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sábado, 23 de janeiro de 2021

Cesário Verde: A Débil

Cesario Verde - Martinho Nobre de Melo - Traça Livraria e Sebo
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Eu, que sou feio, solido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado á mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora.
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices d’absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, talvez que não o suspeites!
Esse vestido simples, sem enfeites,
N’essa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E d’altos funcionários da nação.

«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, paraste embaraçada
Ao pé d’um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.

Novembro, 1876

Cesário Verde - Poemas escolhidos
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Cesário Verde poesia, Volume 17 da Coleção Nossos Clássicos, por Martinho Nobre de Melo, 3ª edição, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulgou seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).

domingo, 3 de janeiro de 2021

Cesário Verde: Deslumbramentos

Livro: Cesario Verde Poesia - Martinho Nobre de Melo | Estante Virtual
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Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana d’Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais,
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos as rainhas!

Fevereiro, 1875

Nascimento de Cesário Verde - LAGASH
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Cesário Verde poesia, Volume 17 da Coleção Nossos Clássicos, por Martinho Nobre de Melo, 3ª edição, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulgou seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Cesário Verde: Ironias do desgosto

LIVRO DO CESÁRIO VERDE, O - Cesário Verde - L&PM Pocket - A maior ...
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"Onde é que te nasceu" dizia-me ela às vezes
"O horror calado e triste às coisas sepulcrais?
Por que é que não possuis a verve dos Franceses
E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais?

Por que é que tens no olhar, moroso e persistente,
As sombras dum jazigo e as fundas abstrações;
E abrigas tanto fel no peito, que não sente
O abalo feminil das minhas expansões?

Há quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
Que estão edificando um negro cadafalso
E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!

Eu vim não sabes tu? para gozar em maio,
No campo, a quietação banhada de prazer!
Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
E os júbilos, que abril acaba de trazer?

Não vês como a campina é toda embalsamada
E como nos alegra em cada nova flor?
Então por que é que tens na fronte consternada
Um não-sei-quê tocante e enternecedor?

Eu só respondia: "Escuta-me. Conforme
Tu vibras os cristais da boca musical,
Vai-nos minando o tempo, o tempo o cancro enorme
Que te há de corromper o corpo de vestal.

E eu calmamente sei, na dor que me amortalha,
Que a tua cabecinha ornada à Rabagas*,
A pouco e pouco há de ir tornando-se grisalha
E em breve ao quente sol e ao gás alvejará!

E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,
Eu morro de pesar, talvez, porque prefiro
O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!"

4 únicos e marcantes poemas de Cesário Verde | ncultura

* Nota do editor Sergio Faraco: Referência provável à peça de mesmo nome, do francês Victorien Sardou, de 1872.
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O livro do Cesário Verde poemas, Edição e Notas de Sergio Faraco, coleção L&PM Pocket vol. 303, 2010 (reimpressão, 1ª edição em 2003), L&PM, Porto Alegre RS; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulga seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Cesário Verde: De tarde

LIVRO DO CESÁRIO VERDE, O - Cesário Verde - L&PM Pocket - A maior ...
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Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aquarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

José Joaquim Cesário Verde - Portal da Literatura
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O Livro do Cesário Verde poemas, Edição e Notas de Sergio Faraco, coleção L&PM Pocket vol. 303, 2010 (1ª edição em 2003, reimpressão em 2010), L&PM, Porto Alegre RS; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulga seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).  

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Cesário Verde: Lúbrica

Cesario Verde - Martinho Nobre de Melo - Traça Livraria e Sebo
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Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!


4 únicos e marcantes poemas de Cesário Verde | ncultura
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Cesário Verde poesia, Volume 17 da Coleção Nossos Clássicos, por Martinho Nobre de Melo, 3ª edição, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulgou seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).

sábado, 3 de outubro de 2020

Cesário Verde: Esplêndida

Livro: Cesario Verde Poesia - Martinho Nobre de Melo | Estante Virtual
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Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versalhes do Rei-Sol
Aumentam-os com retoques sedutores,
É como o refulgir dum arrebol
            Em sedas multicolores.

Deita-se com langor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E esses negros corcéis, que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
            Velozes como a peste.

É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon,
Se a vissem ficariam ofuscadas.
Tem a altivez magnética e o bom tom
            Das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala,
E as mãos, que o Jock Club embalsamou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
            Um amante, em Bengala.

É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar,
            Atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com roseta, e nas librés
            De forma aprimorada.

E eu vou acompanhando-a, corcovado.
No trottoir, como um doido, em convulsões,
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejando o lugar dos seus truões,
            Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
            Teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
            Formosa aristocrata!

O Romantismo social português: 9 – Cesário Verde - Estrolabio
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Cesário Verde poesia, Volume 17 da Coleção Nossos Clássicos, por Martinho Nobre de Melo, 3ª edição, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulgou seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Cesário Verde: Proh Pudor

Livro: Cesario Verde Poesia - Martinho Nobre de Melo | Estante Virtual
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Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada e langorosa.

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania
Aquela concepção vertiginosa.

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente…

Todas as noites ela, ó sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos
E fazia-me cócegas nos pés…

Lisboa, 1874

ComJeitoeArte: Cesário Verde I A casa de Linda-a-Pastora
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Cesário Verde poesia, Volume 17 da Coleção Nossos Clássicos, por Martinho Nobre de Melo, 3ª edição, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulgou seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Cesário Verde: Humilhações

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De todo coração a Silva Pinto

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Jó,
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;
E espero-a nos salões dos principais teatros,
           Todas as noites, ignorado e só.

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos,
           Eu analiso as peças no cartaz.

Na representação dum drama de Feuillet *,
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra
           Saltou soberba o estribo do
coupé.

Como ela marcha! Lembra um magnetizador.
Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
E, muito embora tu, burguês, me não entendas,
           Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéia
De vê-la aproximar, sentado na platéia,
           De tê-la num binóculo mordaz!

Eu ocultava o fraque usado nos botões;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
           E ouviam-se cá fora as ovações.

Que desvanecimento! A pérola do tom!
As outras ao pé dela imitam de bonecas;
Têm menos melodia as harpas e as rabecas,
           Nos grandes espetáculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
Via-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
           Que o chão se abrisse para me abater.

Saí: mas ao sair senti-me atropelar.
Era um municipal sobre um cavalo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
           Cresci com raiva contra o militar.

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
           
Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...

Cesário Verde - Wikiwand

* Nota do editor Sergio Faraco: Octave Feuillet, escritor francês (1821 1890), romancista e dramaturgo.
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O livro do Cesário Verde poemas, Edição e Notas de Sergio Faraco, coleção L&PM Pocket vol. 303, 2010 (reimpressão, 1ª edição em 2003), L&PM, Porto Alegre RS; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulga seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).