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Este
recente crime da Rua da Lapa traz de novo à tona essa questão do adultério da
mulher e seu assassinato pelo marido.
Na nossa
hipócrita sociedade, parece estabelecido como direito, e mesmo dever do marido,
o perpretá-lo1.
Não se dá
isto nesta ou naquela camada, mas de alto a baixo.
Eu me
lembro ainda hoje que, numa tarde de vadiação, há muitos anos, fui parar com o
meu amigo, já falecido, Ari Toom, no necrotério, no Largo do Moura por aquela
época.
Uma rapariga
— nós sabíamos isso pelos jornais —, creio que espanhola, de nome Combra, havia
sido assassinada pelo amante e, suspeitava-se, ao mesmo tempo maquereau2 dela, numa casa da Rua de Sant’Ana.
O crime
teve a repercussão que os jornais lhe deram, e os arredores do necrotério
estavam povoados da população daquelas paragens e das adjacências do Beco da
Música e da Rua da Misericórdia, que o Rio de Janeiro bem conhece.
No interior
da morgue3, era a frequência algo diferente sem deixar de ser um
pouco semelhante à do exterior, e, talvez mesmo, em substância igual, mas muito
bem vestida. Isto enquanto às mulheres — bem entendido!
Ari ficou
mais tempo a contemplar os cadáveres. Eu saí logo. Lembro-me só do da mulher
que estava vestida com um corpete e tinha só a saia de baixo. Não garanto que
estivesse calçada com as chinelas, mas me parece hoje que estava. Pouco sangue
e um furo bem circular no lado esquerdo, com bordas escuras, na altura do
coração.
Escrevi —
cadáveres — pois o amante-cáften4 se havia suicidado após matar a
Combra — o que me havia esquecido de dizer.
Como ia
contando, vim para o lado de fora e pus-me a ouvir os comentários daquelas
pobres pierreuses5 de todas as cores
sobre o fato.
Não havia
uma que tivesse compaixão da sua colega da aristocrática classe. Todas elas
tinham objurgatórias6 terríveis, condenando-a, julgando o seu
assassínio coisa bem feita; e, se fosse homens, diziam, fariam o mesmo — tudo isso
entremeado de palavras do calão obsceno7 próprias para injuriar uma
mulher. Admirei-me e continuei a ouvir o que diziam com mais atenção. Sabem por
que eram assim tão severas com a morta?
Porque a
supunham casada com o matador, e ser adúltera.
Documentos
tão fortes como este não tenho sobre as outras camadas da sociedade; mas,
quando fui jurado e tive por colegas os médicos da nossa terra, funcionários e
doutos de mais de três contos e seiscentos mil réis de renda anual, como manda
a lei sejam os juízes de fato escolhidos, verifiquei que todos pensavam da
mesma forma que aquelas maltrapilhas rôdeuses8 do Largo do Moura.
Mesmo eu —
já contei alhures9 — servi num conselho de sentença que tinha de
julgar um uxoricida, e o absolvi. Fui fraco, pois a minha opinião, se não era
fazer-lhe comer alguns anos de cadeia, era manifestar que havia, e no meu caso
completamente incapaz de qualquer conquista, um homem que lhe desaprovava a
barbaridade do ato. Cedi a rogos e, até, alguns partidos dos meus colegas de
sala secreta.
No caso
atual, nesse caso da Rua da Lapa, vê-se bem como os defensores do criminoso
querem explorar essa estúpida opinião de nosso povo que desculpa o uxoricídio
quando há adultério, e parece até impor ao marido ultrajado (sic) o dever de
matar a sua ex-cara-metade.
Que um outro
qualquer advogado explorasse essa abusão bárbara da nossa gente, vá lá; mas que
o senhor Evaristo de Morais, cuja ilustração, cujo talento e cujo esforço na
vida me causam tanta admiração, endosse10, mesmo profissionalmente,
semelhante doutrina é que me entristece.
O liberal,
o socialista Evaristo, quase anarquista, está me parecendo uma dessas
engraçadas feministas do Brasil, gênero professora Daltro, que querem a
emancipação da mulher unicamente para exercer sinecuras11 do governo
e rendosos cargos políticos; mas que, quando se trata desse absurdo costume
nosso de perdoar os maridos assassinos de suas mulheres, por isto ou aquilo,
nada dizem e ficam na moita12.
A meu
ver, não há degradação maior para a mulher do que semelhante opinião quase
geral; nada a degrada mais do que isso, penso eu. Entretanto...
Às vezes
mesmo, o adultério é o que se vê, e o que não se vê são outros interesses e
despeitos13 que só uma análise mais sutil podia revelar nesses
lagos.
No crime
da Rua da Lapa, o criminoso, o marido, o interessado no caso, portanto, não
alegou quando depôs sozinho que a sua mulher fosse adúltera; entretanto, a
defesa, lemos nos jornais, está procurando “justificar” que ela o era.
O crime
em si não me interessa, se não no que toca à minha piedade por ambos; mas se
tivesse de escrever um romance, e não é o caso, explicaria, ainda me louvando14
nos jornais, a coisa de modo talvez satisfatório.
Não quero,
porém, escrever romances e estou disposto a não escrevê-los mais, se algum dia
escrevi um, de acordo com os cânones15 da nossa crítica; por isso
guardo as minhas observações e ilusões para o meu gasto e para o julgamento da
nossa atroz sociedade burguesa, cujo espírito, cujos imperativos da nossa ação
na vida animaram — o que parece absurdo, mas de que estou absolutamente certo —
o protagonista do lamentável drama da Rua da Lapa.
Afastei-me
do meu objetivo, que era mostrar a grosseria, a barbaridade desse nosso costume
de achar justo que o marido mate a mulher adúltera ou que a crê tal.
Toda a
campanha para mostrar a iniquidade16 de semelhante julgamento não
será perdida; e não deixo passar vaza17 que não diga algumas toscas
palavras, condenando-o.
Se a
coisa continuar assim, em breve, de lei costumeira18 passará a lei
escrita, e retrogradamos19 às usanças selvagens que queimavam e
enterrava vivas as adúlteras.
Convém,
entretanto, lembrar que nas velhas legislações havia casos de adultério legal. Creio
que Sólon e Licurgo os admitia; creio mesmo ambos. Não tenho aqui o meu
Plutarco. Seja, porém, como for, não digo que todos os adultérios são
perdoáveis. Pior do que o adultério é o assassinato; e nós queremos criar uma
espécie dele baseado na lei.
[revista]
A. B. C., 1920
Notas da
edição:
1. Perpetrá-lo:
praticá-lo
2. Maquereau (fr.): cafetão
3.
Morgue: necrotério
4.
Amante-cáften: amante e, ao mesmo tempo, explorador de mulheres
5. Pierreuses (fr.): prostitutas
de rua
6. Objurgatórias:
censuras
7. Calão
obsceno: xingamentos
8. Rôdeuses (fr.): prostitutas
9.
Alhures: em outro lugar
10.
Endosse: aprove
11. Sinecuras: emprego de favor, bem pago e sem obrigações
12. Ficam
na moita: ficam escondidas, ocultas
13.
Despeitos: ressentimentos, invejas
14.
Louvando: com base em
15.
Cânones: conjunto de regras
16.
Iniquidade: injustiça
17. Vaza:
oportunidade
18. Lei
costumeira: legislação baseada nos usos e costumes
19. Retrogradamos:
voltamos atrás
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Lima
Barreto: A crônica militante, Seleção, Notas e Edição sob os cuidados de
Claudia de Arruda Campos, Enide Yatsuda Frederico, Walnice Nogueira Galvão e
Zenir Campos Reis, Apresentação de Maria Salete Magnoni, Prefácio ‘Lima Barreto
militante’ de Zenir Campos Reis e Posfácio/Ensaio de Astrojildo Pereira, 1ª
edição, 2016, Expressão Popular, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto
(1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou
na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi
contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e
revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente
para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição
do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos,
chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro
do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de
Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que
sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919),
Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea
de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação
póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos
satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos
como assinaturas de suas crônicas nos periódicos — jornais e revistas — nos
quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa,
Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.
