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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Lili Leitão: Em leilão & Operações do amor

 
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Em leilão

Quando o teu coração, poeta, exibiste
uma vez em leilão, para vendê-lo,
na venda original me garantiste
em suma, que era um coração modelo.

E por isso comprei-o, mas, ao vê-lo,
certifiquei-me de que me iludiste:
teu coração é um coração de gelo,
sem fé, sem crença, sem bondade e triste.

Arrependido estou de o ter comprado,
de ter um beijo meu por ele dado,
não tendo ele o valor sequer de um riso.

Podes levá-lo e devolver-me o beijo,
que neste mundo, onde só mágoas vejo,
de coração sem crença eu não preciso!

— o —

Operações do amor

Quando somos solteiros seduzimos,
Perversamente, as moças enganamos,
E as tolinhas, a quem amar fingimos,
São tantas, tantas, tantas, que somamos.

Quando noivos, porém, depois ficamos,
E levamos a sério o que sentimos,
As mentiras de amor que então pregamos
Muito instintivamente diminuímos.

Quando, casados, com fervor gozamos
Da esposa amada os delicados mimos,
A ventura e o prazer multiplicamos.

E, quando somos pais, enfim, sorrimos;
Numa vida feliz que desfrutamos,
A amizade entre os filhos dividimos.

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Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas brabas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Lili Leitão: Não

 
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Desde que ao mundo fui arremessado,
Meu destino é igual de Sul a Norte;
Um “Não”, somente um “Não” tenho encontrado,
“Não” no amor, “Não” na gaita*, “Não” na sorte.

E assim venho vivendo amargurado,
Maldizendo a vida e bendizendo a morte;
Nascer foi das asneiras a mais forte
Que involuntariamente hei praticado.

Entretanto, esse “Não” que não me deixa,
Essa constante e eterna negativa,
A direta razão de minha queixa,

Esse “Não” que da mente não me sai
É consequência de uma afirmativa,
De um “Sim” que minha mãe deu a meu pai.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página aduz acerca do uso da palavra 'gaita', e seu sentido, no soneto ora apresentado:
          gaita [gíria] = dinheiro, grana, bufunfa, dindin, prata, cascalho, tutu.
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Lili Leitão, o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Luiz Leitão: A cagada*


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“Certa vez para dar uma cagada,
ou por outra, passar um telegrama,
embarafustei por uma reservada
de um Café que eu nem sei como se chama.

Entro e, ao cagar, sorte danada:
num dos papéis sujos de merda e lama
vejo o retrato da mulher amada,
por quem meu peito o coração se inflama.

Nisto, interrompo minha caganeira,
pego o retrato dela e boto na algibeira,
satisfeito, sorrindo e suspirando.

Que porco!  hão de dizer  mas eu protesto.
Porque assim procedendo, no meu gesto,
Provei que gosto dela até cagando.”

[Comida brava]


* Nota da edição: Poema gentilmente recitado de memória por Gentil da Costa Lima.
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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Lili Leitão: 9º Mandamento & Coruja


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9º Mandamento

Que os padres não me passem sarabanda
Por algum pecadinho que eu tiver;
Pois sou cristão de fato, em qualquer banda,
E hei de morrer assim, se Deus quiser.

Dos mandamentos faço propaganda,
Cumpro-os à risca, como a igreja quer,
Principalmente aquele tal que manda
Não desejar do próximo a mulher.

Apesar de um mortal estar sujeito
Às tentações que neste mundo vejo,
As mulheres dos próximos respeito.

Passei, por elas como passa um monge;
Tanto que da mulher que amo e desejo
O marido está longe... muito longe...

— o —

Coruja

Vai-te, coruja, vai-te, mais distante
pousar de mim, noutro qualquer arbusto,
onde eu não possa ouvir este implicante
gargalhar, que me causa horror e susto!

Não queiras perturbar-me; dormir custo,
ouvindo o teu cantar, coruja errante,
Deixa-me em paz, o que te peço é justo,
ave fatal, nojenta e horripilante!

Vai-te coruja, e seja a derradeira
esta vez em que te ouço, ave agoureira
que de pavor o peito meu trespassa...

Muita aversão eu tenho-te, acredita:
tua presença os nervos meus irrita.
Vai-te, ó prenúncio negro da desgraça!

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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica "roda", para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Luiz Leitão: Eu e o relógio


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Sou do relógio muito diferente,
Quer no tamanho, quer na formação:
Se trabalho como ele, diariamente,
É apenas para defender o pão.

Nada tenho comigo, propriamente,
Que se lhe tome por comparação,
Apesar de existir constantemente,
Um tic-tac no meu coração.

Eu sou de carne e ando sem corda, ao passo
Que o relógio que é feito de metais.
Trabalha à custa de uma corda de aço.

Até nisto nós somos desiguais:
Contrario o relógio, nada faço:
Se me dão corda, não trabalho mais...

([tablóide] O Almofadinha}

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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (em parceria com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo (1933) e outras...; com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Lili Leitão: Nosso amor & Meu casório


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Nosso Amor

Foi num colégio público que andamos
juntos outrora, juntos aprendendo,
que muita vez, ingênuos, conversamos,
formosa, e que eu fiquei te conhecendo.

Depois, um dia, alfim, nos separamos
e nisso fomos, flor, ambos crescendo;
e bom tempo passou-se, que passamos
sem te ver, sem me veres, não nos vendo.

Porém, o acaso novamente quis
que nós nos encontrássemos, ó flor...
Bendito acaso, divinal, feliz!

Pois nesse encontro, no mais vivo andor,
foi que promessas lânguidas te fiz
e a roseira floriu do nosso amor!

— o —

Meu casório

Caso-me em breve, está determinado:
Vou deixar de bancar o solteirão.
Já tenho tudo pronto e preparado:
Papéis, igreja, padre e sacristão.

Já comprei uma cama de casado,
Dessas largas, macias, de enxergão,
Um terno almofadinha, bem cintado,
E uma casaca de segunda mão.

Comprei também chupetas, mamadeiras,
Fraldas, touquinhas e outras baboseiras,
Para os bebês que, um dia, Deus me der.

Meu casamento é um caso decidido,
Pois para muito breve ser marido
Só me falta arranjar uma mulher.

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Lili Leitão, O Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello, 1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais, numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, O Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930, caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Lili Leitão: Suíte

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Paro aqui. Tenho o livro terminado.
De continuar a versejar desisto.
Já dei sofrivelmente1 o meu recado.
Neste soneto, agora, ponho o visto.

Peço, entretanto, por amor de Cristo,
Que comigo ninguém fique zangado,
Pois, brevemente, se inda cuidar disto,
Voltarei mais feliz, mais engraçado.

Por esta vez, já chega de chalaça2.
Estou pronto3, e o dinheiro cabuloso4
É o meu maior fornecedor de graça.

Eis o meu derradeiro sonetinho;
Vou tratar de outro ofício mais rendoso:
Meus amáveis leitores, adeusinho...

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Sofrivelmente: de modo sofrível, isto é, que não é bom, mas também não é inteiramente mau; passável, tolerável. (Lili Leitão)
2 Chalaça: dito ou gracejo de mau gosto, escárnio. (idem)
3 Pronto: sem dinheiro. (ibidem)
4 Cabuloso: azarento, importuno, antipático. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

domingo, 26 de maio de 2019

Lili Leitão: Prova dos nove

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Meus amores, primeiro, foram sete,
Sete criaturas divinais, bonitas,
Cada qual mais risonha e mais coquette1:
Três Dulces, uma Isaura e três Anitas.

Mas, depois, Deus mais duas me remete,
Igualmente formosas e catitas2.
Dois peixõezinhos3  Margarida e Odete 
Para um total de nove senhoritas.

Hoje, tudo acabado, é finda a festa:
Perdi de leão do amor o privilégio,
Pois, dessas nove já nem uma resta.

Fiquei só, recordando-me a tabuada,
Como um simples aluno de colégio;
“sete e dois, nove; noves fora, nada”.

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Notas de Luiz Antonio Barros:
Coquette: palavra francesa que se refere à pessoa, especialmente do sexo feminino, que procura despertar admiração, geralmente apenas pelo prazer de seduzir; diz-se também de pessoa leviana, inconstante; coquete. (Lili Leitão)
Catita: bonita, atraente, bem-vestida. (idem)
Peixãozinho: diminutivo de peixão: mulher bonita e de corpo exuberante. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Lili Leitão: Uma tragédia

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Sonhei... Leitores, que calamidade!
Foi numa noite tétrica, chuvosa.
Sonhei que o Diabo  o gênio da maldade 
Tinha me transformado em melindrosa*.

Imaginem que horror! Eu, nesta idade,
Passar a ser uma mulher dengosa...
Mudar de sexo... E a originalidade
É que, no sonho, eu me chamava Rosa...

E era noiva de um gajo magro e feio,
Que só de pernas tinha metro e meio,
De um rapaz antipático, medonho!

Felizmente, acordei de tal suplício,
Livrei-me a tempo do meu sacrifício.
Que medo eu tive de casar-me em sonho!

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* Nota da edição: Melindrosa: nos anos 1920, mulher que se distinguia por estar sempre no rigor da moda e possuir maneiras tão gráceis quanto afetadas; o traje característico dessa mulher, de cintura baixa e longas franjas, muito usado como fantasia no carnaval ou em festas de época. (Houaiss)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A CapitalJornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Lili Leitão As fitas

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Vai-se a primeira fita1 comovente
Vai-se outra mais... mais outra... e muitas fitas
Vão-se, fitas alegres, esquisitas,
Apenas desce a tarde lentamente.

E, depois do programa surpreendente,
Noutra sessão, mais tarde, elas, catitas2,
Da Pathé, Paramount, Metro, bonitas,
Voltam todas à tela novamente.

Também dos nossos bolsos, retinindo,
Vão-se os níqueis magríssimos sumindo
Como do quadro as fitas colossais.

Nas trevas da gaveta o timbre soltam,
Fogem. Noutra sessão as fitas voltam,
E esses níqueis, aos bolsos, nunca mais!

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Fita: filme cinematográfico (Aulete)
2 Catita: que se veste bem ou que tem modos graciosos, elegante. (idem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A CapitalJornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Lili Leitão: Ouvir estrelas

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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o juízo.” E eu vos direi, senhores,
Que, para ouvi-las, trago o bolso aberto
E às facadas1 me exponho dos atores.

E as ouço, alegre, das ribaltas perto,
Enquanto a turma dos conquistadores,
Estrila2. E, finda a peça, ativo, esperto,
Inda as procuro pelos bastidores.

Direis agora: “refinado trouxa,
Que conversa com elas tão brejeiro3
O que te dizem na conversa roxa4?"

Eu vos direi: “Gastai para entendê-las,
Pois só quem gasta o burro5 do dinheiro
É que pode, de fato, ouvir estrelas”...

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Facada: pedido de dinheiro, muitas vezes sob falsa promessa de restituição (Lili Leitão)
2 Estrilar: zangar-se por algum motivo, exaltar-se. (Houaiss)
3 Brejeiro: brincalhão, gozador; quem tem como características a graciosidade, a simpatia, a vivacidade e, por vezes, certa malícia coquete (idem)
4 Roxo: com muita liberdade ou intimidade (idem)
5 Burro ou burra: caixa geralmente de madeira em que se guardavam e/ou transportavam coisas diversas, especialmente valores, dinheiro etc.; cofre; encher a burra é ganhar muito dinheiro; gastar o burro do dinheiro é gastar muito (idem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização, Apresentação e Introdução de Luiz Antonio Barros, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua  (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917),  Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.