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sábado, 22 de junho de 2019

Federico García Lorca: A Monja Cigana

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[traduzido por Floriano Martins]

Silêncio de cal e mirto.
Malvas nas pastagens finas.
A monja borda alelis
sobre uma tela de palhinha.
Voam na aranha cinza,
sete pássaros do prisma.
A igreja grunhe à distância
como um osso pança acima.
Como borda bem! E com que graça!
Sobre a tela de palhinha,
ela quisera bordar
flores de sua fantasia.
Que girassol! Que magnólia
de lantejoulas e fitas!
Que açafrões e que luas,
no mantel da missa!
Cinco toronjas se adoçam
na cozinha ali próxima.
As cinco chagas de Cristo
cortadas em Almería.
Pelos olhos da monja
galopam dois cavalariços.
Um rumor último e surdo
lhe desgruda a camisa,
e ao ver nuvens e montanhas
nas ásteras distâncias,
parte-se seu coração
de açúcar e erva-heloísa.
Oh que planície empinada com
vinte sóis acima!
Que rios postos de pé
vislumbra sua fantasia!
Porém segue com suas flores,
enquanto que de pé, na brisa,
a luz joga o xadrez
alto da gelosia.

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Federico García Lorca

La Monja Gitana

Silencio de cal y mirto.
Malvas en las hierbas finas.
La monja borda alhelíes
sobre una tela pajiza.
Vuelan en la araña gris,
siete pájaros del prisma.
La iglesia gruñe a lo lejos
como un oso panza arriba.
¡Qué bien borda! ¡Con qué gracia!
Sobre la tela pajiza,
ella quisiera bordar
flores de su fantasía.
¡Qué girasol! ¡Qué magnolia
de lentejuelas y cintas!
¡Qué azafranes y qué lunas,
en el mantel de la misa!
Cinco toronjas se endulzan
en la cercana cocina.
Las cinco llagas de Cristo
cortadas en Almería.
Por los ojos de la monja
galopan dos caballistas.
Un rumor último y sordo
le despega la camisa,
y al mirar nubes y montes
en las yertas lejanías,
¡Oh!, qué llanura empinada
con veinte soles arriba.
¡Qué ríos puestos de pie
vislumbra su fantasía!
Pero sigue con sus flores,
mientras que de pie, en la brisa,
la luz juega el ajedrez
alto de la celosía.
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Poemas de Amor — García Lorca, Organização de Luiz Raul Machado e Tradução de Floriano Martins, edição bilíngue, 1999, 2ª edição, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898  1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Federico García Lorca: Ai Voz Secreta do Amor Obscuro! . . . [soneto]

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[traduzido por Floriano Martins]

Ai Voz Secreta do Amor Obscuro!
Ai balido sem lãs! Ai ferida!
Ai agulha de gelo, camélia destruída!
Ai correntes sem mar, cidade sem muro!

Ai noite imensa de perfil seguro,
montanha celestial de angústia erguida!
Ai cão em coração, voz perseguida,
silêncio sem limites, lírio maduro!

Foge de mim, quente voz de gelo,
não me queiras perder na maleza
onde sem fruto gemem carne e céu.

Deixa o duro marfim de minha cabeça,
apieda-te de mim, rompe minha dor!,
que sou amor, que sou natureza!

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Federico García Lorca

¡Ay Voz Secreta del Amor Oscuro!

¡Ay voz secreta del amor oscuro!
¡ay balido sin lanas! ¡ay herida!
¡ay aguja de hiel, camelia hundida!
¡ay corriente sin mar, ciudad sin muro!

¡Ay noche inmensa de perfil seguro,
montaña celestial de angustia erguida!
¡ay perro en corazón, voz perseguida,
silencio sin confín, lirio maduro!

Huye de mí, caliente voz de hielo,
no me quieras perder en la maleza
donde sin fruto gimen carne y cielo.

Deja el duro marfil de mi cabeza,
apiádate de mí, ¡rompe mi duelo!,
¡que soy amor, que soy naturaleza!
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Poemas de Amor — García Lorca, Organização de Luiz Raul Machado e Tradução de Floriano Martins, edição bilíngue, 1999, 2ª edição, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898 —  1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia,  foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens  (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927),  Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927  (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.