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domingo, 12 de abril de 2020

Manuel Antônio de Almeida: Escuta!

Memórias de um Sargento de Milícias (Ateliê Editorial)
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Escrevo para ti pensando n’ela
(Dr. Ernesto)

Escuta, virgem: tens um riso de anjo,
Que infunde n’alma singular quebranto;
Belo qual sonho que na doce infância,
Nos roça a mente no dormir de rosas.

Escuta ainda:  teu olhar fagueiro,
Espelho ingênuo de tua alma pura,
Semelha o lago que tranquilo e manso,
Mostra no fundo as pérolas formosas!

Mas eu não quero que me infundas n’alma
Doce quebranto de teu riso d’anjo;
Mas eu não quero que me dês fagueiro,
Volver donoso de teus lindos olhos.

Que se me deras um teu doce riso,
Que se me deras um olhar dos teus,
Puderas cego, desvairado e louco,
Morrer do gozo de ventura tanta.

Também não quero aventurada rosa
Que entre teus dedos, amorosa, afagas,
Que descuidada, por teus lábios passas,
E que perfumas de teus doces beijos!

Quero somente que uma vez na vida,
Digas meu nome: que me dês já murcha
A triste flor que desbotada arrancas
De teus cabelos e que ao chão arrojas...

Quero somente que por meu sepulcro
Um dia passes; que meu nome leias...
Que, amou-me digas; isto só me basta
Por prêmio caro de um amor tamanho.

Rio 1851

Memórias de um Sargento de Milícias [Annotated] eBook: de Almeida ...

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: no Apêndice ‘Introdução Literária: Manuel Antônio de Almeida’ da obra abaixo, F. J. Bethencourt da Silva, amigo de infância do autor de Memórias de um sargento de Milícias, relata-nos sobre o poema Escuta!: “Em um livro íntimo que me recorda os dias da mocidade, espécie de sacrário que guardo religiosamente das vistas dos que não crêem na profundeza da adoração, nem no infinito  da bem-aventurança, ... escreveu ele este idílio suspiroso e apaixonado: Escuta! ...”
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Memórias de um sargento de Milícias — Manuel Antônio de Almeida, Apresentação, Introdução e Notas de Mamede Mustafá Jarouche e Apêndices ‘Perfis Literários: Manuel Antônio de Almeida’ de M. A. Major, e ‘Introdução Literária: Manuel Antônio de Almeida’ de F. J. Bethencourt da Silva, 2003, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Manuel Antônio de Almeida (1830 1861), carioca do Rio de Janeiro, formado em Medicina, sem nunca ter exercido a profissão, foi jornalista, escritor, funcionário público, professor e também eventualmente poeta; enquanto redator do jornal Correio Mercantil e responsável pelo suplemento A Pacotilha, ali publicou em capítulos a novela Memórias de um sargento de Milícias; foi professor do Liceu de Artes e Ofícios e diretor da Tipografia Nacional, ambas instituições da então capital do império; bibliografia: Memórias de um sargento de Milícias (novela, dois volumes, 1854 e 1855), Dois amores (peça de teatro, 1861), além de textos esparsos publicados em jornais da época; pertenceu ao Período Romântico da literatura brasileira e é patrono da Cadeira nº 28 da Academia Brasileira de Letras; o escritor e eventual poeta morreu em naufrágio na costa fluminense aos trinta anos de idade.