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Louras abelhas que Platão amava,
que lhe pousáveis na divina boca,
onde o prestígio da Palavra os séculos
inda seduz eterno;
abelhas d’ouro, esbeltas e operosas,
em cujo império de opulência e de ordem
acaso o gérmen da ideal República
seu gênio descobrira;
vós, que talvez, com o lépido zumbido,
imitais a harmonia das esferas,
e menos caras ao supremo Espírito
não sois do que as estrelas;
vós, que o desejo insaciável tendes
da luz, da cor, do aroma e da beleza,
e a vida breve consumis, miríades
de flores afagando;
vós, que trazeis no imponderável corpo
o diáfano pólen resplendente
do Sol, que vos fascina e atrai, qual rútila,
ígnea Flor do Infinito;
em torno a mim voai, leves coreias
formando; dai-me ao pensamento e ao verso
o ritmo encantador, suave límpido,
da vossa aérea dança;
dai-me o gosto sutil da formosura,
e a nunca extinta febre do trabalho,
que tão úteis a um tempo e tão poéticas
— rara aliança! — vos tornam.
Em meus lábios pousai (julgueis embora
ser inaudita presunção a minha
de pedir simplesmente os mesmos ósculos
que a Platão prodigastes),
em meus lábios pousai, para que claro
meu verbo tenha graça e melodia,
e à das imagens e paixões a música
das estrofes se case;
em meus lábios pousai, de mel ungi-os,
para que a Amada, quando os beije, neles
sentir não possa das bebidas lágrimas
a insistente amargura;
mas doces os meus lábios lhe pareçam,
doces do vosso cálido contato,
ainda que (perdoai-me, abelhas fúlgidas!)
não tanto como os dela...
(Odes e Elegias — 1904,
Roma: F. Centenari, pp. 11-14.)
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Magalhães de Azeredo — Série
Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal,
2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872
— 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto — Portugal, complementados
no Colégio São Luís, em Itu — SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São
Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor
e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado
de São Paulo, entre outros veículos informativos; obras: Alma Primitiva (contos,
1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias
(contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903),
Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921),
Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936)
etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano,
em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.




