o apresenta geralmente feito apenas de transparência, isto é, de vazio acumulado, vazio de ar, vazio de água, vazio do cristal ou do diamante. O vazio é exato, puro e frio. O azul é a mais fria das cores e, em seu valor absoluto, a mais pura (...)”. [Chevalier, J. / Gheerbrant. A., Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, 1992, pág. 107].
A profundidade do azul de Trakl sugere escuridão.’
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue,
Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, e Apresentação de Nelson Ascher, 1994, Editora Iluminuras,
São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 — 1914), austríaco de Salzburgo (antigo
Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra,
voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl
publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos
em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus
primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião
no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta
nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em
grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem
se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa;
Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.