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sábado, 9 de abril de 2022

Eduardo de Oliveira: Mensagem

 
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Quero ouvir a linguagem
da fraternidade universal.
Quero auroras de bonança
e manhãs de paz embalando
a comunhão de todas as raças.

O mundo deve ser uma família só,
uma grande família feita só de irmãos
onde todos se completem
no trabalho bom e fecundo
como uma árvore carregada de frutos
— frutos que devem ser divididos entre
todos os seres da terra.

É mister que saibamos
encarar as desigualdades físicas.
Como um plano de justiça que a natureza
oferece aos homens.
Nem a cor
nem a desigualdade social
devem ser pretexto
para que os homens se atirem contra os homens.

Saibamos afastar as fronteiras,
as possessões, os passaportes,
as diferenças idiomáticas
o câmbio, o ouro
que tornaram o mundo mesquinho e insuportável.

A terra é farta
e vasta como um firmamento.
Nela há lugar para todos viverem
satisfeitos e tranquilos.
Devemos ser a todo transe
uma atitude de amor e
compreensão atuando acima
das dissenções
do utilitarismo sem entranhas
que tanto infelicitam a humanidade.

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Banzo — poesias: Eduardo de Oliveira, Apresentação e Prefácio [Duas palavras] de Roberto de Paula Leite e Paulo Bomfim, 2ª edição melhorada, 1965, Editora Obelisco, São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

sábado, 20 de novembro de 2021

Eduardo de Oliveira: Cidade de amianto

 
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Sob esta selva de cimento armado
que floresceu no topo do planalto,
a vida se alimenta desse asfalto,
que são manchas de sangue coagulado.

Neste imenso deserto arquitetado
pelo progresso que nos leva ao alto
dos edifícios  esse novo arauto 
o homem fica artificializado.

Esse novo universo é como a pedra
É mister que se tenham nervos de aço
para fogar no bem o mal que medra.

Nessa cidade feita de sarjetas,
de esgotos e fuligens pelo espaço...
o luto envolve tudo em tarjas pretas.

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Banzo — poesias: Eduardo de Oliveira, Apresentação e Prefácio [Duas palavras] de Roberto de Paula Leite e Paulo Bomfim, 2ª edição melhorada, 1965, Editora Obelisco, São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Eduardo de Oliveira: Avenida dos Tristes

 
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As rosas brancas morrem na avenida.
Nossa alma está deserta de esperança.
Na sarjeta há mendigo e há criança
que foram esquecidos pela vida.

Por toda a parte há sempre a mesma lida,
há sempre a mesma luta que nos cansa.
O céu deixou fugir toda bonança.
Há mãos pedindo um prato de comida.

A noite é grande. O sono inflama a vista.
A angústia, aos poucos, vai-se avolumando...
nossa alma é a sua próxima conquista.

Os lares se trasmudam num tugúrio,
parece que a alegria está chorando
e o vendaval que passa é o seu murmúrio.

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Banzo — poesias: Eduardo de Oliveira, Apresentação e Prefácio [Duas palavras] de Roberto de Paula Leite e Paulo Bomfim, 2ª edição melhorada, 1965, Editora Obelisco, São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Eduardo de Oliveira: Cogumelo andante

 
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Procedo da miséria mais pungente
onde o sol da alegria nunca chega.
Eu nasci pelo chão das ruas.
Brotei dos monturos,
da fome cor de cinza,
dos detritos nauseabundos
que dão um cheiro humano a esta cidade.
Surgi da parte podre das sarjetas
como um maldito cogumelo andante...
Venho da escória mais abjeta
das nossas sociedades.
Nada sei, nada serei
nada significo
e nada espero de quem quer que seja.
Alimentei-me de terra e de amianto;
os ferros que sustentam estes prédios
foram meus companheiros, meu abrigo;
hoje, encerrados na sua imobilidade de concreto,
esperam-me em seus sarcófagos fantásticos.
A minha história é uma acre mistura de
sangue, suor e lágrimas
arrancados a meu rosto
no supremo desespero da subida.
E ao longo dessa trajetória
dolorosamente trágica
a pobreza mais deprimente
estendeu sobre mim
seu manto pardacento.
Fui apedrejado pelas humilhações.
O desprezo escarrou na minha face.
Os dejetos do opróbrio detiveram
meus passos em direção dos sonhos,
nesse dramático esforço da subida.
Soa pouco mais ou pouco menos
que um objeto de escárnio e comiseração
nas mãos implacáveis do destino!
Galguei todos os degraus da escala evolutiva,
numa fúria vulcânica de “crescer, criar, subir”.
Por isso, tenho um pavor biológico
do futuro, porque sei o que me
espera em cada esquina do tempo.
Procedo das misérias mais pungentes
onde o sol da ventura nunca chega.
Galguei todos os círculos da
formidável espiral em demanda do
espaço, do céu, do infinito.
Hoje, sei!
Se ontem nada fui.
Hoje sei que sou pouco menos do que ontem!
Nada mais. Nada menos
que um sombrio cogumelo andante.

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Banzo — poesias: Eduardo de Oliveira, Apresentação e Prefácio [Duas palavras] de Roberto de Paula Leite e Paulo Bomfim, 2ª edição melhorada, 1965, Editora Obelisco, São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); suas obras: Além do pó (1958), Ancoradouro — sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1962), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.