
____________________
[traduzido
por Augusto de Campos]
É
justo que me escure o escuro
Porque
à essência do ser assim convém.
Ó raro cristal puro!
Já
escorre o que corria além.
E todo um mar num rio se contém.
Se
é mais escuro, é ainda mais claro:
Quanto
mais negro, mais alva a semente.
O olho celeste há de julgar o
Que a nenhum homem se consente.
Brilha ainda mais, quando menos patente.
Ah,
noite! Noite que se dia,
Ah, dia, mente que a noite alimenta!
Ah, luz que Caim adia!
Luz que à legião de Abel alenta!
Saúdo a tua insurreição cinzenta.
Ó
maravilha pressentida,
Que
pelo cerne da árvore se enrama!
Doas
um novo Éden à vida,
Vê
só meu ser, como se inflama!
Escuta
como em mim tudo te chama!
Ó
indizível anilar!
Claro
rubi! Além-âmbar alvura!
Que
o eterno à terra faz chegar
E
em paraíso a transfigura,
Que
enria o rio e em toda flor perdura.
Ó
quadriterra! Ó resplendor!
O
mais escuro é como um meio-dia!
Carbúnculo
de amor!
O
mundo é já céu-alegria!
A
terra luz como só um sol faria!
De
quem és o sinal secreto?
Que
força estranha forja-te a figura?
Como
no caos achas o reto?
Que
número és? Que marca obscura?
Tu
és, não eu! És natureza e és cura!
A
coroa está pronta,
Que
é uma em toda a parte e vale mil.
O que era oculto já desponta;
Aurora
altiva, áureo buril;
Toda
arte diante dela é pobre e vil.
Olha
os lírios e as rosas
Por
seis dias colhidos, dia a dia;
Carícias amorosas
Coroam-nos, por sua agonia,
E o meu desejo ao teu, uno, se alia.
Um
jesuélico fulgor
À
alta coroa flecha-nos certeiro.
O orgulho já se vai depor
Sob
teu desprezo sobranceiro.
Um
outro está contigo, filho e herdeiro.
Kühlpsalm 62. (II)
Recht dunkelt mich das Dunkel,
Weil Wesenheit so heimlichst anbeginnt!
O seltner Glückskarfunkel!
Es strömt, was äußerlich verrinnt,
Und wird ein Meer, was kaum ein Bächlein gründt.
Je dunkler, je mehr lichter:
Je schwärzer alls, je weißer weißt sein Sam.
Ein himmlisch Aug ist
Richter:
Kein Irdscher lebt, der was
vernahm;
Es gläntzt je mehr, je finster es ankam.
Ach
Nacht! Und Nacht, die taget!
O Tag, der Nacht vernünftiger
Vernunft!
Ach Licht, das Kaine plaget
Und helle strahlt der Abelzunft!
Ich freue mich ob deiner
finstern Kunft.
O längst erwart`tes Wunder,
Das durch den Kern des ganzen Baums auswächst!
Du fängst neu Edens Zunder,
Ei, Lieber, sieh, mein Herze
lechzt!
Es ist genug! Hör, wie es innig
ächzt!
O
unaussprechlichst Blauen!
O
lichtste Röt! O übergelbes Weiß!
Es bringt, was ewigst, schauen,
Beerdt die Erd als Paradeis;
Entflucht den Fluch, durchsegnet jeden Reis.
O
Erdvier! Welches Strahlen!
Der Finsterst ist als vor die
lichtste Sonn.
Kristallisiertes Prahlen!
Die Welt bewonnt di Himmelswonn:
Sie quillt zurück, als wäre sie der
Bronn.
Welch
wesentliches Bildnis?
Erscheinst du so, geheimste Kraftfigur?
Wie richtigst, was doch Wildnis?
O was vor Zahl? Ach welche Spur?
Du
bist, nicht Ich! Dein ist Natur und Kur!
Die
Kron ist ausgefüllet,
Die
Tausend sind auch überall ersetzt:
Geschehen, was umhüllet;
Sehr hoher Röt, höchst ausgeätzt,
Daß alle Kunst an ihr sich ausgewetzt.
Die Lilien und Rosen
Sind durch sechs Tag gebrochen spat und früh:
Sie kränzen mit Liebkosen
Nun dich und mich aus deiner Müh.
Dein Will ist mein, mein Will ist dein, vollzieh.
Im jesuelschen Schimmer
Pfeiln wir zugleich zur jesuelschen Kron:
Der Stolz ist durch dich nimmer!
Er liegt zu Fuß im höchsten
Hohn.
Ein ander ist mit dir der Erb und Sohn.
____________________
Poesia
da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos
e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva,
São Paulo — SP; Quirinus Kuhlmann (1651 — 1689), austríaco nascido em Breslau, Silésia,
à época região do império austríaco e hoje pertencente à Polônia, estudou jurisprudência
na Universidade de Jena sem no entanto concluir o curso, foi poeta e místico barroco,
autor precoce de epigramas e epitáfios (1666); fundador e pregador itinerante de
uma seita messiânica — a que chamou ‘jesuélica’ —, andejou por Londres, Paris, Amsterdã
e outras cidades, tendo carregado consigo a fama de herético e agitador; o poeta
e místico teve seu fim na Rússia, onde foi preso, torturado e, por não renegar suas
crenças, condenado à morte; colocado em uma gaiola de madeira com os seus
livros considerados heréticos, foi queimado vivo em 4 de outubro de 1689, em
Moscou; bibliografia: Himmlische Libesküsse (Beijos de Amor Celestes, conjunto
de 50 sonetos, 1671), Kühlpsalter (duas séries de 150 salmos, 1684 e 1686) e
outros títulos; Kuhlmann é reconhecido hoje como uma das figuras mais originais
do barroco literário alemão.