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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Schlegel: A filosofia é a verdadeira pátria da ironia, . . . [fragmento] L 42

 
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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 42 A filosofia é a verdadeira pátria da ironia, que se poderia definir como beleza lógica: pois sempre que não se filosofa de maneira inteiramente sistemática, seja em linguagem escrita ou falada, devemos exigir a ironia e aceitá-la; mesmo os estóicos consideravam a urbanidade uma virtude. É verdade que existe também uma ironia retórica, que produz excelente efeito quando empregada com parcimônia, especialmente na polêmica; mas ela está para a sublime urbanidade da musa socrática assim como o fausto da mais brilhante retórica está para uma antiga tragédia em grande estilo. Somente a poesia consegue elevar-se desse plano até a altura da filosofia e não é fundada em bases irônicas, como a retórica. Existem poemas antigos e modernos que respiram inteiramente, em todas as suas partes, do divino sopro da ironia. Neles vive uma bufonaria realmente transcendental. No interior, a disposição que tudo abrange e se eleva infinitamente para além de todo o condicionamento, para além até mesmo de sua própria arte, virtude ou genialidade; no exterior, na execução, o estilo mímico de um bufão italiano competente.*

Friedrich Schlegel

          L 42 Die Philosophie ist die eigentliche Heimat der Ironie, welche man logische Schönheit definieren möchte: denn überall wo in mündlichen oder geschriebenen Gesprächen, und nur nicht ganz systematisch philosophiert wird, soll man Ironie leisten und fordern; und sogar die Stoiker hielten die Urbanität für eine Tugend. Freilich gibts auch eine rhetorische Ironie, welche sparsam gebraucht vortreffliche Wirkung tut, besonders im Polemischen; doch ist sie gegen die erhabne Urbanität der sokratischen Muse, was die Pracht der glänzendsten Kunstrede gegen eine alte Tragödie in hohem Styl. Die Poesie allein kann sich auch von dieser Seite bis zur Höhe der Philosophie erheben, und ist nicht auf ironische Stellen begründet, wie die Rhetorik. Es gibt alte und moderne Gedichte, die durchgängig im Ganzen und überall den göttlichen Hauch der Ironie atmen. Es lebt in ihnen eine wirklich transzendentale Buffonerie. Im Innern, die Stimmung, welche alles übersieht, und sich über alles Bedingte unendlich erhebt, auch über eigne Kunst, Tugend, oder Genialität: im Äußern, in der Ausführung die mimische Manier eines gewöhnlichen guten italiänischen Buffo.

(Kritische Fragmente, [Lyceums-Fragmente])

Friedrich Schlegel

* Nota do tradutor Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher [1768 —1834].
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Schlegel: Todo autor honesto escreve para todos ou para ninguém. [frag.] L 85 & outros fragmentos


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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 47 Quem quer algo de infinito não sabe o que quer. Mas não se pode inverter a afirmação.
          L 55 Um homem autenticamente livre e cultivado teria de poder se afinar à vontade com o filosófico ou o filológico, o crítico ou o poético, o histórico ou o retórico, o antigo ou o moderno, de maneira totalmente arbitrária, como se afina um instrumento, em qualquer tempo e em qualquer grau.
          L 61 A rigor, o conceito de um poema científico é tão contraditório quanto o de uma ciência poética.
          L 73 O que de hábito se perde em traduções boas, ou mesmo ótimas, é justamente o melhor.*
          L 75 Notas são epigramas filológicos; traduções são mímicas filológicas; muitos comentários, em que o texto é apenas o não–eu, um pretexto inicial, são idílios filológicos.
          L 85 Todo autor honesto escreve para todos ou para ninguém. Quem escreve para que este ou aquele o leia merece não ser lido.

Friedrich Schlegel

          L 47 Wer etwas Unendliches will, der weiß nicht was er will. Aber umkehren läßt sich dieser Satz nicht.
          L 55 Ein recht freier und gebildeter Mensch müßte sich selbst nach Belieben philosophisch oder philologisch, kritisch oder poetisch, historisch oder rhetorisch, antik oder modern stimmen können, ganz willkürlich, wie man ein Instrument stimmt, zu jeder Zeit, und in jedem Grade.
          L 61 Streng genommen ist der Begriff eines wissenschaftlichen Gedichts wohl so widersinnig, wie der einer dichterischen Wissenschaft.
          L 73 Was in gewöhnlichen guten oder vortrefflichen Übersetzungen verloren geht, ist grade das Beste.
          L 75 Noten sind philologische Epigramme; Übersetzungen philologische Mimen; manche Kommentare, wo der Text nur Anstoß oder Nicht-Ich ist, philologische Idyllen.
          L 85 Jeder rechtliche Autor schreibt für niemand, oder für alle. Wer schreibt, damit ihn diese und jene lesen mögen, verdient, daß er nicht gelesen werde.

* Nota do tradutor Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher [1768 —1834].
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Schlegel: Os romanos sabiam que a espirituosidade é uma faculdade profética; eles a chamavam de faro. [frag.] L 126 & outros fragmentos


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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 98 Os princípios universalmente válidos da comunicação literária são os seguintes: 1) devemos ter algo que precise ser comunicado; 2) devemos ter alguém a quem possamos comunicá-lo; 3) devemos realmente comunicar, partilhá-lo com esse alguém, e não apenas exprimir-nos a nós mesmos. Do contrário seria preferível calar.
          L 100 A poesia de um é chamada filosófica; a de outro, filológica; a de um terceiro, retórica, e assim por diante. Qual é, afinal, a poesia poética?
          L 101 A afetação nasce não tanto do esforço para ser novo quanto do receio de ser velho.*
          L 102 A vontade de tudo julgar é um grande deslize: ou um pequeno pecado.
          L 117 Poesia só pode ser criticada por poesia. Um juízo artístico que não é, ele próprio, uma obra de arte, seja em seu tema, enquanto exposição da impressão necessária em seu devir, seja por meio de uma bela forma e um tom liberal no espírito das velhas sátiras romanas, não tem, em absoluto, direito de cidadania no reino da arte.
          L 126 Os romanos sabiam que a espirituosidade é uma faculdade profética; eles a chamavam de faro.

Friedrich Schlegel

          L 98 Folgendes sind allgemeingültige Grundgesetze der schriftstellerischen Mitteilung: 1) Man muß etwas haben, was mitgeteilt werden soll; 2) man muß jemand haben, dem man's mitteilen wollen darf; 3) man muß es wirklich mitteilen, mit ihm teilen können, nicht bloß sich äußern, allein; sonst wäre es treffender, zu schweigen.
          L 100 Die Poesie des einen heißt die philosophische; die des andern die philologische; die des dritten die rhetorische, u.s.w. Welches ist denn nun die poetische Poesie?
          L 101 Affektation entspringt nicht so wohl aus dem Bestreben, neu, als aus der Furcht, alt zu sein.
          L 102 Alles beurteilen zu wollen, ist eine große Verirrung oder eine kleine Sünde.
          L 117 Poesie kann nur durch Poesie kritisiert werden. Ein Kunsturteil, welches nicht selbst ein Kunstwerk ist, entweder im Stoff, als Darstellung des notwendigen Eindrucks in seinem Werden, oder durch eine schöne Form, und einen im Geist der alten römischen Satire liberalen Ton, hat gar kein Bürgerrecht im Reiche der Kunst.
          L 126 Die Römer wußten, daß der Witz ein prophetisches Vermögen ist; sie nannten ihn Nase.

* Nota do tradutor Victor-Pierre Stirnimann: Fragmento atribuído a [Friedrich] Schleiermacher [1768 —1834].
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Schlegel: Um crítico é um leitor que rumina. [frag.] L 27 & outros fragmentos

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[traduzido por Victor-Pierre Stirnimann]

          L 4 Há tanta poesia, e no entanto nada é mais raro que um poema! E isto inclui a enorme quantidade de esboços poéticos, estudos, fragmentos, tendências, ruínas e materiais.
          L 9 Espirituosidade é espírito social incondicionado ou gênio fragmentário.
          L 12 Naquilo que chamamos de filosofia da arte costuma faltar um dos dois: a filosofia ou a arte.
          L 21 Assim como uma criança é na verdade alguém que se tornará um homem, um poema é apenas um produto da natureza que se tornará obra de arte.
          L 23 Em todo bom poema é preciso que tudo seja intenção e tudo instinto. Por isso ele se torna ideal.
          L 26 Os romances são os diálogos socráticos de nosso tempo. Nesta forma liberal a sabedoria de vida refugiou-se da sabedoria escolar.
          L 27 Um crítico é um leitor que rumina. Ele deve, portanto, ter mais de um estômago.

Friedrich Schlegel

          L 4 Es gibt so viel Poesie, und doch ist nichts seltner als ein Poem! Das macht die Menge von poetischen Skizzen, Studien, Fragmenten, Tendenzen, Ruinen, und Materialien.
          L 9 Witz ist unbedingt geselliger Geist, oder fragmentarische Genialität.
          L 12 In dem, was man Philosophie der Kunst nennt, fehlt gewöhnlich eins von beiden; entweder die Philosophie oder die Kunst.
          L 21 Wie ein Kind eigentlich eine Sache ist, die ein Mensch werden will: so ist auch das Gedicht nur ein Naturding, welches ein Kunstwerk werden will.
          L 23 In jedem guten Gedicht muß alles Absicht, und alles Instinkt sein. Dadurch wird es idealisch.
          L 26 Die Romane sind die sokratischen Dialoge unserer Zeit. In diese liberale Form hat sich die Lebensweisheit vor der Schulweisheit geflüchtet.
          L 27 Ein Kritiker ist ein Leser, der wiederkäut. Er sollte also mehr als einen Magen haben.

(Kritische Fragmente, [Lyceums-Fragmente])
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Schlegel  — Conversa sobre a Poesia e outros fragmentos, Tradução, Prefácio e Notas de Victor-Pierre Stirnimann [seleção de fragmentos em edição bilíngue] e Rubens Rodrigues Torres Filho na Apresentação da Biblioteca Pólen, 1994, Biblioteca Pólen / Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel (1772 1829), alemão de Hannover, estudou em Göttingen e Leipzig, foi filósofo, filólogo, professor, escritor, crítico literário e de arte, historiador, tradutor e um dos iniciadores do Romantismo alemão; editou periódicos sobre arte (Europa e Deutsches Museum) e o jornal Concórdia; Em 1798, em Jena, os irmãos Schlegel (August e Friedrich) criaram a revista estético-crítica Athenaeum, considerada a publicação fundadora do Romantismo alemão e através da qual se deu a divulgação de textos dos próprios irmãos Schlegel, de Novalis, de Schleiermacher e de outros impulsionadores do movimento que se iniciava; obras: Über die Diotima (1795), Kritische Fragmente (“Lyceums” Fragmente, 1797), Lucinde (romance, 1799), Gespräch über die Poesie (1800), Alarkos (peça romântica, 1802), Über die Sprache und Weisheit der Indier (1808) Geschichte der alten und neueren Literatur. Vorlesungen (História da literatura antiga e moderna. Palestras, 1815) e outros títulos.