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terça-feira, 12 de agosto de 2025

Manuel António Pina: Na morte de Mao

 
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De onde vêm as lágrimas justas, o cansaço
de Wang Hai-jung durante as reuniões de domingo?
A guerra gera as coisas boas,
a pura paz espera os soldados.

As lágrimas caem do céu? Não.
Quando acaba a contradição entram em casa a morte,
as flores, as lágrimas das mulheres.
Aquele que morreu não o saberá nunca.

A morte é propriedade dos vivos,
aquele que morreu já não vive nem está morto.
O processo antigo está terminado e inicia-se o novo:
movimento mecânico, som, luz, calor, electricidade, decomposição,
combinação, etc.

9 de setembro de 1976
Slim da Silva [heterônimo do poeta]
(Aquele que quer morrer — 1978)

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção, Organização e Posfácio de Leonardo Gandolfi e Apresentação [orelha da capa] de Tarso de Melo, 1ª edição, 2018, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, no Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; também colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; suas obras: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Dito em voz alta (coletânea de entrevistas concedidas pelo poeta, 2007), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), Crónica, saudade da literatura (antologia, publicação póstuma, 2013), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Manuel António Pina: Já não é possível

 
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Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem?
Todas as coisas são perfeitas de
nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito: a mais e a menos.

(Ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde — 1974)

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Apresentação [orelha da capa] de Tarso de Melo e Seleção e Posfácio de Leonardo Gandolfi, 1ª edição, 2018, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, no Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; também colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; suas obras: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crônicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Anantes (1974), O inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Alberto Pucheu: É preciso aprender a ficar submerso

Cult | Antologia Poética #2
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É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o voluntarioso vulcão de água,
arremesse você de volta para fora dele.

Alberto Pucheu
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Cult Antologia Poética, Ano 1, Nº 2, Novembro de 2019, Curadoria e Edição de Tarso de Melo, Editora Bregantini / Revista Cult, São Paulo SP; Alberto Pucheu, carioca, nascido em 1966, com graduação e mestrado em Filosofia, doutorado em Ciência da Literatura e pós-doutorado em Artes, todas pela UFRJ, é poeta, ensaísta, crítico de arte e professor de Teoria Literária; bibliografia: em poesia, Na cidade aberta (1993), Escritos da freqüentação (1995), A fronteira desguarnecida (1997), Ecometria do silêncio (1999), A vida é assim (2001), Escritos da indiscernibilidade (2003), Mais cotidiano que o cotidiano (2013), ensaios, Pelo colorido, para além do cinzento (vencedor do Prêmio Mario de Andrade na categoria ensaio, 2007), Giorgio Agambem: poesia, filosofia, crítica (2010), O Amante da literatura (2010), Antonio Cicero por Alberto Pucheu (2010), A Poesia Contemporânea (2014,  e outros, além de ter atuado na organização de outras obras, tais como Poesia(e)Filosofia: por poetas-filósofos em atuação no Brasil (1985); traduziu Rabindranah Tagore (O Coração de Deus poemas místicos).