terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vladimir Safatle: Tendências ao Fascismo

Reproduzo texto de Vladimir Safatle, pensador do Departamento de Filosofia da USP (Folha de São Paulo, 31.01.2012):


 
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Escala F
          Na década de 50, o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969) uniu-se a um grupo de psicólogos sociais norte-americanos para desenvolver um estudo pioneiro sobre o potencial autoritário inerente a sociedades de democracia liberal, como os Estados Unidos.
          O resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de "fascismo") que visava medir as tendências autoritárias da personalidade individual.
          Por mais que certas questões de método possam atualmente ser revistas, o projeto do qual Adorno fazia parte tinha o mérito de mostrar como vários traços do indivíduo liberal tinham profundo potencial autoritário.
          O que explicava porque tais sociedades entravam periodicamente em ondas de histeria coletiva xenófoba, securitária e em perseguições contra minorias.
          O que Adorno percebeu na sociedade norte-americana vale também para o Brasil. Na semana passada, esta Folha divulgou pesquisa mostrando como a grande maioria dos entrevistados apoia ações truculentas como a internação forçada para dependentes de drogas e intervenções policiais espetaculares como as que vimos na cracolândia.
          Se houvesse pesquisa sobre o acolhimento de imigrantes haitianos e sobre a posição da população em relação à ditadura militar, certamente veríamos alguns resultados vergonhosos.
          Tais pesquisas demonstram como a idealização da força é uma fantasia fundamental que parece guiar populações marcadas por uma cultura contínua do medo.
          É preferível acreditar que há uma força capaz de "colocar tudo em ordem", mesmo que por meio da violência cega, do que admitir que a vida social não comporta paraísos de condomínio fechado.
          Sobre qual atitude tomar diante de tais dados, talvez valha a pena lembrar de uma posição do antigo presidente francês François Mitterrand (1916-1996).
          Quando foi eleito pela primeira vez, em 1981, Mitterrand prometera abolir a pena de morte na França. Todas as pesquisas de opinião demonstravam, no entanto, que a grande maioria dos franceses era contrária à abolição.
          Mitterrand ignorou as pesquisas. Como se dissesse que, muitas vezes, o governo deve levar a sociedade a ir lá aonde ela não quer ir, lá aonde ela ainda não é capaz de ir. Hoje, a pena de morte é rejeitada pela maioria absoluta da população francesa.
          Tal exemplo demonstra como o bom governo é aquele capaz de reconhecer a existência de um potencial autoritário nas sociedades de democracia liberal e a necessidade de não se deixar aprisionar por tal potencial.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dalton Trevisan: Pico na Veia (9)

Conto 201:

O solitário, abrindo a porta da casa deserta:
— Ei, minha gente, cheguei!
Juntos alegremente respondem o irmão caruncho e a irmã baratinha.
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Pico na Veia,
 Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Trevisan, um curitibano nascido no ano de 1925, é autor de Cemitério de elefantes, A polaquinha, O vampiro de Curitiba, A trombeta do anjo vingador, além de Pico na Veia e mais uma vintena de obras. Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor. O eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio — São Paulo, a Revista Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos — como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. Em 2002, os vinte e um números da Revista Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Dalton Trevisan: Pico na Veia (8)

Conto 135:

O velhote, bem tristonho:

— Ainda fica duro, o carinha. Só que não trava.
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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Trevisan, um curitibano nascido no ano de 1925, é autor de Cemitério de elefantes, A polaquinha, O vampiro de Curitiba, A trombeta do anjo vingador, além de Pico na Veia e mais uma vintena de obras. Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor. O eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio — São Paulo, a Revista Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos — como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. Em 2002, os vinte e um números da Revista Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Alberto de Oliveira: Horas Mortas (*)

Antologia De Antologias - 101 Poetas Brasileiros - Revisitados ...
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Breve momento, após comprido dia
De incômodos de penas, de cansaço,
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço, **
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica.
Mas é tão tarde! Rápido flutuas,
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa a que escrevo, apenas fica
Sobre o papel  rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

(transcrito de Poesias, 3ª série, 1928,  pág.52,
 por Sousa da Silveira, pp.322 — 323)



Notas das Organizadoras:
* Conferido com Alberto de Oliveira, Poesias, 3ª série, p. 52; com Nossos Clássicos, n. 32, p.65 e com Edição Crítica, vol. II p.391.
** o espaço em vez de no espaço. Na edição de Poesias, 3ª série e na Edição Crítica, está no espaço.
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Antologia de Antologias 101 poetas brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), 2004, Musa Editora, São Paulo SP; Antônio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias primeira série (1900), e mais Poesias segunda série (1906), Poesias  terceira série (1913) e Poesias quarta série (1927).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Ermínia Maricato: Espaço urbano em São Paulo, especulação imobiliária, pobres...

Reproduzo texto de Ermínia Maricato, urbanista, publicado no site de Carta Maior:
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Colunistas| 26/01/2012
CIDADES BRASILEIRAS

Terror imobiliário ou a expulsão dos pobres do centro de São Paulo

O MODELO É CONTRA OS POBRES QUE ESTÃO LONGE DE CONSTITUÍREM MINORIA EM NOSSA SOCIEDADE. O MODELO QUER OS POBRES FORA DO CENTRO DE SÃO PAULO. ISSO É ÓBVIO. O QUE NÃO PARECE SER ÓBVIO É QUE, EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, A DETERMINAÇÃO DISSO TUDO É ECONÔMICA. A CENTRALIDADE É A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO E A MOLA PROPULSORA, A RENDA IMOBILIÁRIA. E DEPOIS DIZEM QUE MARX ESTÁ MORTO.

Ermínia Maricato
Dificilmente, durante nossa curta existência, assistiremos disputa mais explícita que esta, que opõe prefeitura e Câmara Municipal de São Paulo (além do governo estadual), que representam os interesses do mercado imobiliário, contra os moradores e usuários pobres, pelo acesso ao centro antigo de São Paulo. Trata-se do único lugar na cidade onde os interesses de todas as partes (mercado imobiliário, prefeitura, Câmara Municipal, comerciantes locais, movimentos de luta por moradia, moradores de cortiços, moradores de favelas, recicladores, ambulantes, moradores de rua, dependentes químicos, e outros) estão muito claros, e os pobres não estão aceitando passivamente a expulsão.

No restante da cidade, como em todas as metrópoles brasileiras, um furacão imobiliário revoluciona bairros residenciais e até mesmo as periferias distantes, empurrando os pobres para além dos antigos limites, insuflado pelos recursos do Minha Casa Minha Vida no contexto de total falta de regulação fundiária/imobiliária ou, em outras palavras, de planejamento urbano por parte dos municípios. A especulação corre solta, auxiliada por políticas públicas que identificam valorização imobiliária como progresso.

Ao contrário do silêncio (ou protestos pontuais) que acompanha essa escandalosa especulação que, a partir de 2010, levou à multiplicação dos preços dos imóveis, em todo o país, no centro de São Paulo, foi deflagrada uma guerra de classes.

Não faltaram planos para recuperar o centro tradicional de São Paulo. Desde a gestão do prefeito Faria Lima, vários governos defenderam a promoção de moradia pública na região. Governos tucanos apostaram em estratégias de distinção local por meio de investimento na cultura (como demonstraram muitos trabalhos acadêmicos) Vários museus, salas de espetáculo, centros culturais, edifícios históricos, foram criados ou renovados. No entanto, o mercado imobiliário nunca respondeu ao convite dos diversos governos, de investir na região, seja para um mercado diferenciado, seja para habitação social como pretenderam os governos Erundina e Marta.

Outras localizações (engendradas pelas parcerias estado/capital privado, como demonstrou Mariana Fix) foram mais bem sucedidas como foi o caso da região Berrini/Águas Espraiadas. Outro fator que inibiu a entrada mais decisiva dos empreendedores no centro foi a reduzida dimensão dos terrenos. O mercado imobiliário busca terrenos amplos que permitam a construção de uma ou de várias torres- clube, padrão praticamente generalizado atualmente no Brasil.

Finalmente, há os pobres - com toda a diversidade já exposta - cuja proximidade desvaloriza imóveis novos ou reformados, coerentemente com os valores de uma sociedade que além de patrimonialista (e por isso mesmo) está entre as mais desiguais do mundo. Aceita-se que os pobres ocupem até áreas de proteção ambiental: as Áreas de Proteção dos Mananciais (são quase 2 milhões de habitantes apenas no sul da metrópole), as encostas do Parque Estadual da Serra do Mar, as favelas em áreas de risco, mas não se aceita que ocupem áreas valorizadas pelo mercado, como revela a atual disputa pelo centro.

Enquanto os planos das várias gestões municipais para o centro não deslancharam (leia-se: não interessaram ao mercado imobiliário), os serviços públicos declinaram (o acúmulo de lixo se tornou regra), num contexto já existente de imóveis vazios e moradia precária. O baixo preço do metro quadrado afastou investidores e, mais recentemente, nos últimos anos... também o poder público. Nessa área assim “liberada” e esquecida pelos poderes públicos, os dependentes químicos também se concentraram. No entanto a vitalidade do comércio na região, que inclui um dos maiores centros de venda de computadores e artigos eletrônicos da América Latina, não permite classificar essa área como abandonada, senão pelo falta de serviços públicos de manutenção urbana e políticas sociais.

Frente a isso, a gestão do prefeito Kassab deu continuidade ao projeto NOVA LUZ, iniciado por seu antecessor, José Serra, e vem se empenhando em retirar os obstáculos que afastam o mercado imobiliário de investir na área. Estão previstos a desapropriação de imóveis em dezenas de quadras e o remembramento dos lotes para constituírem grandes terrenos de modo a viabilizar a entrada do mercado imobiliário.

A retomada de recursos de financiamento habitacional com o MCMV, após praticamente duas décadas de baixa produção, muda completamente esse quadro. Os novos lançamentos do mercado imobiliário passam a cercar a região. Vários bairros vizinhos, como a Barra Funda, apresentam um grande número de galpões vazios em terrenos de dimensões atraentes. A ampliação de outro bairro vizinho, Água Branca, vai se constituir em um bairro novo .

Finalmente, o mercado imobiliário e a prefeitura lançam informalmente a ideia de uma fantástica operação urbana que irá ladear a ferrovia começando no bairro da Lapa e estendendo-se até o Brás. O projeto inclui a construção de vias rebaixadas. Todos ficam felizes: empreiteiras de construção pesada, mercado imobiliário, integrantes do executivo e legislativo (que garantem financiamento para suas campanhas eleitorais) e a classe média que ascendeu ao mercado residencial com os subsídios.

O Projeto Nova Luz parece ser a ponta de lança dessa gigantesca operação urbana.

Mas ainda resta um obstáculo a ser removido: os pobres que se apresentam sobre a forma de moradores dos cortiços, moradores de favelas, dependentes de droga, moradores de rua, vendedores ambulantes... Com eles ali, a taxa de lucro que pode ser obtida na venda de imóveis não compensa.

Algumas ações não deixam dúvida sobre as intenções de quem as promove. Um incêndio, cujas causas são ignoradas, atingiu a Favela do Moinho, situada na região central ao lado da ferrovia. Alguns dias depois, numa ação de emergência, a prefeitura contrata a implosão de um edifício no local sob alegação do risco que ele podia oferecer aos trens que passam ali (enquanto os moradores continuavam sem atendimento, ocupando as calçadas da área incendiada). Em seguida os dependentes químicos são literalmente atacados pela polícia sem qualquer diálogo e sem a oferta de qualquer alternativa. (Esperavam que eles fossem evaporar?). Alguns dias depois vários edifícios onde funcionavam bares, pensões, moradias, são fechados pela prefeitura sob alegação de uso irregular. (O restante da cidade vai receber o mesmo tratamento? Quantos usos ilegais há nessa cidade?).

O centro de São Paulo constitui uma região privilegiada em relação ao resto da cidade. Trata-se do ponto de maior mobilidade da metrópole, com seu entroncamento rodo-metro- ferroviário. A partir dali, pode-se acessar qualquer ponto da cidade o que constitui uma característica ímpar se levarmos em conta a trágica situação dos transportes coletivos. Trata-se ainda do local de maior oferta de emprego na região metropolitana. Nele estão importantes museus e salas de espetáculo, bem como universidades, escolas públicas, equipamentos de saúde, sedes do judiciário, órgãos governamentais.

Apenas para dar uma ideia da expectativa em relação ao futuro da região está prevista ali uma Escola de Dança, na vizinhança da Sala São Paulo, cujo projeto, elaborado por renomados arquitetos suíços – autores do arena esportiva chinesa “Ninho de Pássaro” - custou a módica quantia de R$ 20 milhões de acordo com informações da imprensa. É preciso lembrar ainda que infraestrutura local é completa: iluminação pública, calçamento, pavimentação, água e esgoto, drenagem como poucas localizações na cidade.

Trata-se de um patrimônio social já amortizado por décadas de investimento público e privado. A disputa irá definir quem vai se apropriar desse ativo urbano e com que finalidade. A desvalorização de tal ambiente é um fenômeno estritamente ou intrinsecamente capitalista, como já apontou David Harvey analisando outros processos de “renovação” de centros de cidades americanas.

A luta pela Constituição Federal de 1988 e a regulamentação de seus artigos 182 e 183, que gerou o Estatuto da Cidade, se inspirou, em parte, na possibilidade de utilizar imóveis vazios em centros urbanos antigos para moradia social. Nessas áreas ditas “deterioradas” está a única alternativa dos pobres vivenciarem o “direito à cidade” pois de um modo geral, eles são expulsos para fora da mesma. Executivos e legislativos evitam aplicar leis tão avançadas. O judiciário parece esquecer-se de que o direito à moradia é absoluto em nossa Carta Magna enquanto que o direito à propriedade é relativo, à função social. (Escrevo essas linhas enquanto decisão judicial autorizou o despejo –que se fez de surpresa e de forma violenta- de mais de 1.600 famílias de uma área cujo proprietário – Naji Nahas - deve 15 milhões em IPTU, ao município de São José dos Campos. Antes de mais nada, é preciso ver se ele era mesmo proprietário da terra, já que no Brasil, a fraude registraria de grandes terrenos é mais regra que exceção, e depois verificar se ela estava ou não cumprindo a função social).

É óbvio, que o caso que nos ocupa aqui mostra a falta de compaixão, de solidariedade, de espírito público. Crianças moram em péssimas condições nos cortiços, em cômodos insalubres, dividem banheiros imundos com um grande número de adultos (quando há banheiros). Com os despejos violentos são remetidas para uma condição ainda pior de moradia pelo Estado que , legalmente, deveria responder pela solução do problema. Num mundo com tantas conquistas científicas e tecnológicas, dependentes químicos são tratados com balas de borracha e spray de pimenta para se dispersarem. Um comércio dinâmico, formado por pequenas empresas e ambulantes, que poderia ter apoio para a sua legalização, organização e inovação é visto como atrasado e indesejável. O modelo perseguido é o do shopping center, o monopólio, e não o pequeno e vivo comércio de rua ou o boteco da esquina.

O modelo é contra os pobres que estão longe de constituírem minoria em nossa sociedade. O modelo quer os pobres fora do centro como anunciou o jornal Brasil de Fato. Tudo isso é óbvio. O que não parece ser óbvio é que, em última instância, como diria Althusser, a determinação disso tudo é econômica. A centralidade é a produção do espaço urbano e a mola propulsora, a renda imobiliária. E depois dizem que Marx está morto.

Castro Alves: Mocidade e Morte

    E perto avisto o porto
Imenso, nebuloso, e sempre noite
Chamado — Eternidade. —
Laurindo.

Lasciate ogni speranza, voi
ch'entrate.
Dante.


Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
 Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma vez responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher   camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: — impossível!

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n'alma
E o eco ao longe me repete   avante! —
O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glórial
Após   um nome do universo n'alma,
Um nome escrito no Panteon da história.

E a mesma voz repete funerária: —
Teu Panteon  a pedra mortuária!

Morrer  é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nas guia na tormenta:
Condenado — escutar dobres de sino,
— Voz da morte, que a morte lhe lamenta —
Ai! morrer — é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher — no visco
Da larva errante no sepulcro fundo.

Ver tudo findo... só na lousa um nome,
Que o viandante a perpassar consome.

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu'inda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo — que vaga sobre o chão da morte,
Morto  entre os vivos a vagar na terra.

Do sepulcro escutando triste grito
Sempre, sempre bradando-me: maldito! —

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida — novo Tântalo —
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O 'stilete de Deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória  nada, por amor  a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria!...

1864
(Espumas Flutuantes)
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Castro Alves  Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro  RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Carlos Heitor Cony: Sobre poetas e o ofício de escrever

Reproduzo crônica de Carlos Heitor Cony (Folha de São Paulo, 24.01.2012):
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Poetas e poesias
          Não lembro qual foi o poeta que se recusou a fazer um romance porque jamais escreveria esta frase: "A marquesa saiu às quatro horas". Era um fundamentalista em matéria de literatura. De minha parte, há mais de 60 anos que quase todos os dias escrevo que a marquesa ou a condessa, se não saiu às quatro horas, saiu às quatro e meia. E daí?
          Respeito os poetas e suas poesias, um respeito religioso. O pai fazia poesias, eu o respeitava, até o dia em que encontrei em sua escrivaninha, na redação do velho "Jornal do Brasil", um verso atroz: "sequiosa do sabor daquela fruta". Numa fria madrugada, ele vinha de um baile e passou pela casa da amada, viu na calçada os restos de uma laranja - estava armada a cena daquele crime.
          Era jornalista, naquele tempo todos os jornalistas tinham dois sonhos comuns: ter um sítio em Jacarepaguá para criar galinhas e fazer um soneto imortal. Galinhas ele chegou a criar, mas em Lins de Vasconcelos. Poesia, depois de minha espinafração, creio que nunca mais tentou.
          Na Bahia, numa longa vigília com Vinicius de Moraes, em que ele falava mal do Braguinha por causa da letra que pusera no "Carinhoso", de Pixinguinha, eu citei o próprio Vinicius, "pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na tua boca".
          Outro dia li um poema do grande Drummond de Andrade, parece que ele estava com 17 anos e mandou para um jornal em Nova Friburgo, onde estudava, um texto em que dizia: "Enquanto a lua, a casta melancia dos poetas, muito pálida e muito redonda..."
          Tanto Vinicius como Drummond tinham o direito de falar nos peixinhos e xingar a lua como casta melancia. Podiam escrever que a marquesa saiu ou não saiu às quatro horas. Seriam, como são, os grandes poetas que foram.
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Carlos Heitor Cony é escritor. Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Jorge Nagao: Elis

(Jorge Nagao é o único japonês da foto)


















Como Éramos Elises!

- Onde você estava quando o Senna morreu?
- Onde estava você quando morreu Elis?

Poucas personalidades mereceram constar nesse tipo de pergunta.

Estava eu trabalhando num banco na esquina da Paulista com a Augusta quando Lauro, o tesoureiro, passou por minha mesa e disparou:


- Elis Regina morreu!- e seguiu sem olhar pra trás em direção ao subsolo.

Atônito, repassei a má notícia aos colegas. Logo o clima da agência era de velório.

Elis era muito especial. Além de notável cantora, lutava bravamente pela democracia naqueles anos de abertura lenta gradual e segura. Seus discos e shows eram catárticos. Interpretações magníficas geraram discos antológicos e shows inesquecíveis como Falso Brilhante que ficou um ano e três meses em cartaz no Teatro Bandeirantes na capital paulista. Que artista, hoje, repetiria esse feito? Teló? Télogo!

Além disso, lançou novos talentos como a dupla João Bosco e Aldir Blanc, Belchior e Renato Teixeira entre outros e outras como Fátima Guedes e Sueli Costa.

Hoje, 30 anos após a sua partida, “não apareceu mais ninguém” à altura dessa baixinha de gestos largos e musicalidade à flor da pele, na definição de Zuza Homem de Mello. Os filhos de Elis Regina, a cantora Maria Rita e o produtor João Marcello, preparam um show para homenagear a mãe. O repertório do show está sendo cuidadosamente escolhido. Maria Rita confessou no programa Altas Horas que conhece pouco a discografia da mãe devido à imensa saudade que sentia ao ouvi-la. “Será emocionante”, assegura Maria Rita.

O show, grátis, free, 0800, estreará em março, mês de nascimento de Elis, provavelmente em São Paulo, depois percorrerá diversas capitais. O único objetivo é que o nome da cantora não caia no esquecimento. Não será lançado CD e nem DVD deste show. Haverá exposição, lançamento de livro e do documentário “Como Éramos Elises”. A gravadora Universal relançará os 21 discos de Elis e o site elisregina.com.

Então, lembrando um comercial da TV Bandeirantes, em 1978, Elis Ano Novo!

Trechos do documentário Como Éramos Elises, no portal Maria Rita:

http://www.youtube.com/watch?v=jcNEGt3Fd3c
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Fã comum, não sou um fã náutico que mergulha na vida pessoal, familiar e até amorosa da artista, há 30 anos cometi este pequeno texto para a grande estrela.

ELIS (1982)

Foi numa terça-feira de janeiro, tristemente inolvidável.
A implacável notícia emudeceu quem estava conversando no bar, no cais, ou numa casa de campo. Muita gente foi chorar atrás da porta – um compositor me disse. Era o fim da travessia.
Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
O trem azul do destino veio pela transversal do tempo e, traiçoeiramente, arrebatou você do nosso convívio
O arrastão da morte veio de modo fulminante dando chibatadas em nossos corações e pirando nossas cabeças.
Por você chorou o menino das laranjas, a nega do cabelo duro, o bêbado e a equilibrista, assim como os nossos pais
Por isso o povo foi se despedir de você numa gigantesca romaria.
Agora, nada será como antes: é dor pra lá, dor pra cá.
Jamais conversamos, Elis, mas éramos hermanos – gracias à la vida!
Você foi fundamental cantando o hino da anistia, enfrentando o Dono da Voz, denunciando os donos do poder, alegrando a batucada da vida. Para a nossa plena fascinação.
Você ficará em nós como tatuagem, marcada pela ousadia e pela emoção
Afinal, amiga é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração.
Elis, a nossa saudade. A saudade do Brasil.
(Janeiro de 1982)
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Jorge Nagao, paulista de Vera Cruz, bancário sobrevivente, é cronista, frasista, humorista, enfim um ativista da palavra; foi um dos impulsionadores, colaboradores e editores do jornaleco Na Moita, um devezenquandário que, entre os anos de 1991 e 1997, circulou pelos balcões, mesas e banheiros das seções da ex-Agência Centro BB São Paulo; aposentou-se no final do milênio passado após ter prestado serviços no Banco do Brasil por quase três décadas; escreveu Pacote Bancário e outros poemas e paródias (1983) e participou da coletânea Damas de Ouro & Valetes de Espada — Crônicas do baralho, organização de Leonel Prata (2009, MGuarnieri Editorial, São Paulo SP).

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mais um sessentão na praça

                              Manos e minas,
                              
                              Hoje faz duas décadas que o Quarentão de Bacaetava entrou nos entaEle não acha esta fase da vida nem boa nem ruim. Acha-a inevitável e se ela é inevitável segue a pregação da sexóloga  seus momentos são um relaxo só e anda gozando muito.
                              Porém entre os quasesempre momentos de relaxo e gozo é claro que também há momentos tais que para ele seria melhor não existirem. Pensa ser da vida que existam não só nesta presente etapa mas também que tenham existido em todas outras etapas por ele já vividas. Assim, reflete com seus botões, é preciso embalar-se pelo refrão que ouviu faz tempo em uma noite ilustrada: "Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima!"
                              Diz isto e se cala parecendo reflexivo. Nada mais diz às novas gerações sobre esta fase da idade... Intui que tudo o que elas ouvirem entrará por um ouvido e sairá por outro como diz o adágio. Pensa que as novas gerações vivem os seus momentos. Estão ocupadas com outras coisas mais úteis a elas. Elas pensam assim e no que fazem muito bem.
                              Resmunga que os ainda jovens quando completarem suas décadas nos enta com certeza poderão compreender o que ora está sentindo e que decerto também encontrarão dificuldades em transmitir o que sentem aos que na escala da vida deixaram de vestir fraldas há muito menos tempo que eles. É assim que sucessivamente ocorre neste jogo de gerações.
                              Proclama estar feliz ao completar seus sessenta anos nesta oca denominada genericamente Terra. Aos entários que já ingressaram nesta etapa por ele ora acessada também deseja muita sorte e muitas felicidades.
                              Ah, e cobra dos governos, quaisquer governos, políticas públicas que levem em consideração as multidões que estão nos enta há décadas. Os governantes, reflete, não deveriam se dedicar a olhar quase que só para as coisas voltadas ao trabalho que é produzido para o capital. Há muitas mazelas neste sistema. Não quer mais este tipo de trabalho.
                              E cobra mais ainda! Os governantes, quando exercitam outros olhares, também não podem priorizar quase que exclusivamente em cuidar da promoção das coisas necessárias às gerações futuras, às crianças e aos bebês com suas fraldas. É preciso perceber que há um presente envelhecente. E se governos existem resta-nos cobrar a sua eficiência! Sem essa de salve-se quem puder!.
                              E conclui: "Alguns de nós que já ingressamos nos enta, sessentões, setentões, oitentões e noventões, além de uns poucos centenários, também precisamos de fraldas e de otras cositas mas, mucho mas." Descobriu isso agorinha mesmo.
                              Contudo e apesar de tudo segue rumo aos setenta. Diz que mais tarde pensará nos oitenta, nos noventa... Hoje ele está com muita preguiça.
                              Abraços sexagenários.

                              P. da Silva

Se nascer é um parto e viver não é preciso, morrer é o fim do mundo. (O Quarentão de Bacaetava)
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Genésio dos Santos, nascido em Itapetininga  SP no século e milênio passados em 03 de janeiro de 1952, viveu sua infância e adolescência, até os seus dezenove anos, à beira da linha do trem nas localidades de Buri (Turma 29, Eng. Bacelar), Itapeva (Turma 34) e Iperó (Turma 1), todas interligadas pela antiga EFS — Estrada de Ferro Sorocabana (posteriormente FEPASA); é poeta e cronista e, além de se ver como um bicho urbano adaptado, também se sente integralmente em plena velhice; publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981), e, como militante na categoria dos bancários, escreveu crônicas para jornais sindicais de responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; além disso, como vêem, é aprendiz de blogueiro.