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domingo, 16 de abril de 2023

Fernando Santoro *: O Louro (e a Filosofia da Decomposição)

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Paródia paranóica do Corno, digo d'Corvo, de Edgar Allan Poe (ler com sotaque americano).

Numa madrugada brava, em que ao leito eu deleitava,
e eu fintava e eu driblava, respingado de suor,
pelo corpo ali desnudo, mui cheiroso e manteúdo,
quando entrei com bola e tudo corpo adentro de Lenor';
como o gol quando a torcida enlouquecida comemor'
              (era mais que brasa, mor'?)

Quando alcei minha bandeira do timão quando goleia
pelo amor comprometido desta cálida senhor'
ai, que gemia, gemia, como o leito que rangia,
demos de ouvir que batia, na porta do lado de for'
"Toc-toc" (uma fria) "Quem será, do lado de for'?"
              "Edgar a esta hor'?"

"Não: ele possui a chave." disse ela num tom grave.
"E viaja ao estrangeiro, não há de voltar agor'.
É somente algum vizinho. Volto já, bem rapidinho."
Desgarrou dos meus carinhos, se vestindo sem demor'.
esperei, pastor sereno, vendo seus pés ir embor'...
              minha ovelha vai: Lenor'!

Nos lençóis fiquei suado, em cios d'ócio cerrado
escutando longe "Senhor...", ela dizer, ou "senhor'
que chegai assim tão tarde, perdoai à minha parte
que não abra minhas grades, pois a noite me apavor'
eu a sós tenho arrepios, não consigo abrir a por'
              Voltai amanhã, outr' hor'."

Espiou na gelosia e expirou pelo que via
"É Ninguém!", olhou de novo, "Não tem viv'alma lá for'!"
Lá em frente levantada, ficou contemplando o nada
pela lua iluminada. Da sombra gritei: "Lenor',
vem, não foi ninguém, meu Bem, só uma brisa um pouco sonor'.
              vem meu docinho de amor' "

Ela vinha armando o bole, lânguida com passo mole
quando um ruído a sobressalta, por pouco não evapor':
ao voar um louro ao quarto, penetrado no entreato
pela janela do lado, feita a espiar lá for'.
que Lenora, sem cuidado, encostou-se e foi-se embor'.
              "Vê: um louro e só, Lenor'!"

Ela riu com guizo e gozo, se despiu e quis de novo,
"Viste? Não foi Edgar, Bem. Toda tua estou por hor'..."
Ao ouvir 'por ora' eu morro e vejo as garras de agouro
deste louro sobre o torso de Priapo de Lenor',
"Papagaio empoleirado, qual tua graça? És Lady ou Lor'?"
              e ele disse: "Qualquer hor'."

"Mas que louro boa praça, o fofo fala e com graça!
vem, bichinho, com a titia, dá a patinha prá Lenor'."
(Ai, mulher quando ama bicho, trata o homem como um lixo,
e o meu rouxinol no nicho foi largado sem demor'
pela arara devorada ao deus Priapo de Lenor'
              que falava "qualquer hor' ".)

"Teu amor, se é fingido, um passatempo sem marido,
fica aí com o papagaio, tchau, adeus eu vou embor'.
Nosso amor, se é confete, um caso curto, um curto flerte,
quando poderei rever-te? Diz um dia e diz a hor'."
Antes que ela respondesse, antes que ela desse um for',
              entra o louro: "Qualquer hor'."

Ao meu lado então Lenora voltou lépida: "Ora, ora,
mas que pássaro assanhado, chegou justo no melhor,
vai-te agora ave amestrada, vai seguir a tua estrada
mas, ao ir, ave estudada, repete a lição de cor 
Quando encontro meu amado, qual momento ardente mor?"
              e ave disse: "Qualquer hor'."

"Pára, espera! Ave da peste." Resolvi fazer um teste,
(pois bandeira ao ser guardada fica tímida, menor...
requisita lábios quentes, língua doce, dedos, dentes...
e a resposta renitente me excitava com Lenor')
Chamo o louro de meu louro, antes que ele vá-se embor'.
              "Venha cá, ô Qualqueror'!

"Se a mulher já tem traído tantas vezes seu marido
com amante destemido que com muito amor namor',
Considera a preferência, usa a tua sapiência,
doutor louro na indecência, quantas vezes a senhor'
deve vir sem resistência quando seu amante implor'?"
              disse o louro: "Qualquer hor'."

"Mas, meu louro", Ela retruca, já me armando uma arapuca,
"Se o amante é quem dá mole, se ele embroma na demor'
Se a batuta não se anima e o concerto desafina...
Quando eu, mulher grã-fina, que não sou de jogar for',
Posso procurar um outro de uma prontidão melhor?"
              Pronto o louro: "Qualquer hor'."

" Onde aprendeste, em que casta, este estribilho iconoclasta
Foi num consultório aberto, um lupanar de vulta flor",
sala de um doutor dentista, num poleiro de analista
foi ouvindo um jornalista de um programa de auditór'?
Não responda seu lorota! Puxe as asas vai-te embor'!"
               Nem deu bola e: "Qualquer hor'."

"Louro", disse-lhe, "peralta! e na calada ave pirata,
que nem foge ou sai de cima, louro parco, empada, for'!
Já não basta o teu marido que atrapalha o meu cozido,
Vem agora este sabido desandar a minha tor' 
Ah! Lenora, quando a dita rebelou-se como agor'?"
              Louro espalha: "Qualquer hor'."

"Louro", disse ela, "peralta! e na calada ave pirata!
Venha louro catalépto, vê se agora colabor'
Diga ao meu amor, meu rico, senão jogo-te o pinico
Diz ou eu te quebro o bico, te depeno e te devor'
quando encontro o meu marido, qual momento é bem pior?"
              respondeu-lhe: "Qualquer hor'..."

... É agora! Entrou com flores, Edgar saudou de amores:
"Lêê... Surpresa!" e, sem graça: "Surpresa..." responde Lenor'
e "Surpreso" então repito, como um gentleman aflito
muito avesso a tais conflitos. Mais um caso que evapor':
pensam juntos, de uma vez, e falam três a mesma hor':
              "nunca mais a qualquer hor'!"

E o louro estabanado bate as asas no Priapo
cujos cacos no assoalho se espalham além da por'.
Grito seu de ave acuada é mui sonsa (ai) gargalhada,
que se espalha em revoada mais que os cacos sob a por'
e se ouve redobrado como um eco que apavor'
              se os pisar a qualquer hor'...

Fernando  Santoro

* Fernando Santor’ (este aprendiz de blogueiro não resiste, escreve com 'sotaque americano' o nome do autor), tem extensa produção filosófica publicada em jornais, revistas especializadas e em livros.
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Poesia (e) Filosofia — por poetas filósofos em atuação no Brasil, Organização de Alberto Pucheu, 1998, Sette Letras, Rio de Janeiro — RJ; Fernando José de Santoro Moreira, do Rio de Janeiro, nascido em 1968, graduado em filosofia pela UFRJ  Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Literatura e Civilização Francesa em Nancy III, mestre e doutor em Filosofia (UFRJ) e pós-doutor pela Université Paris Sorbonne Paris IV, é professor, pesquisador, ensaísta, pensador, escritor e poeta; possui vínculo institucional com a UFRJ Filosofia, dirige o Laboratório OUSIA de Estudos em Filosofia Clássica e integra o GdRI Groupement de recherche internationaux 'Philosopher em Langue. Comparatiems e traduction', do CNRS  Centre national de la recherche scientifique; suas obras: Agravo (1991), Poesia e Verdade (1994), Imaculada (poesia, 1996), O Poema de Parmênides: Da Natureza, vol. I (2006), Arqueologia dos Prazeres (2007), Filósofos Épicos, vol I 'Xenófanes e Parmênides' (2011) e outros títulos.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Mallarmé: O túmulo de Edgar Poe

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[traduzido por Joaquim Brasil Fontes]

Como em Si mesmo enfim a eternidade o muda,
O Poeta suscita com um gládio nu
Seu tempo assombrado por não ter entendido
Que a morte triunfava nessa voz estranha!

Eles, tal vil tremor de hidra ouvindo outrora o anjo
Dar um sentido mais puro às palavras da tribo
Proclamaram muito alto o sortilégio bebido
Na onda sem honra de alguma negra mistura.

Da terra e da nuvem adversos, ó agravo!
Se nossa idéia com não esculpe em baixo-relevo
De que se orne deslumbrante a tumba de Poe,

Como bloco caído aqui de um desastre obscuro
Que este granito ao menos mostre sempre seu marco
Aos negros vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.

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Mallarmé

Le tombeau d'Edgar Poe

Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change,
Le Poète suscite avec un glaive nu
Son siècle épouvanté de n’avoir pas connu
Que la mort triomphait dans cette voix étrange!

Eux, comme un vil sursaut d’hydre oyant jadis l’ange
Donner un sens plus pur aux mots de la tribu
Proclamèrent très haut le sortilège bu
Dans le flot sans honneur de quelque noir mélange.

Du sol et de la nue hostiles, ô grief!
Si notre idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s’orne,

Calme bloc ici-bas chu d’un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux noirs vols du Blasphème épars dans le futur.
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Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé — Joaquim Brasil Fontes, Estudos Literários 24, Apresentação/Ensaio 'A Paixão da Ausência' de Pedro Meira Monteiro, 2007, Ateliê Editorial, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'um faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

domingo, 3 de novembro de 2019

José Paulo Paes: A Edgar Alllan Poe

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Fecha-se um homem no quarto
E esquece a janela aberta.
Pela janela entra um corvo.
O homem se desconcerta.

Desconcertado, invectiva-o
De anjo, demônio, adivinho.
Pede-lhe mágicas, mapas,
Soluções, chaves, caminhos.


Mas, ave de curto vôo,
O corvo sorri de pena.
Murmura vagas palavras.
Não absolve, não condena.

Cala-se o homem, frustrado,
(O egocentrismo desgosta)
E, a contragosto, percebe
Que o eco não é resposta.

Epigramas — 1958

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José Paulo Paes: Melhores Poemas — Ensaio e Seleção de Davi Arrigucci Jr., 2ª edição, 2000, Global Editora, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Meia Palavra (1973), Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa (ensaio, 1977), Resíduo (1980), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Alceu Wamosy: A revolta do corvo

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Negro, petrificado e frio como um mito
de Buda, a passear o olhar de lado a lado,
ele deixou-se ali ficar, sob o infinito
peso de sua tortura estranho torturado...

E lançando, talvez, à bruma do passado,
o seu profundo olhar, sereno, de proscrito,
atirou para o alto e negro céu calado,
a blasfêmia audaciosa e rubra do seu grito!

E o céu que não escuta e que é marmóreo e torvo,
riu, talvez, para si, da pequenez do corvo
e afivelou de novo a máscara de aço.

E o corvo, alçando o vôo, embriagado e tonto,
subiu... cortou a névoa... a bruma... e como um ponto
negro, sumiu-se além, na escuridão do espaço...

Flâmulas 1913

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Livro dos Poemas — uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Alceu de Freitas Wamosy (1895  1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete  RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se Poesias Completas (1925, Editora Globo) e Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Nietzsche: vocação de poeta

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[traduzido por Rubens Rodrigues Torres Filho]

Ainda outro dia, na sonolência
De escuras árvores, eu sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho...
Fiquei zangado, fechei a cara 

Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar.

E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
 "Sim, meu senhor, sois um poeta",
E dá de ombros o pica-pau.

Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
 "Sim, meu senhor, sois um poeta",
E dá de ombros o pica-pau.

Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos,
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, que ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
 "Sim, meu senhor, sois um poeta",
E dá de ombros o pica-pau.

Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Cai na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjeta
Que isto ainda 
— alegra? O poeta — é mau?
 "Sim, meu senhor, sois um poeta",
E dá de ombros o pica-pau.

Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça,
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça! 

Mas trança rimas, sempre  o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
 "Sim, meu senhor, sois um poeta",
E dá de ombros o pica-pau. 

(Nietzsche, em Os Pensadores  Volume XXXII,
1974  Abril Cultural, São Paulo — SP)

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Nietzsche

Dichters Berufung

Als ich jüngst, mich zu erquicken,
Unter dunklen Bäumen saß,
Hört ich ticken, leise ticken,
Zierlich, wie nach Takt und Maß.
Böse wurd' ich, zog Gesichter, 
Endlich aber gab ich nach,
Bis ich gar, gleich einem Dichter,
Selber mit im Tiktak sprach.

Wie mir so im Versemachen
Silb' um Silb' ihr Hopsa sprang,
Musst' ich plötzlich lachen, lachen
Eine Viertelstunde lang.
Du ein Dichter? Du ein Dichter?
Steht's mit deinem Kopf so schlecht?
 "Ja, mein Herr, Sie sind ein Dichter"
Achselzuckt der Vogel Specht.

Wessen harr' ich hier im Busche?
Wem doch laur' ich Räuber auf?
Ist's ein Spruch? Ein Bild? Im Husche
Sitzt mein Reim ihm hintendrauf.
Was nur schlüpft und hüpft, gleich sticht der
Dichter sich's zum Vers zurecht.
 "Ja, mein Herr, Sie sind ein Dichter"
Achselzuckt der Vogel Specht.

Reime, mein' ich, sind wie Pfeile.
Wie das zappelt, zittert, springt,
Wenn der Pfeil in edle Teile
Des Lacertenleibchens dringt!
Ach, ihr sterbt dran, arme Wichter,
Oder taumelt wie bezecht!
 "Ja, mein Herr, Sie sind ein Dichter"
Achselzuckt der Vogel Specht.

Schiefe Sprüchlein voller Eile,
Trunkne Wörtlein, wie sich's drängt!
Bis ihr Alle, Zeil' an Zeile,
An der Tiktakkette hängt.
Und es gibt grausam Gelichter,
Das dies  freut? Sind Dichter  schlecht?
 "Ja, mein Herr, Sie sind ein Dichter"
Achselzuckt der Vogel Specht.

Höhnst du, Vogel? Willst du scherzen?
Steht's mit meinem Kopf schon schlimm,
Schlimmer stünd's mit meinem Herzen?
Fürchte, fürchte meinen Grimm! 
Doch der Dichter  Reime flicht er
Selbst im Grimm noch schlecht und recht.
 "Ja, mein Herr, Sie sind ein Dichter"
Achselzuckt der Vogel Specht.
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Novolume — Rubens Rodrigues Torres Filho (5 livros de poesias, poemas novos, inéditos, avulsos e traduções), Apresentação de Fernando Paixão, 1997, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Friedrich Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (1881), A Gaia Ciência (1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo Praga contra o Cristianismo (1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

domingo, 18 de setembro de 2016

Frederico Barbosa: O que é poesia? — Entrevista

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          Pergunta: O que é poesia para você?
          Frederico Barbosa: Durante muitos anos recusei-me a responder a essa pergunta. Considerava precipitado ou enganador quem a tentava responder. E muitas tentativas de definição da poesia são mesmo superficialidades subjetivas demais para meu gosto: palavras vagas que formam quase sempre a mesma ladainha difusa e mistificadora.
          Mas, paradoxalmente, se me recusava a definir a poesia, adorava e adotava a definição de Roman Jakobson, de que a função poética da linguagem é a projeção  do "princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação", ou seja, na criação literária a composição se sobrepõe, como princípio construtivo, à mera escolha das palavras guiada apenas pela semântica. Jakobson acrescenta ainda que a função poética é caracterizada por três aspectos básicos: imagens, sonoridade e ritmo. A partir destes conceitos do mestre linguista, eu inventei uma oficina de poesia que ministrei em vários cantos do país. Foi na troca instigante com os participantes destas oficinas que cheguei, sem abandonar os conceitos fundamentais de Jakobson, à minha definição de poesia que, embora pareça simples, norteia hoje meu pensamento sobre ela:
           Poesia é a palavra/impacto, é uma composição construtiva de efeitos. É a linguagem organizada da forma mais meticulosa possível para fazer sentir.
          Decorrente desta definição, podemos deduzir que:
          Fazer um poema é escrever usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível no leitor.
           Compor um poema é controlar nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor.
          A poesia dissolve as fronteiras entre som e sentido, forma e conteúdo.
           O verdadeiro poeta, de Homero a Augusto de Campos, sempre será o mais consciente artífice da linguagem.
           No poema sempre se usarão os recursos econômicos e sutis para atingir os resultados mais impactantes.
           Na poesia menos é sempre mais.
           O maior efeito que um poeta pode produzir não é dizer ao leitor o que ele (poeta) sente, mas é fazer o leitor sentir o mesmo ao ler o poema.
          No meu entender é isso o que define o poeta. O resto pode ser filosofia, religião, psicologia, sociologia, mistificação... qualquer coisa, menos poesia.
          
          P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
          FB: Precisa se despir de todas as ideias preconcebidas, românticas e preconceituosas que rondam o fazer poético. Como os conceitos de dom, talento e inspiração. Como a ideia de que o poeta é mais sensível ou que escrever poesia é sentir ou vivenciar emoções... Deve desconfiar de todas as mistificações da poesia e do papel do poeta.

          Deve saber que escrever poesia é um trabalho meticuloso e preciso e que, muitas vezes, não recebe o reconhecimento que merece, até porque está envolto em tanta mistificação... Se os próprios poetas consideram seu trabalho uma "inspiração divina", um "dom artístico"... quem irá respeitar o trabalho do poeta?
          O iniciante deve tentar lutar contra a sedução da facilidade e buscar sempre os caminhos mais difíceis.
          O iniciante deve correr da troca de elogios fáceis do compadrio, típico da vida literária brasileira.
          O iniciante não deve querer ser poeta, deve querer fazer bons poemas.
          
          P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas? 
          FB: Seguindo a minha definição acima, minha escolha recai sobre três poetas que escrevem usando todos os recursos imagináveis para causar o maior impacto possível e que controlam nos mínimos detalhes os efeitos que o texto vai provocar no leitor. São, portanto, três dos mais conscientes artífices da nossa língua: Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos.

          Três textos teóricos fundamentais para a elaboração da teoria da poesia como palavra/impacto são:
          "A filosofia da composição", de Edgar Allan Poe, que expõe em detalhes o processo de criação racional e meticuloso do poema "O Corvo". Até hoje choca os defensores da inspiração mistificadora.
          ABC da literatura, de Ezra Pound, que apresenta o conceito de grande literatura como "linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível".
          Linguística e comunicação, de Roman Jakobson, que apresenta a teoria da função poética da linguagem, que precisa ser levada em conta em toda e qualquer discussão sobre a definição de poesia.

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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), 2009, Confraria do Vento e Editora Calibán, Rio de Janeiro — RJ; no livro, Frederico Barbosa e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Frederico Tavares Bastos Barbosa, nascido em 1961, pernambucano de Recife, formado pela USP Universidade de São Paulo em Física, Grego, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, é poeta e crítico literário; escreveu e publicou Rarefato (1990), Nada feito nada (recebeu o Prêmio Jabuti, 1993), Contracorrente (2000), Louco no oco sem beiras (2001), Cantar de amor entre os escombros (2002), A construção do zero (2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (recebeu, pela segunda vez, o Prêmio Jabuti, 2004), além de outros títulos em verso e prosa; tem poemas traduzidos e publicados em diversas coletâneas de Portugal, Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia; participante de organismos ligados à literatura, hoje é supervisor de Ações Culturais da Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo SP; participou de antologias, com seus textos, e organizou antologias poéticas de outros autores.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Edgar Allan Poe: O Corvo [trad. de Gondin da Fonseca]

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[traduzido por Gondin da Fonseca]

Certa vez, quando, à meia-noite eu lia, débil, extenuado,
um livro antigo e singular, sobre doutrinas do passado,
meio dormindo,  cabeceando, ouvi uns sons, trêmulos, tais
como se leve, bem de leve, alguém batesse à minha porta.
“É um visitante", murmurei, "que bate, leve, à minha porta.
               Apenas isso, e nada mais."

Bem me recordo! Era em dezembro. Um frio atroz, ventos cortantes...
Morria a chama no fogão, pondo no chão sombras errantes.
Eu nos meus livros procurava,  ansiando as horas matinais, 
um meio (em vão!) de amortecer fundas saudades de Lenora,
 virgem radiante, a quem, no céu, os querubins chamam Lenora,
               e aqui, ninguém chamará mais.

E das cortinas cor de sangue, um arfar soturno, e brando, e vago,
causou-me horror nunca sentido,  horror fantástico e presago.
Então, fiquei (para acalmar o coração de sustos tais)
a repetir "É alguém que bate, alguém que bate à minha porta;
Algum noturno visitante, aqui batendo à minha porta;
               é isso! é isso e nada mais!"

Fortalecido já no fim, brado, perdendo a hesitação:
"Senhor! senhora! quem sejais! Se demorei peço perdão!
Eu dormitava, fatigado, e tão baixinho me chamais,
bateis tão manso, mansamente, assim de noite à minha porta;
que não é fácil escutar”. Porém só vejo, abrindo a porta,
               a escuridão, e nada mais.

Perquiro a treva longamente, estarrecido, amedrontado,
sonhando sonhos que, talvez, nenhum mortal haja sonhado.
Silêncio fúnebre! Ninguém! De visitante nem sinais.
Uma palavra, apenas, corta a noite plácida:  "Lenora!".
Digo-a em segredo, e num murmúrio, o eco repete-me  "Lenora!"
               Isto, somente  e nada mais.

Para o meu quarto eu volto enfim,  sentindo n'alma estranho ardor,
e novamente ouço bater, ouço bater com mais vigor.
"Vem da janela", presumi, "estes rumores anormais.
Mas eu depressa vou saber donde procede tal mistério.
Fica tranqüilo, coração! Perscruta, calmo, este mistério.
               É o vento, o vento e nada mais!"

Eis, de repente, abro a janela, e esvoaça então, vindo de fora,
um Corvo grande, ave ancestral, dos tempos bíblicos,  d'outrora!
Sem cortesias, sem parar, batendo as asas noturnais,
ele, com ar de grão-senhor, foi, sobre a porta do meu quarto,
pousar num busto de Minerva,  e sobre a porta do meu quarto
               quedou, sombrio, e nada mais.

Eu estava triste, mas sorri, vendo o meu hóspede noturno
tão gravemente repousado, hirto, solene e taciturno.
"Sem crista, embora"  ponderei , "embora ancião dos teus iguais,
não és medroso, ó Corvo hediondo, ó filho errante de Plutão!
Que nobre nome é acaso o teu, no escuro império de Plutão?"
               E o Corvo disse: "Nunca mais!"

Fiquei surpreso  pois que nunca imaginei fosse possível
ouvir de um Corvo tal resposta, embora incerta, incompreensível.
E creio bem, em tempo algum, em noite alguma, entes mortais
viram um pássaro adejar, voando por cima de uma porta,
e declarar (do alto de um busto, erguido acima de uma porta)
               que se chamava "Nunca mais".

Porém o Corvo, solitário, essas palavras só murmura,
como que nelas refletindo uma alma cheia de amargura.
E fica imóvel, silencioso, inerte sobre os meus umbrais,
Até que exclamo em flébil voz: "Outros amigos me fugiram...
Tu fugirás pela manhã, como os meus sonhos me fugiram!"
               Responde o Corvo: "Nunca mais!"

Pasmo, ao varar o atroz silêncio uma resposta assim tão justa,
e digo: "Certo, ele só sabe essa expressão com que me assusta.
Ouviu-a, acaso, de algum dono, a quem desgraças infernais
hajam seguido, e perseguido, até cair nesse estribilho,
até chorar as ilusões com esse lúgubre estribilho
               de  "nunca mais! oh! nunca mais! ".

De novo, foram-se mudando as minhas mágoas num sorriso...
Então, rodei uma poltrona, olhei o Corvo, de improviso,
e me afundei aí a cismar, fazendo cálculos mentais
sobre a intenção que essa longeva, essa medonha ave agoureira,
 rude, sinistra, repulsiva e macilenta ave agoureira, 
               tinha, grasnando "nunca mais".

Mil coisas vagas pressupus... Não lhe falava, mas sentia
que me abraçava o coração o duro olhar da ave sombria.
... E assim fiquei, num devaneio, em deduções conjeturais,
minha cabeça reclinando  à luz da lâmpada fulgente,
nessa almofada de veludo, em que ela, agora,  à luz fulgente -,
               não mais descansa  ah! nunca mais!

Subitamente o ar se adensou, qual se em meu quarto solitário
anjos pousassem, balançando um invisível incensário.
"Ente infeliz"  eu exclamei.  "Deus apiedou-se dos teus ais!
Calma-te! calma-te e domina essas saudades de Lenora!
Bebe o nepente benfazejo! Olvida a imagem de Lenora!”
               E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Profeta!"  brado. "Anjo do mal! Ave ou demônio irreverente
que a tempestade, ou Satanás, aqui lançou, tragicamente,
e que te vês, soberbo e só, nestes desertos penetrais,
nesta mansão de eterno horror! Fala! responde ao certo! Fala!
Existe bálsamo em Galaad? Existe? Fala, ó Corvo! Fala!"
               E o Corvo disse: "nunca mais!"

"Profeta!"  brado. "Anjo do mal, Ave ou demônio irreverente,
dize, por Deus que está nos céus! dize! eu to peço ardentemente!
dize a esta pobre alma sem luz, se lá nos páramos astrais
há de abraçar, um dia, ainda, a bela e cândida Lenora,
virgem radiante, a quem, no céu, os querubins chamam Lenora!"
               E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Seja essa frase o nosso adeus"  grito, de pé, com aflição.
"Vai-te! Regressa à tempestade, à noite escura de Plutão!
Não deixes pluma que recorde essas palavras funerais!
Mentiste! Sai! Deixa-me só! Sai desse busto junto à porta!
Tira o teu bico do meu peito, e o vulto teu da minha porta!"
               E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E não saiu! e não saiu! Ainda agora se conserva
pousado, trágico e fatal, no busto branco de Minerva.
Negro demônio sonhador, seus olhos são como punhais!
Por cima, a luz, jorrando, espalha a sombra dele, que flutua...
E a alma infeliz, que me tombou dentro da sombra que flutua,
               não há de erguer-se,  nunca mais!


Poe

The Raven

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary, 
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore 
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“Tis some visitor", I muttered, "tapping at my chamber door 
                Only this, and nothing more".

Ah! distinctly I remember it was in the bleak December
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; 
 vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow  sorrow for the lost Lenore 
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore 
                Nameless here for evermore.

And the silken, sad, uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me 
 filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
“Tis some visitor entreating entrance at my chamber door 
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;
                This it is, and nothing more".

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you" 
 here I opened wide the door; 
                Darkness there and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore?"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!” 
                Merely this and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely", Said I,
"surely that is something at my window lattice;
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore 
Let my heart be still a moment and this mystery explore; 
               “Tis the wind, and nothing more".

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately Raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door 

Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door 
                Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly, grim, and ancient Raven, wandering from the Nightly shore 

Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
                Quoth the Raven: "Nevermore!".

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning 
 little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
                With such name as "Nevermore".

But the Raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered;
 not a feather then he fluttered 
Till I scarcely more than muttered, "Other friends have flown before 
On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before."
Then the bird said: "Nevermore".

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master, whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore 

Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore,
                Of “Never 
 nevermore".

But the Raven, still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore 

What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
                Meant in croaking "Nevermore".

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet-violet lining with the lamp-light gloating o'er,
                She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch!" I cried, "thy God hath lent thee 
 by these angels he hath sent thee
Respite  respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!"
                Quoth the Raven: "Nevermore!"

"Prophet!" said I, "thing of evil! 
 prophet still, if bird or devil!  ...
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate, yet all undaunted, on this desert land enchanted

On this home by horror haunted  tell me truly, I implore 
Is there  is there balm in Gilead?  tell me  tell me, I implore!"
                Quoth the Raven: "Nevermore!"

"Prophet!" said I, "thing of evil! 
 prophet still, if bird or devil!
By that heaven that bends above us  by that God we both adore,
Tell this soul, with sorrow laden, if within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden, whom the angels name Lenore. 

Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
                Quoth the Raven, "Nevermore!"

"Be that word our sign in parting, bird or fiend!" I shrieked, upstarting 

"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! 
 Quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
                Quoth the Raven, "Nevermore!"

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas, just above my chamber-door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming, throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor,
                Shall be lifted 
 nevermore!
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O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte — edição bilíngüe (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, destacou-se em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas), envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado das revistas Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e Graham’s, além de ter contribuído em outros periódicos; Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado outros escritores  Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Jorge Luis Borges, Chesterton e outros; sua obra: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842),The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril de Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.