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sábado, 10 de fevereiro de 2024

Ana Cristina Cesar: Psicografia


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Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

[A Teus Pés — 1982]

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Torquato Neto: Cogito

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eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Waly Sailormoon: Jardim de Alá & Livros de contos

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Jardim de Alá

EMBRIAGUEZ/ cesto de caju/ claro de luna/ odor de jasmim/ teto de estrelas.
Recostado nas almofadas, ouve leitura da ata de reunião da célula
Tupinambá guerreiro
Rei da Turquia
Pisa no chão devagar
Que a noite está
que é um dia

EDEN ARABIE

— o —

Livros de contos

Alma emputecida
Sombra esquisita
Se esquiva
Entre
Laços de Família

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Torquato Neto: Agora não se fala mais . . .


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Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cidade
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
não se fala, não é permitido:
mudar da idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

sábado, 30 de setembro de 2023

Waly Sailormoon: Pickwick Tea


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(cenas da vida teresopolitana, petropolitana,
friburguense, itaipavanse)
A mãe comenta o Inferno de Dante.
A moça quinze nos lê o roman La Charteuse de Parma. Fala de Balzac aussi como servindo para descrições de paisagens e ambientes de baile. Narra as aventuras pelo impossível de Candide et Zadig. Thomas Mann na estante. Michelet écolier.

Quand le maître parle j’écoute/ le sac qui pend a mon épaule dit que je suis un bon garçon.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Ana Cristina Cesar: Flores do mais

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devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

sábado, 2 de setembro de 2023

Waly Sailormoon: Emílio ou Da Educação


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Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Torquato Neto: era um pacato cidadão de roupa clara . . .


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era um pacato cidadão de roupa clara
seu terno, sua gravata lhe caíam bem
seu nome, que eu me lembre, era ezequias
casado, vacinado e sem ninguém.
brasileiro e eleitor, seu ezequias
reservista de terceira e com família
três filhos, prestações e alguns livros
(enciclopédias e biografias).
era uma pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
cumpria seus deveres, trabalhava
chegava cedo, em casa de madrugada
lutando pelo pão de cada dia.
era um pacato cidadão de roupa clara
e todo dia passava e me dizia
que o mundo estava andando muito mal
eu perguntava por que, eu perguntava
seu ezequias nunca me explicava
apenas repetia
lá dentro do seu puro tropical
este mundo vai seguindo muito mal
este mundo, meu filho, vai seguindo muito mal.
ah, seu ezequias!
que pena, que desastre, que tragédia
que coisa aconteceu naquele dia
seu ezequias, ah, seu ezequias
saiu do emprego e foi tomar cachaça
e apenas de manhã voltou pra casa
batendo na mulher, xingando os filhos
seu ezequias, ah, seu ezequias
era um pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
e agora é a vergonha da família.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

sábado, 26 de agosto de 2023

Ana Cristina Cesar: Algazarra


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a fala dos bichos
é comprida e fácil:
miados soltos
na campina;
águias
hidráulicas
nas pontes;
na cozinha
a hidra espia
medrosas as cabeças;
enguias engolem
sete redes
saturam de lombrigas
o pomar;
no ostracismo
desorganizo
a zooteca
me faço de engolida
na arena molhada do sal
da criação;
o coração só constrói
decapitado
e mesmo então
os urubus
não comparecem;
no picadeiro seco agora
só patos e cardápios
falam ao público
sangrento
de paixões;
da tribuna
os gatos se levantam
e apontam
o risco
dos fogões.

[Inéditos e Dispersos — 1985]

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Waly Sailormoon: Confeitaria Marseillaise – Doces e Rocamboles


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Caçadas
Experimentados no manejo de armas de fogo 3 filhotes infantes da burguesia empunham arma/ 1 empunha revólver/ 2 empunham espingardas. O aéreo esmaga folhas de eucalipto de encontro ao nariz enquanto de noite sonhei com um batalhão policial me exigindo identificação/ revistaram a maloca do fundo do meu bolso/ mostrei babilaques/ me entreguei descontento pero calmamente/ nada foi encontrado que incriminasse o detido no boletim de averiguações depois de
batido, telex pra todas as delegacias.
Vadiagem.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Geraldo Eduardo Carneiro: Sobre a verdura

 
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os insetos voavam estranhamente
sobre a verdura e a barraca de peixe
permanecia um momento intocada
em seus reflexos de luz e de prata
e você a ver navios percorria
o tormentoso labirinto da feira
se imaginava um conquistador espanhol
que se perdeu no rumo das Índias
e construiu um castelo à beira-mar
vendedores vendedoras ficções sonoras
verdes vegetais como se houvesse
uma deusa sonhadora em cada alface
e os dragões cuspissem fogo e silêncio
emaranhados numa réstia de cebola

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) e Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) e O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira); mais obras literárias: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974), Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias Metafísicas, Por mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) e Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro é acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Geraldo Eduardo Carneiro: Olhos de ressaca

 
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minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) e Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) e O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira); mais obras literárias: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974), Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias Metafísicas, Por mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) e Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro é acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Chacal: o poeta que há em mim . . .

 
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o poeta que há em mim
não é como o escrivão que há em ti
funcionário autárquico

o profeta que há em mim
não é como a cartomante que há em ti
cigana fulana

o panfleta que há em mim
não é como o jornalista que há em ti
matéria paga

o pateta que há em mim
não é como o esteta que há em ti
cana a la kant

o poeta que há em mim
é como o voo no homem pressentido

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Chacal, nascido em 1951, carioca, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, é poeta, cronista, letrista e produtor cultural; literariamente, o poeta, que foi aluno de Comunicação Social da UFRJ, veio à luz com os grupos dos anos 70, denominados Geração Mimeógrafo e Poesia Marginal, e que se esparramavam por Sampa, Rio de Janeiro, Brasília, Bahia, Minas e outras praças; tais grupos se viam esquecidos ou marginalizados pela imprensa, editoras e estudiosos da literatura; Chacal é tido como um dos precursores daquelas gerações; em 1971, em edição mimeografada de cem exemplares, publica seu primeiro livro, Muito Prazer, Ricardo, depois reeditado como Muito Prazer (1997); colaborou com a revista Navilouca, junto aos poetas Waly Salomão e Torquato Neto; escreveu crônicas para os jornais Correio Braziliense, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, foi letrista parceiro de compositores e músicos Jards Macalé, Lulu Santos, Moraes Moreira; obras: Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (crônicas, 1986), Letra Elétrika (1994) Posto Nove (1998), A Vida é curta pra ser pequena (2002), Belvedere (2007), Uma História à margem (romance autobiográfico, 2010), Murundum (2012), Tudo e mais um pouco (2016), Alô, poeta (2016) etc.; o poeta, que também trabalhou com grupos teatrais, escreveu, para eles, Aquela Coisa Toda, Recordações do Futuro ...

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Eudoro Augusto: Exames — & — O visitante

 
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O visitante

Entra de mansinho encosta a porta
sem pressa mas firme fala
farfala deblatera
aperta e solta mas agarra
força a barra
apronta um ouriço
que é isso? que é isso? e sai de fino.

&

O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.

Exames

Na terça chegou assobiando
deu bom-dia
e recebeu de cara a novidade:
esquizofrenia.

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB   Universidade de Brasília, é poeta, jornalista e professor; obras: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília DF); Na década de 70, início de suas publicações, aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.