____________________
Em leilão
Quando o
teu coração, poeta, exibiste
uma vez
em leilão, para vendê-lo,
na venda
original me garantiste
em suma,
que era um coração modelo.
E por
isso comprei-o, mas, ao vê-lo,
certifiquei-me
de que me iludiste:
teu
coração é um coração de gelo,
sem fé,
sem crença, sem bondade e triste.
Arrependido
estou de o ter comprado,
de ter um
beijo meu por ele dado,
não tendo
ele o valor sequer de um riso.
Podes levá-lo
e devolver-me o beijo,
que neste
mundo, onde só mágoas vejo,
de
coração sem crença eu não preciso!
— o
—
Operações do amor
Quando
somos solteiros seduzimos,
Perversamente,
as moças enganamos,
E as
tolinhas, a quem amar fingimos,
São
tantas, tantas, tantas, que somamos.
Quando
noivos, porém, depois ficamos,
E levamos
a sério o que sentimos,
As
mentiras de amor que então pregamos
Muito
instintivamente diminuímos.
Quando,
casados, com fervor gozamos
Da esposa
amada os delicados mimos,
A ventura
e o prazer multiplicamos.
E, quando
somos pais, enfim, sorrimos;
Numa vida
feliz que desfrutamos,
A amizade
entre os filhos dividimos.
____________________
Lili Leitão,
o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de
Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello,
1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 — 1936),
mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal,
foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes
do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais,
numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais
liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre
os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense,
muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas
do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria
com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu
peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima
de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas
de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes
(1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930,
caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo
(1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres,
o poeta-humorista reuniu em Comidas brabas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos
recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.








