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domingo, 6 de novembro de 2022

Oscar Wilde: Balada do cárcere de Reading [Seção I]

 
____________________
[traduzido por Bezerra de Freitas]

[Seção] I

Ele não trajava a sua túnica escarlate,
Pois o sangue e o vinho são vermelhos,
E sangue e vinho havia nas suas mãos
Quando o viram ao lado da morta,
A pobre mulher que ele tanto amara
E assassinara no seu leito.

Ia caminhando entre os juízes
Com um terno cinzento, já usado;
Trazia na cabeça um boné de esporte,
E seus passos pareciam leves e alegres;
Mas, nunca vi um homem que fitasse o dia
Com tamanha tristeza;

Nunca vi um homem que contemplasse
Com olhos tão vagos
A estreita faixa azul,
Que os presos chamam firmamento,
E todas as nuvens que corriam
Como se fossem impelidas por argênteas velas.

Fui caminhando, com outras almas sofrendo
Dentro de outro círculo,
E fiquei imaginando se aquele homem cometera
Uma ação mesquinha ou grande,
Quando uma voz sussurrou, atrás de mim:

“Aquele companheiro vai ser enforcado”.

Jesus! As próprias paredes da prisão
Pareciam, de súbito, estar girando,
E o firmamento, por cima da minha cabeça,
Tornou-se um capacete de aço escaldante,
E, embora eu fosse uma alma sofredora,
Não sentia a minha própria dor.

Compreendi, então, que pensamentos o atormentavam,
Apressando-lhe o passo;
Ele encarava o dia radiante
Com olhar tão vago:
O homem matara o objeto do seu amor
E, por isso, devia morrer.

No entanto, todo homem mata aquilo que adora,
Que cada um deles seja ouvido,
Alguns procedem com dureza no olhar,
Outros com uma palavra lisonjeira.
O covarde fá-lo com um beijo.
Enquanto o bravo o faz com a espada!

Uns matam o próprio amor quando ainda jovens,
Outros o fazem na velhice;
Uns estrangulam com as mãos da luxúria,
Outros com a mão de Ouro,
O que é bondoso faz uso do punhal,
Porque a morte assim vem mais depressa.

Uns amam pouco tempo, outros demais,
Uns vendem, outros compram;
Alguns praticam a ação com muitas lágrimas
E outros sem um suspiro sequer:
Pois todo o homem mata o objeto do seu amor
E, no entanto, nem todo homem é condenado à morte.

Ele não sofre a morte humilhante
Num dia de tenebrosa desgraça,
Não tem um laço em volta do pescoço,
Nem um capuz, cobrindo-lhe a cabeça,
Seus pés não ficam pendentes no alçapão
Num espaço aberto.

Não se senta ao lado dos homens silenciosos
Que o vigiam dia e noite;
E o velam quando ele quer chorar,
Ou quando tenta orar;
Que o vigiam com medo de que ele próprio livre
A prisão da sua presa.

Nem desperta de madrugada para ver
Vultos horripilantes povoando a sua cela.
O trêmulo Capelão à sua alva sobrepeliz,
O Sheriff, tristonho e carrancudo,
E o Diretor, todo de preto vestido,
Com o rosto amarelado do Destino.

Não se ergue apressadamente
Para vestir a túnica encarcerada,
Enquanto, com esperteza, um médico
Fita-o firmemente e toma nota
De cada uma das suas novas contorsões nervosas,
Com o dedo no relógio, cujos tique-taques, lembram horríveis
marteladas.

Ele desconhece aquela sede doentia
Que dá à garganta a sensação de areia,
Antes que o carrasco, com as suas luvas de jardinagem,
Atravesse a porta e o amarre com três correias
Para que a sua garganta não mais sinta sede.

Não curva a cabeça para ouvir
O ofício fúnebre que está sendo lido,
Enquanto, na sua alma, o terror
Diz-lhe que ele não está morto;
Ele passa pelo próprio caixão quando a caminho
do hediondo cadafalso.

Não olha para cima
Através do pequeno teto de vidro,
Nem reza com os lábios secos
Para que finde a sua agonia;
Não sente na face trêmula
O beijo de Caifás.

Oscar Wilde

The Ballad of Reading Gaol

Section I

He did not wear his scarlet coat,
For blood and wine are red,
And blood and wine were on his hands
When they found him with the dead,
The poor dead woman whom he loved,
And murdered in her bed.

He walked amongst the Trial Men
In a suit of shabby grey;
A cricket cap was on his head,
And his step seemed light and gay;
But I never saw a man who looked
So wistfully at the day.

I never saw a man who looked
With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud that went
With sails of silver by.

I walked, with other souls in pain,
Within another ring,
And was wondering if the man had done
A great or little thing,
When a voice behind me whispered low,
"That fellow's got to swing."

Dear Christ! the very prison walls
Suddenly seemed to reel,
And the sky above my head became
Like a casque of scorching steel;
And, though I was a soul in pain,
My pain I could not feel.

I only knew what hunted thought
Quickened his step, and why
He looked upon the garish day
With such a wistful eye;
The man had killed the thing he loved
And so he had to die.

Yet each man kills the thing he loves
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!

Some kill their love when they are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
The dead so soon grow cold.

Some love too little, some too long,
Some sell, and others buy;
Some do the deed with many tears,
And some without a sigh:
For each man kills the thing he loves,
Yet each man does not die.

He does not die a death of shame
On a day of dark disgrace,
Nor have a noose about his neck,
Nor a cloth upon his face,
Nor drop feet foremost through the floor
Into an empty place

He does not sit with silent men
Who watch him night and day;
Who watch him when he tries to weep,
And when he tries to pray;
Who watch him lest himself should rob
The prison of its prey.

He does not wake at dawn to see
Dread figures throng his room,
The shivering Chaplain robed in white,
The Sheriff stern with gloom,
And the Governor all in shiny black,
With the yellow face of Doom.

He does not rise in piteous haste
To put on convict-clothes,
While some coarse-mouthed Doctor gloats, and notes
Each new and nerve-twitched pose,
Fingering a watch whose little ticks
Are like horrible hammer-blows.

He does not know that sickening thirst
That sands one's throat, before
The hangman with his gardener's gloves
Slips through the padded door,
And binds one with three leathern thongs,
That the throat may thirst no more.

He does not bend his head to hear
The Burial Office read,
Nor, while the terror of his soul
Tells him he is not dead,
Cross his own coffin, as he moves
Into the hideous shed.

He does not stare upon the air
Through a little roof of glass;
He does not pray with lips of clay
For his agony to pass;
Nor feel upon his shuddering cheek
The kiss of Caiaphas.
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; suas obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Oscar Wilde: O Mestre

 
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[traduzido por Dilermando Duarte Cox]

          Quando as trevas começaram a cair sobre a terra, José de Arimathéa acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E, ajoelhando-se sobre as pedras do Vale da Desolação, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e o corpo tão branco como uma flor; mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinza à guisa de coroa.
          E José, que possuía grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava:
           Não me admira que o teu sentimento seja tão grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo.
          E o jovem respondeu:
           Não é por Ele que eu choro, mas por mim mesmo. Eu também mudei a água em vinho, curei o leproso e restituí a vista ao cego. Andei sobre as águas e das profundezas dos sepulcros expulsei os demônios. Alimentei os famintos no deserto onde não havia comida; ergui os mortos dos leitos exíguos e à minha ordem, diante de imensa multidão, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu também realizei e, todavia, não me crucificaram.

Oscar Wilde

The Master

          Now when the darkness came over the earth Joseph of Arimathea, having lighted a torch of pinewood, passed down from the hill into the valley. For he had business in his own home.
          And kneeling on the flint stones of the Valley of Desolation he saw a young man who was naked and weeping. His hair was the colour of honey, and his body was as a white flower, but he had wounded his body with thorns and on his hair had he set ashes as a crown.
          And he who had great possessions said to the young man who was naked and weeping, 'I do not wonder that your sorrow is so great, for surely He was a just man.'
          And the young man answered, 'It is not for Him that I am weeping, but for myself. I too have changed water into wine, and I have healed the leper and given sight to the blind. I have walked upon the waters, and from the dwellers in the tombs I have cast out devils. I have fed the hungry in the desert where there was no food, and I have raised the dead from their narrow houses, and at my bidding, and before a great multitude, of people, a barren fig-tree withered away. All things that this man has done I have done also. And yet they not crucified me.”
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Oscar Wilde: Poemas em Prosa e Salomé, Tradução de Dilermando Duarte Cox, Introdução de Walmir Ayala e Ilustrações de Aubrey Beardsley, Clássicos de Bolso Ediouro 90368, sem data, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Oscar Wilde: Balada do Cárcere de Reading [trecho]

 

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[traduzido por Gondin da Fonseca]

À memória de C.T.W.
Soldado que foi da Real Guarda Montada.
Morreu na Prisão de Sua Majestade, Reading, Berkshire
7 de julho de 1896.

I

Ele despira a túnica vermelha;
      mas sangue púrpuro, encarnado,
sangue e vinho das mãos lhe gotejavam,
      quando o viram, alucinado,
junto do leito dela,  o seu amor,
      seu pobre amor apunhalado.

Ia andando entre os mais, e era cinzento
      o traje velho que vestia.
Usava um gorro às listas, e o seu passo
      ligeiro e alegre parecia.
Porém eu nunca vi homem que olhasse,
      tão anelante, a luz do dia.

Jamais, jamais vi homem contemplar,
      com tão profundo sentimento,
essa breve, essa estreita faixa azul
      que os presos chamam firmamento:
e as nuvens brancas, velas cor de prata,
      vogando no ar, flutuando ao vento!

Eu, com outras almas angustiadas, ia
      andando em pátio separado,
a cismar qual o crime, grande ou leve,
      por que o teriam condenado,
 quando alguém sussurrou atrás de mim:
      "vão pendurar esse coitado!"

Jesus! as próprias grades da prisão
      rodam, de súbito, em delírio!
Pesa o céu sobre mim, qual elmo de aço
      que o Sol inflama,  ardente círio!
E a minha alma, de mágoas trespassada,
      esquece, olvida o seu martírio.

Eu soube, então, a idéia lacerante
      que o atormenta, e o faz correr,
e o faz olhar, tristonho, o céu radiante,
      radiante, e alheio ao seu sofrer:
ele matou aquela que adorava,
      — por causa disso vai morrer.

No entanto (ouvi!) cada um mata o que adora:
      o seu amor, o seu ideal.
Alguns com uma palavra de lisonja,
      outros com um frio olhar brutal.
O covarde assassina dando um beijo,
      o bravo mata com um punhal.

Uns matam o Amor velhos; outros, jovens;
      (quando o amor finda, ou o amor começa);
matam-no alguns com a mão do Ouro, e alguns
      com a mão da Carne,  a mão possessa!
E os mais bondosos, esses apunhalam,
      — que a morte, assim, vem mais depressa.

[ . . . ]

Oscar Wilde

The Ballad of Reading Gaol*

In Memoriam
C. T. W.
Sometime Trooper oh the Royal Horse Guards.
Obit H. M. Prision, Reading, Berkshire,
July 7th, 1896

I

He did not wear his scarlet coat,
      For blood and wine are red,
And blood and wine were on his hands
      When they found him with the dead,
The poor dead woman whom he loved,
      And murdered in her bed.

He walked amongst the Trial Men
      In a suit of shabby grey;
A cricket cap was on his head,
      And his step seemed light and gay;
But I never saw a man who looked
      So wistfully at the day.

I never saw a man who looked
      With such a wistful eye
Upon that little tent of blue
      Which prisoners call the sky,
And at every drifting cloud that went
      With sails of silver by.

I walked, with other souls in pain,
      Within another ring,
And was wondering if the man had done
      A great or little thing,
When a voice behind me whispered low,
      "That fellow's got to swing."

Dear Christ! the very prison walls
      Suddenly seemed to reel,
And the sky above my head became
      Like a casque of scorching steel;
And, though I was a soul in pain,
      My pain I could not feel.

I only knew what hunted thought
      Quickened his step, and why
He looked upon the garish day
      With such a wistful eye;
The man had killed the thing he loved,
      And so he had to die.

Yet each man kills the thing he loves,
      By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
      Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
      The brave man with a sword!

Some kill their love when they are young,
      And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
      Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
      The dead so soon grow cold.

[ . . . ]

* Nota do tradutor Gondin da Fonseca: Texto da 7ª edição da "Balada". Leonard Smithers, Londres, 1899.
____________________
O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte — edição bilíngue (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A Hopuse of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Ballad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

domingo, 3 de outubro de 2021

Oscar Wilde: O Artista

 
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[traduzido por Dilermando Duarte Cox]

          Um dia, despertou-lhe na alma o desejo de esculpir uma estátua do Prazer que dura um instante. E partiu pelo mundo, à procura do bronze, porque ele só podia trabalhar o bronze. Mas todo o bronze existente no mundo havia desaparecido e em nenhuma parte o metal seria encontrado, a não ser na estátua da Dor que é permanente.
          E fora ele que, com as próprias mãos fundira essa estátua, erigindo-a no túmulo de alguém a quem muito amara na vida. E na tumba da morta, que tanto amara, colocou a própria criação, como um símbolo do amor masculino, que é imortal, e a dor humana, que dura a vida inteira.
          E, em todo o mundo, não havia bronze a não ser o dessa estátua.
          Ele então, retirou a estátua que moldara, pô-la num grande forno, deixando-a derreter-se.
          E, com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um instante.

Oscar Wilde

The Artist

          One evening there came into his soul the desire to fashion an image of The Pleasure that abideth for a Moment. And he went forth into the world to look for bronze. For he could only think in bronze.
          But all the bronze of the whole world had disappeared, nor anywhere in the whole world was there any bronze to be found, save only the bronze of the image of The Sorrow that endureth for Ever.
          Now this image he had himself, and with his own hands, fashioned, and had set it on the tomb of the one thing he had loved in life. On the tomb of the dead thing he had most loved had he set this image of his own fashioning, that it might serve as a sign of the love of man that dieth not, and a symbol of the sorrow of man that endureth for ever. And in the whole world there was no other bronze save the bronze of this image.
          And he took the image he had fashioned, and set it in a great furnace, and gave it to the fire.
          And out of the bronze of the image of The Sorrow that endureth for Ever he fashioned an image of The Pleasure that abideth for a Moment.
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Oscar Wilde: Poemas em Prosa e Salomé, Tradução de Dilermando Duarte Cox, Introdução de Walmir Ayala e Ilustrações de Aubrey Beardsley, Clássicos de Bolso Ediouro 90368, sem data, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; suas obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

domingo, 8 de agosto de 2021

Oscar Wilde: O Semeador do Bem

 
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[traduzido por Dilermando Duarte Cox]

          Era noite e ele estava só.
          Lobrigou, à distância, as muralhas de uma grande cidade e para ela se dirigiu. E, quando se aproximou, ouviu dentro da cidade o tropel dos folguedos, o alarido da alegria e o ruído ensurdecedor de muitos alaúdes. E Ele bateu no portão e os guardas abriram-lho.
          E Ele viu uma casa de mármore, com belas colunas de mármore à sua frente. As colunas estavam adornadas de guirlandas e quer fora, quer no interior, ardiam tochas de cedro. Ele entrou na casa.
          E, quando cruzou o vestíbulo de calcedônias, o de jaspe e atingiu o salão dos festins, viu estendido sobre um leito de púrpura marinha um homem cujos cabelos estavam coroados de rosas vermelhas e os lábios rubros manchados de vinho. E Ele aproximou-se por detrás, tocou-lhe as costas, dizendo-lhe:
           Por que viveis assim?
          O jovem, voltando-se, reconheceu-O e respondeu-Lhe:
           Eu era leproso e vós me curastes. Como iria viver?
          Ele deixou a casa e voltou à rua. Pouco depois, viu uma mulher cujo rosto e trajes eram coloridos e cujos pés estavam recamados de pérolas. Atrás dela, cauteloso como um caçador, caminhava um jovem usando túnica de duas cores. O rosto da mulher era tão belo como o rosto de um ídolo e os olhos do jovem faiscavam de sua sensualidade.
          Ele, rapidamente, seguiu o jovem e tocando-lhe na mão, indagou:
           Por que olhais para essa mulher de tal maneira?
          O jovem, voltando-se, reconheceu-O e retrucou-Lhe:
           Eu era cego e vós me restituístes a vista. A quem mais eu poderia olhar.
          Ele correu para diante e tocando no vestido colorido da mulher perguntou-lhe:
           Não há outro caminho para trilhardes que não seja o do pecado?
          A mulher voltou-se e reconhecendo-O, replicou-Lhe:
           Vós perdoastes os meus pecados e este é um caminho agradável.
          Ele, então, afastou-se da cidade. E, quando a deixava, deparou-se-lhe à beira da estrada um jovem a chorar. Aproximou-se, e, tocando nas longas madeixas dos seus cabelos, perguntou-lhe:
           Por que chorais?
          O jovem ergueu os olhos e reconhecendo-O, respondeu-Lhe:
           Eu estava morto e vós me ressuscitastes. Que farei agora senão chorar?

Oscar Wilde

The Doer of Good

          It was night-time and He was alone.
          And He saw afar-off the walls of a round city and went towards the city.
          And when He came near He heard within the city the tread of the feet of joy, and the laughter of the mouth of gladness and the loud noise of many lutes. And He knocked at the gate and certain of the gate-keepers opened to Him.
          And He beheld a house that was of marble and had fair pillars of marble before it. The pillars were hung with garlands, and within and without there were torches of cedar. And He entered the house.
          And when He had passed through the hall of chalcedony and the hall of jasper, and reached the long hall of feasting, He saw lying on a couch of sea-purple one whose hair was crowned with red roses and whose lips were red with wine.
          And He went behind him and touched him on the shoulder and said to him, 'Why do you live like this?'
          And the young man turned round and recognised Him, and made answer and said, 'But I was a leper once, and you healed me. How else should I live?'
          And He passed out of the house and went again into the street.
          And after a little while He saw one whose face and raiment were painted and whose feet were shod with pearls. And behind her came, slowly as a hunter, a young man who wore a cloak of two colours. Now the face of the woman was as the fair face of an idol, and the eyes of the young man were bright with lust.
          And He followed swiftly and touched the hand of the young man and said to him, 'Why do you look at this woman and in such wise?'
          And the young man turned round and recognised Him and said, 'But I was blind once, and you gave me sight. At what else should I look?'
          And He ran forward and touched the painted raiment of the woman and said to her, 'Is there no other way in which to walk save the way of sin?'
          And the woman turned round and recognised Him, and laughed and said, 'But you forgave me my sins, and the way is a pleasant way.'
          And He passed out of the city.
          And when He had passed out of the city He saw seated by the roadside a young man who was weeping.
          And He went towards him and touched the long locks of his hair and said to him, 'Why are you weeping?'
          And the young man looked up and recognised Him and made answer, 'But I was dead once, and you raised me from the dead. What else should I do but weep?'
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Oscar Wilde: Poemas em Prosa e Salomé, Tradução de Dilermando Duarte Cox, Introdução de Walmir Ayala e Ilustrações de Aubrey Beardsley, Clássicos de Bolso Ediouro 90368, sem data, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos, 1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Oscar Wilde: O Discípulo

 
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[traduzido por Dilermando Duarte Cox]

          Quando Narciso morreu, a taça de água doce que era o lago dos seus prazeres, converteu-se em taça de lágrimas amargas e as Oréadas vieram carpindo pelos bosques a fim de cantar para ele, consolando-o.
          E, quando perceberam que o lago se transmudara de taça de água doce noutra de lágrimas amargas, desgrenharam as tranças verdes dos seus cabelos e disseram:
           Não nos admiramos de que pranteeis Narciso dessa maneira. Ele era tão belo!
           Narciso era belo? indagou o lago.
           Quem sabe melhor do que vós? responderam as Oréadas. Ao cortejar-vos, ele nos desprezava, debruçado às vossas margens mirando-vos, e, no espelho de vossas águas, contemplava a própria beleza.
          E o lago retrucou:
           Eu amava Narciso porque, quando ele se debruçava sobre as minhas margens para contemplar-me, eu via sempre refletir-se no espelho dos seus olhos a minha própria beleza.

Oscar Wilde

The Disciple

          When Narcissus died the pool of his pleasure changed from a cup of sweet Waters into a cup of salt tears, and the Oreads came weeping through the woodland that they might sing to the pool and give it comfort.
          And when they saw that the pool had changed from a cup of sweet Waters into a cup of salt tears, they loosened the green tresses of their hair and cried to the pool and said, ‘We do not wonder that you should mourn in this manner for Narcissus, so beautiful was he.’
          ‘But was Narcissus beautiful?’ said the pool.
          ‘Who should know that better than you?’ answered the Oreads. ‘Us did he ever pass by, but you he sought for, and would lie on your banks and look down at you, and in the mirror of your Waters he would mirror his own beauty.’
          And the pool answered, ‘But I loved Narcissus because, as he lay on my banks and looked down at me, in the mirror of his eyes I saw ever my own beauty mirrored.’
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Oscar Wilde: Poemas em Prosa e Salomé, Tradução de Dilermando Duarte Cox, Introdução de Walmir Ayala e Ilustrações de Aubrey Beardsley, Clássicos de Bolso Ediouro 90368, sem data, Editora Tecnoprint, Rio de Janeiro — RJ; Oscar Wilde (1854 1900), irlandês de Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, estudou no Trinity College Dublin e na Universidade de Oxford, desde jovem falava fluentemente o francês e o alemão, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista, romancista e jornalista; desde 1879 passou a viver em Londres; em 1895, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor e homossexualismo, apesar de inúmeras intervenções por clemência vindas de setores progressistas e dos mais importantes círculos literários da Europa e, por consequência, teve seus livros recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz; obras: Poems (coletânea de poesias publicadas em periódicos e revistas durante o tempo da faculdade, 1881), The Happy Prince and Other Stories (O Príncipe Feliz e Outros Contos,1888), A House of Pomegranates (Uma Casa de Romãs, contos, 1891), The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, romance, 1891), Salome (Salomé, tragédia em um ato, 1891), The Importance of Being Earnest (peça teatral cômica, 1895), The Balad of Reading Gaol (A Balada do Cárcere de Reading, poema escrito na prisão, 1896), De Profundis (longa carta a Lord Alfred Douglas, escrita da prisão, primeira publicação em 1897) e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia.