sábado, 31 de dezembro de 2022

Ingrid Martins: faz um tempo que quero escrever sobre o amor . . .


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faz um tempo que quero escrever
sobre o amor que carrego no peito
amor esse que nasceu comigo
amor esse que me pegou de jeito

quero falar também
sobre as festas em família
que fui com minha namorada
sobre os dias que andamos de mãos dadas
e não aconteceu nada
nada que nos causasse medo
nada que nos fizesse voltar pra casa mais cedo
não aconteceu nada
não aconteceu de nos xingar
não aconteceu de nos expulsarem
de um local porque estávamos nos beijando
não vi olhares de quem estivesse nos julgando
não ouvi boatos

aliás, ouvi sim:
e dizia que nós formávamos um belo casal
concordei.
mas há dias
há meses que não escuto:
“AQUI NÃO É LUGAR PRA ISSO”
“OLHA AS CRIANÇAS”
“QUE DESPERDÍCIO”
há tempos que não vejo meu corpo marcado de preconceito
há tempos que não me reinvento
porque meu sapatão natural
não causa mais tanto nojo
tanto ódio
mau efeito
há tempos que não preciso me esconder
já faz um tempo que não tenho motivos para temer
e esse texto até parece ser algo bom
algo que só fale de amor
mas não
não se confunda
eu tô falando de dor
da dor que já senti.
da dor dos que vão nascer viados também vão sentir.
da dor que você não sentiu
mas meus amigos viados sentiram.
mas, a gente só queria amar e ser amado
nos beijar sem precisar ficar olhando para o lado
sem medo de sair bem viado
e ser espancado
há tempos
que só queremos viver sem ser notado
mas não sermos invisíveis
há tempos queremos viver dias menos difíceis
há tempos queremos ter voz

JÁ FAZ UM LONGO TEMPO
QUE SÓ QUEREMOS VIVER
VIVER SEM MEDO
VIVER SEM DOR
VIVER SEM TRAUMA
SIMPLESMENTE
VIVER AMOR.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & mais de 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Ingrid Martins, de São Paulo SP, é cabeleireira, designer, produtora cultural, escritora e poeta; participa da Coletiva Batalha Dominação e do Slam do Norte; A Coletiva Dominação se apresenta em espaços públicos (área do metrô São Bento e outros locais), realizando batalhas poéticas só pras minas e LGBTQIA+, reunindo uma variedade de artistas, MCs, poetas e gerando audiovisuais dos eventos; Ingrid Martins é autora dos zines Poesia e Vertical.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Lima Barreto: Um que vendeu a sua alma


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          A anedota que lhe vou contar, tem alguma coisa de fantástica e pareceria que, como homem de meu tempo, eu não devia dar-lhe crédito algum. Entra nela o Diabo e toda a gente de certo desenvolvimento mental está quase sempre disposta a acreditar em Deus, mas raramente no Diabo.
          Não sei se acredito em Deus, não sei se acredito no Diabo, porque não tenho as minhas crenças muito firmes.
          Desde que perdi a fé no meu Lacroix; desde que me convenci da existência de muitas geometrias a se contradizerem nas suas definições e teoremas mais vulgares; desde então deixei que a certeza ficasse com os antropologistas, etnólogos, florianistas, sociólogos e outros tolos de igual jaez.
          A horrível mania de certeza de que fala Renan, já a tive; hoje, porém, não. De modo que posso bem à vontade contar-lhes uma anedota em que entra o Diabo.
          Se os senhores quiserem, acreditem; eu, cá por mim, se não acredito, não nego também.
          Narrou-me o amigo:
           Certo dia, uma manhã, estava eu muito aborrecido a pensar na minha vida. O meu aborrecimento era mortal. Um tédio imenso invadia-me. Sentia-me vazio. Diante do espetáculo do mundo, eu não reagia. Sentia-me como um toco de pau, como qualquer coisa de inerte.
          Os desgostos da minha vida, os meus excessos, as minhas decepções, me haviam levado a um estado de desespero, de aborrecimento, de tédio, para o qual, em vão, procurava remédio. A morte não me servia. Se era verdade que a vida não me agradava, a morte não me atraía. Eu queria outra vida. Você se lembra do Bossuet, quando falou por ocasião de Mlle. de La Vallière tomar o véu?
          Respondi:
           Lembro-me.
           Pois sentia aquilo que ele disse e censurou: queria outra vida. E então só me daria muito dinheiro. Queria andar, queria viajar, queria experimentar se as belezas que o tempo e o sofrimento dos homens acumularam sobre a terra, despertavam em mim a emoção necessária para a existência, o sabor de viver. Mas dinheiro! como arranjar? Pensei meios e modos: furtos, assassinatos, estelionatos sonhei-me Raskólnikoff ou cousa parecida. Jeito, porém, não havia e a energia não me sobrava. Pensei então no Diabo. Se ele quisesse comprar-me a alma? Havia tanta história popular que contava pactos com ele que eu, homem cético e ultramoderno, apelei para o Diabo, e sinceramente!
          Nisto bateram-me a porta.
           Abri.
           Quem era?
           O Diabo.
           Como o conheceste?
           Espera. Era um cavalheiro como qualquer, sem barbichas, sem chavelhos, sem nenhum atributo diabólico. Entrou como um velho conhecimento e tive a impressão de que conhecia muito o visitante. Sem cerimônia sentou-se e foi perguntando: “Que diabo de spleen é esse?” Retorqui: ”A palavra vai bem mas falta-me o milhão.” Disse-lhe isso sem reflexão, e ele, sem se espantar, deu umas voltas pela minha sala e olhou um retrato.
          Indagou: “É tua noiva?” Acudi: “Não. É um retrato que encontrei na rua. Simpatizei e…” “Queres vê-la já?” perguntou-me o homem. “Quero”, respondi. E logo, entre nós dois sentou-se a mulher do retrato. Estivemos conversando e adquiri certeza de que estava falando com o Diabo. A mulher foi-se e logo o Diabo inquiriu: “Que querias de mim?”
          “Vender-te minha alma”, disse-lhe eu.
          E o diálogo continuou assim:
          Diabo Quanto queres por ela?
          Eu Quinhentos contos.
          Diabo Não queres pouco.
          Eu Achas caro?
          Diabo Certamente.
          Eu Aceito mesmo a coisa por trezentos.
          Diabo Ora! Ora!
          Eu Então, quanto dás?
          Diabo Filho, não te faço preço. Hoje, recebo tanta alma de graça que não me vale a pena comprá-las.
          Eu Então não dás nada?
          Diabo Homem! Para falar-te com franqueza, simpatizo muito contigo, por isso vou dar-te alguma coisa.
          Eu Quanto?
          Diabo Queres vinte mil-réis?
          E logo perguntei ao meu amigo:
           Aceitaste?
          O meu amigo esteve um instante suspenso, afinal respondeu:
           Eu… Eu aceitei.

A Primavera, Rio, julho 1913.

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: a autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Walt Whitman: Canção do Respondedor

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

          Um moço chegou pra mim com uma mensagem de seu irmão,
          Como poderia saber onde e quando seu irmão está?
          Diga a ele que me mande os sinais.

          E fiquei cara a cara com o moço, e botei sua mão direita em minha mão esquerda e sua mão esquerda em minha mão direita,
          E respondi por seu irmão e pela humanidade . . . . respondi pelo poeta, e enviei estes sinais.

          Dele todos esperam . . . . todos se rendem a ele . . . . é dele a última palavra, a que decide,
          Eles todos aceitam . . . . nele todos se lavam . . . . nele percebem a si mesmos como se em meio a luz,
          Nele todos mergulham, e ele mergulha em todos.

          As mulheres mais bonitas, as nações mais arrogantes, as leis, a paisagem, as pessoas e os animais,
          A terra profunda e seus atributos, o oceano inquieto,
          Todos os gozos e propriedades, dinheiro, e o que o dinheiro possa comprar,
          As melhores fazendas . . . . outros labutando e plantando e ele inevitavelmente ceifando,
          As cidades mais nobres e mais caras . . . . outros planejando e construindo, e é aqui que ele mora;
          Nada é para ninguém senão para ele . . . . perto e longe são para ele,
          Os barcos em alto-mar . . . . os perpétuos espetáculos e marchas na terra são para ele se forem para outras pessoas.

          Ele põe coisas em suas atitudes,
          Ele põe o hoje pra fora de si com plasticidade e amor,
          Ele situa sua própria cidade, tempos, reminiscências, pais, irmãos e irmãs, associações, emprego e política, pra que dali em diante o resto não os envergonhe, nem pense que mande neles.

          Ele é o respondedor,
          O que pode ser respondido ele responde, e o que não pode ele mostra como não pode ser.

          Um homem é uma intimação e um desafio,
          Inútil se zangar . . . . Ouve a risada e a gozação? Escuta os ecos irônicos?

          Livros amizades filósofos padres ação prazer orgulho se animam e se deprimem procurando dar prazer;
          Ele mostra o prazer, e também mostra para eles que se animam e se deprimem.

          Seja o sexo que for . . . . seja a estação ou lugar que for ele vai poder seguir seguro e suave e fresco pelo dia ou pela noite,
          Ele tem a senha dos corações . . . . nele a resposta para as mãos girando a maçaneta.

          Suas boas-vindas são universais . . . . o fluxo da beleza não é mais universal ou bem-vindo do que ele,
          A pessoa que ele ajuda de dia ou que dorme com ele de noite é abençoada.

          Toda existência tem seu idioma . . . . cada coisa tem seu idioma e sua língua;
          Ele dissolve todas as línguas na sua, e a entrega aos homens . . e qualquer pessoa pode traduzi-la . . e qualquer pessoa pode se traduzir:
          Uma parte não se opõe a outra . . . . ele é o conector . . . . ele vê como elas se conectam.

          Ele diz indiferente e igual, Como vai, amigo? ao Presidente em sua recepção,
          E diz Bom dia, meu irmão, ao escravo* capinando o canavial;
          E ambos entendem e sabem que o que fala está certo.

          Ele passeia à vontade pelo capitólio,
          Passeia pelo Congresso . . . . e um representante diz ao outro, Olha só de novo o nosso igual.

          Os mecânicos o toma por um mecânico,
          E os soldados acreditam que ele é um capitão . . . . e os marinheiros, que ele tem seguido o mar.

          E o autor o toma como um outro autor . . . . e os artistas o toma como um artista,
          E os operários percebem que podem trabalhar como ele e o adoram;
          Não importa o trabalho, ele é alguém que se deve seguir ou o seguiu,
          Não importa a nação, ele deve achar algum irmão ou irmã por lá.

          Os ingleses pensam que ele é de linhagem inglesa,
          Os judeus o tomam como um judeu . . . . o russo como um russo . . . . familiar e íntimo . . . . estranho a ninguém.

          Quem quer que ele olhe no café dos viajantes pensa que é ele,
          O italiano ou francês tem certeza, o alemão tem certeza, o espanhol tem certeza . . . . e o cubano ilhéu tem certeza.

          O engenheiro, o marujo nos Grandes Lagos ou no rio Mississipi ou no São Lourenço ou no Sacramento ou no Hudson ou no Delaware pensa que é ele.

          O cavalheiro de sangue perfeito reconhece seu sangue perfeito,
          O que insulta, a prostituta, o furioso, o mendigo, veem nele seus próprios modos . . . . ele estranhamente os transmuta,
          Agora não são mais perversos . . . . eles mal se reconhecem, cresceram tanto:

          Você acha que seria bom ser autor de versos melodiosos,
          Seria bom mesmo ser o escritor de versos melodiosos;
          Mas o que são versos diante da personalidade fluida que você pode assumir? . . . . para além dos bons modos e bons comportamentos?
          Ou diante da façanha viril ou carinhos de um aprendiz? . . ou de uma mulher idosa? . . ou do homem com passagem pela prisão ou que nela pode estar agora?

[Folhas de Relva — A Primeira Edição, 1855]

Walt Whitman

[Song of the Answerer]

          A young man came to me with a message from his brother,
          How should the young man know the whether and when of his brother?
          Tell him to send me the signs.

          And I stood before the young man face to face, and took his right hand in my left hand and his left hand in my right hand,
          And I answered for his brother and for men . . . . and I answered for the poet, and sent these signs.

          Him all wait for . . . . him all yield up to . . . . his word is decisive and final,
          Him they accept . . . . in him lave . . . . in him perceive themselves as amid light,
          Him they immerse, and he immerses them.

          Beautiful women, the haughtiest nations, laws, the landscape, people and animals,
          The profound earth and its attributes, and the unquiet ocean,
          All enjoyments and properties, and money, and whatever money will buy,
          The best farms . . . . others toiling and planting, and he unavoidably reaps,
          The noblest and costliest cities . . . . others grading and building, and he domiciles there;
          Nothing for any one but what is for him . . . . near and far are for him,
          The ships in the offing . . . . the perpetual shows and marches on land are for him if they are for any body.

          He puts things in their attitudes,
          He puts today out of himself with plasticity and love,
          He places his own city, times, reminiscences, parents, brothers and sisters, associations employment and politics, so that the rest never shame them afterward, nor assume to command them.

          He is the answerer,
          What can be answered he answers, and what cannot be answered he shows how it cannot be answered.

          A man is a summons and challenge,
          It is vain to skulk . . . . Do you hear that mocking and laughter? Do you hear the ironical echoes?

          Books friendships philosophers priests action pleasure pride beat up and down seeking to give satisfaction;
          He indicates the satisfaction, and indicates them that beat up and down also.

          Whichever the sex . . . . whatever the season or place he may go freshly and gently and safely by day or by night,
          He has the passkey of hearts . . . . to him the response of the prying of hands on the knobs.

          His welcome is universal . . . . the flow of beauty is not more welcome or universal than he is,
          The person he favors by day or sleeps with at night is blessed.

          Every existence has its idiom . . . . every thing has an idiom and tongue;
          He resolves all tongues into his own, and bestows it upon men . . and any man translates . . and any man translates himself also:
          One part does not counteract another part . . . . He is the joiner . . he sees how they join.

          He says indifferently and alike, How are you friend? to the President at his levee,
          And he says Good day my brother, to Cudge that hoes in the sugarfield;
          And both understand him and know that his speech is right.

          He walks with perfect ease in the capitol,
          He walks among the Congress . . . . and one representative says to another, Here is our equal appearing and new.

          Then the mechanics take him for a mechanic,
          And the soldiers suppose him to be a captain . . . . and the sailors that he has followed the sea,
          And the authors take him for an author . . . . and the artists for an artist,
          And the laborers perceive he could labor with them and love them;
          No matter what the work is, that he is one to follow it or has followed it,
          No matter what the nation, that he might find his brothers and sisters there.

          The English believe he comes of their English stock,
          A Jew to the Jew he seems . . . . a Russ to the Russ . . . . usual and near . . removed from none.

          Whoever he looks at in the traveler’s coffeehouse claims him,
          The Italian or Frenchman is sure, and the German is sure, and the Spaniard is sure . . . . and the island Cuban is sure.

          The engineer, the deckhand on the great lakes or on the Mississippi or St. Lawrence or Sacramento or Hudson or Delaware claims him.

          The gentleman of perfect blood acknowledges his perfect blood,
          The insulter, the prostitute, the angry person, the beggar, see themselves in the ways of him . . . . he strangely transmutes them,
          They are not vile any more . . . . they hardly know themselves, they are so grown:

          You think it would be good to be the writer of melodious verses,
          Well it would be good to be the writer of melodious verses;
          But what are verses beyond the flowing character you could have? . . . . or beyond beautiful manners and behaviour?
          Or beyond one manly or affectionate deed of an apprenticeboy? . . or old woman? . . or man that has been in prison or is likely to be in prison?

[Leaves of Grass — 1855]

* Nota do tradutor Rodrigo Garcia Lopes: Cudge, nome comum na época para negros escravos; derivado de um dos dias da semana (cudjo = segunda-feira).
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Folhas de Relva — A Primeira Edição (1855) — Walt Whitman, Tradução, Posfácio e Notas de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue, 2005, reimpressão 2016, Iluminuras, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Friedrich Nietzsche: Pensamentos sobre o futuro de nossos institutos de formação [Prefácio]


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[traduzido por Pedro Süssekind]

Prefácio

          O leitor do qual espero alguma coisa deve ter três qualidades. Deve ser calmo e ler sem pressa. Não deve intrometer-se, nem trazer para a leitura a sua “formação”. Por fim, não pode esperar na conclusão, como um tipo de resultado, novos tabelamentos. Não prometo tabelamentos, nem novos planos de estudo para ginásios1 e outras escolas, admiro muito mais a natureza cheia de força daqueles que estão prontos para atravessar todo o caminho, desde as profundezas do empírico até as alturas dos problemas culturais autênticos, e novamente, destas para as entranhas dos regulamentos mais áridos e das tabelas arranjadas. Mesmo satisfeito por ter subido, ofegante, uma montanha bem alta e tendo recebido lá em cima a alegria da vista mais livre, nunca poderei satisfazer os amigos de tabelamentos neste livro. Bem vejo chegar um tempo em que homens sérios, a serviço de uma formação totalmente renovada e purificada, trabalhando em conjunto, vão se tornar de novo os legisladores da educação cotidiana esta que leva à referida formação . Provavelmente deverão elaborar de novo tabelamentos. Mas como está longe este tempo! e o que não vai acontecer até lá! Talvez encontre-se entre ele e o presente a dissolução do ginásio, talvez até mesmo a dissolução da universidade, ou pelo menos uma reformulação tão ampla dos assim chamados institutos de formação, que seus antigos tabelamentos parecerão, aos olhos da posteridade, sobras do tempo das palafitas.
          O livro se destina aos leitores calmos, a homens que ainda não estão comprometidos pela pressa vertiginosa de nossa época rolante, e que ainda não sentem um prazer idólatra quando se atiram sob suas rodas, portanto a homens que ainda não se acostumaram a estimar o valor de cada coisa segundo o ganho ou a perda de tempo. Ou seja a muito poucos homens. Estes, porém, “ainda têm tempo”, a eles é permitido, sem que fiquem ruborizados, procurar a reunião dos momentos mais frutíferos e mais fortes de seus dias, a fim de refletir sobre o futuro de nossa formação, eles podem até acreditar que chegam à noite de modo vantajoso e digno, quer dizer: na meditatio generis futuri.2 Um homem assim ainda não desaprendeu a pensar enquanto lê, ainda compreende o segredo de ler nas entrelinhas, sim, ele esbanja tanto, que ainda reflete sobre o que foi lido — talvez muito após ter largado o livro. E, contudo, não para escrever uma resenha ou um novo livro, mas apenas assim, para refletir! Esbanjador leviano! Você é o meu leitor, pois será calmo o suficiente para seguir um longo caminho com o autor, cujas metas ele mesmo não pode ver, nas quais deve acreditar honrosamente, para que uma geração posterior, talvez distante, veja com os olhos o que só tateamos às cegas, dirigidos apenas pelo instinto. Se o leitor, em contrapartida, pretender que só um pulo ligeiro é necessário, um ato bem-humorado, se considerar que se alcança tudo o que é essencial com uma nova “organização” decretada pelo estado, então devemos temer que ele não chegou a entender nem o autor, nem o problema propriamente dito.
          Por fim, dirige-se ao leitor a terceira e mais importante exigência: a de que ele não se intrometa de modo algum, à maneira do homem moderno, e não traga para a leitura a sua “formação”, algo como uma medida, como se com isto possuísse um critério para todas as coisas. Desejamos que ele seja suficientemente formado para pensar em sua formação de modo restrito e até desdenhoso. Então lhe seria permitido abandonar-se com total confiança à condução do escritor que, justamente, só ousa falar do não-saber e do saber do não-saber. Antes de tudo, o leitor não quer recorrer a nada além de um sentimento forte e agitado do que é específico em nossa barbárie presente, daquilo que nos distingue como bárbaros do século dezenove diante de outros bárbaros. Assim, com este livro na mão, ele procura os que são movidos por um sentimento semelhante. Deixem-se encontrar, solitários, em cuja existência eu acredito! Perdidos de si mesmos, que sofrem, em si mesmos, a dor da corrupção do espírito alemão! Contemplativos, cujos olhos são incapazes de escorregar de uma superfície para a outra com uma espiada cheia de pressa! Altivos, que Aristóteles celebra por atravessarem a vida hesitando e sem ação, a não ser que uma grande honra e uma grande obra os reclame! A vocês faço meu apelo. Não se escondam, só desta vez, na caverna de sua reclusão e de sua desconfiança. Pensem que este livro é destinado a ser seu arauto. Se vocês mesmo aparecerem no campo de batalha, em sua própria armadura, quem ainda cobiçará olhar para o arauto que os convocou?

Friedrich Nietzsche

Gedanken über die Zukunft unserer Bildungsanstalten Vorrede

          Der Leser, von dem ich Etwas erwarte, muß drei Eigenschaften haben. Er muß ruhig sein und ohne Hast lesen. Er muß nicht immer sich selbst und seine »Bildung« dazwischen bringen. Er darf endlich nicht am Schlusse, etwa als Resultat, neue Tabellen erwarten. Tabellen und neue Stundenpläne für Gymnasien und andre Schulen verspreche ich nicht, bewundere vielmehr die überkräftige Natur Jener, welche imstande sind, den ganzen Weg von der Tiefe der Empirie aus bis hinauf zur Höhe der eigentlichen Kulturprobleme und wieder von da hinab in die Niederungen der dürrsten Reglements und des zierlichsten Tabellenwerks zu durchmessen; sondern zufrieden, wenn ich, unter Keuchen, einen ziemlichen Berg erklommen habe und mich oben des freieren Blicks erfreuen darf, werde ich eben in diesem Buche die Tabellenfreunde nie zufriedenstellen können. Wohl sehe ich eine Zeit kommen, in der ernste Menschen, im Dienste einer völlig erneuten und gereinigten Bildung und in gemeinsamer Arbeit, auch wieder zu Gesetzgebern der alltäglichen Erziehung — der Erziehung zu eben jener Bildung — wer den; wahrscheinlich müssen sie dann wiederum Tabellen machen; aber wie fern ist die Zeit! Und was wird nicht alles inzwischen geschehen sein! Vielleicht liegt zwischen ihr und der Gegenwart die Vernichtung des Gymnasiums, vielleicht selbst die Vernichtung der Universität, oder wenigstens eine so totale Umgestaltung der eben genannten Bildungsanstalten, daß derem alte Tabellen sich späteren Augen wie Überreste aus der Pfahlbautenzeit darbieten möchten.
          Für die ruhigen Leser ist das Buch bestimmt, für Menschen, welche noch nicht in die schwindelnde Hast unseres rollenden Zeitalters hineingerissen sind und noch nicht ein götzendienerisches Vergnügen daran empfinden, wenn sie sich unter seine Räder werfen, für Menschen also, die noch nicht den Wert jedes Dinges nach der Zeitersparniß oder Zeitversäumniß abzuschätzen sich gewöhnt haben. Das heißt für sehr wenige Menschen. Diese aber »haben noch Zeit«, diese dürfen, ohne vor sich selbst zu erröten, die fruchtbarsten und kräftigsten Momente ihres Tages zusammensuchen, um über die Zukunft unserer Bildung nachzudenken, diese dürfen selbst glauben, auf eine recht nutzbringende und würdige Art bis zum Abend zu kommen, nämlich in der meditatio generis futuri. Ein solcher Mensch hat noch nicht verlernt zu denken, während er liest, er versteht noch das Geheimniß, zwischen den Zeilen zu lesen, ja er ist so verschwenderisch geartet, daß er gar noch über das Gelesene nachdenkt vielleicht lange nachdem er das Buch aus den Händen gelegt hat. Und zwar nicht, um eine Rezension oder wieder ein Buch zu schreiben, sondern nur so, um nachzudenken! Leichtsinniger Verschwender! Du bist mein Leser, denn du wirst ruhig genug sein, um mit dem Autor einen langen Weg anzutreten, dessen Ziele er nicht sehen kann, an dessen Ziele er ehrlich glauben muß, damit eine spätere, vielleicht ferne Generation mit Augen sehe, wonach wir, blind und nur vom Instinkt geführt, tasten. Wenn der Leser dagegen meinen sollte, es bedürfe nur eines geschwinden Sprungs, einer frohmütigen Tat, wenn er etwa mit einer neuen von Staats wegen eingeführten »Organisation« alles Wesentliche für erreicht hielte, so müssen wir fürchten, daß er weder den Autor noch das eigentliche Problem verstanden hat.
          Endlich ergeht die dritte und wichtigste Forderung an ihn, daß er auf keinen Fall, nach Art des modernen Menschen, sich selbst und seine »Bildung« unausgesetzt etwa als Maßstab dazwischen bringe, als ob er damit ein Kriterium aller Dinge besäße. Wir wünschen, er möge gebildet genug sein, um von seiner Bildung recht gering, ja verächtlich zu denken. Dann dürfte er wohl am zutraulichsten sich der Führung des Verfassers hingeben, der es gerade nur von dem Nichtwissen und von dem Wissen des Nichtwissens auswagen durfte, zu ihm zu reden. Nichts anderes will er vor den übrigen für sich in Anspruch nehmen, als ein stark erregtes Gefühl für das Spezifische unserer gegenwärtigen Barbarei, für das, was uns als die Barbaren des neunzehnten Jahrhunderts vor anderen Barbaren auszeichnet. Nun sucht er, mit diesem Buche in der Hand, nach solchen, die von einem ähnlichen Gefühle hin- und hergetrieben werden. Laßt euch finden, ihr Vereinzelten, an deren Dasein ich glaube! Ihr Selbstlosen, die ihr die Leiden der Verderbniß des deutschen Geistes an euch selbst erleidet! Ihr Beschaulichen, deren Auge unvermögend ist, mit hastigem Spähen von einer Oberfläche zur andern zu gleiten! Ihr Hochsinnigen, denen Aristoteles nachrühmt, daß ihr zögernd und tatenlos durchs Leben geht, außer wo eine große Ehre und ein großes Werk nach euch verlangen! Euch rufe ich auf. Verkriecht euch nur diesmal nicht in die Höhle eurer Abgeschiedenheit und eures Mißtrauens. Denkt euch, dies Buch sei bestimmt, euer Herold zu sein. Wenn ihr erst selbst, in eurer eignen Rüstung, auf dem Kampfplatze erscheint, wen möchte es dann noch gelüsten, nach dem Herolde, der euch rief, zurückzuschauen?


Notas do tradutor Pedro Süssekind:
1 O ginásio alemão (Gymnasien) corresponde à reunião do que chamamos no Brasil de ginásio (quinta a oitava série do primeiro grau) e de segundo grau. Quando Nietzsche fala, neste prefácio, de “tabelamentos” (Tabellen), ele está se referindo à organização do ensino universitário, aos chamados organogramas;
2 Meditação da raça humana.
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Cinco prefácios para cinco livros não escritos — Friedrich Nietzsche, Tradução, Prefácio e Notas de Pedro Süssekind, 1996, Livraria Sette Letras Ltda., São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

Teófilo Dias: Latet Anguis

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O som que tua voz límpida exala,
Grato feitiço mágico resume:
A frase mais vulgar, na tua fala,
Colorido, matiz, brilhando, assume.

Afaga como a luz; como um perfume
Pela alma filtra, e se insinua e cala,
E, só de ouvi-la, o espírito presume
Que um éter, feito de torpor, o embala.

Quando a paixão altera-lhe a frescura,
Quando o frio desdém lhe tolda o acorde
À viva polidez, vibrante e pura,

Não se lhe nota um frêmito discorde:
Apenas do primor com que fulgura,
Às vezes a ironia salta e morde.

(Fanfarras. São Paulo: Dolivaes Nunes, 1882, pp. 28-29.)

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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político, tradutor e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; suas obras: Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888); o poeta é considerado por nomes consagrados Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros , autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário, embora haja vozes discordantes; traduziu, com inovação criativa, Charles Baudelaire, Alfred de Musset, Edgar Quinet.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Cruz e Sousa: Supremo verbo & Cogitação


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Supremo verbo

Vai, Peregrino do caminho santo,
Faz da tu'alma lâmpada do cego,
Iluminando, pego sobre pego,
As invisíveis amplidões do Pranto.

Ei-lo, do Amor o cálix sacrossanto!
Bebe-o, feliz, nas tuas mãos o entrego...
És o filho leal, que eu não renego,
Que defendo nas dobras do meu manto.

Assim ao Poeta a Natureza fala!
Enquanto ele estremece ao escutá-la,
Transfigurado de emoção, sorrindo...

Sorrindo a céus que vão se* desvendando,
A mundos que vão se multiplicando,
A portas de ouro que vão se abrindo!

— o —

Cogitação

Ah! mas então tudo será baldado?!
Tudo desfeito e tudo consumido?!
No Ergástulo d'ergástulos perdido
Tanto desejo e sonho soluçado?!

Tudo se abismará desesperado,
Do desespero do Viver batido,
Na convulsão de um único Gemido
Nas entranhas da Terra concentrado?!

Nas espirais tremendas dos suspiros
A alma congelará nos grandes giros,
Rastejará e rugirá rolando?!

Ou entre estranhas sensações sombrias,
Melancolias e melancolias,
No eixo da alma de Hamlet irá girando?!


* Nota de Adriano da Gama Kury: Colocação de pronome átono de acordo com a entoação brasileira, em contraste com a dos versos seguintes.
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Cruz e Sousa — Últimos Sonetos, Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e Notas por Adriano da Gama Kury, 5ª edição revista, 2013, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Amadeu Amaral: A vida é uma caudal, em cujo fio . . . [soneto]

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[Sobre a eterna alternativa das saudades e das esperanças]

A vida é uma caudal, em cujo fio
Desliza a gente, mais do que navega.
Vamos olhando o céu claro ou sombrio,
Às margens a fugir, a onda que as rega.

Em mil aspectos a atenção se emprega.
Lá surge um verde bosque, um caule esguio.
Duplo abano de palmas se desprega
No azul dos ares e no azul do rio.

Vai passando... passou. Como, tristonho
Agora, o leque ao longe se balança!
O quadro visto já parece um sonho!

E é sempre, é sempre assim, em toda idade.
Surge em nosso caminho uma esperança?
Que linda! Olhai!... Passou. E' uma saudade.

[28 de Junho de 1921]

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.