____________________
[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]
L
42
A filosofia é a verdadeira pátria da ironia, que se poderia definir como beleza
lógica: pois sempre que não se filosofa de maneira inteiramente sistemática,
seja em linguagem escrita ou falada, devemos exigir a ironia e aceitá-la; mesmo
os estóicos consideravam a urbanidade uma virtude. É verdade que existe também
uma ironia retórica, que produz excelente efeito quando empregada com parcimônia,
especialmente na polêmica; mas ela está para a sublime urbanidade da musa
socrática assim como o fausto da mais brilhante retórica está para uma antiga
tragédia em grande estilo. Somente a poesia consegue elevar-se desse plano até
a altura da filosofia e não é fundada em bases irônicas, como a retórica.
Existem poemas antigos e modernos que respiram inteiramente, em todas as suas
partes, do divino sopro da ironia. Neles vive uma bufonaria realmente
transcendental. No interior, a disposição que tudo abrange e se eleva
infinitamente para além de todo o condicionamento, para além até mesmo de sua
própria arte, virtude ou genialidade; no exterior, na execução, o estilo mímico
de um bufão italiano competente.*
L
42
Die Philosophie ist die eigentliche Heimat der Ironie, welche man logische
Schönheit definieren möchte: denn überall wo in mündlichen oder geschriebenen
Gesprächen, und nur nicht ganz systematisch philosophiert wird, soll man Ironie
leisten und fordern; und sogar die Stoiker hielten die Urbanität für eine
Tugend. Freilich gibts auch eine rhetorische Ironie, welche sparsam gebraucht
vortreffliche Wirkung tut, besonders im Polemischen; doch ist sie gegen die
erhabne Urbanität der sokratischen Muse, was die Pracht der glänzendsten
Kunstrede gegen eine alte Tragödie in hohem Styl. Die Poesie allein kann sich
auch von dieser Seite bis zur Höhe der Philosophie erheben, und ist nicht auf
ironische Stellen begründet, wie die Rhetorik. Es gibt alte und moderne
Gedichte, die durchgängig im Ganzen und überall den göttlichen Hauch der Ironie
atmen. Es lebt in ihnen eine wirklich transzendentale Buffonerie. Im Innern,
die Stimmung, welche alles übersieht, und sich über alles Bedingte unendlich
erhebt, auch über eigne Kunst, Tugend, oder Genialität: im Äußern, in der
Ausführung die mimische Manier eines gewöhnlichen guten italiänischen Buffo.
(Kritische
Fragmente, [Lyceums-Fragmente])
* Nota do tradutor
Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher
[1768 —1834].
____________________
Schlegel — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos,
Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em
edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen,
1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich
von Schlegel (1772 — 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig,
foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador,
tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte
(Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel
(August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a
publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação
de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros
impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische
Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die
Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der
Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História
da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.
