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sábado, 19 de setembro de 2026

Jarid Arraes: Patas vazias

 
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[cordel livremente inspirado pelo pensamento de Sartre]

Não nasci do meu cordel
Das palavras não surgi
Dessas rimas retorcidas
Que consigo sugerir
Sou um bicho limitado
De sentido putrefato
Que pretende resistir.

Há quem busque pelos mapas
E acredite em previsões
Astros, linhas e pegadas
Destinadas incisões
Pelas páginas sagradas
Orientações regradas
De esotéricas visões.

Ou ainda busca norte
Na indulgência do divino
No perdão que se oferece
Ao menor dos desatinos
Os joelhos redobrados
Buscam significado
Pro pecado paulatino.

Mas nascemos da nudez
Da angústia que nos come
E enquanto perguntamos
Um chamado nos consome
Somos todos invocados
Atraídos, intimados
A uma única e só fome.

Condenados a ser livres
E aos quilos suportar
Encarar-se enquanto fera
Que tenciona se domar
Toda escolha consumada
Vira a face admirada
E tentada a rejeitar.

Porém, digo, como bicho
Que a verdade também temo
Procurando outros meios
Para um fim bem mais extremo
Escolhendo a solidão
Turvo a mira da visão
Encolhida, então, eu gemo.

Não existe uma mentira
Menos tola de se crer
Todo fim é o mesmo meio
Para o inteiro se perder
Toda estrada é ribanceira
Toda mente é traiçoeira
Se acredita se abster.

Vim vazia de essência
Como toda viva gente
Provocada a procurar
A escusa da tangente
Um buraco a preencher
Um pretexto a esquecer
Narrativa incoerente.

Não nasci desse cordel
Das palavras que escrevi
Dessas rimas retorcidas
Que eu pude sugerir
Sou um bicho limitado
Mas meu significado
Eu pretendo construir.

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As 29 poetas hoje — Organização de Heloisa Buarque de Hollanda, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres [logo depois se tornou coletivo], realizou encontros periódicos de mulheres incentivando-as para que escrevessem, foi colunista da revista Fórum e colaboradora das páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; a poeta também teve textos e entrevistas publicadas em portais, periódicos e revistas (Folha de São Paulo, Quatro Cinco Um, Caros Amigos, Claudia, Cult, Blooks, revista Parênteses, revista Gueto ...); tem obras traduzidas para os idiomas francês, espanhol, italiano e inglês; suas obras: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018), Redemoinho em dia quente (contos, 2019), Corpo Desfeito (romance, 2022), Cordéis para crianças incríveis (literatura infantil, 2024) além de mais de setenta títulos de livretos de literatura de cordel e também cordéis para o público infantil; Jarid Arraes teve seu livro As Lendas de Dandara traduzido para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018); recebeu premiações, entre as quais o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte — categoria contos e crônicas, pelo  livro Redemoinho em dia quente (contos, 2019).

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Luiza Romão: cassandra

 
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entenda, sis anunciar a desgraça
não é o mesmo que remediá-la
primeiro você dirá está podre
depois com perícia
raspará da casca a polpa gosmenta
o chorume se espalha
há fungos pré-históricos
há fungos abençoados
está podre repetirá didática

eles continuarão a palitar os dedos do pé

talvez você chore talvez arranque
do púbis ao queixo todos os pelos
uma mulher carbonizada no meio da avenida
talvez mostre relatórios do ibama
a fotografia aérea de crianças vietnamitas
fatos antes incontestáveis
fatos antes never more

eles continuarão a palitar os dedos dos pés

talvez te chamem de louca ou naive
são incontáveis as formas de rebaixar uma mulher
what? você tá falando grego
está podre seus seios em chama
ainda assim
eles se lambuzarão

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As 29 poetas hoje — Organização de Heloisa Buarque de Hollanda, 1ª edição, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Luiza Romão, nascida em 1992, paulista de Ribeirão Preto, formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e pela Escola de Arte Dramática — EAD ECA-USP, e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pesquisa sobre o SLAM no Brasil, é atriz, diretora de teatro, arte-educadora, poeta e slammer*; por seus traços biográficos, ficamos sabendo que a poeta “pesquisa as fricções entre a palavra e o cinema, dirigindo e atuando nos projetos Revide (2016) e Sangria (2017)”; suas obras: Koketel Motolove (2014), Sangria, edição bilíngue português-espanhol (2017), Também guardamos pedras aqui (poesia, 2021), Nadine (história de detetive narrada em versos, 2022); a poeta tem participação e é referência nos SLAMs da Guilhermina, apresentações poético-performáticas realizadas na ZL em sampa, junto à estação do metrô Guilhermina — Esperança; criou mais de quinze vídeopoemas, explorando a linguagem do spoken word; foi laureada com o Prêmio Jabuti de poesia, versão 2022, pela obra Também guardamos pedras aqui.

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa — [10 poetas & 30 poemas]; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Jarid Arraes: vocação

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um corpo que carrega
um útero
é submetido ao decreto
da incondicionalidade
é submetido ao destino
de um útero

os grandes sacerdotes
e os pequenos
as figuras de autoridade
como as telas
como os corredores brancos
todos ensinam
o percurso do útero

que haja vida
porque um útero crescido
— às vezes nem tanto
deve fazer brotar vida
pernas braços olhos
espírito

um corpo que carrega
um útero
precisa de um espírito
que o preencha
o espírito forçado entre as pernas
enfiado enfiado enfiado
obrigatório

um útero é um sarcófago
de uma mulher
é a máquina
inquebrantável
de uma mulher

uma mulher é um útero
que carrega algo
há dias em que gente
há dias em que chumbo

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As 29 poetas hoje — Organização de Heloisa Buarque de Hollanda, 1ª edição, 1ª reimpressão, 2021, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres [logo depois se tornou coletivo], realizou encontros periódicos de mulheres incentivando-as para que escrevessem, foi colunista da revista Fórum e colaboradora das páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; a poeta também teve textos e entrevistas publicadas em portais, periódicos e revistas (Folha de São Paulo, Quatro Cinco Um, Caros Amigos, Claudia, Cult, Blooks, revista Parênteses, revista Gueto ...); tem obras traduzidas para os idiomas francês, espanhol, italiano e inglês; suas obras: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018), Redemoinho em dia quente (contos, 2019), Corpo Desfeito (romance, 2022), Cordéis para crianças incríveis (literatura infantil, 2024) além de mais de setenta títulos de livretos de literatura de cordel e também cordéis para o público infantil; Jarid Arraes teve seu livro As Lendas de Dandara traduzido para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018); recebeu premiações, entre as quais o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte — categoria contos e crônicas, pelo  livro Redemoinho em dia quente (contos, 2019).

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Ana Cristina Cesar: Psicografia


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Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

[A Teus Pés — 1982]

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 — 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo — também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Torquato Neto: Cogito

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eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 — 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro — RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Waly Sailormoon: Jardim de Alá & Livros de contos

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Jardim de Alá

EMBRIAGUEZ/ cesto de caju/ claro de luna/ odor de jasmim/ teto de estrelas.
Recostado nas almofadas, ouve leitura da ata de reunião da célula
Tupinambá guerreiro
Rei da Turquia
Pisa no chão devagar
Que a noite está
que é um dia

EDEN — ARABIE

— o —

Livros de contos

Alma emputecida
Sombra esquisita
Se esquiva
Entre
Laços de Família

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 — 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Torquato Neto: Agora não se fala mais . . .


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Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cidade
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
não se fala, não é permitido:
mudar da idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 — 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro — RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

sábado, 30 de setembro de 2023

Waly Sailormoon: Pickwick Tea


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(cenas da vida teresopolitana, petropolitana,
friburguense, itaipavanse)
A mãe comenta o Inferno de Dante.
A moça quinze nos lê o roman La Charteuse de Parma. Fala de Balzac aussi como servindo para descrições de paisagens e ambientes de baile. Narra as aventuras pelo impossível de Candide et Zadig. Thomas Mann na estante. Michelet écolier.

Quand le maître parle j’écoute/ le sac qui pend a mon épaule dit que je suis un bon garçon.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 — 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Ana Cristina Cesar: Flores do mais

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devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 — 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo — também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

sábado, 2 de setembro de 2023

Waly Sailormoon: Emílio ou Da Educação


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Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 — 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Torquato Neto: era um pacato cidadão de roupa clara . . .


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era um pacato cidadão de roupa clara
seu terno, sua gravata lhe caíam bem
seu nome, que eu me lembre, era ezequias
casado, vacinado e sem ninguém.
brasileiro e eleitor, seu ezequias
reservista de terceira e com família
três filhos, prestações e alguns livros
(enciclopédias e biografias).
era uma pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
cumpria seus deveres, trabalhava
chegava cedo, em casa de madrugada
lutando pelo pão de cada dia.
era um pacato cidadão de roupa clara
e todo dia passava e me dizia
que o mundo estava andando muito mal
eu perguntava por que, eu perguntava
seu ezequias nunca me explicava
apenas repetia
lá dentro do seu puro tropical
este mundo vai seguindo muito mal
este mundo, meu filho, vai seguindo muito mal.
ah, seu ezequias!
que pena, que desastre, que tragédia
que coisa aconteceu naquele dia
seu ezequias, ah, seu ezequias
saiu do emprego e foi tomar cachaça
e apenas de manhã voltou pra casa
batendo na mulher, xingando os filhos
seu ezequias, ah, seu ezequias
era um pacato cidadão de roupa clara
era um homem de bem que eu conhecia
e agora é a vergonha da família.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Torquato Pereira de Araújo Neto (1944 — 1972), piauiense de Teresina, mudando-se para Salvador (BA) aos 16 anos, fez seus estudos secundários no Colégio [marista] Nossa Senhora da Vitória, foi jornalista, poeta, letrista de música popular e participante do movimento de contracultura (tropicalismo, cinema marginal, poesia concreta ...) no Brasil; em 1962, mudando-se para o Rio de Janeiro, estudou jornalismo mas não se formou, trabalhou na imprensa carioca, escreveu sobre cultura nos jornais Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora; em 1973 foi publicado Os últimos dias de paupéria (1ª edição, Livraria Eldorado Tijuca Ltda., Rio de Janeiro — RJ), sua obra póstuma; em 1968, o poeta e letrista Torquato Neto teve participação no LP (long-play, disco de vinil) Tropicalia ou Panis et Circencis (em composições de Gilberto Gil e Caetano Veloso), além de outras parcerias musicais em LPs de Luiz Melodia, Jards Macalé, João Bosco, Sérgio Brito, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Geraldo Azevedo, Paulo Diniz, ...; como ator, participou dos filmes Nosferatu (1970), de Ivan Cardoso, Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (super 8, 1972), de Edemar Oliveira e Carlos Galvão, e também foi diretor, além de ator, do filme Terror da Vermelha (1972); suicidou-se em 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro e abrindo o gás; algum tempo depois, em homenagem póstuma ao poeta piauiense, Caetano Veloso escreveu a canção Cajuína e a incluiu no disco Cinema Transcendental (1979).

sábado, 26 de agosto de 2023

Ana Cristina Cesar: Algazarra


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a fala dos bichos
é comprida e fácil:
miados soltos
na campina;
águias
hidráulicas
nas pontes;
na cozinha
a hidra espia
medrosas as cabeças;
enguias engolem
sete redes
saturam de lombrigas
o pomar;
no ostracismo
desorganizo
a zooteca
me faço de engolida
na arena molhada do sal
da criação;
o coração só constrói
decapitado
e mesmo então
os urubus
não comparecem;
no picadeiro seco agora
só patos e cardápios
falam ao público
sangrento
de paixões;
da tribuna
os gatos se levantam
e apontam
o risco
dos fogões.

[Inéditos e Dispersos — 1985]

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Ana Cristina Cruz Cesar (1952 — 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora, professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade, teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de ingressar na faculdade de Letras, como participante de um programa de intercâmbio estudou na Richmond School for Girls, em Londres; na Inglaterra, também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de Essex, seu segundo mestrado; foi professora do ensino médio e em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985), Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964; suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo — também conhecida como poesia marginal da década de 1970.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Waly Sailormoon: Confeitaria Marseillaise – Doces e Rocamboles


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Caçadas
Experimentados no manejo de armas de fogo 3 filhotes infantes da burguesia empunham arma/ 1 empunha revólver/ 2 empunham espingardas. O aéreo esmaga folhas de eucalipto de encontro ao nariz enquanto de noite sonhei com um batalhão policial me exigindo identificação/ revistaram a maloca do fundo do meu bolso/ mostrei babilaques/ me entreguei descontento pero calmamente/ nada foi encontrado que incriminasse o detido no boletim de averiguações depois de
batido, telex pra todas as delegacias.
Vadiagem.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Waly Sailormoon, pseudônimo de Waly Dias Salomão (1943 — 2003), baiano de Jequié, formado em Direito pela Universidade da Bahia, onde também estudou na Escola de Teatro, cursou inglês na Columbia University in the City of New York, foi poeta, letrista de canções, produtor cultural e participante ativo do movimento tropicalista e da contracultura no Brasil; suas obras: Me segura que eu vou dar um troço (1971), Gigolô de bibelô (1983), Armarinho de miudezas (1993), Algaravias: câmara de ecos (1996), Hélio Oiticica: qual é o parangolé? (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), O Mel do Melhor (2001), Pescados vivos (publicação póstuma, 2004), Poesia total (publicação póstuma, 2014), ...; foi editor de Navilouca — revista de poesia e arte de vanguarda brasileira (junto com Torquato Neto, edição única, 1974) e parceiro musical de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos, e personagem principal do filme Gregório de Matos (2002), de Ana Carolina; recebeu premiações por sua obra (prêmios B. N. L. e Jabuti).