____________________
Com mote de Janice
Japiassu
Aqui morava um Rei quando eu
menino:
vestia ouro e Castanho no
gibão.
Pedra da Sorte sobre meu
Destino,
pulsava, junto ao meu, seu Coração.
Para mim, seu Cantar era divino,
quando ao som da Viola e do
bordão,
cantava com voz rouca o
Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes
do Sertão.
Mas mataram meu Pai. Desde
esse dia,
eu me vi, como um Cego, sem
meu Guia,
que se foi para o Sol,
transfigurado.
Sua Efígie me queima. Eu sou a
Presa,
Ele, a Brasa que impele ao
Fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto
ensanguentado.
(Poemas. Seleção, organização
e notas de Carlos
Newton Júnior. Recife: Editora da Universidade
Federal de
Pernambuco, 1999, p. 190.)
____________________
Ariano Suassuna — Série Essencial
93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos
Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna
(1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá
— PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio
Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito;
na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio;
ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia
com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião
e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas
o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral;
em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética
na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em
1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste;
iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das
formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão
e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da
Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947),
Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950),
Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960)
e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance
d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode
(1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos
com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética
(1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira
(tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano
Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.