Em 21 de março de 1965, Iperó, que deixara de ser distrito de Boituva, passaria a ter um governo recém-nascido com prefeito e vereadores da própria cidade. Para mim, não era uma cidade qualquer. Não foi e não é uma cidade qualquer.
Em junho de 1963, meu pai — Paulino Ferreira — fora removido da Turma 34 (Itapeva) para a Turma 1 (km 141 da EFS, início do ex-Ramal de Itararé). Pai, mãe e irmãos, vivíamos e continuaríamos vivendo por um bom tempo à beira da linha do trem. Íamos à vila só quando necessário, fosse pra fazer alguma compra no comércio, para ir à missa, ao futebol, a alguma festa ou desfile em data comemorativa. A ida à escola, porém, era compulsória de segunda a sexta. Estudei o quinto ano do antigo grupo escolar (segundo semestre de 1963) no “Gaspar”, àquela época ali só havia o ensino primário. Mas foi lá também que, em 1969, estudei a quarta série do ginásio. E, entre 1964 e 1968, estudei séries ginasiais no Mário Vercellino, em Boituva. Interrompendo-se o ginásio, fiz o Curso de Telegrafista, em outro “Gaspar”, escola técnica da ferrovia, em Sorocaba. Sabemos que no ensino educacional de hoje, primário e ginásio se fundiram e compõem os nove anos do fundamental. Meus irmãos e irmãs, em diferentes momentos, também passaram por essa rotina.
Continuando as reminiscências, foi em 67 ou 68 que deixamos a Turma 1 e fomos morar na cidade. Qualquer dia eu conto esta história da saída da Turma 1. Dá uma novela ou quase um conto... de terror.
Viemos pra Vila Moraes (era nome oficial?), moramos por dois ou três meses de aluguel na Rua Constantino Pastini, próximo da confluência com a hoje Avenida Paulo Antunes Moreira; depois, meu pai construiu a casa, em dois lotes adquiridos na antiga Rua Dois (Rua Aparecida?), atual Rua José de Moraes, 222. Ali moramos por um bom tempo, em casa com poço dentro da cozinha, inicialmente sem reboco, sem vidros em janelas, sem forro no teto. Também cheguei a construir uma casa, no fim da década de 70, junto ao trevo de saída para Bacaetava/Sorocaba e Tatuí. Quanto às casas, tanto a alugada quanto as adquiridas e depois vendidas, ainda estão lá, com modificações. No entanto, das residências da Turma 1, que pertenciam à EFS, não há nem vestígio. Tenho fotos dos locais.
Para aquela criança de calças curtas e para todas as crianças, dois ou três anos a mais ou a menos com relação à idade de outros guris ou gurias, pareciam ser quilômetros a serem percorridos e quase que intransponíveis nas relações de amizade e de brincadeiras com os demais coleguinhas. Daquele tempo, eu que tinha onze anos, me recordo da “Escola Gaspar”, onde fiz o quinto ano do Grupo Escolar. E me lembro do professor Benvindo Jacob e, da quarta série do ginásio, a recordação é do Paulo Mazulquim, professor de Matemática, da Célia Mioni, professora de Português, do Ipojucan, professor de Artes, e de alguns outros dos quais me fogem os nomes.
Comunitariamente, convivíamos, eu, meus pais e irmãos, com uns poucos moradores da Turma — o Sêo Fernando e Dona Cristina, com os filhos Fião, Tuim; o Seu Ico e Dona Dita (Benedito e Benedita), com os filhos Adão, Gusto e Nenê; com a Dona Detinha, Sêo Gino e filhos, do sítio vizinho à Turma, junto à várzea do outro lado da linha do trem. Vivíamos num ambiente quase que apartado do das pessoas da cidade. Éramos um pouco bichos do mato. Só de vez em quando éramos “visitados” por algum mascate ou um e outro andarilho que perambulava no caminho dos trens.
Como já disse acima, foi após a mudança para a Vila Moraes, que passamos a
conviver com os “da cidade”. A minha ligação forte com Iperó, que se deu
inicialmente com a ferrovia e sua gente (minha gente!), depois fortaleceu-se
muito mais na convivência com a vila, seus lugares e ocasiões, e suas gentes
(minhas gentes!). Tantas coisas passam pela mente: a inauguração da caixa
d’água municipal, na Rua Constantino Pastini; as festas de Santo Antonio e de
Santa Rita e suas procissões, quermesses e leilões; os desfiles e a bandinha
Santa Cecília; a sinuca e discussões sobre futebol no Bar do Santista (que era
palmeirense!), no Bar do Felício e no Bar do Giba, o Copa 70; o carrinho de
doces do Zé Pequeno; as serenatas com o Zé Augusto e outros violonistas e/ou
violeiros; a ida ao “Escadão” ou à plataforma da estação para ver, apreciar (e
conferir!) a chegada e saída dos trens e seus passageiros; os jogos de malha e
de bocha; as ‘composições japonesas’ (trens!), nossas conduções para as escolas
em Boituva e Sorocaba; a convivência nas escolas; o cinema em seu “Barracão”;
os serviços na “cata” de algodão, no corte de cana, nas plantações dos
japoneses Mauri e Kandi, no plantio de gramas na Rodovia Castelo Branco ainda
não inaugurada, no açougue do Zeca Calixto, no escritório contábil do Marcos
Andrade; o futebol (que não joguei, por ser um absoluto perna de pau!) nos
campos do Sorocabana e as peladas nas ruas de terra da Vila Moraes; o estágio
do Curso de Telegrafista, na estação; os vizinhos da Rua Dois (hoje Rua José de
Moraes); os jogos de xadrez na casa do Zé Lopes e do ‘Vanusa’ e irmãos; e
tantas outras situações, gentes e lugares que fizeram parte de minha
infançolescência e que não cabem numa só postagem.
No livro Eu, a ferrovia e o tempo, de Benedicto Peixoto Filho, há a
reprodução de uma foto da turma de ginasianos formandos de 1969. Lá estão,
entre outros, o Peixoto, o Zé Fogaça, o Hélio ‘Saúva’, o Zé Roberto ‘Tiguera’,
as irmãs que tocavam clarina (não me lembro do nome delas), as irmãs Vera e
Márcia Andrade, as ‘georgeoetterenses’ Iraci e Ana Nilce, algumas professoras e
professores, as meninas e meninos de Tatuí, e eu inclusive. Eu tinha esta foto
e a perdi em minhas andanças (este livro do Peixoto me foi emprestado
recentemente pelo Zé Roberto e ainda está comigo, preciso devolvê-lo). Não há
como não recordar do período em que fiz estágio do Curso de CFT (telegrafista!)
na Estação. Fizeram parte disso, como instrutores e monitores, os ferroviários
Osmar, Dito Galvão, Jaime Vilhena, Adilson Nóbrega, Peixoto, Telo, Zé Fogaça e
outros, alguns deles também estavam na turma de formandos de 1969.E como esquecer da minha “fuga” para Osasco, rumo ao Bradesco, meu primeiro registro em carteira, e que para onde também, logo depois, partiram algumas dezenas de iperoenses em busca de emprego? Chegamos até a formar um time de futebol, com titulares e segundões, e de uniforme completo, o CAJU (Clube Atlético Juventude Unida), que teve vida curtíssima. Afinal, eu nunca servi para cartola e muitos dos futebolistas “bradesquianos” já eram jogadores do Sorocabana ou do SACI. Tenho fotos dos times.
Tudo isso me vem em torrentes neste dia em que Iperó está completando seus cinquenta anos de emancipação. As pessoas todas estão vivas. Em Iperó, em outras praças, em minha memória. Mas fica pra amanhã, ou depois, um relato mais organizado e pormenorizado disso tudo.
Um carinho especial ao Hugo, ao Zé Roberto e demais colaboradores e incentivadores desta página * sobre Iperó e suas gentes.
Sintam-se contemplados, também, todos os que não foram citados nominalmente neste texto (e são muitos e muitas!) e que de alguma forma conviveram comigo à época.
Beijos e abraços aos nativos e aos de coração.
Fui.
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro e iperoense de coração.