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terça-feira, 17 de março de 2026

Georg Trakl: Nascimento *

 
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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

Montanhas: negror, neblina e neve.
Vermelha, a caça desce a floresta;
Oh, os olhares de musgo da presa.

Silêncio da mãe; sob pinheiros negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a fria lua.

Oh, o nascimento do Homem. Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em suspiros sua imagem,

E pálido corpo desperta em câmara úmida.
Duas luas
Iluminam os olhos da anciã pétrea.

Dor, grito que dá à luz. Com asa negra
A noite toca a têmpora do menino,
Neve que desce de nuvem purpúrea.

(1913)

Georg Trakl

Geburt

Gebirge: Schwärze, Schweigen und Schnee.
Rot vom Wald niedersteigt die Jagd;
O, die moosigen Blicke des Wilds.

Stille der Mutter; unter schwarzen Tannen
Öffnen sich die schlafenden Hände,
Wenn verfallen der kalte Mond erscheint.

O, die Geburt des Menschen. Nächtlich rauscht
Blaues Wasser im Felsengrund;
Seufzend erblickt sein Bild der gefallene Engel,

Erwacht ein Bleiches im dumpfer Stube.
Zwei Monde
Erglänzen die Augen der steinernen Greisin.

Weh, der Gebärenden Schrei. Mit schwarzem Flügel
Rührt die Knabenschläfe die Nacht,
Schnee, der leise aus purpurner Wolke sinkt.

(1913)

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo o relato da tradutora Cláudia Cavalcanti, no Posfácio Emergir das Profundezas de G. T.: Uma tentativa, deste De Profundis e outros poemas:
     ‘É também em Nascimento que o azul ganha a tonalidade mais frequente na obra trakliana. Se nos seus primeiros versos notava-se ainda alguma claridade naquela cor, com o passar dos anos o poeta imprime-lhe mais e mais gotas de cor preta. Assim, a noturna água azul no fundo da rocha só pode ser mesmo negra aos olhos do leitor. No círculo cromático do poeta, nada mais compreensível:
     “O azul é a mais profunda das cores: nele o olhar mergulha sem encontrar qualquer obstáculo, perdendo-se até o infinito, como diante de uma perpétua fuga da cor. O azul é a mais imaterial das cores: a natureza o apresenta geralmente feito apenas de transparência, isto é, de vazio acumulado, vazio de ar, vazio de água, vazio do cristal ou do diamante. O vazio é exato, puro e frio. O azul é a mais fria das cores e, em seu valor absoluto, a mais pura (...)”. [Chevalier, J. / Gheerbrant. A., Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, 1992, pág. 107].
     A profundidade do azul de Trakl sugere escuridão.’
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, e Apresentação de Nelson Ascher, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Georg Trakl: Transfiguração

 
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[traduzido por João Accioli]

Quando cai a tarde,
vem de ti um meigo rosto azul.
Um passarinho canta no tamarindeiro.

Tranquilo monge
cruza as mãos mortas,
um branco anjo aparece a Maria.

Uma noturna coroa
de violetas, trigo e purpurinas uvas
é o ano do Contemplativo.

Ante teus pés
abrem-se as covas dos mortos
quando depões a fronte entre as mãos de prata.

Silente mora
em tua boca a lua outonal,
bêbeda da música misteriosa da papoula.

Flor azul,
vago som de pedras antigas.

Georg Trakl

Verklärung

Wenn es Abend wird,
Verlässt dich leise ein blaues Antlitz.
Ein kleiner Vogel singt im Tamarindenbaum.

Ein sanfter Mönch
Faltet die erstorbenen Hände.
Ein weisser Engel sucht Marien heim.

Ein nächtiger Kranz
Von Veilchen, Korn und purpurnen Trauben
Ist das Jahr des Schauenden.

Zu deinen Füssen
Öffnen sich die Gräber der Toten,
Wenn du die Stirne in die silbernen Hände legst.

Stille wohnt
An deinem Mund der herbstliche Mond,
Trunken von Mohnsaft dunkler Gesang;

Blaue Blume,
Die leise tönt in vergilbtem Gestein.
____________________
O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

domingo, 21 de setembro de 2025

Georg Trakl: Grodek *


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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

À tarde soam as florestas outonais
De armas mortíferas, as planícies douradas
E lagos azuis, por cima o sol
Mais sombrio rola; a noite envolve
Guerreiros em agonia, o lamento selvagem
De suas bocas dilaceradas.
Mas silenciosas reúnem-se no fundo dos prados
Nuvens vermelhas, onde habita um deus irado,
O sangue vertido, frieza lunar;
Todos os caminhos desembocam em negra putrefação.
Sob ramos dourados da noite e das estrelas
Oscila a sombra da irmã pelo mudo bosque.
Para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças que sangram;
E baixinho soam nos juncos as flautas escuras do outono.
Oh, tão orgulhoso luto! Altares de bronze!
Hoje uma dor violenta alimenta a chama ardente do espirito:
Os netos que ainda não nasceram.

(1914)

Georg Trakl

Grodek

Am Abend tönen die herbstlichen Wälder
Von tödlichen Waffen, die goldnen Ebenen
Und blauen Seen, darüber die Sonne
Düstrer hinrollt; umfängt die Nacht
Sterbende Krieger, die wilde Klage
Ihrer zerbrochenen Münder.
Doch stille sammelt im Weidengrund
Rotes Gewölk, darin ein zürnender Gott wohnt,
Das vergoßne Blut sich, mondne Kühle;
Alle Straßen münden in schwarze Verwesung.
Unter goldnem Gezweig der Nacht und Sternen
Es schwankt der Schwester Schatten durch den schweigenden Hain,
Zu grüßen die Geister der Helden, die blutenden Häupter;
Und leise tönen im Rohr die dunklen Flöten des Herbstes.
O stolzere Trauer! ihr ehernen Altäre,
Die heiße Flamme des Geistes nährt heute ein gewaltiger Schmerz,
Die ungebornen Enkel.

(1914)

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo o relato da tradutora Cláudia Cavalcanti, no Posfácio — Emergir das Profundezas de G. T.: Uma tentativa, deste De Profundis e outros poemas:
     “Era o começo do fim. Trakl havia sido transferido para um hospital militar em Cracóvia, Polônia, depois da terrível batalha de Grodek. Ali, vira-se forçado a cuidar de pessoas que lhe imploravam a morte, tomadas pelas dores físicas imputadas pela guerra (a noite envolve / Guerreiros em agonia; o lamento selvagem / De suas bocas dilaceradas — em Grodek). Era setembro de 1914.
     [ . . . ]
     Na retirada de Grodek o poeta já tentara o suicídio, motivo pelo qual foi minuciosamente revistado ao chegar em Cracóvia, onde deveria ficar em observação. Não se sabe como conseguiu a superdose de cocaína que o levou à segunda tentativa e à morte subsequente, em 3 de novembro de 1914. Georg Trakl tinha 27 anos.”
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, e Apresentação de Nelson Ascher, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Georg Trakl *: À Noite


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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

O azul de meus olhos apagou-se nesta noite.
O ouro vermelho de meu coração. Ah, tão queria ardia a luz!
Teu manto azul envolveu o desfalecente;
Tua boca vermelha confirmou a loucura do amigo.

(1913)

Georg Trakl

Nachts

Die Bläue meiner Augen ist erloschen in dieser Nacht,
Das rote Gold meines Herzens. O! wie stille brannte das Licht.
Dein blauer Mantel umfing den Sinkenden;
Dein roter Mund besiegelte des Freundes Umnachtung.

(1913)

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo o relato da tradutora Cláudia Cavalcanti, no Posfácio Emergir das Profundezas de G. T.: Uma tentativa, deste De Profundis e outros poemas:
     “Com apenas um livro de poemas e publicações esparsas em alguns periódicos, Trakl, quando morreu, ainda não poderia ser considerado o maior poeta de sua geração, até porque os seus contemporâneos expressionistas ainda estariam presentes por algum tempo, antes que, em meados dos anos 20, aquele movimento literário começasse a dar os seus primeiros sinais de cansaço.
     Mesmo desconhecido, pouco antes da eclosão da guerra o poeta austríaco chegou a receber a doação de vinte mil coroas, que lhe possibilitariam uma vida sem preocupações financeiras pelos anos seguintes. Sobre os seus poemas, disse o mecenas: Não os entendo; mas seu tom me satisfaz. Trata-se do tom de um verdadeiro gênio”. Era [o filósofo] Ludwig Wittgenstein [1889 — 1951], que atendeu ao apelo do poeta mas chegou em Cracóvia três dias depois do enterro dele.
     O dinheiro oferecido por Wittgenstein (a mesma quantia também fora concedida a Rainer Maria Rilke) poderia tirá-lo do embaraço, frequente àquela época, de empréstimos que fazia a amigos.’
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Georg Trakl: Canções do rosário

 
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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

À irmã

Para onde vais será outono e tarde,
Veado azul que sob árvores soa,
Solitário lago na tarde.

Baixo o vôo dos pássaros soa,
Sobre teus olhos a melancolia dos arcos,
Teu leve sorriso soa.

Das tuas pálpebras Deus fez arcos.
Estrelas procuram à noite, filha de sexta-feira santa,
Na tua fronte, os arcos.

Proximidade da morte
2ª versão

Oh, a tarde, que vai às sombrias aldeias da infância.
O lago sob os salgueiros
Enche-se de suspiros empestados de melancolia.

Oh, a floresta, que baixa discreta os olhos castanhos,
Quando das mãos magras do solitário
Cai a púrpura de seus dias extasiados.

Oh, a proximidade da morte. Oremos.
Nesta noite em travesseiros momos
E amarelados de incenso soltam-se os membros frágeis dos amantes

Amém

Decomposição deslizando pelo quarto podre;
Sombras no papel de parede amarelo; em escuros espelhos se
Curva a tristeza ebúrnea de nossas mãos.
Pérolas marrons correm pelos dedos falecidos.
No silêncio
Abrem-se azuis os olhos-papoula de um anjo.

Azul é também a tarde;
O momento de nossa morte, a sombra de Azrael,
Que escurece um jardinzinho marrom.

(1912/13)

Georg Trakl

Rozenkranzlieder

An die schwester

Wo du gehst wird Herbst und Abend,
Blaues Wild, das unter Bäumen tönt,
Einsamer Weiher am Abend.

Leise der Flug der Vögel tönt,
Die Schwermut über deinen Augenbogen.
Dein schmales Lächeln tönt.

Gott hat deine Lider verbogen.
Sterne suchen nachts, Karfreitagskind,
Deinen Stirnenbogen.

Nähe des todes
2. Fassung

O der Abend, der in die finsteren Dörfer der Kindheit geht.
Der Weiher unter den Weiden
Füllt sich mit den verpesteten Seufzern der Schwermut.

O der Wald, der leise die braunen Augen senkt,
Da aus des Einsamen knöchernen Händen
Der Purpur seiner verzückten Tage hinsinkt.

O die Nähe des Todes. Laß uns beten.
In dieser Nacht lösen auf lauen Kissen
Vergilbt von Weihrauch sich der Liebenden schmächtige Glieder.

Amen

Verwestes gleitend durch die morsche Stube;
Schatten an gelben Tapeten; in dunklen Spiegeln wölbt
Sich unserer Hände elfenbeinerne Traurigkeit.
Braune Perlen rinnen durch die erstorbenen Finger.
In der Stille
Tun sich eines Engels blaue Mohnaugen auf.

Blau ist auch der Abend;
Die Stunde unseres Absterbens, Azraels Schatten,
Der ein braunes Gärtchen verdunkelt.

(1912/13)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

sábado, 23 de novembro de 2024

Georg Trakl *: O Sono

 
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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

2ª versão

Malditos sejam, venenos escuros,
Sono branco!
Esse jardim tão estranho
De árvores crepusculares
Repleto de serpentes, falenas,
Aranhas, morcegos.
Forasteiro! Tua sombra perdida
No rubor da tarde,
Um corsário trevoso
No mar salgado da aflição.
Batem asas pássaros brancos na orla noturna
Sobre desmoronantes cidades
De aço.

(1914)

Georg Trakl

Der Schlaf

2. Fassung

Verflucht ihr dunklen Gifte,
Weißer Schlaf!
Dieser höchst seltsame Garten
Dämmernder Bäume
Erfüllt von Schlangen, Nachtfaltern,
Spinnen, Fledermäusen.
Fremdling! Dein verlorner Schatten
Im Abendrot,
Ein finsterer Korsar
Im salzigen Meer der Trübsal.
Aufflattern weiße Vögel am Nachtsaum
Über stürzenden Städten
Von Stahl.

(1914)

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve abaixo o relato da tradutora Cláudia Cavalcanti, no Posfácio Emergir das Profundezas de G. T.: Uma tentativa, deste De Profundis e outros poemas:
     “Com apenas um livro de poemas e publicações esparsas em alguns periódicos, Trakl, quando morreu, ainda não poderia ser considerado o maior poeta de sua geração, até porque os seus contemporâneos expressionistas ainda estariam presentes por algum tempo, antes que, em meados dos anos 20, aquele movimento literário começasse a dar os seus primeiros sinais de cansaço.
     Mesmo desconhecido, pouco antes da eclosão da guerra o poeta austríaco chegou a receber a doação de vinte mil coroas, que lhe possibilitariam uma vida sem preocupações financeiras pelos anos seguintes. Sobre os seus poemas, disse o mecenas: Não os entendo; mas seu tom me satisfaz. Trata-se do tom de um verdadeiro gênio”. Era [o filósofo] Ludwig Wittgenstein [1889 — 1951], que atendeu ao apelo do poeta mas chegou em Cracóvia três dias depois do enterro dele.
     O dinheiro oferecido por Wittgenstein (a mesma quantia também fora concedida a Rainer Maria Rilke) poderia tirá-lo do embaraço, frequente àquela época, de empréstimos que fazia a amigos.’
____________________
De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro  de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Georg Trakl: Humanidade


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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

Humanidade posta ante abismos de chama,
Um rufo de tambores, frontes de guerreiros tenebrosos,
Passos pela névoa de sangue; negro ferro exclama;
Desespero, noite em cérebros pesarosos:
Aqui a sombra de Eva, caça e rubra dinheirama.
Nuvens que a luz atravessa, vespertina refeição.
Em pão e vinho deve um doce silêncio residir.
E aqueles lá reunidos, doze são.
À noite sob ramos de oliveira gritam ao dormir;
São Tomé mergulha na ferida a mão.

(1912)

Georg Trakl

Menschheit

Menschheit vor Feuerschlünden aufgestellt,
Ein Trommelwirbel, dunkler Krieger Stirnen,
Schritte durch Blutnebel; schwarzes Eisen schellt,
Verzweiflung, Nacht in traurigen Gehirnen:
Hier Evas Schatten, Jagd und rotes Geld.
Gewölk, das Licht durchbricht, das Abendmahl.
Es wohnt in Brot und Wein ein sanftes Schweigen,
Und jene sind versammelt zwölf an Zahl.
Nachts schrein im Schlaf sie unter Ölbaumzweigen;
Sankt Thomas taucht die Hand ins Wundenmal.

(1912)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Georg Trakl: primavera da alma

 
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[versão de Roswitha Kempf]

Um brado no sonho; por becos negros precipita-se o vento,
o azul da primavera acena entre os galhos partidos,
o orvalho purpúreo e as estrelas esmorecem ao redor.
Esverdeado clareia o rio, prateadas as velhas áleas
e as torres da vila; ó suave embevecimento
no barco deslizante e os gritos sombrios do melro
em jardins infantis. Raleia a rósea florada.

Solenes murmuram as águas. Ó, as sombras úmidas do prado,
o animal que caminha; verdejantes ramos floridos
tangem a fronte de cristal; luminosa canoa balouçante.
Soa de leve o sol entre as nuvens rosadas que envolvem a colina,
grande é o silêncio do pinheiral, as graves sombras do rio.

Pureza! Pureza! Onde estão os terríveis caminhos da morte,
do silêncio cinzento de pedra, as rochas da noite
e as sombras sem paz? Abismo solar radiante.
Quando encontrei-te irmã, na erma clareira do bosque
e o sol estava a pino e grande era a mudez do animal;
brancas, sob carvalhos silvestres e os espinhos floriam prateados.
Um morrer imenso e a chama cantante na alma.

As águas cercam mais sombrias os belos folguedos dos peixes.
Hora de luto, um mudo contemplar do sol;
é a alma uma estranha na terra. Raia o azul
irreal sobre a mata massacrada e um sino grave
plange longamente na vila: um cortejo tranquilo.
Discreta floresce a murta alva sobre as pálpebras brancas do morto.

Soam de leve as águas na tarde que finda,
a selva verdeja mais intensa na margem do rio,
júbilo no vento rosado
e a canção suave do irmão no outeiro da noite.

Georg Trakl

Frühling der Seele

Aufschrei im Schlaf; durch schwarze Gassen stürzt der Wind,
Das Blau des Frühlings winkt durch brechendes Geäst,
Purpurner Nachttau und es erlöschen rings die Sterne.
Grünlich dämmert der Fluß, silbern die alten Alleen
Und die Türme der Stadt. O sanfte Trunkenheit
Im gleitenden Kahn und die dunklen Rufe der Amsel
In kindlichen Gärten. Schon lichtet sich der rosige Flor.

Feierlich rauschen die Wasser. O die feuchten Schatten der Au,
Das schreitende Tier; Grünendes, Blütengezweig
Rührt die kristallene Stirne; schimmernder Schaukelkahn.
Leise tönt die Sonne im Rosengewölk am Hügel.
Groß ist die Stille des Tannenwalds, die ernsten Schatten am Fluß.

Reinheit! Reinheit! Wo sind die furchtbaren Pfade des Todes,
Des grauen steinernen Schweigens, die Felsen der Nacht
Und die friedlosen Schatten? Strahlender Sonnenabgrund.

Schwester, da ich dich fand an einsamer Lichtung
Des Waldes und Mittag war und groß das Schweigen des Tiers;
Weiße unter wilder Eiche, und es blühte silbern der Dorn.
Gewaltiges Sterben und die singende Flamme im Herzen.

Dunkler umfließen die Wasser die schönen Spiele der Fische.
Stunde der Trauer, Schweigender Anblick der Sonne;
Es ist die Seele ein Fremdes auf Erden. Geistlich dämmert
Bläue über dem verhauenen Wald und es läutet
Lange eine dunkle Glocke im Dorf; friedlich Geleit.
Stille blüht die Myrthe über den weißen Lidern des Toten.

Leise tönen die Wasser im sinkenden Nachmittag
Und es grünet dunkler die Wildnis am Ufer, Freude im rosigen Wind;
Der sanfte Gesang des Bruders am Abendhügel.
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A Poesia Alemã — Breve Antologia (diversos autores), Versão de Roswitha Kempf, 1981 — Massao Ohno Editor, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

sábado, 27 de julho de 2024

Georg Trakl: A Melancolia


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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

És poderosa, boca escura,
No íntimo, imagem formada
De nuvens de outono,
Silêncio dourado da tarde;
Grande corrente de brilho verde
Na região de sombras,
De pinheiros quebrados;
Um lugarejo
Que desfalece abnegado em imagens marrons.

Eis que saltam os cavalos negros
Em prado brumoso.
Soldados!
Da colina onde o sol rola morrendo
Jorra o sangue que ri
Sob carvalhos
Atônitos! Oh, rancorosa melancolia
Do exército; um elmo cintilante
Caiu tilintando de fronte purpúrea.

Noite outonal vem tão fresca,
Brilha com estrelas
Sobre quebradas ossadas de homens
A silenciosa monja.

(1914)

Georg Trakl

Die Schwermut

Gewaltig bist du dunkler Mund
Im Innern, aus Herbstgewölk
Geformte Gestalt,
Goldner Abendstille;
Ein grünlich dämmernder Bergstrom
In zerbrochner Föhren
Schattenbezirk;
Ein Dorf,
Das fromm in braunen Bildern abstirbt.

Da springen die schwarzen Pferde
Auf nebliger Weide.
Ihr Soldaten!
Vom Hügel, wo sterbend die Sonne rollt
Stürzt das lachende Blut
Unter Eichen
Sprachlos! O grollende Schwermut
Des Heers; ein strahlender Helm
Sank [klirrend] von purpurner Stirne.

Herbstesnacht so kühle kommt,
Erglänzt mit Sternen
Über zerbrochenem Männergebein
Die stille Mönchin.

(1914)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, e Apresentação de Nelson Ascher, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

domingo, 14 de julho de 2024

Georg Trakl: De profundis


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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom, ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.

(1912)

Georg Trakl

De profundis

Es ist ein Stoppelfeld, in das ein schwarzer Regen fällt.
Es ist ein brauner Baum, der einsam dasteht.
Es ist ein Zischelwind, der leere Hütten umkreist.
Wie traurig dieser Abend.

Am Weiler vorbei
Sammelt die sanfte Waise noch spärliche Ähren ein.
Ihre Augen weiden rund und goldig in der Dämmerung,
Und ihr Schoß harrt des himmlischen Bräutigams.

Bei der Heimkehr
Fanden die Hirten den süßen Leib
Verwest im Dornenbusch.

Ein Schatten bin ich ferne finsteren Dörfern.
Gottes Schweigen
Trank ich aus dem Brunnen des Hains.

Auf meine Stirne tritt kaltes Metall
Spinnen suchen mein Herz.
Es ist ein Licht, das in meinem Mund erlöscht.

Nachts fand ich mich auf einer Heide,
Starrend von Unrat und Staub der Sterne.
Im Haselgebüsch
Klangen wieder kristallne Engel.

(1912)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, e Apresentação de Nelson Ascher, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.