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domingo, 3 de maio de 2020

quirinus kuhlmann: quirinossalmo 62 (II)

Poesia da Recusa
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[traduzido por Augusto de Campos]

É justo que me escure o escuro
Porque à essência do ser assim convém.
Ó raro cristal puro!
Já escorre o que corria além.
E todo um mar num rio se contém.

Se é mais escuro, é ainda mais claro:
Quanto mais negro, mais alva a semente.
O olho celeste há de julgar o
Que a nenhum homem se consente.
Brilha ainda mais, quando menos patente.

Ah, noite! Noite que se dia,
Ah, dia, mente que a noite alimenta!
Ah, luz que Caim adia!
Luz que à legião de Abel alenta!
Saúdo a tua insurreição cinzenta.

Ó maravilha pressentida,
Que pelo cerne da árvore se enrama!
Doas um novo Éden à vida,
Vê só meu ser, como se inflama!
Escuta como em mim tudo te chama!

Ó indizível anilar!
Claro rubi! Além-âmbar alvura!
Que o eterno à terra faz chegar
E em paraíso a transfigura,
Que enria o rio e em toda flor perdura.

Ó quadriterra! Ó resplendor!
O mais escuro é como um meio-dia!
Carbúnculo de amor!
O mundo é já céu-alegria!
A terra luz como só um sol faria!

De quem és o sinal secreto?
Que força estranha forja-te a figura?
Como no caos achas o reto?
Que número és? Que marca obscura?
Tu és, não eu! És natureza e és cura!

A coroa está pronta,
Que é uma em toda a parte e vale mil.
O que era oculto já desponta;
Aurora altiva, áureo buril;
Toda arte diante dela é pobre e vil.

Olha os lírios e as rosas
Por seis dias colhidos, dia a dia;
Carícias amorosas
Coroam-nos, por sua agonia,
E o meu desejo ao teu, uno, se alia.

Um jesuélico fulgor
À alta coroa flecha-nos certeiro.
O orgulho já se vai depor
Sob teu desprezo sobranceiro.
Um outro está contigo, filho e herdeiro.

Quirinus Kuhlmann – Wikipedia

Kühlpsalm 62. (II)

Recht dunkelt mich das Dunkel,
Weil Wesenheit so heimlichst anbeginnt!
O seltner Glückskarfunkel!
Es strömt, was äußerlich verrinnt,
Und wird ein Meer, was kaum ein Bächlein gründt.

Je dunkler, je mehr lichter:
Je schwärzer alls, je weißer weißt sein Sam.
Ein himmlisch Aug ist Richter:
Kein Irdscher lebt, der was vernahm;
Es gläntzt je mehr, je finster es ankam.

Ach Nacht! Und Nacht, die taget!
O Tag, der Nacht vernünftiger Vernunft!
Ach Licht, das Kaine plaget
Und helle strahlt der Abelzunft!
Ich freue mich ob deiner finstern Kunft.

O längst erwart`tes Wunder,
Das durch den Kern des ganzen Baums auswächst!
Du fängst neu Edens Zunder,
Ei, Lieber, sieh, mein Herze lechzt!
Es ist genug! Hör, wie es innig ächzt!

O unaussprechlichst Blauen!
O lichtste Röt! O übergelbes Weiß!
Es bringt, was ewigst, schauen,
Beerdt die Erd als Paradeis;
Entflucht den Fluch, durchsegnet jeden Reis.

O Erdvier! Welches Strahlen!
Der Finsterst ist als vor die lichtste Sonn.
Kristallisiertes Prahlen!
Die Welt bewonnt di Himmelswonn:
Sie quillt zurück, als wäre sie der Bronn.

Welch wesentliches Bildnis?
Erscheinst du so, geheimste Kraftfigur?
Wie richtigst, was doch Wildnis?
O was vor Zahl? Ach welche Spur?
Du bist, nicht Ich! Dein ist Natur und Kur!

Die Kron ist ausgefüllet,
Die Tausend sind auch überall ersetzt:
Geschehen, was umhüllet;
Sehr hoher Röt, höchst ausgeätzt,
Daß alle Kunst an ihr sich ausgewetzt.

Die Lilien und Rosen
Sind durch sechs Tag gebrochen spat und früh:
Sie kränzen mit Liebkosen
Nun dich und mich aus deiner Müh.
Dein Will ist mein, mein Will ist dein, vollzieh.

Im jesuelschen Schimmer
Pfeiln wir zugleich zur jesuelschen Kron:
Der Stolz ist durch dich nimmer!
Er liegt zu Fuß im höchsten Hohn.
Ein ander ist mit dir der Erb und Sohn.
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Poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços Biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Quirinus Kuhlmann (1651 1689), austríaco nascido em Breslau, Silésia, à época região do império austríaco e hoje pertencente à Polônia, estudou jurisprudência na Universidade de Jena sem no entanto concluir o curso, foi poeta e místico barroco, autor precoce de epigramas e epitáfios (1666); fundador e pregador itinerante de uma seita messiânica a que chamou ‘jesuélica’ , andejou por Londres, Paris, Amsterdã e outras cidades, tendo carregado consigo a fama de herético e agitador; o poeta e místico teve seu fim na Rússia, onde foi preso, torturado e, por não renegar suas crenças, condenado à morte; colocado em uma gaiola de madeira com os seus livros considerados heréticos, foi queimado vivo em 4 de outubro de 1689, em Moscou; bibliografia: Himmlische Libesküsse (Beijos de Amor Celestes, conjunto de 50 sonetos, 1671), Kühlpsalter (duas séries de 150 salmos, 1684 e 1686) e outros títulos; Kuhlmann é reconhecido hoje como uma das figuras mais originais do barroco literário alemão.