quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bertolt Brecht: Li Tai Po domina setenta idiomas . . . & Aos pósteros [Den Nachgeborenen] & O faminto . . .

 
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[traduzidos por André Vallias]

Li Tai Po domina setenta idiomas . . .

Li Tai Po domina setenta idiomas.
Setenta demônios não vão seduzi-lo.
Li Tai Po diz rezas em setenta idiomas.
Em setenta idiomas pragueja no exílio.

 o —

Aos pósteros [Den Nachgeborenen]

Confesso: eu
Não tenho esperança.
Cegos falam de uma escapatória. Eu
Enxergo.

Quando os erros já se esgotaram
Senta-se (derradeira companhia)
O nada à nossa frente.

 o —

O faminto . . .

O faminto que leva
Teu último pão tu vês como inimigo
Mas no pescoço do ladrão que nunca
Passou fome tu não pulas.

Bertolt Brecht

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden. . . .

Litaipee kann in siebzig Sprachen reden.
Siebzig Teufel der Hölle können ihn nicht versuchen.
Litaipee kann in siebzig Sprachen beten.
In siebzig Sprachen kann Litaipee fluchen.

[1918]

 o —

Den Nachgeborenen

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg. Ich
Sehe.

Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.

[c. 1920]

o —

Den Hungernden, . . .

Den Hungernden, der dir
Das letzte Brot wegnimmt, siehst du als Feind an.
Aber dem Dieb, der nie gehungert hat
Springst du nicht an die Gurgel.

[c. 1934]
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Bertolt Brecht — Poesia, bilíngue, Introdução e Tradução de André Vallias, 1ª edição, 2019, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Eugen Berthold Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, estudou na Escola Real de Augsburg, formou-se em 1917 e iniciou curso de Medicina, em Munique, abandonando-o para trabalhar em direção teatral e dramaturgia, foi poeta, dramaturgo, encenador, enfermeiro em Hospital Militar; ainda estudante, deu início à produção de textos literários; ao ser convocado pelo exército, na Primeira Guerra, serviu como enfermeiro em hospital militar; desde 1921 dirigiu e se envolveu em dramaturgia em Munique e, a partir de 1924, em Berlim; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixou a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção: em arte dramática, Baal (texto de 1918/produção em 1923), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1919/1922), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938), em poesia: Psalmen (Salmos, texto de 1926, publicado em 1960), Bertolt Brechts Hauspostille (Breviário Doméstico de Bertolt Brecht, 1916-25/1926), Die Augsburger Sonette (Os Sonetos de Augsburgo, 1925-27/1982), Sonette (Sonetos, 1932-34/1951), Englische Sonette (Sonetos Ingleses, 1934), Lieder Gedichte Chöre (Canções, poemas, coros, 1918-33/1934), Chinesische Gedichte (Poemas chineses, 1938-1949), Svendborger Gedichte (Poemas de Svendborger, 1934-38/1939), Gedichte im Exil (Poemas no Exílio, 1936-44/1988), Deutsche Satiren — zweiter Teil (Sátiras alemãs — parte dois, 1945/1988), Gedichte über die Liebe (Poemas sobre o amor, 1917-56/1982), Hundert Gedichte: 1918 bis 1950 (Cem Poemas: 1918 a 1950, 1958) e tantos outros textos em verso e prosa, escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ted Hughes: O Minotauro

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

A mesa de mogno que você quebrou
Era o tampo largo do aparador
Que minha mãe havia herdado
Mapa de riscos de toda a minha vida.

Foi isso que você martelou
Com um banco alto aquele dia,
Enlouquecida por eu estar vinte minutos
Atrasado para cuidar da criança.

“Maravilhoso!” gritei. “Isso mesmo,
Quebre tudo em pedacinhos.
Isso você não põe nos seus poemas!”
Depois, consciente, mais calmo,

“Ponha no ombro essas estrofes
E vamos.” No fundo da gruta do seu ouvido
O gnomo estalou os dedos.
O que lhe dera eu, afinal?

A ponta sangrenta da madeixa
Que desenredou o seu casamento,
Deixou os seus filhos ecoando
Como túneis de um labirinto,

Deixou a sua mãe num beco sem saída,
Levou você ao touro enfurecido
Da tumba do seu pai ressuscitado
E deixou-a morta lá dentro.

Ted Hughes

The Minotaur

The mahogany table-top you smashed
Had been the broad plank top
Of my mother's heirloom sideboard
Mapped with the scars of my whole life.

That came under the hammer.
That high stool you swung that day
Demented by my being
Twenty minutes late for baby-minding.

'Marvellous!' I shouted, 'Go on,
Smash it into kindling.
That's the stuff you're keeping out of your poems!'
And later, considered and calmer,

'Get that shoulder under your stanzas
And we'll be away.' Deep in the cave of your ear
The goblin snapped his fingers.
So what had I given him?

The bloody end of the skein
That unravelled your marriage,
Left your children echoing
Like tunnels in a labyrinth,

Left your mother a dead-end,
Brought you to the horned, bellowing
Grave of your risen father
And your own corpse in it.
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Cartas de aniversário: poemas — Ted Hughes, edição bilíngue, Tradução de Paulo Henriques Britto e Prefácio de Leonardo Fróes, 1999, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ted Hughes, ou Edward James Hughes (1930 1998), inglês de Mytholmroyd Yorkshire, cursou o Schofield Street Junior School, frequentou o Mexborough Secondary School (mais tarde Grammar School), estudou inglês no Pembroke College Cambridge, aprendeu antropologia e arqueologia, foi poeta, dramaturgo, tradutor, contista e escritor de literatura infantil; ainda estudante no Pembroke, publicou seus poemas The Little Boys and the Seasons e Song of the Sorry Lovers nas revistas estudantis Granta e Chequer; em 1964, fundou a “literary magazineModern Poetry in Translation (MPT), juntamente com Daniel Weissbort, 1ª número editado em 1965: tinha o objetivo de tornar conhecidos, no ambiente literário britânico, escritores, poetas e obras do mundo afora; editou e traduziu poemas de Frank Wedekind, García Lorca, Yehuda Amichai, János Pilinszky, Ovídio, Ésquilo, Racine e Eurípedes; suas obras: em poesia: The Hawk in the Rain (O Falcão na Chuva, 1957), Lupercal (1960), Wodwo (1967), From the Life and Songs of the Crow (O Corvo: Da Vida e das Canções do Corvo, 1970), Moortown (1978, reeditado acrescido de + poemas em 1979), Birthday Letters (Cartas de Aniversário, 1998), Howls and Whispers (coletânea de 11 poemas, tiragem de apenas 100 exemplares, 1998), literatura infantil: The Iron Giant ou The Iron Man (romance para crianças, O Homem de Ferro, 1968), What Is the Truth? (Qual é a Verdade?, 1984) e outros títulos em verso, prosa, literatura infantil e várias peças radiofônicas; recebeu premiações por suas obras: Guardian Prize (1984), por What Is the Truth? [livro para crianças, Qual é a Verdade?], Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize (ambos em 1998) e British Book of the Year award (1999), pela coletânea de poemas Birthday Letters [Cartas de aniversário], e o Whitbread Book of the Year (1997), pela tradução de Ovídio (Tales from Ovid [Contos de Ovídio, ‘trechos de Metamorfose’]); Ted Hughes foi casado com a também poeta Sylvia Plath, de 1955 a 1963, ano em que Sylvia se suicidou com a cabeça em um forno a gás ligado (antes havia calafetado a porta do quarto e aberta a janela apesar da nevasca onde estavam duas crianças [filha e filho dela e de Hughes], protegendo-as); em 1969, Assia Wevill, poeta que vivia e morava com Ted Hughes, também tirou a própria vida usando o mesmo método: asfixia por gás de fogão, antes matando também sua filha cujo pai era Hughes; em 2009, Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath e de Ted Hughes, acometido de depressão, suicidou-se por enforcamento [não foi casado nem tinha filhos].

Hölderlin: A Despedida (Terceira Versão)

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[traduzido por Nelson Ascher]

Não parecia certo e bom nos separarmos?
   Então por que, mais do que um crime, isto assombrou-nos?
      Deconhecemo-nos, pois dentro
         de nós um deus reina supremo.

Como trair a quem primeiro nos deu vida
   e atribuiu sentido a nós, deus tutelar
      que suscitou o nosso amor?
         Traí-lo é algo que eu não posso.

O mundo tem, contudo, em mente um outro equívoco,
   exerce outro afazer de bronze, as suas leis
      são outras e o costume, dia
         a dia, nos subtrai a alma.

Que seja: eu o sabia. Desde quando o medo,
   que se arraigou disforme, após mortais e deuses,
      devem morrer, para aplacá-lo
         com sangue, os corações dos que amam.

Hölderlin

Der Abschied (Dritte Fassung)

Trennen wollten wir uns? wähnten es gut und klug?
   Da wirs taaten, warum schrökte, wie Mord, die Tat?
      Ach! wir kennen uns wenig,
         Denn es waltet ein Gott in uns.

Den verraten? ach ihn, welcher uns alles erst
   Sinn und Leben erschuf, ihn” den beseelenden
      Schutzgott unserer Liebe,
         Dies, dies Eine vermag ich nicht.

Aber anderen Fehl denket der Weltsinn sich
   Andern ebernen Dienst übt er und anders Recht
      Und es listet die Seele
         Tag für Tag der Gebrauch uns ab.

Wohl ich wusst’ es zuvor, seit die gewurzelte
   Ungestalte die Furcht Götter und Menschen trennt,
      Muss, mit Blut sie zu sühnen,
         Muss der Liebenden Herz vergehn.
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos, edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998, Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; suas obras: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Rainer Maria Rilke: Morgue

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[traduzido por José Paulo Paes]

Ali jazem em ordem como se
à espera de algum ato tardio
que os pudesse ligar entre si e
reconciliá-los com aquele frio;

tudo está por enquanto inacabado.
Por que, dentro dos bolsos, um cartão
com o nome de cada? O ar de enfado
nas suas bocas, foi esforço vão

tentar lavá-lo: só ficou patente.
Mais áspera, a barba ainda nos rostos:
o zelador da morgue tem seus gostos;

nem os de boca aberta lhe dão náuseas.
Com olhos revirados sob as pálpebras,
os mortos veem-se agora interiormente.

R. M. Rilke

Morgue

Da liegen sie bereit, als ob es gälte,
nachträglich eine Handlung zu erfinden,
die mit einander und mit dieser Kälte
sie zu versöhnen weiss und zu verbinden;

denn das ist alles noch wie ohne Schluss.
Wasfür ein Name hätte in den Taschen
sich finden sollen? An dem Überdruss
um ihren Mund hat man herumgewaschen:

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein.
Die Bärte stehen, noch ein wenig härter,
doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern.
Die Augen haben hinter ihren Lidern
sich umgewandt und schauen jetzt hinein.

[Neue Gedichte — 1º (1907)]
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Hermes Fontes: Estrela d'alva

 
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Vem por aí o Dia... Ó loura Estrela d'Alva,
escudeira do Sol, cuja vanguarda assumes!
Ao teu beijo estelar, a alma se nos ressalva,
e se ofusca a “lanterna azul” dos vaga-lumes...

Pela planície do Ar, que a Noite, em fuga, escalva,
vão-se os astros... Só tu sorris, e te presumes
uma salva geral de palmas, uma salva
de pétalas, de sons, de cores, de perfumes...

Estrela d’Alva, noiva e irmã dos sonhadores!
Taça, onde os olhos vão beber, contra as moléstias,
remédios imortais e purificadores...

Cercam-te, régia noiva, etéreas brumas... veste-as;
véu nupcial que te envia a Terra, expansa em flores,
Pela escada de luz das tuas louras réstias...

MCMIV.
(Apoteoses, pág. 28, 2ª Edição, 1915,
Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro,)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

domingo, 26 de abril de 2026

Fagundes Varela: Noturno*

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Minh'alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh'alma é como a serpente
Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a doida que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro1 que rói-lhe o seio!

Minh'alma é como o rochedo
Donde o abutre e o corvo tredo2
Motejam3 dos vendavais;
Coberto de atros4 matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,
Cantam as aves mimosas
As nênias5 da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo os planetas,
No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E, as asas brancas abrindo,
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! Morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!

Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh'alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!


Notas:
Dos organizadores:
* Poema em versos de sete sílabas (redondilhas maiores);
1. Doença. Câncer;
2. Traiçoeiro;
3. Zombam;
4. Lancinantes;
5. Cantos fúnebres.

Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:

“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.

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Antologia da Poesia Romântica Brasileira (diversos poetas), Organização, Seleção, Notas e Prefácio de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, e Apresentação de Paulo Franchetti, 2008, 1ª edição, Lazuli Editora e Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, concluiu seus estudos do primário e secundário em Angra dos Reis e Petrópolis, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e, depois, na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, dedicou-se à literatura, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1861), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias ([considerado sua obra prima], 1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro (ambos publicações póstumas, 1878 e 1880), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre — França); morreu de alcoolismo.

sábado, 25 de abril de 2026

Jan Wagner: prego

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[traduzido por Douglas Valeriano Pompeu]

mal na parede e já era o centro,
lançava seu raio para fora
dos quintais, campos, celeiro
de nabos, das granjas, da horta

de rabanetes, ficava mais amplo, mondial;
pendurávamos os chapéus, agasalhos
de lá, capa e guarda-chuvas, molduras,
até que o esquecíamos, daquele olhar

duro ainda ali, quando já tínhamos
nos mudado e cidade e casa e rua
já haviam desaparecido lá em cima tão firme,

tão brilhante sobre leste e oeste,
que serviria para navegarmos no escuro
e a velhos marinheiros de consolo.

Jan Wagner

nagel

kaum in der wand, war er die mirte,
schnellte sein radius
über die gärten, felder, rübenmiete
lunaus, die hühnerställe, das radies-

chenbeet, wurde umfassender, mondial:
wir hängten die hüte auf. wir hängten strick-
jacken und rahmen, hängten regenmäntel
und schirme auf, bis wir ihn fast vergaßen, dessen harter blick

noch da sein wird, wenn wir längst ausgezogen
und stadt und haus und straße
verschwunden sind so unbeirrt weit oben,

so glänzend über west und ost,
daß sich im dunkeln navigieren ließe
nach ihm, und alten seefahrern ein trost.
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Jan Wagner: variações sobre tonéis de chuva, edição bilíngue, Tradução e Posfácio de Douglas Valeriano Pompeu, 2019, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Jan Wagner, nascido em 1971, alemão de Hamburgo, concluiu o ensino médio no Stormarnschule, estudou Inglês e Anglística em Hamburgo, Dublin e Berlim, formou-se pela Universität Hamburgam, pelo Trinity College, Dublin, e pela Humboldt-Universität, Berlin, onde concluiu mestrado, é escritor, tradutor, crítico literário e poeta; suas obras: Probebohrung im Himmel. Gedichte (2001), Guerickes Sperling. Gedichte (2004), Achtzehn Pasteten. Gedichte (2007), Die Sandale des Propheten. Beiläufige Prosa. Essays (2011), Regentonnenvariationen. Gedichte (Variações sobre tonéis de chuva, poesias, 2014) e outros títulos; em 2017, em The Art of Topiary, uma seleção de sua obra foi traduzida para o idioma inglês, além disso, há também poemas seus traduzidos para outras línguas; como tradutor, o poeta verteu para o alemão a poesia de Charles Simic, James Tate, Matthew Sweeney e outros; Jan Wagner colabora regularmente no Frankfurter Rundschau e em outros jornais e rádios; premiações: Hamburger Förderpreis für Literatur (2001), Christine-Lavant-Publikumspreis (2003), Mondseer Lyrikpreis (2004), Ernst-Meister-Preis für Lyrik (2005), Arno-Reinfrank-Literaturpreis (2006), Friedrich-Hölderlin-Preis der Universität und der Universitätsstadt Tübingen (2011), Georg-Büchner-Preis (2017) etc.; Jan Wagner e o também poeta Bjöm Kuhligk coeditaram duas antologias de poesia em língua alemã: Lyrik von Jetzt 74 Stimmen (2003) e Lyrik von Jetzt 2 (2008); vive em Berlim.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

joaquim da silva: nanocontos 15, 28, 37, 52, 55 & 63

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15.
noite vinda
multidão de pirilampos reagem em cadeia
começam a piscar
sombras se vão

28.
recolheu-se
peso da idade lhe ia às costas
caramujo era caramujo ficou
tinha uma casa ao menos

37.
idoso caipira já não se acocorava
garimpou tripeça no antiquário
descartou divã

52.
escritor de autoajuda não enganava ninguém:
escrevia e lucrava muito

55.
grave erro não foi desdenhar futuro
querer voltar ao passado foi sua brutal falha

63.
quis rever o ferroviário Sales e seu gramofone
na Turma 29 do Bacelar buscou retrato na parede

[são paulo, jan/fev/mar de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Joachim du Bellay: Se nossa vida é menos do que um dia . . . [soneto]

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[traduzido por Mário Laranjeira]

IV

Se nossa vida é menos do que um dia
No eterno, se o ano que dá a volta
Expulsa cada dia, que não volta,
Se é perecível tudo que se cria,

Que pensas tu, minha alma aprisionada?
Por que te apraz o escuro deste dia,
Se, pra voar à clara moradia,
Às costas tens asa bem emplumada?

Lá, está o bem que o espírito deseja,
Lá, o repousar que todo mundo almeja,
Lá, o amor, lá, o prazer profundo.

Lá, ó minha alma, ao alto céu guiada,
Poderás ter a Idéia revelada
Da beleza que adoro neste mundo.

Joachim du Bellay

Si notre vie est moins qu’une journée . . .

IV

Si notre vie est moins qu’une journée
En l’éternel, si l’an qui faict le tour
Chasse nos jours sans espoir de retour,
Si périssable est toute chose née,

Que songes-tu, mon ame emprisonnée?
Pourquoi te plaît l’obscur de nostre jour,
Si pour voler en un plus clair séjour,
Tu as au dos l’aele bien empanée?

Là, est le bien que tout esprit désire,
Là, le repos que tout le monde aspire,
Là, est l’amour, là, le plaisir encore.

Là, ô mon âme, au plus haut ciel guidée,
Tu y pourras reconnaître l’Idée
De la beauté, qu’en ce monde j’adore.
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Joachim du Bellay (1522 1560), francês de Anjou, comuna de Liré, à época Reino da França, estudou Direito na Université de Poitiers, cursou o Collège de Coqueret, Paris, foi poeta renascentista; tendo ficado órfão muito jovem, foi educado pelo irmão René du Bellay; estudante do Coqueret, conviveu com Pierre de Ronsard [que conhecera desde Poitiers] e outros poetas, e, influenciado por Jean Dorat, professor de grego, foi um dos criadores do grupo literário Brigade que, após a inclusão de mais poetas, se transformou na Pléiade: tinha como objetivo valorizar a produção de textos na língua francesa, os quais devessem ser de qualidade compatível à dos clássicos gregos e latinos; Du Bellay interagiu ativamente na Pléiade e escreveu o Manifesto do grupo, La Défense et illustration de la langue française; entre 1553-1557 o poeta viveu em Roma, acompanhou seu primo Jean du Bellay que havia se tornado cardeal, tendo dele recebido a incumbência de administrar as despesas da casa cardinalícia, “desapontou-se, foi absorvido pelas intrigas da corte papal, envolveu-se diretamente em eventos diplomáticos entre França e Itália”, escreveu Les Regrets obra na qual explicitou críticas à vida romana e seu desejo de retornar à Anjou francesa e Les Antiquités de Rome; suas obras: A Defesa da Ilustração da Língua Francesa (manifesto, La Défense et illustration de la langue française, 1549), A Oliveira (L’Olive [anagrama de Viole, referência e louvor à Mademoiselle de Viole], 1549), Versos Líricos (Vers lyriques, 1549), Vários jogos rústicos e outras obras poéticas (Divers Jeux Rustiques et autres œuvres poétiques, 1558); Os Lamentos (coleção de sonetos, Les Regrets, 1558), As Antiguidades de Roma (Les Antiquités de Rome, 1558), La nouvelle manière de faire son profit des Lettres (1559), O Poeta Cortesão (Le Poète courtisan, 1559) e outros títulos; nas duas últimas obras citadas, poemas de teor satírico, Du Bellay fez uso do pseudônimo J. Quentil du Troussay; em 1552, o poeta traduziu para o francês o Quarto Livro de Eneida (Le Quatriesme Livre de l'Eneide), de Virgilio; teve poemas musicados por vários compositores.